André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Samba de Exaltação a Justus

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A notícia é velha, mas eu só soube agora: a escola de samba Rosas de Ouro vai homenagear Roberto Justus no desfile de 2012.

 

Fiquei emocionado com esse tributo a um homem que é praticamente sinônimo de carnaval.  Quando o assunto é malemolência, telecoteco e ziriguidum, ninguém chega perto do Justus.

 

Humildemente, criei alguns versos em sua homenagem. Quem sabe a Rosas não incorpora algumas dessas linhas em seu samba-enredo? Espero que vocês gostem...

 

 

Da Mansão no Morumbi ao Asfalto do Anhembi: a Saga de Justus, o Aprendiz do Samba

 

Roberto, o justo

Não importa o custo

Ele vai nos ajudar

Vai falar com os clientes

Conseguir um dindim pra gente

Fazer o povo sambar

 

Nesse brainstorm genial

Ele fez seu carnaval

Com a turma da agência

Startando mais um job

Criou samba pra esnobe

Pela videoconferência

 

A passista de Versace

Levantando o estandarte

As baianas de Vuitton

Quem fica parado é poste

Hoje eu ponho o meu Lacoste

E me acabo no Chandon

 

Roberto, o Justo

O homem-luxo

O eterno Aprendiz

Seu topete engomado

Cada fio bem armado

Faz o Jassa bem feliz

 

Hoje, a Rosas é diferente

Valet na comissão de frente

E personal para o Rei Momo

Área Vip com charutos

Muitas máscaras do Justus

E jacuzzi com mordomo

 

Mais um case de sucesso

E assim eu me despeço

Com a bênção de Oxóssi

Vai em paz, meu bom guerreiro

Leva a Tici e as crianças

Pra esquiar em Bariloche

 

Com isso, também me despeço. O blog volta em 9 de janeiro. Boas festas a todos.

Escrito por André Barcinski às 08h00

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Christopher Hitchens: brigar é preciso

Tô com meu amigo André Forastieri: a melhor maneira de homenagear Christopher Hitchens é ler Christopher Hitchens (aliás, leia aqui o texto do Forasta sobre o cara).

Porque ler sempre foi a obsessão de Hitchens. Muitos dizem, aliás, que poucos leram tanto quanto ele.

Dizem outras coisas também: que Hitchens – morto semana passada, aos 62 anos - tinha uma memória prodigiosa, capaz de lembrar trechos lidos há 20 ou 30 anos; que escrevia com a mesma rapidez com que falava; que conseguia entornar quatro uísques e uma garrafa de vinho no almoço e depois escrever um texto brilhante sobre George Orwell, Nabokov, ou outro de seus autores prediletos.

Mais que tudo, Christopher Hitchens foi um defensor do livre pensamento. Nunca escreveu uma linha tentando doutrinar ninguém. Tinha opiniões fortes, que sempre defendeu usando a razão e incentivando o conflito de idéias.

Você não precisava concordar com Hitchens – e eu me peguei discordando de muitas coisas – para admirar seus textos e sua ironia.

Era um polemista: “Somente um conflito de idéias e princípios pode produzir clareza. O conflito pode ser doloroso, mas não existe solução indolor, e a busca por ela só nos leva a um fim doloroso de negação; a apoteose do avestruz.”

Esse trecho está em “Cartas a um Jovem Contestador”. Se você não conhece Hitchens, é o melhor ponto de partida.

É um livro curto, escrito em forma de cartas, onde Hitchens resume sua filosofia de vida e ética: não aceite verdades absolutas; desconfie de autoproclamados paladinos da moral; busque sempre a verdade sem se importar com as conseqüências; duvide das unanimidades; questione tudo e todos, sempre.

Hitchens gostava de uma briga. Fez textos desancando a religião (“as duas piores coisas do mundo são racismo e religião, especialmente quando combinadas”), Bill Clinton (“o maior mentiroso da política”), Henry Kissinger (“um criminoso de guerra”) e até Madre Teresa de Calcutá (“não era amiga dos pobres, era amiga da pobreza”). Bateu até no Dalai Lama e em Gore Vidal, antigo herói que, segundo Hitchens, nos últimos tempos havia substituído ironia por rancor.

Criticou a letargia de escritores e intelectuais em reagir à pena de morte imposta por fanáticos islâmicos ao escritor Salman Rushdie: “Era uma briga entre tudo que eu mais amava – literatura, ironia, humor, o indivíduo e a defesa do livre pensamento – contra tudo que eu mais odiava – ditaduras, religião, estupidez, demagogia, censura e intimidação.”

Alguns de seus textos são engraçadíssimos. Um deles, ”Por que mulheres não são engraçadas” – calma, moças, não pré-julguem o coitado do Hitchens – é uma obra-prima. Em outro, reclamava da “barbárie” de ter uma conversa interrompida por um garçom servindo vinho em um restaurante.

Hitchens era, antes de tudo, um jornalista. Não viveu enfurnado em casa. Viajou o mundo todo. Visitou a Bósnia, o Afeganistão, o Iraque e a Coréia do Norte (em homenagem a Kim Jong-il, leia “Coréia do Norte: uma Nação de Anões Racistas”, para ter uma idéia do que Hitchens viu – ou não viu – por lá).

Para provar que o “waterboarding”, prática defendida pelo exército americano para conseguir confissões de inimigos, era tortura, Hitchens se submeteu a uma sessão. O título do artigo diz tudo: “Acredite, é tortura”.

Os atentados de 11 de setembro abalaram Hitchens, e ele chocou seus leitores ao apoiar a invasão americana no Iraque, com o argumento de que Saddam precisava ser deposto.

Assim como muitos admiradores, também fiquei decepcionado. Mas depois lembrei alguns textos do próprio Hitchens, e concluí que esse desapontamento era, no fundo, um resquiciozinho do fascismo que todos nós temos escondidos em algum canto de nossas almas supostamente livres e democráticas. Deixar o outro falar é, de fato, nosso maior desafio.

Escrito por André Barcinski às 07h18

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

"A Privataria Tucana": só os fatos, por favor

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O livro mais comentado dos últimos tempos no Brasil é “Privataria Tucana”, de Amaury Ribeiro Jr.

Como qualquer assunto político no país, o livro divide opiniões. Muitos preferem tomar uma posição contra ou a favor da obra, baseada unicamente em suas posições partidárias e ideológicas. Para resumir: petistas estão adorando o livro mesmo sem tê-lo lido. Tucanos também não leram, mas odiaram.

Já escrevi aqui que abomino esse racha. Não consigo aceitar um país dividido, onde você precisa escolher um dos dois lados.  E, a exemplo de Groucho Marx, não quero ser sócio de nenhum clube que me aceite como membro. Se alguém perguntar de “que lado” estou, posso dizer que desgosto igualmente de governo e oposição. Acho os dois uma vergonha.

Abomino o fisiologismo, as alianças com figuras sinistras da ditadura, os desmandos e a corrupção. Dos dois lados. Tenho vergonha das briguinhas políticas que vejo nos noticiários e que demonstram que todos estão mais preocupados em dominar o país do que em melhorá-lo.

Ao mesmo tempo, é preciso ser imparcial ao analisar as - poucas - coisas boas que aconteceram nos últimos anos. Independentemente de seu partido de preferência, não dá para negar que o plano Real do então Ministro da Fazenda FHC ajudou a colocar o país nos trilhos, e que a economia do país melhorou durante o governo Lula.

Por isso, quando vejo mais uma briguinha partidária, dessa vez a respeito de um livro, não tomo partido. Faço o que qualquer pessoa de bom senso faria – e o que a grande maioria ainda não fez: leio o tal livro.

Vou relatar aqui minhas impressões sobre os fatos mostrados no livro. Quem quiser discutir minha análise dos fatos, será bem vindo.  Pode escrever à vontade nos comentários, que eu, na medida do possível, tentarei responder.

Só não vou deixar que a caixa de comentários vire mais uma briguinha infantil entre tucanos e petistas.

Sobre o livro:

“A Privataria Tucana” denuncia o que considera desmandos e prejuízos ao Estado nas privatizações realizadas durante o governo FHC.

O assunto não é novo e foi amplamente coberto pela imprensa, como o próprio autor do livro deixa claro. Ele cita, inclusive, reportagens e livros sobre o assunto, em especial “O Brasil Privatizado – Um Balanço do Desmonte do Estado”, de Aloysio Biondi (Editora Fundação Perseu Abramo, 1999).

 

A novidade - ou pelo menos a novidade propagandeada em redes sociais e por quem não leu o livro - seria a acusação de que tucanos, e em especial José Serra, teriam se favorecido financeiramente com as privatizações.

 

Para comprovar a tese, o autor relata as atividades de diversas pessoas intimamente ligadas a Serra, como a filha, Verônica, o marido dela, o empresário Alexandre Bourgeois, e o empresário espanhol Gregorio Martin Preciado, amigo de Serra e casado com sua prima.

 

O personagem mais citado é Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-diretor da área internacional do Banco do Brasil e ex-tesoureiro de Serra e FHC. O livro mostra depósitos de uma empresa de Carlos Jereissati, participante do consórcio que arrematou a Tele Norte Leste (hoje Oi), na conta de uma empresa de Oliveira nas Ilhas Virgens Britânicas, ocorrida dois anos após a privatização.

 

Já Verônica Serra é acusada, entre outras coisas, de ter empresas em paraísos fiscais em sociedade com Verônica Dantas, irmã de Daniel Dantas, do Banco Opportunity.

 

O que eu não consegui encontrar no livro é uma acusação direta a Serra, implicando-o no que o autor considera desmandos nos processos de privatizações.

 

O livro insinua que boa parte do dinheiro movimentado em paraísos fiscais pelos personagens ligados a Serra teria vindo das privatizações. Mas isso não fica provado.

 

E, mesmo com todas as histórias escabrosas envolvendo tantas pessoas próximas a José Serra, não fica provado que ele se favoreceu de dinheiro das privatizações.

 

Se algum leitor mais atento quiser contra-argumentar indicando trechos do livro, agradeço. O debate é sempre saudável.

 

“A Privataria Tucana” acusa ainda o presidente nacional do PT, Rui Falcão, de ter vazado para a imprensa informações sobre uma rede de arapongas montada pelo partido para espionar e armar dossiês contra Serra. O autor também não mostra provas disso.

 

Para finalizar, acho que a ombudsman da Folha, Suzana Singer, está certíssima em seu texto de ontem.

 

Para avaliar a qualidade do material publicado, são necessários tempo e um jornalista investigativo experiente. Primeiro, é preciso apontar o que há de novidade, quais são os documentos inéditos, já que muitas denúncias elencadas apareceram na grande mídia na época. (...)

Só que o trabalho ainda não acabou. A Secretaria de Redação diz que o jornal está "em busca de fatos que mostrem aspectos relevantes e desconhecidos do processo de privatização". "Para isso, pode usar esses e outros documentos como ponto de partida de investigações mais profundas", afirma.

Ao leitor, resta esperar para saber o que é lixo, como definiu Serra, e o que é notícia ali.

Concordo com a Suzana. Não se trata de ser “a favor” ou “contra” um livro, e é uma pena que o debate, até agora, tenha se reduzido a isso.

Trata-se de analisar a informação contida no livro para apurar responsabilidades.

Só que isso dá trabalho. É muito mais fácil juntar uns amigos no Twitter e decidir qual é a verdade.

Escrito por André Barcinski às 08h57

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha.com. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha.com.