André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Um sonho para a Cracolândia

Morei no Centro de São Paulo pela primeira vez em 1990. Primeiro na região da Praça Roosevelt, depois em Campos Elíseos e Santa Cecília.

Há 22 anos, ouço falar da tal revitalização do Centro. Não acredito em mais nada.

Perdi a conta de quantos amigos compraram imóveis no Centro, motivados pelos preços baixos e apartamentos gigantes, só para desistir depois do enésimo ataque por algum maluco de olhos injetados e garrafa quebrada na mão.

Acho gozado quando falam que a Cracolândia fica na região da Rua Helvétia. Para mim, o Centro todo é uma enorme Cracolândia.

Já vi cenas de horror do Bom Retiro à Bela Vista, em cima e embaixo do Minhocão, no Brás e na Liberdade. Até na feira de domingo no Largo de Santa Cecília. Sempre foi assim. Nunca conheci o Centro sem a Cracolândia.

Aos domingos, quando os paulistanos buscavam um parque ou fugiam para o litoral, eu costumava andar de bicicleta pelas ruas vazias.

Para quem não se ligou ainda na beleza da arquitetura do Centro de São Paulo, especialmente da região próxima à Luz, é uma ótima maneira de ver os prédios e casarões antigos, sem o trânsito e as multidões para atrapalhar.

Sempre achei que aquela região tinha tudo pra ser um local especial da cidade.

Imagine se o governo incentivasse negócios e empresas a ocuparem a região? Se diminuísse impostos ou promovesse incentivos para centros culturais, teatros, cinemas, escolas, lojas? Imagine se, a exemplo de cidades como Austin, no Texas, qualquer empresa que trabalhasse com cultura tivesse descontos no imposto?

Imagine o Centro de São Paulo, com todos aquelas galpões e casarões que hoje estão sendo derrubados na Rua Helvétia, ocupados por casais jovens com filhos?

Por que o Centro velho de São Paulo não poderia ser uma área cheia de escritórios de design, galerias de arte, livrarias?

Por que não existe uma política pública eficiente para o recolhimento e tratamento adequados aos dependentes de crack? Por que o policiamento é tão mal feito? Por que as ruas são tão escuras?

Será que vai ser preciso alguma incorporadora comprar todos os prédios da Cracolândia e começar a “transformar” aquela região, para que o policiamento melhore? E as pessoas que moram ali hoje, não merecem um policiamento decente?

Com relação ao crack, concordo 100% com Drauzio Varella, que escreveu: “a contragosto, sou daqueles a favor da internação compulsória dos dependentes de crack.” (leia a íntegra da coluna de Varella aqui).

Anteontem, li que a prefeitura começou a derrubar prédios “irregulares” na Cracolândia. Ótimo. Mas quem decide se um prédio está em situação irregular? A mesma prefeitura que demora décadas para emitir um alvará? Você confia?

Será que vamos expulsar moradores e viciados em drogas e derrubar prédios antigos só para entregar o Centro à especulação imobiliária?

Espero que não. Espero que eu esteja errado, e que os moradores do Centro possam, daqui a alguns anos, viver num lugar seguro e agradável. Espero que os dependentes químicos sejam tratados de maneira eficiente e que o tráfico seja coibido na cidade toda.

Mas não acredito.

Não acredito, porque conheci a Barra Funda e a área da Leopoldina há oito ou dez anos, e fico assustado com a rapidez com que sobem ali prédios com muros de cinco metros e arame farpado.

Espaço vazio é um luxo cada vez mais raro em São Paulo. Só espero que a prefeitura não veja o Centro como mais um espaço vazio a ser explorado.

Escrito por André Barcinski às 08h27

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"Paradise Lost": acabou a caça às bruxas

Semana passada, estreou na TV americana “Paradise Lost 3 – Purgatory”, terceiro e último documentário sobre um dos casos jurídicos mais escabrosos e revoltantes dos Estados Unidos.

Em 1993, três crianças de oito anos apareceram mortas em um riacho em West Memphis, no estado de Arkansas. Os corpos haviam sido mutilados, no que parecia um ritual satânico.

A polícia prendeu três adolescentes – Damien Echols, James Baldwin e Jessie Misskelley - depois da confissão de Misskelley.

Uma equipe da HBO, incluindo os diretores Joe Berlinger e Bruce Sinofsky, acompanhou o caso por quase um ano, entrevistando os acusados, a polícia e os parentes das vítimas. A equipe teve acesso ao julgamento e pôde filmar os bastidores do tribunal.

O resultado foi “Paradise Lost – The Child Murders at Robin Hood Hills” (1996), um documentário arrasador.

O filme levantava muitas dúvidas sobre a culpa dos acusados. Não havia nenhuma prova que os ligasse ao crime, e a confissão de Misskelley – um rapaz com QI limítrofe de 72 e óbvios problemas mentais – aparentava ter sido coagida pelos policiais.

Os “Três de West Memphis”, como foram batizados pela mídia, haviam sido claramente crucificados por sua aparência. Eram fãs de heavy metal, usavam preto e se destacavam na multidão. Damien Echolls, com seu visual gótico, era considerado o “freak” da cidade.

O filme traçava também um perfil sombrio de West Memphis, uma cidade pequena e marcada por pobreza, ignorância, drogas, desemprego e fanatismo religioso.

Os personagens do filme parecem a família canibal de “O Massacre da Serra Elétrica do Texas”:  caipiras desdentados, psicóticos, loucos de anfetamina e aparentemente nascidos de casamentos consanguíneos.

Um personagem em especial, John Mark Byers, padrasto de uma das crianças assassinadas, periga ser a criatura mais assustadora, repugnante e misteriosa que já vi num filme.

Depois da estréia de “Paradise Lost”, o caso atraiu muita atenção da mídia. Celebridades como Metallica, Eddie Vedder e Johnny Depp passaram a apoiar grupos que pediam um novo julgamento para “os três de Memphis”.

Os diretores Berlinger e Sinofsky continuaram acompanhando o caso por quase 20 anos e fizeram mais dois filmes, “Paradise Lost 2 – Revelations” (2000) e “Paradise Lost 3 – Purgatory”.

Não vou estragar a surpresa contando o que rolou nos filmes. Só posso dizer que os fatos são muito mais estranhos que qualquer obra de ficção.

Não sei se os filmes foram exibidos ou saíram em DVD por aqui. Mas faça o que precisar para assisti-los. Se puder, veja os três na sequência. É uma saga macabra que prova que existem lugares onde a Inquisição nunca acabou.

E para quem se impressionou com “Paradise Lost”, sugiro outros dois filmes dirigidos pela dupla Joe Berlinger e Bruce Sinofsky: “Brother’s Keeper” (1992), sobre uma família de fazendeiros em que um dos membros aparece morto, e “Some Kind of Monster” (2004), o tenso relato dos bastidores da gravação de um disco do Metallica.

Escrito por André Barcinski às 07h36

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O cinema mudo continua emocionando platéias. Agradeça a esse sujeito aqui...

O inglês David Robinson, 81, é um dos maiores estudiosos e pesquisadores da história do cinema mudo. Seu livro “Chaplin – Uma Biografia Definitiva” (Ed. Novo Século, 792 págs.), considerado por muitos o trabalho mais completo sobre Chaplin, acaba de sair no Brasil.

 

Entrevistei Robinson para a Folha. A entrevista foi publicada há algumas semanas, mas boa parte dela não coube no jornal. Como achei que o papo foi muito bom, resolvei postar a íntegra, aqui. Aproveite:

 

Seu livro sobre Chaplin foi publicado originalmente nos anos 80 e depois revisado para novas edições. Essa versão que está sendo lançada no Brasil é a mais atual?

Acredito que sim. A edição de 2001, que foi traduzida para essa versão em português, teve várias adições e correções em relação à edição original de 1985.

 

Desde que o senhor publicou o livro, surgiram novas revelações sobre a vida e obra de Chaplin, que o senhor pôde incluir em edições posteriores?

Não acredito que tenham surgido novas descobertas fundamentais. Mas, graças ao trabalho de outros pesquisadores, pudemos ter uma idéia mais clara a respeito dos primeiros dias de Chaplin na Keystone. Depois que essa edição brasileira foi publicada, foi descoberta uma participação de Chaplin, no papel de um policial, em um filme chamado “The Thief Catcher”. Mas ele só aparece por um minuto e o filme não é lá muito engraçado, então não é, exatamente, uma grande revelação. Sei que um grande pesquisador, Barry Anthony, está preparando um livro sobre a carreira de Chaplin em teatros musicais, e acho que ele descobriu coisas novas sobre as carreiras bem modestas da mãe de Chaplin e de sua tia, Kate. Isso é algo que me interessa muito.

 

O senhor teve contato pessoal com Chaplin?

Diria que eu o vi umas seis vezes e me encontrei com ele provavelmente duas vezes. A primeira vez foi na estréia de “Luzes da Ribalta”, em 1952. Eu era um jovem e pobre estudante de cinema, mas consegui juntar o dinheiro necessário para comprar um ingresso e alugar um terno para a ocasião. Era excitante ver uma lenda que me acompanhou por toda a juventude, em carne e osso, e acompanhado de sua linda esposa, Oona, que tinha vinte e poucos anos.

Depois disso eu o vi, e algumas vezes o entrevistei em coletivas de imprensa, para “Um Rei em Nova York”, “A Condessa de Hong Kong” e a para o relançamento de “Tempos Modernos”.

Finalmente, os Chaplins gostaram muito de uma crítica que escrevi sobre “Luzes da Ribalta” e fizeram contato comigo. Acabei convidado para a festa de família que celebrava sua condecoração pela Rainha Elizabeth 2ª, e depois para estar com ele em seus últimos dias de trabalho no cinema. Essas ocasiões em que o encontrei e pude conversar e conhecê-lo de uma maneira mais íntima e tranquila, infelizmente, aconteceram um pouco tarde demais. Percebi que sua mente ainda estava alerta, mas ele tinha muita dificuldade de se comunicar. Chaplin foi, no entanto, muito gentil e charmoso. E, mesmo que tenha falado pouco, pude perceber que estava na presença de um ser humano extraordinário e mítico.

 

Como o senhor sente que novas gerações de cinéfilos e estudantes de cinema reagem a filmes da era do cinema mudo?

Eu dirijo o Festival de Cinema Mudo Pordenone (Il Giornate Del Cinema Muto) e todo ano atraímos mais e mais jovens.  Temos uma espécie de comissão que convida doze jovens todo ano, e esses jovens se qualificam não pelo conhecimento a respeito de cinema mudo, mas pela curiosidade de conhecer mais sobre o tema.

Nas sessões que promovemos, os jovens são, sem dúvida, os mais entusiasmados. Eles realmente entendem e reagem 100% aos filmes. Eu acredito que boa parte dos jovens responderia da mesma forma, uma vez que descubram os filmes mudos.

Eu também trabalho com o Bristol Slapstick Festival, e todo ano nós lotamos um cinema de 1500 lugares, a maioria com jovens e pessoas que nunca viram um filme mudo com orquestra. A reação é sempre de êxtase, e imagino que muitos deles, depois disso, virem fãs de performances de filmes mudos com música ao vivo – é uma experiência muito especial.

 

Nos últimos anos, com a proliferação de “home theatres” e TVs a cabo, assistir a filmes tem se tornado uma experiência mais solitária. No entanto, os filmes de gênios como Chaplin e Keaton foram feitos para ser vistos com uma multidão, numa tela grande. O senhor acredita que a maneira como as pessoas assistem a filmes, hoje, pode mudar a reação delas aos filmes?

Sim. A tela pequena e a tela grande oferecem experiências diferentes. Acredito que filmes menores ou dramas íntimos podem funcionar bem ou até melhor na tela pequena, mas eu acho até grotesca a idéia de assistir a filmes grandes, espetaculares ou de ação, numa tela pequena.

Certamente, os filmes mudos – repletos de emoção, seja humor ou sentimento – foram feitos para o cinema, e as comédias, em especial, funcionam melhor com uma platéia grande. Especialmente no caso de Chaplin. Mesmo um de seus filmes sonoros, “Luzes da Ribaltat”, pode parecer péssimo numa tela de TV, enquanto no teatro, com a reação de uma platéia grande, que é como os filmes foram originalmente concebidos, é uma obra-prima.

 

Como um especialista no trabalho dos pioneiros do cinema, o senhor acredita que ainda existam filmes e diretores que ainda não foram devidamente estudados, ou que mereciam maior reconhecimento?

Eu sei disso muito bem, porque todo ano, no Festival Pordenone, surpreendemos nosso público - que é muito bem informado sobre o assunto – com filmes ótimos que eles não conheciam e de que nunca tinham ouvido falar.

Atualmente, temos aprendido que o cinema soviético foi muito mais rico e variado do que acreditávamos. Nos últimos dois anos, temos exibido o trabalho de um diretor chamado Lev Push, cujos filmes fascinantes, feitos na Georgia, simplesmente desapareceram depois que ele virou alvo de perseguição política de Stalin. Mas espero que tenhamos conseguido colocar seu nome nos livros de história do cinema.

 

Qual sua opinião sobre a indústria do cinema hoje?

É uma pergunta difícil. A hegemonia de Hollywood só cresce a cada dia, em detrimento dos cinemas locais. E cada vez menos filmes hollywoodianos me interessam hoje. Sinto como se estivesse vendo lindos produtos, mas frequentemente produtos sem inspiração.

 

Muitos críticos têm escrito sobre a crise no cinema moderno. O que o senhor acha disso?

Para minha surpresa, fiquei muito feliz e otimista com os filmes que vi esse ano em Cannes porque, pela primeira vez, tive a impressão que cineastas estavam tentando lidar com o mundo de hoje. É um mundo duro, e foi uma boa surpresa ver cineastas tentando enfrentá-lo, em vez de se retrair à familiar evasão de filmes românticos ou de ação.

Meu filme predileto de 2011 é provavelmente “Le Havre”, de Aki Kaurismaki, em que ele explora a noção, totalmente fora de moda, de que as pessoas podem ser boas. Acho que Chaplin teria gostado do filme.

Escrito por André Barcinski às 08h32

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Grandes escritores falam sobre seu ofício

Continuando o tema do post de ontem, selecionei alguns trechos em que escritores falam de seu ofício.

 

Nenhum texto sobre o assunto pode deixar de mencionar as famosas entrevistas da “Paris Review”, revista fundada em 1953 e que já sabatinou gente como Nabokov, Hemingway, Borges, Garcia Marquez, Elizabeth Bishop, Cortázar e todos os grandes escritores dos últimos 60 anos.

 

Várias coletâneas de entrevistas da “Paris Review” foram publicadas no Brasil. Se você lê em inglês, pode procurar as entrevistas no site da revista.

 

Aos fãs de Elmore Leonard, sugiro ler “Dez Regras para Escrever um Romance”. Achei o texto traduzido no blog de meu amigo André Forastieri (leia aqui).

 

E aqui vão algumas opiniões sobre literatura, por autores que admiro. Quem tiver outras, mande, por favor:

 

“É um cubo mágico. Memórias e conceitos detonam movimentos internos. Imagens substituem blocos coloridos e clicam em coesão. Colunas conectam. Linhas surgem. Você pega o que precisa e o que você foi e passa tudo pelo filtro do que você se tornou. Você impõe ordem. Você joga uma cereja no bolo. Se você é talentoso e honesto e puro, tudo funciona (...)

 

Foda-se a escola. Foda-se o trabalho duro. Foda-se essa mentira de que você está fodido e mal pago sem um diploma. Leia, assista a filmes policiais, vague por Los Angeles. Fantasie e cutuque seu nariz e conte histórias para você mesmo. (...) Seja preguiçoso. Seja indolente. Ignore a sabedoria adulta. Seja consumido pelo fogo de seu insensato auto-conhecimento.” James Ellroy (Where I Get My Weird Shit)

 

“Escreva bêbado, edite sóbrio.” Ernest Hemingway

 

“Ler geralmente precede escrever, e o impulso de escrever é quase sempre motivado pela leitura. Ler é o que faz alguém sonhar em ser um escritor.” Susan Sontag

 

“O livro nunca se compara ao sonho da perfeição que o artista tem quando o inicia.” William Faulkner

 

“Escrever é o oposto de fazer sexo: só é bom quando termina.” Hunter S. Thompson

 

“Quanto mais rápido escrevo, melhor eu escrevo. Se estou muito devagar, estou em apuros. Significa que estou empurrando as palavras em vez de estar sendo empurrado por elas.” Raymond Chandler

 

“Escrever um romance é como dirigir à noite. Você só consegue enxergar até onde os faróis iluminam, mas você pode completar a viagem dessa maneira.” E. L. Doctorow

 

“À noite, quando o mundo objetivo retorna à sua caverna, deixando os sonhadores a sós, surgem inspirações e capacidades impossíveis em qualquer hora menos mágica e menos silenciosa. Ninguém sabe se é ou não um escritor se não tentou escrever à noite.” H.P. Lovecraft

 

“Nunca tive dúvidas sobre minha capacidade. Sempre soube que podia escrever. Eu só tinha de descobrir como comer enquanto escrevia.” Cormac McCarthy

 

“Um escritor não soluciona problemas, ele permite que eles surjam.” Friedrich Dürrenmatt

 

“Você nunca termina um livro, você os abandona.” Oscar Wilde

 

“Devo meu sucesso a ter sempre ouvido respeitosamente os melhores conselhos, e depois ter feito exatamente o oposto.” G.K. Chesterton

Escrito por André Barcinski às 08h34

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Escritores ensinam a enfrentar o maior inimigo: a página em branco

Adoro ler entrevistas com escritores. Especialmente quando falam sobre o que não podemos adivinhar só pela leitura de suas obras, que são seus hábitos de trabalho.

Quando você lê os livros de um autor, já tem uma boa idéia de sua visão de mundo. Autores despejam suas idéias na página. Muitas vezes, não sobra nenhuma surpresa para contar depois.

Quantas vezes você não leu uma entrevista com um autor e adivinhou a maior parte do que ele iria dizer?

Já os hábitos de trabalho dos escritores costumam surpreender.

Gosto de saber se determinado autor escreve de manhã ou tarde da noite; se usa lápis ou computador; se relê seus textos a todo instante; se passa horas se martirizando sobre a colocação de uma vírgula ou se prefere derramar tudo na página e corrigir depois.

Gosto também de ler escritores dando dicas e falando sobre técnica.

Um dos livros que sempre releio, nem que seja aos pedaços, é “Telling Lies for Fun and Profit” (em tradução livre, “Contando Mentiras para Diversão e Lucro”), de Lawrence Block.

Não sou o maior fã de Block. Acho seus livros bons passatempos e não muito mais que isso. Mas esse volume, uma coletânea de colunas para a revista “Writer’s Digest”, é muito bom.

Mais que um manual de estilo, Block fala de problemas corriqueiros que escritores costumam enfrentar: devo imitar o estilo de meu autor predileto? Tive uma idéia, mas se parece muito com algo que alguém já fez. O que faço? Como encarar a rejeição de editores? Quantas horas devo escrever por dia?

Claro que são todas questões pessoais, que afetam a todos de maneiras diferentes. Mas, ao expor sua visão, Block desmistifica o ofício de escrever e mostra que, por mais famoso que seja o autor, no fundo ele é apenas mais um pobre coitado que batalha contra a página em branco.

Existem muitos livros semelhantes. Um dos mais divertidos é “On Writing”, de Stephen King, que vale a leitura mesmo para quem não é grande fã do autor.

Parte autobiografia, parte manual de ajuda para novatos, King conta detalhes de seus hábitos – só escreve sentado numa determinada cadeira azul em seu escritório, só termina um parágrafo quando cortou “todas as palavras supérfluas”, etc. – e comenta trechos de alguns autores, como Tom Wolfe e Elmore Leonard. Divertido demais.

Outro autor que também escreveu um livro chamado “On Writing”, e tão difícil de largar quanto o de Stephen King, foi George V. Higgins.

Quem leu “The Friends of Eddie Coyle”, elogiado por escritores tão diferentes quanto Martin Amis, Norman Mailer e Ross Macdonald e considerado por Elmore Leonard “o maior romance policial já escrito”, sabe que poucos escreveram diálogos tão bem quanto Higgins.

Nesse livro, Higgins dá dicas de como captar a “essência das ruas” e escrever diálogos memoráveis, citando alguns de seus autores prediletos como Hemingway, Dickens, Irwin Shaw e Gay Talese.

Block, King e Higgins concordam em muitas coisas: não existe um escritor que não seja atormentado por dúvidas; não existe uma linha direta entre a musa e a página; todo autor é inseguro; a única maneira de escrever bem é ler muito e escrever muito.  E, principalmente: ESCREVER É TRABALHO DURO.

Higgins ironiza até os próprios fãs, que não cansavam de elogiar “a maneira fluida e fácil com que ele escreve diálogos”. “Essa maneira 'fácil' de escrever me levou quase 20 anos para aprender”, disse Higgins, que escreveu 14 romances e depois destruiu todos os originais antes de lançar, aos 41 anos de idade, seu romance de estréia, justamente “The Friends of Eddie Coyle”.

Claro que esses livros não devem ser levados a ferro e fogo. O negócio é ler, absorver o que achar útil e depois quebrar todas as regras. Porque nada está escrito em pedra. E o que vale para Stephen King não vale, necessariamente, para você.

P.S.: Separei alguns trechos de entrevistas e textos em que grandes escritores falam sobre o ofício de escrever. Publico amanhã. Até lá.

Escrito por André Barcinski às 08h41

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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