André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

“O Artista”, ou quando o silêncio brigou com o som

 “O Artista”, filme do francês Michael Hanavicius e favorito ao Oscar, estréia hoje no Brasil (leia minha crítica na Folha aqui).

Gostei bastante do filme. Especialmente porque trata de um dos períodos mais interessantes do cinema, a transição entre o filme mudo e o sonoro, ocorrida no fim dos anos 20.

O cinema sonoro foi uma verdadeira revolução. Salvou Hollywood da falência, mas afundou a carreira de vários artistas de talento.

Muita gente não conseguiu se adaptar ao som. Astros como Douglas Fairbanks, Lilian Gish e Mary Pickford abandonaram o cinema. Outros foram boicotados por causa de seus fortes sotaques estrangeiros, como a polonesa Pola Negri e o alemão Emil Jannings.

Charles Chaplin também penou. Ficou cinco anos sem filmar depois de “Luzes da Cidade” (1931). Ele até pensou em fazer “Tempos Modernos” (1936) como um filme totalmente sonoro, mas desistiu. Chaplin achava que o charme de Carlitos acabaria se ele falasse, e nunca mais usou o personagem em um filme.

O caso de John Gilbert, inspiração do personagem central de “O Artista”, é marcante. Grande astro do cinema mudo, Gilbert teve um romance conturbado com Greta Garbo.

Diz a lenda hollywoodiana que Gilbert brigou com o poderoso produtor Louis B. Mayer. No primeiro filme sonoro de Gilbert, Mayer mandou o técnico de som “afinar” a voz do ator, causando gargalhadas e deboche da platéia. Gilbert entrou em decadência e bebeu até morrer, em 1936, aos 38 anos.

De qualquer forma, não dá para negar que o cinema sonoro salvou Hollywood. Mesmo em meio ao Crash da Bolsa em 1929 e à Grande Depressão, o número de ingressos vendidos no país e o lucro dos estúdios aumentaram muito depois da introdução do som.

Outra conseqüência da fase sonora foi, paradoxalmente, um retrocesso técnico e estilístico do cinema.

No fim dos anos 20, os grandes diretores haviam lapidado suas técnicas de filmagem. Os movimentos de câmera estavam cada vez mais criativos; a montagem, cada vez mais ousada.

Quando o som chegou ao cinema, houve uma mudança brusca. As câmeras tiveram de ser “blindadas” em gigantescas caixas à prova de som, para que o barulho da câmera não fosse captado pelos microfones. Isso limitou demais os movimentos de câmera.

A necessidade de colocação de grandes microfones, ocultos no cenário, também ajudou a “engessar” as cenas.

Por isso, os primeiros filmes sonoros são, em sua maioria, primariamente filmados, em comparação com os grandes filmes mudos.

King Vidor (1894-1982), um dos maiores cineastas americanos, deu um depoimento esclarecedor sobre o assunto:

“Acredito no progresso, e é difícil dizer que o cinema era melhor na fase muda. Mas posso lembrar que, nos fim dos anos 20, eu e outros diretores, como Clarence Brown e Henry King, acreditávamos ter atingido uma forma artística que era única (...) as técnicas do cinema mudo eram universais. Chaplin, afinal de contas, era o homem mais famoso do mundo. Levamos dez ou quinze anos para voltar ao estágio em que estávamos no auge do cinema mudo, com a mobilidade e expressionismo que a câmera silenciosa havia atingido.”

Escrito por André Barcinski às 08h54

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Nove semanas e meia de fogo e paixão

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma semana péssima para o amor: morreram Zalman King e Wando, dois artistas da velha escola do fogo e da paixão.

Pensei em escrever um texto biográfico sobre Wando, mas o UOL nos fez o favor de disponibilizar a entrevista que o cantor deu ao Garagem, em 1999 (ouça aqui). Não tem jeito melhor de homenagear Wando do que ouvi-lo falar e cantar.

Sobre Zalman King, que morreu dia 3, de câncer, só posso dizer que, embora sua morte tenha merecido poucas linhas na imprensa, que sempre o espinafrou, qualquer um que foi adolescente nos anos 80 deve muito a ele.

Aqui, trechos de um pequeno tributo a King, que publiquei na Folha:

Em 1986, King escreveu e produziu “Nove Semanas e Meia de Amor”, um drama erótico dirigido por Adrian Lyne e que marcou, junto com “Wall Street”, de Oliver Stone, o ápice do cinema “yuppie” da era Reagan.

A história envolvia um investidor de Wall Street (Mickey Rourke) e uma funcionária de uma galeria de arte (Kim Basinger), que começam um romance tórrido, quase todo passado num apartamento luxuoso.

Usando uma estética de comercial de TV, então rara, King e Lyne fizeram um longo videoclipe erótico, que se tornou uma grande influência estética. Não foram poucos os clipes musicais da época que copiaram seu visual “néon-chique”.

“Nove Semanas e Meia de Amor” não foi um grande sucesso em cinemas, mas – surpresa – arrebentou quando lançado em VHS. O filme capturou a libido de casais mundo afora. Quem não sonhou em passar um cubo de gelo no umbigo de Kim Basinger?

Zalman King começou a carreira como ator em séries de TV (“As Panteras”, “Gunsmoke”) e atuou em filmes B, como o cultuado “Blue Sunshine” (1978), sobre um tipo de LSD que provocava calvície e instintos homicidas - não necessariamente nessa ordem.

Mas foi no pornô “soft” que ele deixou sua marca. Em 1988, dirigiu “Um Toque de Sedução”, em que a espetacular Sherilyn Fenn (“Twin Peaks”) fugia da monotonia do noivado com um almofadinha e caía nos braços de um brutamontes sexy, funcionário de um parque de diversões.

Em 1990, King veio ao Brasil rodar “Orquídea Selvagem”, filme que causou comoção mundo afora por uma suposta cena de sexo real entre Mickey Rourke e Carré Otis. Por aqui, o filme será lembrado pela cena de um túnel que começa no Rio e termina, se me lembro bem, na Bahia.

Nos anos 90, King fez sucesso com “Diário Íntimo”, um drama erótico feito para a TV e estrelado por David Duchovny, de “Arquivo X”. King depois adaptou o filme em uma série, que durou até 1997.

Até em sua despedida, Zalman King apelou ao erotismo: foi-se, aos 69.

Escrito por André Barcinski às 09h17

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No caos com Rogéria

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Estava ontem num estúdio em Pinheiros, gravando um programa de TV apresentado pela mitológica Rogéria.

Tudo ia bem até o meio da tarde, quando um estrondo interrompeu a gravação. Parecia que o telhado estava desabando.

Fui à rua ver o que estava acontecendo. Pedaços de gelo do tamanho de bolas de gude caíam, amassando carros e quicando na calçada. Já vi granizo em São Paulo antes, mas nunca com aquela intensidade.

Em poucos minutos, a rua toda ficou coberta por uma camada de 20 cm de gelo. O gelo entupiu as calhas do prédio e a água começou a invadir o estúdio.

Enquanto o mundo caía lá fora e a equipe tentava impedir a inundação, Rogéria, completamente alheia ao caos, contava a uma assistente casos de sua primeira viagem ao Irã, nos anos 70.

Interrompemos a gravação. O carro que deveria buscar Rogéria e sua “entourage” – o “stylist” Ronald e o assistente Lucas – estava parado num engarrafamento monstruoso e não conseguiu chegar a Pinheiros. Tentamos vários pontos de táxi na região, sem sucesso.

A única solução para levá-los ao hotel, na Paulista (Rogéria mora no Rio), era o metrô. Rogéria, num bom humor tremendo, achou a idéia ótima: “Faz anos que não ando de metrô em São Paulo, vai ser uma aventura."

E foi mesmo. Primeiro, andar pelo Largo da Batata com Rogéria, de salto, lenço na cabeça e um óculos escuros Prada, sendo cumprimentada e chamada de “linda” e “gostosa” por várias pessoas. “Eu amo São Paulo, aqui eles sabem reconhecer os artistas."

No metrô Faria Lima, outro caos: a fila chegava quase à rua.

Sugeri procurar um restaurante para esperar o pandemônio passar. O bairro todo estava sem luz e os faróis de trânsito, apagados. Pinheiros era uma visão do inferno. Rogéria não se abalou: “Vamos andar a pé, assim eu conheço um pouco do bairro!”

Andamos uns oito quarteirões e paramos numa cantina. O lugar estava sem luz, mas o mâitre foi gentil e nos atendeu. Rogéria aprovou a comida: “Nem em Roma comi uma massa como a sua, dê os parabéns ao chef!”

Paramos na Rua dos Pinheiros para tentar um táxi. Os dois assistentes de Rogéria e eu ficamos pelo menos 20 minutos numa esquina, gritando para os carros que passavam. Ninguém parou.

Rogéria resolveu agir: “Meus amores, podem deixar que eu vou chamar um táxi. São Paulo não vai deixar Rogéria a pé!” E ela ficou na esquina, com o braço esticado, dizendo “Uhuuuu! Pelo amor de Deeeeeeeus, um táxi! Ajuuuudem!” Em três minutos, um táxi parou.

O carro subiu a Rebouças, que estava em obras. Quase fomos abalroados por um trator – juro, parecia uma miragem – que subia a avenida às sete e meia da noite. Levamos quase uma hora para chegar à Consolação.

Rogéria parecia estar se divertindo. Sentada no banco da frente, contava ao motorista histórias de suas primeiras visitas a São Paulo, nos anos 60. “A gente ia às boates ouvir bolero, coisa chique, não esses bate-estacas horríveis de hoje.”

Quando o táxi passou em frente à Nostromondo, famosa boate gay na Consolação, ela não se conteve: “Ah, a Nostro... Quantos shows não fiz lá? Quantos prêmios não ganhei ? Que saudades!

Levamos mais 40 minutos para andar três quarteirões na Paulista. E, aí, a paciência de Rogéria parecia estar chegando ao fim: “Gente, o que é isso? Nunca vi um engarrafamento desses, Deus me livre. Que horror.” O clima azedou.

Até que outro táxi emparelhou com o nosso, e o motorista a reconheceu: “Rogéria, você está linda, cada dia mais jovem...”

“Ah, meu amor, que bondade a sua! Você é que está lindo, com esse bigode chiquérrimo! Deus te abençoe, querido!”

E virou-se para nós, no banco de trás:

“Puta que pariu, eu amo essa cidade!”

Escrito por André Barcinski às 09h12

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“Murderball” revela um esporte surpreendente

Dia desses, a TV exibiu “Murderball”, um documentário que eu estupidamente perdi quando estreou, em 2005.

 

Na TV brasileira, o filme recebeu o desnecessário e pomposo subtítulo de “Paixão e Glória”.

 

O documentário trata de um esporte surpreendente, o rúgbi em cadeiras de rodas, conhecido nos Estados Unidos como “quad rugby”.

 

Disputado numa quadra de basquete, é uma modalidade violenta, em que os jogadores utilizam cadeiras especialmente preparadas para resistir a choques e acidentes. Um dos entrevistados compara as cadeiras de rodas aos carros do filme “Mad Max”. Não é exagero.

 

O filme acompanha a preparação das seleções norte-americana e canadense para as Paraolimpíadas de Atenas, em 2004.

 

A rivalidade entre os dois times é feroz, e só piorou depois que Joe Soares, um craque do “quad rugby” preterido como técnico dos EUA, resolve se vingar e assume o comando do time canadense.

 

O que mais gostei em “Murderball”, além das cenas de jogo e da preparação dos atletas, foi o tom nada condescendente e sentimental do filme.

 

Os personagens não são mostrados como heróis, mas como seres humanos comuns, que precisam superar suas limitações físicas para se destacar no esporte e para se adaptar à vida cotidiana.

 

Claro que todos os personagens têm histórias extraordinárias. Há o atleta que sofre um acidente de moto e se torna tetraplégico; há outro que perde a maior parte de suas funções motoras depois de uma doença. Mas nada disso é mostrado de maneira piegas.

 

Numa das cenas mais bonitas, a seleção norte-americana recebe a visita de uma turma de crianças. Com aquele jeito direto e desconcertante de que só as crianças são capazes, uma delas pergunta a um dos atletas, que não têm pernas e cujos braços terminam nos cotovelos, como ele consegue comer pizza com aqueles braços. O atleta dá uma risada e demonstra às crianças como ele faz para comer pizza.

É um momento muito simples e revelador, e que é, também, a tônica do filme: de que qualquer sociedade civilizada precisa tratar todas as pessoas e suas condições com naturalidade e clareza, sem esconder nada.

Escrito por André Barcinski às 09h36

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Garagem: 20 anos em duas horas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Hoje, às 21h, faremos uma edição especial de 20 anos do programa de rádio Garagem.

 

Para nossa alegria, os valorosos amigos da TV e Rádio UOL permitiram que fizéssemos o programa ao vivo. É só clicar aqui e curtir.

 

Com isso, os ouvintes poderão enviar suas respostas para a promoção, pelo e-mail programagaragem@uol.com.br ou pelo twitter @garagem. Não vou adiantar a pergunta, mas posso revelar que envolverá um grande artista brasileiro e virtual vencedor do Oscar.

 

Todos os grandes colaboradores do programa prometem estar lá: a espetacular Larissa, a destemida Verônica, os escravos Gabriel e Geraldo, nosso assessor Alexandre Cassolato, o eterno Fábio Nipoluso.

 

Velhos comparsas também prometeram aparecer. Não vou citar nomes para não gorar.

 

Teremos também a presença especialíssima de uma figura que marcou um dos momentos mais engraçados do programa. Mas essa é surpresa. Nem eu acreditei quando o Paulão me contou.

 

Aliás, o Paulão passou meses trabalhando com nosso DJ Djeff, o Phil Spector da Faria Lima – ok, “meses” é exagero, foram algumas horas – para escolher os melhores momentos dos 20 anos.

 

Teremos trechos das entrevistas com os dubladores dos “Três Patetas”, com o mítico JC e com o Mudhoney.

 

Vamos relembrar também a emocionante homenagem à discografia de Caetano, envolvendo um Twingo assassino, o triciclo do Trovão e a chapa quente do bar do seu Chicão.

Então é isso: esperamos todos vocês. Ouçam (e vejam também, já que a TV UOL vai transmitir) e participem. Até lá.

Escrito por André Barcinski às 09h36

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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