André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Dez filmes que tentaram reinventar o cinema

Com a morte de Ken Russell, o cinema perdeu um de seus últimos iconoclastas.

 

Em homenagem a Russell e a todos os diretores que ousaram fazer um cinema transgressor e pessoal, fiz uma lista de alguns filmes que tentaram, cada qual à sua maneira, reinventar o cinema.

 

Se as faculdades de cinema estudam os clássicos que estabeleceram o abecedário cinematográfico – “O Nascimento de Uma Nação”, “Metropolis”, “Encouraçado Potemkin”, "A Idade do Ouro", “Cidadão Kane”, “Acossado”, “Psicose”, “O Poderoso Chefão” – acho que devemos também estudar os filmes que tentaram ir além, corrompendo as normas e criando suas próprias regras.

 

Aqui vão alguns deles, em ordem cronológica. Faça sua lista e compare...

 

Haxan – A Feitiçaria Através dos Tempos - Benjamin Christensen, 1922

Meio documentário, meio obra de ficção, inspirado no Malleus Maleficarum, um tratado sobre bruxaria escrito por Inquisidores alemães do século 15. Como muitas obras transgressoras, foi banido em diversos países. A Criterion lançou uma versão definitiva em DVD. Obrigatório.

 

Bancando o Águia (Sherlock Jr.) – Buster Keaton, 1924

Filme que inspirou Woody Allen a fazer “A Rosa Púrpura do Cairo”: um projecionista de cinema “entra” dentro do filme e passa a viver num mundo paralelo. Um delírio metalingüístico absolutamente original para a época, e um dos grandes momentos do cinema silencioso.

 

Aparajito – Satyajit Ray, 1956

Tem dois filmes que sempre me fazem chorar. Um é “Umberto D”, de Vittorio De Sica. O outro é “Aparajito”, segunda parte da “Trilogia Apu” de Satyajit Ray.

Ray é um cineasta indiano e fez muitos filmes usando atores amadores. O que me emociona neles é que Ray nunca apela para fórmulas fáceis do cinema “social”. Ele não faz filmes sobre pobreza, mas sobre pessoas pobres, o que é bem diferente. Não há o ranço fatalista e maniqueísta que se vê em alguns filmes do realismo italiano ou do nosso Cinema Novo.

Em “Aparajito”, há uma cena linda, em que o professor do jovem Apu (a “Trilogia” segue o personagem do nascimento à vida adulta) chega para ele e diz: “Apu, não é porque você mora aqui nesse fim de mundo que não pode ser um grande homem. Estude, empenhe-se, e você verá que tenho razão.” Não há nada professoral ou assistencialista no filme, é só o triunfo do espírito humano sobre as adversidades.

 

Shock Corridor – Samuel Fuller, 1963

Para investigar um caso, um jornalista se faz passar por um interno num manicômio. O grande momento de Fuller, cineasta da paranóia e do medo, lançado no ano em que JFK levou um tiro na cabeça e os Estados Unidos perceberam que a vida era mais Samuel Fuller que Norman Rockwell.

 

Sombra de Antepassados Esquecidos – Sergei Paradjanov, 1964

Paradjanov é um cineasta que filma como se ninguém antes dele tivesse usado uma câmera. Quem se deixar embarcar nos delírios fantasmagóricos do gênio terá experiências inesquecíveis.

 

Gaviões e Passarinhos – Pier Paolo Pasolini, 1966

Quem disse que cinema transgressor precisa ser violento? Pasolini faz uma parábola surrealista sobre religião e comunismo, com direito ao incomparável Totó interpretando São Francisco.

 

O Bandido da Luz Vermelha – Rogério Sganzerla, 1968

Maior produto de cinema pop feito no Brasil. Misto de rádio-novela, Notícias Populares e gibis policiais, é, a exemplo de “O Despertar da Besta”, outro filme sobre um Brasil desnorteado.

 

O Despertar da Besta / Ritual dos Sádicos - José Mojica Marins, 1969

Carlos Reichenbach escreveu: Samuel Fuller molharia as calças vendo essa bomba atômica. Jairo Ferreira disse que saiu do cinema atordoado. O filme começa num programa de TV, onde especialistas discutem os efeitos das drogas em nossos jovens. Logo, o limite entre ficção e realidade desaparece, e ele vira uma radiografia cinza do Brasil pós-AI5. O realismo é tão grande que até o temido policial Sergio Paranhos Fleury aparece, numa ponta e sem créditos.

 

Walkabout – Nicholas Roeg, 1971

Um pai leva os filhos para o meio do deserto australiano e tenta matá-los. Não consegue e se suicida, deixando as crianças para morrer. Elas são salvas por um menino aborígene, que tenta levá-las de volta para “casa”. Uma Odisséia moderna e um dos filmes mais marcantes sobre a noção de civilização.

 

Holy Mountain – Alejandro Jodorowsky, 1973

A exemplo de Paradjanov, outro gênio/louco que criou sua própria estética. Ninguém sabe ao certo sobre o que são os filmes psicodélicos de Jodorwosky. E importa?

 

E mais dez, para quem se interessar:

 

L’Avventura – Michelangelo Antonioni, 1960

La Jetée – Chris Marker, 1962

O Anjo Exterminador – Luis Buñuel, 1962

Os Pornógrafos – Shohei Imamura - 1966

A Margem – Ozualdo Candeias, 1967

Aguirre, a Cólera dos Deuses – Werner Herzog, 1972

Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia – Sam Peckinpah, 1974

Uma Mulher sob Influência – John Cassavettes, 1974

Buffet Froid – Bertrand Blier, 1979

A Cerimônia – Claude Chabrol, 1995

Escrito por André Barcinski às 08h33

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Oitocentas razões para amar o Fugazi

O Fugazi durou de 1987 a 2002. Nesse tempo, lançou seis álbuns de estúdio e fez mais de mil shows.

Cerca de 800 desses shows foram gravados pela banda. Hoje, o primeiro lote, de 130 shows, começa a ser vendido online, numa série chamada “Fugazi Live Series”. Veja aqui.

Sempre adorei o Fugazi. Assim como o Dead Kennedys e o Black Flag, minhas outras bandas prediletas nascidas do hardcore americano, o Fugazi sacou que não era preciso tocar à velocidade da luz para fazer música de alto impacto.

Pelo contrário: o Fugazi é mais intenso justamente quando desacelera e embarca em suas misturas de dub e hardcore. Fugazi era punk para quem gostava de livros e de filmes de John Cassavettes. Por que não?

Lembro do impacto de ouvir “Steady Diet of Nothing”, em 1991. Deve ter sido a mesma sensação que fãs do Clash tiveram dez anos antes, ao ouvir “London Calling” e perceber que a banda tinha amadurecido junto com eles. O punk, como o hardcore, nunca viveu só de velocidade.

Além de fazer música de primeira, os quatro (Ian MacKaye, Guy Picciotto, Joe Lally e Brendan Canty) seguiam um rígido código de conduta “faça você mesmo”: não tinham agente ou empresário, só davam entrevista para fanzines, só tocavam em locais sem restrição de idade, não aceitavam cobrar mais de cinco dólares por um ingresso e não queriam barreira na frente do palco.

Irritados com a violência comumente associada aos shows de punk, pediam ao público para não abrir rodinhas de pogo. Muitas vezes, chegaram a interromper shows só para convidar um fã mais nervosinho a ser retirar – com o cuidado de devolver os cinco dólares de ingresso, claro.

Na época da explosão do Nirvana, em 1991, o Fugazi recebeu ofertas milionárias para assinar com grandes gravadoras. Mas nunca cogitou deixar a Dischord, gravadora de MacKaye.

Na última edição da revista “Mojo”, há uma excelente entrevista com a banda, em que os quatro explicam sua postura e a recusa em assinar com grandes selos nos anos 90. “A maneira como a indústria da música funciona, eles destroem o solo fértil e depois dão o fora”, diz MacKaye. “Foi um período negro para a música. Nós estávamos vendo as pessoas sendo engolidas (...) eu nunca trocaria o que nós tínhamos pelo que o Nirvana conseguiu.”

Quem teve a sorte de ver o Fugazi ao vivo, não esquece. Poucas bandas foram tão intensas e perigosas.

Para os fãs brasileiros, uma ótima notícia: áudios de quatro shows que eles fizeram no país estão disponíveis: Curitiba e Belo Horizonte, em 1994, e Vitória e Joinville, em 1997.

Procurei um clipe de um dos shows brasileiros para colocar nesse post, mas desisti. Em todos, fãs mal educados sobem no palco, pisam em pedais, atrapalham a banda e chegam a irritar o sempre tranqüilo Ian MacKaye.

Optei por um vídeo ao vivo de “Waiting Room”, gravado numa biboca lotada, mas onde os fãs se comportam como punks de verdade, com consideração e respeito pela banda que admiram.

Escrito por André Barcinski às 08h40

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Produzir shows internacionais é uma caixinha de surpresas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Leio que o Ace of Base fez show ontem em São Paulo.

Não sou fã do Ace of Base, não fui ao show e não sei como foi, mas dou os parabéns a quem quer que o tenha produzido.

Acho fundamental que existam produtores independentes dispostos a arriscar seu dinheiro em shows.

Fui ver o Kyuss Lives, há algumas semanas, e acho que foi o melhor show que vi no Brasil em muito tempo.

Admiro demais quem se mete a produzir shows, mas não quero mais isso para mim. Por um bom tempo, fiz parte desse bando de loucos, mas me aposentei. Ninguém merece tanto stress e insegurança.

Fazer um show internacional no Brasil é uma tarefa ingrata.

Para começo de conversa, há o problema dos custos de passagens aéreas e frete de equipamento, que não existe se uma banda está excursionando pela Europa e pode viajar de uma cidade a outra de van.

No Brasil, esses custos precisam ser divididos por vários shows em diferentes cidades do país. E é aí que mora o perigo.

Não é raro um promotor simplesmente cancelar um show em cima da hora ou não pagar a sua parte.

Em mais de dez anos produzindo shows internacionais, já vi isso acontecer inúmeras vezes.

Um dos golpes mais comuns é o produtor adiar o pagamento de sua parte até a hora do show em sua praça, e usar o dinheiro da bilheteria para cobrir suas despesas. E não adianta você fazer contrato e combinar pagamento adiantado: ele simplesmente não paga.

Quando isso ocorre, o que fazer? Você não pode cancelar a turnê, porque já pagou 50% dos cachês. A solução é rezar.

Mas não tem reza que dê jeito em trambiqueiro.

Tomamos um calote de um conhecidíssimo festival, patrocinado por uma estatal. Por quase dois anos, tentamos receber, sem sucesso.

A solução foi enviar uma carta para a estatal, explicando que não teríamos outra opção senão entrar com uma ação na Justiça, o que envolveria, claro, a estatal. No dia seguinte, o caloteiro nos pagou. Impressionante.

Nos últimos anos, já perdi amizades antigas por causa de trambique em pagamento de shows.

Claro que há outras dificuldades envolvidas na produção de um show: vistos de trabalho que demoram a sair, bandas que se recusam a embarcar, músicos que perdem vôos, “estudantes” de 38 anos com carteirinhas falsas, megashows que são marcados no mesmo dia, greves de ônibus, subidas inesperadas do dólar, etc. É muita coisa que pode dar errado.

Por isso, toda vez que leio sobre um show independente, como esse do Ace of Base, sinto um misto de admiração e alívio. Admiração por quem faz, e alívio por não fazer mais.

Escrito por André Barcinski às 07h44

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Ken Russell: foi-se o Fellini da Boca do Lixo

Cineastas bons existem aos montes. Originais, são poucos. Ken Russell, que morreu ontem, aos 84, fazia parte desse segundo grupo.

 

Goste ou não dos filmes dele – e muitos são inegavelmente exagerados e até cafonas – ninguém pode negar que o homem tinha uma maneira muito peculiar de fazer cinema. Você vê cinco fotogramas e sabe que aquilo saiu da cabeça de Ken Russell.

 

Para mim, Russell era uma mistura de Fellini e Russ Meyer. Se Fellini fizesse filmes na Boca do Lixo, seria Ken Russell.

 

Seus filmes eram visualmente impactantes, até meio rococós, mas os temas eram sempre radicais e sensacionalistas. Russell gostava de um escândalo e não fugia de uma boa briga.

 

Nunca vou esquecer o impacto de assistir a “Os Demônios” numa sessão de meia-noite no Estação Botafogo, com metade do público saindo da sala enojado e a outra metade delirando com os delírios grotescos de Russell, nessa bomba atômica sobre um padre do século 17 executado por feitiçaria.

 

Adorei também o estranhíssimo “Gothic” (1986), sobre a visita de Mary Shelley (Natasha Richardson) a Lord Byron (Gabrel Byrne), quando ele desafia a moça a escrever uma história de horror - que acabaria resultando em “Frankenstein”.

 

O filme é 100% Russell, com uma trama labiríntica à Borges, personagens presos em delírios eróticos, e sonhos que se misturam à realidade. Estranho e fascinante.

 

Outro grande momento de Russell foi o thriller de horror/ficção-científica “Viagens Alucinantes” (“Altered States”, 1980), sua colaboração com o autor e roteirista Paddy Chayefsky (“Rede de Intrigas”) e que marcou a estréia de William Hurt no cinema (e de Drew Barrymore!).

 

Hurt faz um cientista que acredita em estados paralelos de consciência e que resolve ser cobaia de experiências lisérgicas. Hoje, parece inacreditável que um grande estúdio hollywoodiano tenha bancado um filme tão extremo e radical. Recomendo demais.

 

Gosto muito também de “Whore” (1991), sobre a vida de uma prostituta (Theresa Russell, musa de Nicholas Roeg e Pete Townshend). Como a maioria dos filmes de Ken Russell, é irritantemente imperfeito e foi malhado por quase todo mundo, mas tem grandes momentos.

 

Russel dirigiu "Tommy", a ópera-rock inspirada no disco do The Who. Eu não aguento o filme, mas ele também tem seus admiradores.

 

Se você nunca viu um filme de Russell, sugiro começar pelo mais “normal”, “Women in Love” (1969), baseado no livro de D.H. Lawrence. O filme foi indicado a vários Oscar e fazia crer que Russell teria uma carreira bacana em Hollywood, que ele prontamente viria a sabotar – para nossa admiração eterna.

 

Ken Russell também teve uma trajetória brilhante como documentarista da BBC, sempre fazendo trabalhos pessoais e inimitáveis.

 

Fica a sugestão para algum de nossos festivais: numa época em que o cinema afunda numa lama de mediocridade e bom mocismo, uma retrospectiva de Ken Russell viria a calhar.

Escrito por André Barcinski às 08h39

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Filme em 3D só faz alegria de quem vende aspirina

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fim de semana chuvoso no Rio. Sem condições de pegar uma praia ou passear, optei por levar minha filha de três anos ao cinema.

“Smurfs” e “Happy Feet”, nem pensar. Acabamos no filme do Palavra Cantada em 3D.

Não havia nada de errado com o filme. Era bem feito, colorido, e ela gostava de todas as músicas. O problema foi o 3D.

Até ontem, eu achava que era o único a odiar 3D. Mas ela, que nunca tinha visto um filme com óculos, também não curtiu. Por várias vezes, tirou os óculos no meio da sessão. Disse que os óculos estavam machucando seu nariz. Depois, que não estava enxergando direito.

Estou realmente cansado dessa ditadura do 3D. Em filmes infantis, então, é um martírio: um pai que não quer levar seu filho numa sessão em 3D pena para achar um filme.

Não consigo lembrar uma experiência agradável que tive no cinema vendo filmes em terceira dimensão.

Para começo de conversa, acho os óculos um incômodo. E para quem já usa óculos, botar um em cima do outro é um porre.

Já tive de assistir a dezenas de filmes em 3D (sempre a trabalho, porque não gasto meu dinheiro com essa joça). E sempre saí do cinema com uma dor de cabeça medonha. Quando vi “Avatar”, então, achei que minha cabeça ia explodir.

Claro que algum especialista pode vir aqui e declamar trocentas teorias contrariando minha impressão. Mas o fato é que, pelo menos para mim, 3D é sinônimo de dor de cabeça.

Se não bastasse o desconforto, os filmes feitos em 3D são péssimos. Alguém consegue lembrar UM filme bom feito em 3D? Fui ver o “Tintin”, do Spielberg, e só não saí no meio porque preciso escrever sobre o filme para a Folha.

Parece que os filmes só existem como desculpa para usar o 3D, deixando de lado coisas básicas como roteiro e direção. Como se a simples presença de efeitos especiais que parecem pular no seu colo justificassem a ida ao cinema.

Estou perfeitamente feliz com o cinema em 2D. Minha filha também parece estar. Tanto que o filme que a deixou mais emocionada, e que ela sempre comenta, é “Ponyo”, uma beleza que não precisa de nenhum artifício “interativo” para encantar

Escrito por André Barcinski às 00h03

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha.com. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha.com.