André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Que tal morar num barco?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Essa semana, um casal de amigos nossos pegou os três filhos pequenos, entregou as chaves da casa alugada e fez o que planejava há um bom tempo: foi morar num barco.

Para quem não está acostumado à vida náutica, pode parecer loucura ou algum delírio de milionário.

Mas é justamente o contrário: financeiramente, valeu muito a pena para eles.

O barco que compraram, com quatro cabines, custou bem menos que uma casa de três quartos na região ou um apartamento de dois quartos em São Paulo. O custo para deixar o barco numa marina é bem menor que o condomínio de um apartamento.

Para o casal, que trabalha pela Internet, tanto faz morar em uma casa ou em um barco.

Confesso que deu uma inveja danada dos nossos amigos. Imagine poder sair de férias no próprio barco/casa? Soltar as amarras na sexta à tarde, ancorar em alguma ilha deserta e só voltar na segunda de manhã?

Acho curioso como essa opção de vida ainda é considerada, especialmente no Brasil, uma excentricidade. Em vários países do mundo, morar a bordo de um barco não é tão incomum.

Tenho uma amiga que mora com o namorado em São Francisco, num veleiro de 41 pés. Ele trabalha de terno numa agência. Ela sai todo dia de tailleur para o escritório. Não são aventureiros loucos, não passam o dia todo de bermuda. São pessoas normais, com empregos normais, e que optaram por morar num barco.

Por que não?

Não deveria ser uma opção mais popular aqui no Brasil, país de litoral gigantesco, que não sofre com invernos rigorosos e que não tem furacões, tufões ou outros problemas climáticos sérios?

Infelizmente, a estrutura de marinas do país é atrasadíssima. Salvo algumas exceções, parar seu barco nas costas brasileiras é uma aventura.

Todos os donos de barco com quem converso reclamam da falta de investimentos no setor e da burrice de um país como o Brasil não investir mais em seus portos e marinas.

Espero que a situação melhore e que mais pessoas passem a ver isso como uma opção real de vida.  Desejo boa sorte a nossos amigos. Quem sabe, daqui a um tempinho, não fazemos o mesmo?

Escrito por André Barcinski às 08h38

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Nunca houve um cineasta como Akira Kurosawa

De vez em quando, aqui em casa, fazemos uns ciclos dedicados a certos cineastas. Estamos bem no meio de uma “fase Kurosawa”, assistindo, em ordem cronológica, a todos os filmes disponíveis do mestre.

 

Assistir a Kurosawa em DVD não é o ideal. Suas imagens foram feitas para a tela grande. Mas hoje, infelizmente, é difícil ver esses filmes em cinema.

 

Dei muita sorte: no fim dos anos 80, o Estação Botafogo fez uma retrospectiva completa de Kurosawa. Tive a chance de ver tudo em cinema.

 

Filmes de Kurosawa são impossíveis esquecer. Trazem sequências visualmente impactantes e temas memoráveis.

 

Fiz uma lista dos meus dez filmes prediletos do gênio, em ordem cronológica. Faça sua lista e compare.

 

Os Homens que Pisaram na Cauda do Tigre (1945)

Um filme curto (menos de uma hora de duração) e lindo, sobre um grupo de peregrinos que se fingem de monges para passar por uma barreira.

 

Rashomon (1950)

Filme que revelou Kurosawa ao mundo. Numa tarde chuvosa, homens se abrigam para se proteger da tempestade e começam a conversar sobre um crime. O filme tem uma estrutura narrativa copiada incontáveis vezes depois, com a mesma história sendo contada de vários pontos de vista diferentes.  Quando John Ford encontrou Kurosawa, depois de assistir a “Rashomon”, disse ao japonês: “Você realmente gosta de chuva.” E Kurosawa, que idolatrava Ford, respondeu: “E você realmente assistiu a meus filmes.”

 

Viver (1952)

Um velho burocrata descobre que tem poucos meses de vida e resolve dedicar seus últimos dias a fazer o bem, mas precisa enfrentar a teia burocrática que ele próprio ajudou a criar. Dilacerante.

 

Os Sete Samurais (1954)

Um dos filmes mais influentes da história do cinema.  Sete guerreiros são contratados por uma pequena vila para defendê-la de ataques de bandidos. Kurosawa faz sua versão dos faroestes de John Ford, num filme que, curiosamente, acabou influenciando o western americano, sendo adaptado por John Sturges em “Sete Homens e um Destino” (1960).

 

Trono Manchado de Sangue (1957)
Meu filme favorito de Kurosawa, essa adaptação de “Macbeth” traz algumas das imagens mais fortes da carreira do cineasta, como a célebre sequência da “floresta que anda” e a cena final, que até hoje arrepia. Uma obra-prima.

 

Yojimbo (1961)

Toshiro Mifune faz um samurai que se infiltra em duas gangues rivais de bandidos para colocá-las uma contra a outra. Sergio Leone fez sua versão em 1964, chamada “Por Um Punhado de Dólares”, com Clint Eastwood no papel do “Homem sem Nome”.

 

Sanjuro (1962)

Sequência de “Yojimbo”, com Toshiro Mifune reprisando o papel do samurai. Assistir aos dois filmes na sequência é garantia de diversão.

 

Céu e Inferno (1963)

Kurosawa adaptou uma história de Ed McBain, cultuado autor policial americano, sobre um poderoso executivo (Toshiro Mifune) que tem o filho seqüestrado. Há uma sequência filmada num trem, que é uma das coisas mais inventivas e geniais que já vi em um filme. O grande escritor de romances policiais James Ellroy disse que “Céu e Inferno” é um de seus “thrillers” prediletos. 

 

Dersu Uzala (1975)

Um dos momentos mais marcantes da minha adolescência foi ter visto esse filme na Cinemateca do MAM. Um explorador russo na Sibéria encontra um nativo, Dersu Uzala, que se oferece para ser seu guia. Não consigo imaginar um filme mais bonito sobre a natureza e a descoberta de novas culturas.

 

Ran (1985)

Kurosawa faz mais uma adaptação de Shakespeare, dessa vez de “Rei Lear”. É seu último grande filme e tem algumas das imagens mais bonitas da carreira do gênio. Se existe um filme feito para a tela grande e som alto, é “Ran”.

Escrito por André Barcinski às 08h12

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Bob Gruen, o mestre zen da fotografia de rock

A HBO está exibindo “Rock’n’Roll Exposed”, documentário sobre Bob Gruen, um dos fotógrafos mais importantes do rock.

Gruen é conhecido dos paulistanos: em 2007, fez uma exposição na FAAP lançando seu livro “Rockers”, com as melhores fotos que tirou em seus mais de 40 anos de carreira.

Você certamente conhece algumas das imagens: John Lennon com a camiseta “New York City”, o Led Zeppelin descendo de seu avião, Debbie Harry lambendo o peito de Iggy Pop, Sid Vicious com a cara lambuzada de ketchup e mostarda.

Algumas das imagens icônicas da cena do CBGB’s – Ramones, Television, Blondie – são de Bob Gruen.

Gruen faz parte de uma turma de grandes fotojornalistas – Jim Marshall, Mick Rock, Baron Wolman, Lynn Goldsmith – que traduziu, em imagens, a história da música pop e de seus principais nomes.

O filme não é nenhuma maravilha – é até bem careta, naquele velho esquema de entrevista/imagem/entrevista – e tem meia hora a mais do que precisava. Mas vale por mostrar como a relação entre artistas e fotógrafos mudou nos últimos tempos, e como essa mudança está matando a fotografia de rock.

Quando Gruen começou, no fim dos anos 60, astros do rock não tinham toda essa blindagem de assessores e puxa-sacos que têm hoje.

Ele conta como fez amizade com Ike e Tina Turner, Led Zeppelin,  The Who, John e Yoko, e de como os artistas lhe davam liberdade total para acompanhar turnês e gravações.

Gruen é descrito por amigos como um sujeito zen, que não procurava forçar os artistas a fazer poses para fotos, preferindo deixá-los à vontade.

Suas melhores fotos são justamente as mais íntimas, aquelas em que o artista está totalmente relaxado e desprotegido.

Hoje, fotógrafos raramente podem ficar na frente do palco além das três primeiras músicas, e popstars são blindados de todo o contato com o mundo “real”.

Nada menos rock’n’roll que isso.

Escrito por André Barcinski às 08h47

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Cuidado: Luan Santana pode acabar com as suas férias!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Continuando o tema do post de ontem – a chegada do verão e o conseqüente aumento do nível de barbarismo e falta de educação do brasileiro - gostaria de alertar a todos para um possível desastre que tem tudo para ocorrer na região de Paraty, na próxima sexta, dia 16, às 22h.

Antes que me acusem de preconceito musical, aviso: não tenho nada contra Luan Santana. Nada mesmo. Muito menos contra seus fãs.

Mas não dá para uma cidade de 30 mil habitantes marcar um show gratuito de um dos artistas mais populares do país, no meio das férias escolares, e achar que nada de errado vai acontecer.

Conversei com um amigo urbanista, que conhece a região melhor que ninguém. Ele disse que a chegada de 30 mil pessoas a mais na cidade causaria, certamente, o caos. “Não tem nem lugar pra tanto carro”, disse.

E duvido que só 30 mil pessoas venham para um show gratuito de Luan Santana, em dezembro. Aposto em pelo menos o dobro. Mas não seria nenhuma surpresa se viessem 100 mil. Quem é capaz de calcular?

A verdade é que não há polícia, médicos ou banheiros para tanta gente.

Para piorar, o hospital e o velório da cidade ficam a poucos passos do local do show, o que vai obrigar todos os doentes – e pior, aqueles que velam parentes e amigos – a ser bombardeados com o barulho de 60 mil pessoas cantando “Meteoro da Paixão”.

A desculpa para fazer eventos desse tipo é sempre a mesma: “incentivar o turismo”. Mas me parece um exagero, tipo matar mosquito com tiro de fuzil. Afinal, nas férias de dezembro, todas as cidades de praia do país já estão cheias. Um show gratuito de Luan Santana só vai ajudar a transformar uma cidade cheia em uma cidade caótica.

Aqui rola, há muitos anos, a Festa da Cachaça. O que começou como um evento pequeno e charmoso para incentivar as ótimas marcas de cachaça da região virou uma megafesta com bandas, palco gigante, e multidões de todo o país cambaleando bêbadas pelas ruas. Como isso “incentiva” o turismo, não sei.

Conheci um sujeito que tem uma barraca num shopping popular aqui da cidade. Perguntei a ele se eventos como grandes shows e a Festa da Cachaça são bons para os negócios. Resposta dele:

“O quê? Tá louco? Eu nem abro nesse dia, de tanta gente que fica dormindo na calçada em frente à minha barraca. O pessoal que vem não compra nada, dorme nos carros ou então aluga um quarto para seis pessoas. O turista que vem para curtir a cidade vê um negócio desses e não volta nunca mais. É a pior coisa pro turismo.”

Aqui em casa, estamos nos preparando para o Luan Santana como quem se prepara para um furacão. Já estocamos comida, água e artigos de primeira necessidade. A cisterna está cheia, já antevendo falta d’água. O plano é entrar em casa na quinta e só sair na segunda. Boa sorte a todos.

Escrito por André Barcinski às 08h24

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Está chegando o verão, tempo de fila, xingamento e confusão...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Há certas coisas que nenhuma pessoa de bom senso deve fazer.

Ir ao cinema num sábado à noite, por exemplo, é garantia de aporrinhação. Ou almoçar num rodízio no Dia dos Pais. Ou fazer compras na 25 de Março na véspera do Natal.

Se você mora em cidade de praia, sabe que ir ao supermercado num sábado, no meio de dezembro, é outra coisa que se deve evitar.

Acho que estava distraído e sofri algum tipo de bloqueio mental. O fato é que acabei no supermercado no sábado de manhã.

O lugar parecia uma tenda da ONU depois de um desastre natural: multidões se digladiavam por sacos de sal grosso, engradados de cerveja e pedaços de carne de segunda para o churrasco do fim de semana.

Eu já estava irritado antes de entrar no lugar. Fiquei mais ainda depois que o caixa automático travou exatamente na minha vez, depois de 15 minutos de fila.

Fiz as compras o mais rápido que pude, com o cuidado de não atropelar com o carrinho nenhuma das muitas crianças que brincavam de pique pelos corredores do supermercado.

Assim que saí do lugar, depois de mais uns 15 minutos na fila do caixa, percebi que havia esquecido exatamente o item mais importante. Precisei retornar ao inferno.

Entrei correndo no lugar, peguei o tal produto e voei para a fila de prioridades, aquela dos dez itens ou menos. Havia umas oito pessoas na minha frente.

A cliente imediatamente antes de mim era uma senhora de uns 55 anos. Estava acompanhada da filha e trazia um carrinho com pelo menos 50 itens. Só de latas de cerveja, contei umas 30, além de sal grosso, pacotes de Ruffles, refrigerantes, pedaços de costela, sacos de lingüiça e todos os ingredientes para um churrascão. Achei melhor não reclamar.

Quando chegou a vez dela, um funcionário do supermercado se aproximou, com uma embalagem de iogurte na mão:

- Senhora, por favor, não esqueça de pagar o iogurte que a senhora tomou.

- Eu? Eu não tomei nada!

- Desculpe, mas a senhora tomou sim, que eu vi. Tomou o iogurte e jogou na lata do lixo.

A coroa ficou da cor de uma beterraba. Começou a gritar:

- Você tá maluco! Abestalhado! Eu não tomei p... nenhuma! P... nenhuma, ouviu?!

- Bom, se a senhora quiser, a gente pode dar uma olhada nas câmeras de segurança.

A coroa viu que a coisa estava ficando preta e mudou o discurso:

- E daí se eu tomei? Você é o quê? Puxa-saco de patrão? Seu abestalhado! Vai puxar o saco do seu patrãozinho, vai!

A filha, que até então só observava, se juntou nos xingamentos ao coitado do funcionário:

- Seu babaca! Puxa-saco de patrão!

Não sei o que me deu. Fiquei transtornado. Fiz uma coisa da qual sempre me arrependo depois: surtei completamente. Chamei a velha de “cara de pau” e comecei a discutir com ela e a filha.

Fazia um bom tempo que isso não me acontecia. A última vez foi no meio da Avenida Sumaré, quando um carro parado na nossa frente abriu as quatro janelas e a família inteira começou a jogar sacos, copos e restos de sanduíches do McDonald’s no chão.

Voltando ao supermercado: a essa altura, a coroa já tinha esquecido o funcionário e escolhido um novo alvo: eu.

- Meta-se com a sua vida! Outro abestalhado! Você tá achando que eu não tenho dinheiro pra pagar? Pois eu tenho sim! Olha aqui! – e tirou da bolsa um maço de notas.

- Pior ainda, tem dinheiro e fica roubando iogurte, sua caloteira! – respondi, aos gritos.

Nisso, o supermercado inteiro tinha parado para ver a discussão. A coroa continuou gritando e exibindo o maço de notas:

- Eu tenho dinheiro! Não sou mendiga não! Eu tomo a p... do iogurte que eu quiser! Seus abestalhados!

Aos poucos, os ânimos foram serenando. Ela pagou as compras – pelo menos cinco vezes mais produtos que o permitido – e saiu. Eu paguei o meu item e saí também.

Entrei no carro, ainda tremendo de raiva. Quando passamos pelo estacionamento, vi mãe e filha atravessando a rua. Não agüentei:

- CALOTEIRA! VAI ROUBAR IOGURTE NA CASA DA TUA MÃE!!!

Só vi a coroa, pelo retrovisor, me xingando:

- Filho da p...! Vai tomar no c..., abestalhado!

Bem vindo, verão.

Escrito por André Barcinski às 08h16

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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