André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Que Reginaldo Rossi nada; o verdadeiro rei do brega chama-se Steven Spielberg

Sugiro que você pare tudo que estiver fazendo e corra ao cinema mais próximo para ver “Cavalo de Guerra”, de Steven Spielberg. É o filme mais engraçado dos últimos anos.

 

“Cavalo de Guerra” conta a história da amizade entre um cavalo e um rapaz, durante a Primeira Guerra Mundial. É isso mesmo: uma espécie de “Marley e Eu” bélico, e com um eqüino no lugar do cão fofinho (Marcelo Coelho escreveu um texto formidável sobre o filme; leia aqui).

 

Com esse filme, Spielberg se consolida como o cineasta mais cafona da história do cinema. Ninguém foi tão brega por tanto tempo.

 

Seu gosto pelo kitsch inclui bandeiras tremulando ao vento e coadjuvantes bondosos agonizando enquanto dizem suas últimas palavras.

 

Some a isso diálogos pomposos sobre coragem e patriotismo, atuações caricatas como Papais Noéis de shopping, cenários de Norman Rockwell, e a breguice sinfônica da música de John Williams, e temos um típico dramalhão à Spielberg.

 

Mas “Cavalo de Guerra” é especial. Periga desbancar até mesmo “A Cor Púrpura” do topo do ranking de filmes mais sentimentalóides do diretor.

 

Numa das cenas mais ridículas, o quadrúpede observa, em silêncio reverente, enquanto um amigo pangaré agoniza (felizmente, sem discurso de despedida).

 

Perdi a conta de quantas vezes Spielberg tentou copiar John Ford, mostrando cavalos em contraluz trotando pelo horizonte, enquanto os alto-falantes cospem alguma música religiosa, típica daqueles quadros assistencialistas de TV que dão uma casa ou caderneta de poupança para algum miserável.

 

Até os filmes mais sérios e celebrados de Spielberg, como “A Lista de Schindler” e “O Resgate do Soldado Ryan”, apelam a fórmulas fáceis do dramalhão (quem é capaz de esquecer aquele borrão vermelho no corpo da menina, em “Schindler”, fazendo o contraponto ao preto e branco austero do filme?).

 

O curioso é que Spielberg, embora seja o cineasta mais cafona do mundo, não é sempre cafona.

 

Como explicar “Os Caçadores da Arca Perdida”, “Tubarão” e, mais recentemente, “Prenda-me Se For Capaz” e “Munique”?

 

São filmes ótimos, extremamente bem feitos e sem um pingo do aspartame enjoativo que costuma acompanhar o diretor. Serão a regra ou as exceções?

 

De qualquer forma, não posso esperar até o Natal, quando Spielberg lançará “Lincoln”, com Daniel Day-Lewis no papel de Abraham Lincoln. Promete ser uma overdose de bandeiras tremulando e closes em rostos chorosos, quando Lincoln, agonizante, disser suas últimas palavras.

Escrito por André Barcinski às 07h57

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Um dos discos mais esperados de 2012 vem de um jovem de 77 anos

Vai ser difícil aguentar a ansiedade até 31 de janeiro. Nesse dia, Leonard Cohen, 77, lança seu primeiro disco de inéditas em oito anos, “Old Ideas”.

 

Confesso que não tinha me impressionado muito com o primeiro single do disco, “Show Me The Place”, que Cohen lançou há dois meses.

 

Mas anteontem ele colocou na web uma música nova, “Darkness”, um blues-gótico reptílico e cabuloso, com aquele clima de cabaré do inferno que é 100% Cohen. Não ouço mais nada há dois dias.

 

Leonard Cohen é um caso raro de intérprete que melhora com a idade. Prefiro sua voz gutural hoje que a que tinha nos anos 70, quando gravou seus melhores discos.

 

“Live in London”, o CD/DVD que ele lançou há dois anos, é um dos favoritos aqui de casa. Se você não conhece o trabalho de Leonard Cohen, é um ótimo ponto de partida.

 

Cohen é um poeta que só virou músico depois dos 30 anos de idade. Meticuloso, cria cada letra com a falta de pressa de quem sabe estar fazendo algo especial.

 

Cada vírgula é estrategicamente colocada para obter máximo impacto emocional. Não consigo ouvir outra pessoa interpretando suas músicas. Soa falso.

 

Como poeta-que-virou-cantor, criou um estilo próprio, meio sussurrado, meio falado. Andy Warhol dizia que Cohen, um dos muitos artistas a orbitar em torno da Factory, ficou obcecado pela voz gélida e marcial de Nico. Faz sentido.

 

É difícil pensar no pop-rock dos últimos 30 anos sem a influência de Leonard Cohen. Nick Cave modelou toda sua estética nele. Siouxsie Sioux, Michael Stipe, PJ Harvey, Antony, Trent Reznor e tantos outros copiaram muito. Andrew Eldritch batizou sua banda – The Sisters of Mercy – com o nome de uma canção de Cohen.

 

Cohen parecia ter se aposentado da música, mas foi obrigado a excursionar depois que foi roubado por sua agente. Graças à bandida, temos a chance de vê-lo de novo em cima de um palco.

 

Espero que “Old Ideas” seja tudo que “Darkness” promete. E, se nenhum festival ou produtor brasileiro trouxer Leonard Cohen esse ano, não teremos outra opção senão programar uma viagem para ver o velhinho.

Escrito por André Barcinski às 08h49

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A história de Muhammad Ali, contada por quem o enfrentou

Se você gosta de boxe, anote aí: a HBO está exibindo “Encarando Ali” (2009), de Pete McCormack. É um dos melhores documentários sobre boxe que já vi.

 

O filme conta a vida e carreira de Muhammad Ali por meio de depoimentos de seus principais adversários, como George Foreman, Joe Frazier, Ken Norton, Larry Holmes, George Chuvalo, Earnie Shavers e Leon Spinks, entre outros.

 

Eles falam da dificuldade de enfrentar Ali e contam detalhes das lutas. Os depoimentos são intercalados com imagens de arquivo de Ali.

 

Algumas coisas ficam óbvias depois de assistir ao filme.

 

A primeira é que nunca houve um esportista como Muhammad Ali. Seu talento, carisma e importância histórica são insuperáveis.

 

A segunda é que nunca existiu um peso-pesado tão inteligente quanto ele, capaz de criar táticas maquiavélicas para superar adversários mais fortes, como na histórica luta contra George Foreman no Zaire, em 1974, quando apanhou por vários rounds só para tirar a energia de Foreman, antes de nocauteá-lo.

 

No filme, Foreman conta como Ali, no fim de um round, olhou para ele com uma expressão irônica e que parecia dizer: “Aha, te enganei. Agora vou acabar com você.”

 

Mas Ali não é o único grande personagem do filme. As histórias de vida de vários dos entrevistados são impressionantes.

 

É o caso de George Chuvalo, um peso-pesado canadense que perdeu duas vezes para Ali por pontos e que nunca foi nocauteado em mais de 90 lutas e 23 anos como profissional.

 

Chuvalo fala sobre a miséria de sua infância e relata sua trágica vida familiar, quando perdeu três filhos e a esposa para as drogas (a mulher e um dos filhos cometeram suicídio).

 

Os depoimentos são reverentes a Ali, mas os entrevistados não deixam de destacar suas fraquezas.

 

Chuvalo, por exemplo, garante que Sonny Liston entregou a famosa luta de 1965 contra Ali (diz a lenda que Liston trabalhava para a máfia de Chicago, que havia apostado pesadamente numa vitória de Ali).

 

Um frágil Joe Frazier – que morreria no fim de 2011 - lembra a humilhação que sentiu com as provocações de Ali na imprensa, que feriram seu orgulho e o motivaram a vencer Ali na “Luta do Século”, em 1971.

 

Um dos depoimentos mais comoventes é o de Ron Lyle. Preso por assassinato ainda adolescente, Lyle aprendeu boxe na prisão e tornou-se um dos pesos-pesados mais temidos de sua época.

 

Lyle foi um dos únicos três homens a derrubar George Foreman e perdeu para Ali por nocaute técnico, numa luta que vencia por pontos e cuja interrupção foi motivo de muita polêmica.

Apesar disso, Lyle parece grato a Ali: “Eu vim da prisão, quase morri, mas tive a chance de lutar contra o maior campeão que já existiu. Estar frente a frente com Ali mudou minha vida.”

Escrito por André Barcinski às 08h46

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Já existiu alguém mais engraçado que John Cleese?

As festas de fim de ano aqui em casa foram bem mais divertidas com a chegada do DVD “John Cleese – The Alimony Tour”.

Trata-se da gravação da mais recente turnê de Cleese, conhecido por sua participação no grupo cômico inglês Monty Python.

Como o nome já diz, Cleese, 72, precisou fazer a turnê para pagar pensão – 20 milhões de dólares, segundo ele - à ex-mulher, de quem se divorciou em 2008.

Mais que um show cômico, “The Alimony Tour” é uma espécie de retrospectiva da carreira de Cleese. Ele fala de sua vida e conta casos sobre a carreira, acompanhados por clipes sensacionais de quadros que fez com Peter Sellers, Marty Feldman e, claro, com o Monty Python.

O show é muito engraçado. Claro que Cleese, aos 72 anos e recentemente operado do quadril e do joelho, não tem a mesma capacidade de desempenhar a comédia física que o consagrou em quadros como “o Ministério dos Andares Cretinos”. Mas o texto é fenomenal.

Depois de trucidar a ex-mulher, Cleese conta sua infância, passada na pequena cidade litorânea de Westou-super-mare, segundo ele, um dos piores lugares na Terra e alvo de bombas nazistas na Segunda Guerra.

Historiadores têm tentando entender, ao longo dos anos, por que um povo lógico e calculista como o alemão bombardearia Weston”, diz Cleese. “Não faz sentido, uma vez que nada que eles pudessem destruir lá poderia custar mais que as próprias bombas.”

Para fãs de Monty Python e “Fawlty Towers”, o DVD é imperdível, com muitas histórias de bastidores e curiosidades. Cleese diz que ele e os companheiros do Monty Python não tinham a menor idéia de como seria o programa quando o propuseram à BBC. “Hoje, ninguém bancaria um programa daqueles”.

Cleese conta histórias bizarras sobre Graham Chapman, seu maior parceiro da época do Monty Python e um personagem verdadeiramente alucinado. Um dia típico de Chapman incluiria fantasiar-se de coelho para participar de um debate em Oxford sobre desarmamento nuclear, em que ele passaria o tempo todo fingindo que estava comendo uma cenoura, acabando, assim, com qualquer possibilidade de debate.

Acho que nenhuma lista dos atores mais engraçados da TV e do cinema está completa sem John Cleese (a minha incluiria também Buster Keaton, Eddie Murphy, Totò, Steve Martin, Bill Murray, Groucho Marx e o próprio Graham Chapman).

Separei aqui um dos momentos sublimes da carreira de John Cleese, o quadro “Ministério dos Andares Cretinos”, do Monty Python (começa em 1:34). Não consigo pensar em um quadro cômico mais bem escrito e atuado que esse. Combina a comédia física do cinema mudo com sátira política e um toque bizarro e surrealista que era a marca registrada do Monty Python.

 

E aqui, um quadro raro do programa “At Last de 1948 Show” (1967) em que contracena com o grande Marty Feldman:

Escrito por André Barcinski às 08h26

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Só Vampeta pode nos salvar

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dia 21 de dezembro, o Ajax recebia o AZ Alkmaar pela Copa da Holanda. O Ajax vencia por 1 a 0 quando um de seus torcedores invadiu o campo e começou uma briga com o goleiro do AZ.

 

O goleiro agrediu o torcedor e foi expulso pelo juiz. O técnico do AZ, revoltado, tirou o time de campo, e o juiz encerrou a partida.

 

A reação das autoridades foi rápida: o torcedor foi condenado a seis meses de prisão e pegou um gancho de 30 anos – repito, 30 anos – sem entrar em estádios de futebol. O Ajax foi multado em 10 mil euros e o jogo foi remarcado, com portões fechados e o placar zerado. Tudo isso levou seis dias para ser decidido e aplicado.

 

Na mesma semana, a prefeitura do Rio de Janeiro anunciou que pretende proibir a venda de cerveja nas imediações do Engenhão para combater as brigas de torcidas.

 

Fica a pergunta: qual a diferença entre a atitude dos dirigentes holandeses e a dos cariocas?

 

Simples: os holandeses querem resolver o problema e agem de forma rápida e eficiente . Já os cariocas querem empurrar o problema com a barriga e violam a liberdade individual do cidadão apelando às manobras mais fascistas e preguiçosas, numa tentativa patética de encobrir a sua própria incompetência para lidar com o problema.

 

O futebol, nos dois casos, é um exemplo de como diferentes países lidam com suas questões.

 

É bom lembrar que já tivemos grandes filósofos futebolistas: nos anos 70, o craque Gerson celebrizou - em um anúncio de cigarro do qual viria a se arrepender depois - a frase “Você tem que levar vantagem em tudo, certo?”

 

Anos depois, outro filósofo das quatro linhas, Vampeta, soltou uma pérola que resume perfeitamente nosso Brasilzão. Comentando sua apagada passagem pelo Flamengo, Vampeta disse: “Eles fingiam que me pagavam e eu fingia que jogava”.

 

Em uma frase, o gênio sintetizou o país do faz de conta, onde quem manda finge resolver os problemas e a gente finge que acredita.

 

A Lei de Vampeta está em todo lugar.

 

Ela explica, por exemplo, como Ricardo Teixeira e o governo federal têm a cara de pau de dizer que a maior parte da verba para a Copa do Mundo de 2014 viria da iniciativa privada.

 

Explica como um político carioca pode afirmar que proibir cerveja em volta do estádio vai coibir a violência das torcidas.

 

Explica por que Kassab acha uma boa idéia proibir motocicletas na via expressa da Marginal Tietê para reduzir acidentes.

 

Finalmente, explica como Geraldo Alckmin pode dizer que vai acabar com a cracolândia em 30 dias.

 

Acho que a era de Gerson já passou. Levar vantagem em tudo já não é uma idéia, mas um dever cívico, impregnado em nosso DNA.

 

Já a Lei de Vampeta é bem mais complexa e, até certo ponto, metafísica. O filósofo questiona o próprio conceito de sociedade e relações sociais, estabelecendo um ponto de partida para discutir o teatro do nosso cotidiano.

 

Agora, quando o encanador que já furou três vezes diz que vem na segunda; quando um camarada que está te devendo grana há anos avisa que vai te pagar amanhã, ou quando o despachante promete “fazer um algo a mais” para resolver o seu caso, console-se: são todos discípulos de Vampeta.

Escrito por André Barcinski às 07h45

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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