André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Nenhum assunto é estranho demais para o cinema de Errol Morris

Não existe nenhum cineasta no mundo hoje que me causa tanta expectativa quanto Errol Morris. Assim que fico sabendo de um novo filme dele, preciso assistir o mais rápido possível.

Por sorte eu estava em Londres, há algumas semanas, quando estreou “Tabloid”, seu 11º filme.

Digo “filme” e não “documentário”, apesar de Morris ser considerado um documentarista.

Nada contra documentaristas, muito pelo contrário. Mas acho que os filmes de Morris são tão pessoais e idiossincráticas que parecem obras de ficção.

Errol Morris é fascinado pela estranheza. Consegue enxergar um tema interessante nos lugares mais improváveis.

“Tabloid” conta a história de uma jovem miss que, em 1977, seqüestra o namorado, um missionário mórmon, e passa três dias obrigando o rapaz a fazer sexo com ela. Parece estranho? E é. Mas não é nem metade da história.

Outro filme de Morris, “Fast, Cheap and Out of Control” (1997), um de meus documentários prediletos, conta a vida de quatro homens de profissões nada ordinárias, como um domador de leões e um topíário (jardineiro que faz esculturas em plantas).

Em “Mr. Death: The Rise and Fall of Fred A. Leuchter, Jr.” (1999), Morris fez o perfil de um homem que dedicou a vida a criar uma cadeira elétrica perfeita. Assustador.

Seus filmes mais conhecidos são “Sob a Névoa da Guerra” (2003), sobre o Secretário de Defesa norte-americano na época do Vietnã, Robert McNamara, documentário vencedor do Oscar, e o grande “The Thin Blue Line” (1988), em que provou a inocência de um homem condenado à morte (o acusado foi solto após o lançamento do filme).

Mas o meu favorito é mesmo o esquisitíssimo e dark “Gates of Heaven” (1978), primeiro filme de Morris, sobre o dono de um cemitério de animais. Faça o que for necessário, mas assista a esse filme.

Existe um tema que todo fã de Errol Morris torce para que ele aborde: sua própria vida.

Órfão de pai aos dois anos, Morris foi músico e historiador e largou cursos em Princeton e Berkeley antes de se dedicar ao cinema.

Sempre teve fama de esquentado e não conseguia terminar nenhum projeto. Seu amigo, o cineasta alemão Werner Herzog, chegou a apostar com Morris que comeria o próprio sapato quando ele terminasse um filme.

Quando Morris lançou “Gates of Heaven”, Herzog cumpriu a promessa, como você pode conferir no célebre curta “Werner Herzog Come Seu Sapato”:

Morris e Herzog iriam colaborar em um documentário sobre Ed Gein, o assassino serial que inspirou “Psicose”, de Hitchcock.

Morris entrevistou Gein na cadeia e este jurou que havia roubado o cadáver da mãe. Morris e Herzog combinaram ir ao cemitério e desenterrar a ossada da velha para confirmar a história.

No dia marcado, Herzog estava lá, mas Morris arregou. O que prova que, em matéria de insanidade, Errol Morris é pinto perto de Werner Herzog.

Escrito por André Barcinski às 08h13

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Há 150 anos, morria o autor do livro mais divertido do Brasil

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Alguém conhece um livro brasileiro mais divertido que “Memórias de um Sargento de Milícias”? Quem souber, por favor, me indique.

Já perdi a conta de quantas vezes li o livro de Manuel Antônio de Almeida (1831-1861).

É só abrir na primeira página e ler a primeira linha (“Era no tempo do rei”), que não dá mais vontade de parar.

“Memórias” conta a vida de Leonardo, filho de um meirinho, Leonardo Pataca, e de uma prostituta, Maria Hortaliça. Leonardo foi concebido no navio a caminho do Brasil: “És filho de uma pisadela e de um beliscão”, lhe diria o pai.

Leonardo é um vagabundo que não se adequa a nenhum trabalho ou padrão “normal” de comportamento. Em sua trajetória, convive com personagens inesquecíveis: velhas carolas, ciganos maloqueiros e um chefe de polícia chamado Vidigal. Acaba disputando o amor de uma moça (Luisinha, verdadeiro picolé de chuchu) com um malandro chamado José Manuel.

“Memórias” é a companhia ideal para uma tarde chuvosa. O livro é curtinho – 200 páginas na edição de bolso – e é dividido em 68 capítulos curtos, publicados originalmente como folhetim do jornal “Correio Mercantil”, em 1851/52.

Dia 28 de novembro foi aniversário de 150 anos da morte de Manuel Antônio de Almeida. Ele escreveu “Memórias” aos 20 anos e morreu aos 30, no naufrágio do navio Hermes, na costa do Rio de Janeiro. Não vi grandes homenagens a ele. Aliás, não vi nenhuma. Alguém viu?

“Memórias” ia na contramão do romantismo da época. Como escreve Mario de Almeida Lima na edição de bolso da L&PM, “O autor do momento era o Dr. Joaquim Manoel de Macedo (1820-1882) que, com ‘A Moreninha’ (1844) e outros livros de igual fatura, conquistara de pronto o coração das leitoras e dos estudantes (...) logo depois, José de Alencar (1829-1877) surpreendia com ‘O Guarani’ (1857) (...) não sobrava espaço para o livro diferente – e inconveniente – de Manuel Antônio.”

A linguagem de “Memórias” é mesmo diferente dos sucessos da época. O livro tem um estilo coloquial, quase jornalístico. Às vezes, o autor interrompe a narrativa para se dirigir diretamente ao leitor.

Mas o que surpreende mesmo é o espírito satírico do livro. Manuel Antônio descreve a “ralé” da época de forma divertida e sem alisar. Hoje, certamente seria acusado de incorreção política ou elitismo.

Não consigo deixar de associar “Memórias” a um de meus livros prediletos, e que dá nome a esse blog: “Uma Confraria de Tolos”, de John Kennedy Toole (1937-1969).

Difícil imaginar que Toole tenha lido “Memórias”. Mas não dá para negar que os dois livros têm um estilo parecido e uma visão peculiar do mundo.

Escrito por André Barcinski às 08h21

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Brasil, urgente! Huck presidente!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Desde que Freud descreveu o “ato falho”, há mais de 100 anos, nenhum desses lapsos do inconsciente deixou tanta gente tão cabreira.

Anteontem, durante a entrega do prêmio Craque do Brasileirão, um dos apresentadores, Tiago Leifert, fez uma piada com o co-apresentador, Luciano Huck, mencionando o desejo deste de ser presidente do Brasil.

A reação de Huck foi impressionante: seus olhos piscaram e seu rosto se contorceu. Desnorteado, disse: “Isso porque você é meu amigo, né, Tiago?”

Eu já tinha ouvido falar nesse boato, mas não tinha dado muita atenção. Até anteontem.

Aqui, interrompo o post para pedir aos leitores que não transformem a caixa de comentários em mais uma briguinha partidária.

Não vou citar nenhum partido nesse texto, não tenho ligação com partido algum e também não julgo ninguém por sua posição política ou partidária. Acho que qualquer um tem o direito de pleitear qualquer cargo público. Combinado?

Voltando ao ato falho de Huck: isso não me saiu da cabeça.

À noite, tive sonhos estranhíssimos, em que o Gabinete da Presidência era transferido para o Shopping Cidade Jardim e o “Diário Oficial” era substituído pela revista “Alfa”.

Vi uma estranha cerimônia, chamada “Culpa Zero”, em que políticos e celebridades doavam uma casa para uma pessoa e depois corriam para as câmeras e passavam o resto do tempo se abraçando e dizendo como o outro era bondoso.

Por fim, vi uma delirante reunião do ministério, em que amigos de Huck ocupavam cargos importantes: Felipe Massa (Transportes), Tiago Leifert (Comunicações), Anderson Silva (Defesa), Ivete Sangalo (Integração Nacional), Ashton Kutcher (Relações Exteriores), Rubens Barrichello (Previdência Social) e Angélica (Planejamento, Orçamento e Gestão).

Freud também escreveu muito sobre sonhos. O que ele acharia desse? Um prenúncio?

Escrito por André Barcinski às 08h48

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Ronaldo, Ju Paes, e a volta da Monarquia

 

 

 

 

 

 

 

 

É oficial: a Monarquia voltou ao Brasil.

Os bons tempos voltaram. Tempos em que uma pequena casta levitava pelas ruas, carregada em liteira de ouro, enquanto a patuléia só olhava, feliz pelo privilégio de pôr os olhos em tanta beleza e magnanimidade.

Os novos nobres brasileiros são gente como o ex-jogador Ronaldo Fenômeno, a atriz Juliana Paes e o cantor Luan Santana, criaturas imaculadas que não toleram desaforo e vivem acima do bem e do mal.

Ju Paes, por exemplo, achou-se no direito de processar o humorista José Simão por este brincar com um personagem dela, num caso raro de “dupla personalidade jurídica”, em que a personagem é ironizada e a atriz autora o processo. Incrível.

Há poucos dias, Ju Paes deu uma entrevista em que reiterou a certeza de sua divindade. Disse que seu sucesso é fruto de “um pacto com Deus”.

De acordo com a atriz, o “acordo” prevê a divisão dos frutos de seu trabalho com a família. "As pessoas que cuidam da minha grana às vezes dizem que eu sou mão aberta demais. Eu respondo logo: ‘Não dá palpite no meu pacto’”.

Ronaldo é outro que não gosta de críticas. Chegou a se irritar com Bussunda – com Bussunda! – por causa da imitação que o humorista fazia dele no “Casseta e Planeta”.

Quando se aposentou, o Fenômeno vingou-se dos jornalistas que destacavam seu porte avantajado, alegando uma doença qualquer: “Tem muita gente que vai ficar com peso na consciência agora”, disse.

Quando o humorista Rafinha Bastos, do “CQC”, fez mais uma de suas piadas péssimas, dessa vez sobre Wanessa Camargo e seu bebê, Ronaldo, amigo do marido de Wanessa, não gostou.

De acordo com a coluna de Monica Bergamo, da Folha de S. Paulo, o ex-craque reclamou com a TV Bandeirantes, e Rafinha acabou fora do “CQC”.

Realeza é isso aí: enquanto nós, mortais, nos limitamos a lamentar a grosseria de Rafinha e enxergá-la como um percalço natural da democracia, que é aturar o que não gostamos, o Fenômeno não perdoa: usa seu cacife real para mostrar quem é que manda aqui no bananão.

Agora, o craque arrisca sua imagem associando-se a Ricardo Teixeira, o chefão da CBF. Teixeira, esperto como ele só, escondeu-se no canto e arrumou um para-raios – Ronaldão – para lidar com a avalanche de críticas e suspeitas em relação à Copa do Mundo.

Nem bem começou a trabalhar, e Ronaldo já se mostra irritado com alguns questionamentos. Disse que “não há crise” na gestão das obras para a Copa, apenas “insinuações e picuinhas”.

É bom Ronaldo começar a se acostumar com a idéia de ser cobrado.

Afinal, não é lógico questionar se existe um conflito de interesses entre a nova função de Ronaldo na Copa e seu trabalho como agente de esportistas?

Não é lógico questionar a frase de Ronaldo: “A Copa é do povo”, quando o próprio chefe dele, Ricardo Teixeira, disse à revista “Piauí” que a CBF é uma entidade privada e que a Seleção Brasileira é da CBF?

Não é lógico questionar outra frase de Ronaldo: “O povo vai se sentir orgulhoso de pagar imposto e ver que vão ser feitas coisas importantes”, quando ninguém foi consultado se prefere novos estádios a mais hospitais e escolas?

Serão longos e dolorosos meses até 2014, especialmente para alguém tão acostumado a dar chilique com qualquer questionamento ou crítica.

E Luan Santana?

O astro sertanejo parece estar aprendendo direitinho com Ju Paes e Ronaldo. Tanto que ameaçou processar o humorista Vinicius Vieira, da Rede Record, por este ter feito paródias de algumas de suas brilhantes canções.

Se Ronaldo é o novo rei do Brasil e Ju Paes, a rainha, o que seria Luan Santana? Príncipe-regente?

Escrito por André Barcinski às 08h25

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No domingo alvinegro, o adeus de um craque diferente

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vários excelentes jornalistas escreveram obituários e textos emocionantes sobre Sócrates, que morreu na madrugada de ontem.

 

Quem quiser saber mais sobre a vida e a carreira do Doutor, sugiro ler os textos de Vitor Birner, Juca Kfouri, Xico Sá, e o obituário escrito por Brian Glanville no jornal inglês “Guardian”.

 

Eu queria escrever sobre um aspecto bonito da trajetória de Sócrates, e que se fez presente até em seu enterro: a insistência em ver o futebol como parte da vida, e não como a própria vida.

 

O Doutor foi enterrado na mesma hora em que começava a rodada final do Brasileirão mais emocionante que já vimos. Até depois da morte, ele parecia nos dizer que resultado não é tudo.

 

Faz sentido. O Doutor, afinal, é lembrado como um dos maiores meio-campistas que já jogou futebol, mesmo tendo conquistado poucos títulos.

 

O maior time em que ele jogou – e o maior time que muita gente viu jogar, incluindo eu – a seleção de Telê, de 1982, também não ganhou nada. Mas vai ser lembrada para sempre.

 

O que vale mais?

 

Os amigos que quiseram acompanhar seu enterro não puderam ver a rodada final do Brasileirão. E daí? Há coisas mais importantes na vida, parecia dizer o Doutor.

 

Acho que Sócrates tinha uma certa inocência que faz falta nos dias de hoje.

 

Em homenagem a ele, sugiro que o Brasileirão do ano que vem elimine de vez algumas coisas que são 100% anti-Sócrates:

 

- clássicos de uma torcida só

- proibição de bandeiras em estádios

- interferências absurdas do STJD

- os chatíssimos comentaristas de arbitragem

- times que fazem “reunião” com torcida organizada

 

Já seria um começo.

 

E ao Corinthians, parabéns pelo título merecido.  Foi um campeonato muito divertido.

Escrito por André Barcinski às 08h17

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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