André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

“Millenium”: os crimes que vêm da Escandinávia

 

 

 

 

 

 

 

Estréia hoje “Millenium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres”, filme de David Fincher (“A Rede Social”, “Clube da Luta”) adaptado do romance policial do sueco Stieg Larsson.

O filme tem uma história envolvente e um clima meio dark, características do cinema de David Fincher. Caso raro de filme de ação moderno que não parece feito só para adolescentes.

Para você que viveu em Marte nos últimos anos, “Millenium” é uma trilogia de histórias policiais que vendeu cerca de 60 milhões de livros no mundo todo.

Li os três livros. “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres” é o melhor. Nele, o jornalista Mikael Blomkvist investiga o sumiço de uma menina, ocorrido mais de 40 anos antes na mansão de uma família de industriais.

Ele recebe ajuda de Lisbeth Salander, uma hacker de visual gótico e passado misterioso.

Os outros dois livros da série, “A Menina Que Brincava com Fogo” e “A Rainha do Castelo de Ar”, são bem mais fracos. E isso porque Salander se transforma numa espécie de heroína com poderes quase sobrenaturais.

Em certo ponto da trama, ela se pega enfrentando um homem gigante e imune à dor, é baleada várias vezes e enterrada viva. Fora que seus poderes de hacker atingem proporções divinas. Com duas tecladas no computador, ela é capaz de mudar o rumo da humanidade.

Esse tipo de romance policial, com personagens pouco realistas e dotados de habilidades quase extraterrenas, é muito popular hoje.

Prefiro as histórias mais realistas, que relatam procedimentos policiais e investigações. Gosto de personagens de carne e osso. Gosto dos livros de Jim Thompson, Ed McBain, James Ellroy, George V. Hiiggins, Joseph Wambaugh, Richard Price.

O sucesso de “Millenium” ajudou a divulgar a literatura policial escandinava. Nomes como o norueguês Jo Nesbo viraram uma febre. Sem contar o veterano sueco Henning Mankell, autor das histórias do Inspetor Wallander.

Li dois livros de Nesbo. Achei ainda mais inverossímeis e exagerados que os de Larsson.

Um deles, “The Snowman”, tem um criminoso que parece vilão do Harry Potter. Ele chega a colocar uma de suas vítimas com uma corda no pescoço e sustentada em cima de um boneco de gelo que, à medida que derrete, vai enforcando o coitado.

Os livros de Nesbo, assim como os de Larsson, parecem ter sido pensados com o objetivo de vender a história para o cinema.

O curioso é que a literatura policial escandinava nem sempre foi assim. Além de ter uma história antiga e rica, foi marcada por autores que sabiam criar personagens e situações credíveis.

Nos anos 70, foram lançados no Brasil alguns livros do casal sueco Maj Sjöwall e Per Wahlöö, como os ótimos “Roseanna” e “Massacre em Estocolmo”. Se achar em algum sebo, pode comprar que valem a pena.

P.S.: Cada um tem o indie estatal que merece

A dica é do meu amigo Álvaro Pereira Jr.: domingo, às 14h do Brasil, a rádio BBC6 transmite o programa de Jarvis Cocker, do Pulp, em que ele entrevistará Leonard Cohen (ouça aqui).

Aliás, o disco novo de Cohen, “Old Ideas”, pode ser ouvido na íntegra, no site da NPR (National Public Radio), emissora pública norte-americana.

BBC e NPR: dois indies estatais que eu não me importaria de pagar imposto para sustentar.

Escrito por André Barcinski às 08h49

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Bom dia, Aedes aegytpi; pode entrar que a casa é sua...

Poucas coisas me irritam tanto quanto hipocrisia. Especialmente hipocrisia estatal, aquela em que governo exige de nós atitudes que ele próprio não toma.

A Lei Seca, por exemplo: ninguém pode ser contra uma lei que diminui o número de acidentes de carro, certo?

Então por que o governo de São Paulo não faz a sua parte e estende o horário de funcionamento do metrô?

Que sentido faz ter uma cidade com uma vida noturna tão intensa e não ter metrô de madrugada? Será que os acidentes não cairiam se a população tivesse a opção de sair à noite de metrô?

O combate à dengue é outro exemplo de hipocrisia.

O Governo do Rio anunciou que vai multar donos de casas e terrenos onde forem encontrados focos do Aedes aegypti. Beleza.

Mas e os terrenos públicos que são criadouros de mosquito? Quem multa o governo?

Eu moro em Paraty, no Estado do Rio de Janeiro. Com as chuvas fortes que caem desde dezembro e as crateras que existem no bairro, a rua mais parece um charco. Tem tanta água que o lugar virou até bebedouro de cavalos.

No fim da tarde, começa uma revoada de mosquitos. São insetos de todos os tipos, cores e tamanhos. Alguns parecem uns pterodáctilos. Um verdadeiro espetáculo da natureza.

Minha rua não é asfaltada. E nem será num futuro próximo, por uma única razão: meu vizinho é inimigo político do prefeito.

Isso não é segredo por aqui. Da última vez que fui reclamar na Secretaria de Obras, um funcionário disse: “Ah, meu amigo, aquela rua tem um problema sério...”

Só para humilhar os moradores, a Prefeitura pavimentou as ruas do bairro. Mas o asfalto só chega até a esquina da nossa rua.

Além dos mosquitos, outros seres costumam visitar nosso bairro, embora com menos freqüência que os insetos: os fiscais da Vigilância de Saúde.

Eles vêm multar os moradores que deixam poças d’água em seus quintais (curiosamente, eles são capazes de achar qualquer pocinha no jardim de um morador, mas nunca perceberam o Mar Morto que existe em nossa rua).

Da última vez que estiveram por aqui, pedi a um dos fiscais para dar uma olhada no pântano e tentar achar algum Aedes aegypti. O sujeito me tranquilizou:

- Aqui não tem. O Aedes é fotofóbico e não prolifera em áreas ensolaradas.

- E os outros cinco milhões de mosquitos que vivem aqui?

- Ah, aí já não é da nossa alçada!

Escrito por André Barcinski às 08h58

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Oscar: o fundo do poço?

Será essa a pior edição do Oscar?

A safra de filmes hollywoodianos de 2011 foi tão ruim que a Academia não conseguiu nem selecionar o máximo de dez candidatos para o prêmio de melhor filme.

Escolheram só nove, incluindo uma das coisas mais ridículas já perpetradas em celulóide, “Cavalo de Guerra”, e o dramalhão “Extremely Loud and Incredibly Close”, que foi malhado pela crítica.

O ano foi tão ruim que “Kung Fu Panda 2” foi indicado ao prêmio de melhor animação. Vou repetir bem devagar, pra ninguém achar que me enganei: Kung.. Fu.. Panda.. Parte dois... foi indicado... a um... Oscar. Um OSCAR, capisce?

Achei que nunca conseguiriam superar 1995, quando a disputa ficou entre “Coração Valente”, “Apollo 13”, “Babe, o Porquinho Atrapalhado”, “O Carteiro e o Poeta” e “Razão e Sensibilidade”.

Ou 1998, com “Shakespeare Apaixonado”, “A Vida é Bela”, “O Resgate do Soldado Ryan”, “Elizabeth” e “Além da Linha Vermelha”.

E que tal 2008, com “Quem Quer ser Um Milionário?”, “Milk – A Voz da Igualdade”, “Frost/Nixon”, “O Leitor” e “Benjamin Button”? De lascar.

Ainda não vi “O Artista” e “Hugo”, então não quero opinar sobre a safra 2011. Mas não estou lá muito otimista.

Para piorar, conseguiram esnobar Albert Brooks, que está fantástico no papel do mafioso em “Drive”, e Michael Fassbender, uma revelação como o viciado em sexo de “Shame”.  E trouxeram de volta Billy Crystal para apresentar o prêmio. Socorro.

Não é de hoje que o cinema americano está em crise. Só faz continuações, filmes em 3D e adaptações de quadrinhos. Se o Oscar, que na teoria é o melhor de Hollywood, está nessa lama, imagine o cinema mais comercial?

Escrito por André Barcinski às 08h33

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Dez filmes sobre pessoas erradas nos lugares errados

Estava zapeando a TV outro dia e achei o ótimo “Implacável Perseguição”, de Jonathan Mostow, um daqueles filmes sobre pessoas normais às voltas com situações extremas.

 

É um velho clichê do cinema de horror e suspense: um personagem civilizado e pacífico que precisa recorrer aos instintos mais primitivos e bestiais para enfrentar caipiras psicóticos, traficantes sádicos ou assassinos seriais.

 

Separei dez filmes do gênero. E não incluí nenhum de horror, tipo “Quadrilha de Sádicos” ou “O Massacre da Serra Elétrica”, porque seria chover no molhado. Afinal, quase todos os filmes de terror lidam com pessoas normais às voltas com a anormalidade, não?

 

 

Faca Na Água - Roman Polanski, 1962

Um casal viaja por uma estrada e dá carona para um homem misterioso. O casal convida o homem para velejar. Ele aceita. Partindo dessa trama simples, Polanski, em seu primeiro longa, cria um “thriller” minimalista, cheio de tensão sexual e violência implícita.

 

Pequeno Grande Homem (Little Big Man) - Arthur Penn, 1970

Difícil achar um filme americano dos anos 70 que não falasse, direta ou indiretamente, sobre o Vietnã. Nesse filme, um homem de 120 anos (Dustin Hoffman) conta a um historiador sobre sua vida, em especial os anos que passou como prisioneiro de uma tribo Cheyenne. Mais uma analogia sobre imperialismo, preconceito e o conflito de civilizações, tão típica do cinema americano daquela época.

 

Um Homem Chamado Cavalo (A Man Called Horse) – Elliott Silverstein, 1970

Um nobre britânico (Richard Harris) é capturado por uma tribo indígena e, pouco a pouco, deixa de lado os modos aristocráticos para se tornar um guerreiro da tribo. O filme foi visto, na época, como uma analogia à Guerra do Vietnã, e é um dos melhores papéis de Richard Harris no cinema.

 

Walkabout – Nicholas Roeg, 1971

Já escrevi três ou quarto vezes sobre esse filme, um dos meus favoritos. Um homem sai de seu apartamento confortável na cidade grande e, sem razão aparente, leva os dois filhos para o meio do deserto e tanta matá-los. As crianças sobrevivem e são resgatadas por um menino aborígene. Inesquecível.

 

Sob o Domínio do Medo (Straw Dogs) - Sam Peckinpah, 1971

Dustin Hoffman faz um professor de matemática que se recolhe a uma vila isolada na Cornualha com a mulher, uma coisa de louco interpretada por Susan George, e acaba atraindo a atenção indesejada de um bando de personagens macabros da vila. Peckinpah explorando seu tema favorito: a linha entre a civilidade e a barbárie.

 

Amargo Pesadelo (Deliverance) – John Boorman, 1972

Quatro executivos (incluindo Burt Reynolds e John Voight) decidem passar um fim de semana andando de canoa em uma floresta remota na Georgia, mas acabam entrando em conflito com sádicos caipiras locais. Mais um filme sombrio sobre o contraste da civilidade e da violência.

 

O Silêncio do Lago (Spoorloos) - George Sluizer, 1988

Numa viagem de carro pelo interior da França, um casal para num posto de gasolina. A mulher some misteriosamente. O marido passa os anos seguintes tentando encontrá-la. Nunca vou esquecer a primeira vez que vi esse filme, numa sessão de meia-noite no Estação Botafogo. O diretor Sluizer depois ganhou uma boa grana para estragar seu filme com uma versão americana, estrelando Kiefer Sutherland e Sandra Bullock. 

 

Busca Frenética (Frantic) – Roman Polanski, 1988

Mais um de Polanski. Harrison Ford faz um médico que vai a Paris para um congresso com a esposa. A mulher some, e ele tem de descobrir o que aconteceu. A primeira metade do filme é tensa e misteriosa. A segunda metade é um besteirol indigno de Polanski, mas o começo é bom demais.

 

Implacável Perseguição (Breakdown) - Jonathan Mostow, 1997

O casal Kurt Russell e Kathleen Quinlan cruza os Estados Unidos de carro. Quando o automóvel quebra, no meiodo deserto, surge um misterioso caminhoneiro (o ótimo J. T. Walsh) oferecendo ajuda. Você aceitaria?

 

Wolf Creek – Greg MacLean, 2005

Grupo de turistas encontra um caipira simpático no meio do deserto australiano. Mas o moço se revela menos amigável do que aparenta. O tema é batido, mas o filme é apavorante. Tarantino o homenageou em “Death Proof”, quando, durante uma perseguição, um carro destrói a placa de um drive-in que exibe “Wolf Creek”.

Escrito por André Barcinski às 08h55

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Garagem, 20 anos: parece que foi ontem

Em 2012, o Garagem, programa de rádio que apresento com o amigo Paulo Cesar Martin, completa 20 anos.

Na primeira semana de fevereiro vamos gravar um programa especial na Rádio UOL, reunindo vários personagens importantes da história do Garagem.

O Garagem sempre foi um hobby para nós. Uma diversão. Nunca tivemos a intenção de profissionalizar o programa. Acho que foi por isso que durou tanto.

Quando começamos, em 1992, na Rádio Gazeta, o objetivo era exatamente o mesmo de hoje: falar besteira e tocar música que gostamos.

Por sorte, algumas pessoas nos deram espaço: Alberto Helena Jr. na Rádio Gazeta; Tatola e Roberto Maia na Brasil 2000; Kid Vinil, na segunda encarnação do programa na Brasil 2000 e, finalmente, Jan Fjeld e Felipe Vazquez, na Rádio UOL. A todos, nosso muito obrigado.

Queria agradecer também a todo mundo que colaborou com o programa nesses 20 anos: Álvaro Pereira Jr. (co-apresentador e correspondente californiano), Forasta (sócio-fundador), Djeff, Fábio Nipoluso, Alexandre Cassolato, Geraldo Arcanjo, a espetacular Larissa, a destemida Verônica, escravo Gabriel, Marcelo Orozco, Sandrão, Babu, Renato Yada, Ary Robocop, Fábio Massari. Um agradecimento especial a Ana Maria Broca, por tantos anos de bons serviços. Se tudo der certo, todos estarão com a gente nesse programa especial.

Estou esquecendo um monte de gente, claro. A todos que esqueci, peço desculpas.

Hoje, por questões pessoais e logísticas, não podemos gravar o Garagem com a periodicidade ideal. Mas isso não quer dizer que não nos divertimos quando gravamos.

Se existe uma coisa de que me orgulho sobre o programa é de nunca ter tocado uma música por exigência da emissora ou de alguma gravadora.

Uma vez, um estudante de um curso de Rádio e TV nos disse que sugeriu ao professor uma análise do Garagem, como tema do curso. O professor ouviu o programa algumas vezes e disse ao aluno que o Garagem ia contra tudo que ele ensinava. Deu um orgulho danado.

O Garagem deixou algumas lições nesses 20 anos: a primeira é que esculacho, inconseqüência e um pouco de insanidade podem resultar em coisas boas. A segunda é que nada é tão libertador quanto não ter a menor idéia do que se está fazendo.

Escrito por André Barcinski às 07h23

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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