André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Os filmes da semana em 140 caracteres

O Oscar está chegando. Nas últimas semanas, estrearam vários filmes, e muitos leitores pediram comentários sobre eles.

 

Resolvi juntar alguns dos mais importantes num texto só e dedicar uma tuitada para cada um. Aproveite e bom fim de semana...

 

A Separação

De vez em quando surge um filme que prova que o cinema não morreu, está só esquecido em algum departamento de marketing por aí.

 

J.Edgar

Um roteiro ruim, Di Caprio mal escalado, e a mão pesada de Clint Eastwood fazem dessa cinebiografia de Hoover uma experiência entediante.

 

Os Descendentes

Comédia agridoce de Alexandre Payne, à Hal Ashby. Payne, Paul T. Anderson e Wes Anderson mostram que Hollywood não é só para adolescentes.

 

Precisamos Falar Sobre o Kevin

Filho vs. mãe, sombrio pacas. Tilda Swinton magnífica, esnobada pelo Oscar. Assista, mas não marque nada depois; vai acabar com sua noite.

 

O Espião Que Sabia Demais

Boa adaptação de Le Carré, lento e elegante como o livro. Vale só por mostrar que Gary Oldman pode fazer outro papel que não um psicopata.

 

Os Homens Que Não Amavam as Mulheres

David Fincher e Trent Reznor dão um toque gótico ao thriller dark de Stieg Larsson. Não vai mudar o mundo, mas é divertido.

 

Cavalo de Guerra

Imagine: John Ford sofre um surto psicótico e faz um filme de guerra com o Rintintim. Só que com um cavalo.

 

As Aventuras de Tintim

Desde Avatar um filme em 3D não me dava tanta dor de cabeça. Escuro, desanimado e com um roteiro capenga, fica longe da beleza de Hergé.

Escrito por André Barcinski às 07h56

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Será que alguém vai lembrar de Ozzy por sua música?

Acaba de sair no Brasil o DVD “God Bless Ozzy Osbourne”, um documentário sobre a vida e obra do maior comedor de morcegos do rock.

Apesar de produzido pelo filho, Jack, o documentário não perdoa Ozzy, que é descrito como um pai ausente e irresponsável.

Numa das sequências mais tristes, seu filho Louis relata lembranças de infância, que invariavelmente envolviam o pai desmaiado no sofá, com o nariz cheio de cocaína e várias garrafas vazias espalhadas no chão.

Outra cena marcante – e bem mais divertida – mostra Ozzy deitado num sofá, assistindo aos clipes pavorosos que fez nos anos 80, quando tinha um cabelo igual ao da Ana Maria Braga e usava roupas de lantejoulas. Nem ele agüenta os clipes. Divertido também é ver Paul McCartney falando sobre Ozzy.

Mas o que mais gostei no filme foram as cenas de arquivo da época de Ozzy no Black Sabbath. Nos últimos anos, a fama de palhaço de Ozzy desviou a atenção de seu trabalho no Sabbath.

Se Ozzy tivesse morrido de overdose em 1976, seria celebrado hoje como um Jim Morrison do metal. Mas ele sobreviveu, virou uma caricatura de rockstar doidão e simpático e, com isso, eclipsou a importância de sua primeira banda.

Depois de ver o filme, peguei meus CDs do Sabbath e ouvi os quatro primeiros na sequência: “Black Sabbath” (1970), “Paranoid” ( 1970), “Master of Reality” (1971) e “Volume 4” (1972).

São discos que conheço de cor e que me acompanham desde a adolescência. Mas é bom passar um tempo longe deles e redescobri-los.

Está tudo lá: o heavy metal, o noise, o doom, os drones, o clima dark. Impossível imaginar tudo que veio depois - punk, pós-punk, gótico, hardcore, grunge - sem aqueles quatro discos.

“Volume 4”, então, é uma obra-prima absoluta. Um dos maiores discos cocainômanos da história (custou 65 mil dólares para produzir e outros 75 mil em pó para a banda), é uma radiografia dark do início dos anos 70. Cortesia de quatro doidões de Birmingham que mal sabiam escrever os próprios nomes.

Escrito por André Barcinski às 08h50

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Desafiando o bom senso: por que gosto dos estaduais

Tenho lido gente que manja tudo de futebol - meu amigo Eduardo Tirone, do “Lance”, por exemplo - criticando os campeonatos estaduais.

E sabe o quê? O Tirone tem razão.

Ninguém é capaz de dar um argumento objetivo para defender os estaduais. São campeonatos deficitários, com jogos péssimos e estádios vazios.

O problema é que, em futebol, nem sempre os argumentos são objetivos.

Minha razão para gostar dos estaduais é puramente subjetiva: uma mistura de saudade com o medo de ver o passado desaparecer.

Eu gosto de ir a estádios pequenos e ver jogos com três mil pessoas. Gosto de ver os jogadores de perto, batendo lateral quase encostados no alambrado. Gosto de ouvir o técnico gritando com os jogadores. Gosto de ver pais levando filhos, sem medo de torcidas organizadas.

Nunca morei na Moóca, mas me diverti demais nas três vezes em que fui à Rua Javari ver o Juventus. O mesmo aconteceu no estádio do Nacional.

Se estou em alguma cidade pequena e vejo um jogo anunciado, não perco por nada. Há alguns anos, estava em Extrema, Minas Gerais, e fui num jogo do time local contra o Uberlândia, pela série B do Mineiro. Foi fantástico. O Uberlândia ganhou com um gol de Viola. No intervalo, sortearam uma bicicleta.

Tenho memórias maravilhosas dos estaduais do Rio dos anos 80. Era muito divertido sair de casa cedo, pegar a estrada e passar o sábado passeando em Friburgo, antes de ver um joguinho do Friburguense. Fui muito a Olaria e Madureira. E perdi a conta de quantas vezes me despenquei até o Caio Martins só para ver o Botafogo, que nem meu time é.

Cresci na Ilha do Governador e não perdia um jogo da Portuguesa. Podia ser contra o Flu de Rivelino, o Flamengo de Zico, o Vasco do Dinamite ou o Botafogo do Dé.

Algumas das imagens mais engraçadas que vi no futebol aconteceram ali. Lembro de Rivelino pedindo pressa para o gandula na reposição de bola, só para ver o menino pular o muro e fugir com a redonda debaixo do braço. Deu até pra escutar o Riva xingando o moleque.

É verdade que essa graça tem sumido nos últimos anos. Os times menores estão numa lama danada, e a decisão de tirar os jogos dos estádios do interior – estou falando do campeonato carioca - só prejudicou ainda mais os times pequenos.

Acho que a verdadeira prova de cidadania seria ver a população ressuscitando seus campeonatos estaduais.

Eu adoraria ver os moradores de Madureira, Bangu ou Duque de Caxias lotando os estádios para ver seus times. Adoraria ver uma campanha de torcedores cariocas pela revitalização do estadual. Sonho em ver uma rodada dupla no Maracanã, com casa cheia.

Isso me daria bem mais orgulho que nossa Copa do Mundo e seu civismo fabricado.

Escrito por André Barcinski às 08h25

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“Sobre Meninos e Lobos”: uma entrevista com Dennis Lehane

Dennis Lehane, 56, é um dos escritores de romances policiais mais populares do mundo.

 

Três de seus livros - “Sobre Meninos e Lobos”, “Gone, Baby Gone” e “Paciente 67/Ilha do Medo” - foram adaptados para o cinema, respectivamente por Clint Eastwood, Ben Affleck e Martin Scorsese.

 

Lehane acaba de publicar no Brasil “Estrada Escura”, continuação de “Gone, Baby Gone” e sexto romance com o casal de investigadores Patrick Kenzie e Angela Gennaro.

 

Entrevistei Lehane para a Folha. A entrevista foi publicada sábado passado, na Ilustrada. Mas, como o papo foi bom, resolvi publicar a íntegra aqui.

 

Por que você resolveu voltar aos personagens Patrick Kenzie e Angela Gennaro e fazer uma continuação de “Gone Baby Gone”?

Eu tinha acabado de fazer um romance histórico muito trabalhoso (“The Given Day”), que me consumiu anos de pesquisa, e estava louco para voltar a escrever algo contemporâneo, passado hoje em dia.  Alguns de meus livros são passados num período indefinido, sem referências temporais.   “Sobre Meninos e Lobos”, por exemplo, poderia ser passado tanto em 1970 quanto em 2000. Com “Estrada Escura”, eu queria contar uma história contemporânea. Sobre os personagens Kenzie e Genaro, eu os adoro, simples assim.

 

Sei que você fez uma pesquisa gigante para “The Given Day”. Mas e para seus livros policiais, como “Estrada Escura”? Há muita pesquisa sobre procedimentos investigativos, por exemplo?

Não faço pesquisa antes de escrever o livro. Assim que termino de escrever, confirmo informações com algum especialista, para não escrever nenhuma bobagem. Também não quero que minhas histórias tenham o nível de detalhamento de um “CSI”, por exemplo, acho isso um exagero (risos).

 

Podemos falar sobre suas influências? Você sempre cita Richard Price como uma de suas grandes inspirações...

Sem dúvida. Como autor de histórias urbanas, Price é um modelo a ser seguido.

 

Você escreveu uma bonita introdução para o relançamento de “The Friends of Eddie Coyle” (romance policial clássico de George V. Higgins, lançado originalmente em 1970).

Sim. É um livro seminal, que marcou profundamente a literatura policial. Eu não fui influenciado diretamente por Higgins, este foi o único livro dele que li, mas sou obcecado por Elmore Leonard, que considerava o livro de Higgins o maior romance policial já escrito. Então, acho que, mesmo indiretamente, acabei influenciado por Higgins.

 

Se você tivesse de escolher seus escritores policiais prediletos, quais seriam?

Acho que Elmore Leonard, James Ellroy e James Lee Burke foram os autores que elevaram o gênero policial a um nível mais alto.

 

E autores contemporâneos? Você é um grande leitor de romances policiais?

Para falar a verdade, não. Tenho um amigo que é carpinteiro e ele costuma me dizer: “Passo o dia todo consertando a casa dos outros. Quando chego em casa, não quero ficar consertando a minha.” Mas gosto de Daniel Woodrell (autor do livro que inspirou o filme “Inverno da Alma”) e gostei muito de “Galveston” (livro de estréia do norte-americano Nic Pizzolatto).

 

Podemos falar sobre seus filmes? Você se considera sortudo por ter tido três boas experiências com adaptações de seus filmes para o cinema?

Com certeza. Tive a sorte de ter dois diretores consagrados (Clint Eastwood e Martin Scorsese) adaptando minhas histórias, e de ter um novato (Ben Affleck), mas que se revelou incrivelmente talentoso.

 

Você trabalhou junto com os diretores?

Eu fui consultor nos três filmes, mas não quis me envolver muito. A última coisa que um diretor precisa num set de filmagem é um escritor dando pitaco. O sujeito que serve o cafezinho é mais importante num set que um escritor, que só fica andando por todos os cantos sem ter o que fazer.

 

E seu trabalho na TV, como anda? (Lehane escreveu alguns episódios da série “The Wire”).

Muito bem. Estou trabalhando em uma adaptação do livro “The Fence”, de Dick Lehr (sobre um caso real envolvendo racismo e corrupção policial em Boston) para a HBO. Tenho recusado muitas ofertas, o que é sempre um bom sinal.

 

Você acha que a TV, hoje, tem um nível de roteiros melhor que o do cinema?

Sem dúvida. Na TV, autores ainda são tratados como deuses, enquanto no cinema, tudo é meio que decidido por comitê. Não digo que todos os programas de TV são bem escritos, tem muita porcaria por aí. Mas se você tem a sorte de trabalhar com as melhores produtoras – HBO, Showtime, FX, AMC – então vai tratar sempre com quem manda e não com um comitê de 40 engravatados do departamento de marketing.

 

Que programas você destacaria na TV?

Gosto de “Walking Dead”, “Mad Men”, “Breaking Bad”, e de um novo, “Homeland”, que é incrível.

 

Você tem algum projeto que sempre sonhou em fazer, mas que não conseguiu até agora?

Acabei de terminar o livro que sempre sonhei em fazer. Chama-se “Live By Night. É uma história de gângster passada durante a Lei Seca nos Estados Unidos e que trata do contrabando de rum cubano para a América. Muita gente acha que toda a bebida contrabandeada de Cuba chegava por Miami, mas não era verdade, boa parte chegava por Tampa. Meu livro trata da conexão mafiosa entre Boston, Tampa e Havana. Sempre sonhei em escrever uma história de gângster, mas decidi que só iria escrevê-la quando achasse um ângulo que não havia sido explorado. E a “Rota do Rum”, como ficou conhecido esse episódio, é esse ângulo.

 

Para finalizar, preciso perguntar sobre sua participação na FLIP, em 2007. O que você lembra do evento?

Achei sensacional, nunca poderia imaginar que tanta gente apareceria para falar sobre livros. E fiquei surpreso com o conhecimento que muitas pessoas tinham sobre a minha obra. O único problema, agora, é que minha mulher diz que não vai me deixar mais viajar sozinho para o Brasil. Muita mulher bonita por lá. Ela viu fotos que fiz das filas de autógrafos e me proibiu de ir sozinho.

Escrito por André Barcinski às 08h44

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O Rio e os bueiros: agora, só explode quem quiser

Parabéns ao prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, por ter solucionado o problema dos bueiros explosivos, que tanto sofrimento vinha causando à população carioca.

Semana passada, Paes sancionou uma lei que “proíbe a utilização das calçadas onde existam tampas de empresas que prestem serviços como gás, luz, água, esgoto e TV a cabo”. Fica proibido estacionar o carro ou colocar mesas e cadeiras em cima de um bueiro.

Genial. Agora, só explode quem quiser. Ou quem der bobeira.

Se você estiver tomando um chope na calçada com os amigos e um bueiro te mandar pelos ares, a culpa é sua. Quem mandou sentar em cima do buraco?

Ninguém mais tem desculpa para se machucar em um dos 289 bueiros – número oficial – com grande risco de explodir na Cidade Maravilhosa.

Claro que ninguém inventa uma lei ridícula como essa à toa. O objetivo é claro: blindar o governo contra possíveis ações judiciais. Se um bueiro explodir e machucar alguém, a prefeitura pode sempre argumentar que o cidadão estava burlando a lei.

É assim que nossas prefeituras funcionam: quando não conseguem resolver o problema, inventam uma lei para penalizar o cidadão.

É a mesma lógica da de lei que proíbe cerveja nos arredores do Engenhão, ou da sugestão de Kassab, felizmente rejeitada, de proibir motos de circular com uma pessoa na garupa, para diminuir os assaltos praticados por duplas de motoqueiros (recebi tantos e-mails dizendo que Kassab não apoiava isso, que resolvi postar este link para tirar qualquer dúvida).

Outro exemplo da rapidez com que nossas prefeituras se blindam contra possíveis problemas aconteceu no caso dos prédios que desabaram no Rio. Um ou dois dias depois da tragédia, já surgiram notícias de que uma obra “ilegal”, sem alvará, tinha sido realizada em um dos prédios.

Ótimo. Mas alguém sabe quanto tempo a prefeitura demora para emitir um alvará de obra?

Não sei como funciona no Rio, mas, em São Paulo, você precisa de um alvará para fazer qualquer obra, mesmo uma simples pintura na sua casa. Quem me disse foi um alto funcionário da Secretaria da Habitação.

Se me lembro bem, o prazo pedido para emitir um alvará de obra em São Paulo é de 120 dias. Mas sei de casos em que demorou dois anos.

Responda com sinceridade: você vai esperar dois anos para pintar a casa ou reparar um buraco no telhado? Vai pedir um alvará para isso? Claro que não.

Então, conforme-se: sua obra é ilegal.

E, assim, as prefeituras vão tocando seus mandatos, criando leis tão impossíveis de cumprir que jogam toda a população na ilegalidade. É bem mais cômodo que fiscalizar todo mundo, certo?

P.S.: Pouco depois de esse texto ser publicado, um bueiro explodiu na zona portuária do Rio, matando uma pessoa e ferindo outras duas. Leia aqui.

Escrito por André Barcinski às 08h34

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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