André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Brasileirão 2011: viva os pontos corridos!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Está chegando ao fim um dos Brasileirões mais bacanas de todos os tempos.

Dependendo dos resultados da penúltima rodada, que rola nesse fim-de-semana, os jogos de domingo, dia 3, serão de arrepiar.

 

Há alguns dias, participei de uma entrevista com Luis Roberto, narrador esportivo da TV Globo. Gosto muito do trabalho dele. Está sempre num bom humor contagiante e passa isso para as transmissões.

 

Luis disse que não acha o nível do campeonato brasileiro mais baixo que o de outros países. Tenho de concordar com ele.

 

Tirando Barcelona, Real Madrid e um ou outro time milionário por aí, os campeonatos locais costumam ser chatos demais, com um ou dois times disparados na ponta e o resto comendo poeira.

 

Já o Brasileirão, mesmo que muitos critiquem o nível dos jogos, está emocionante.

 

O campeonato tem problemas? Claro que tem: o calendário ainda é uma estupidez, com jogos inúteis da seleção tirando jogadores de times em rodadas importantes; a tal “Justiça Desportiva” continua adiando julgamentos para livrar atletas e técnicos de suspensões, e estádios como o Maracanã e o Mineirão fazem uma falta danada.

 

Mesmo assim, ninguém pode dizer que o campeonato não foi divertido.

 

Acho que o torneio por pontos corridos democratiza a emoção. Torna todos os times, independentemente de sua posição na tabela, protagonistas. E a própria instabilidade e falta de organização dos clubes brasileiros se ocupa de criar um revezamento nas primeiras e nas últimas posições do campeonato, ano após ano.

 

Pense bem: dependendo do que rolar domingo agora, vários times que não aspiram a mais nada no Brasileirão podem ter papéis decisivos.

 

O Palmeiras pode tirar o título do Corinthians. O Santos, de olho no Mundial, pode impedir o São Paulo de chegar à Libertadores. O Grêmio pode fazer o mesmo com o Internacional. Coritiba e Atlético (MG) podem rebaixar seus rivais históricos, Atlético (PR) e Cruzeiro. E isso sem contar clássicos locais, como Flamengo x Vasco e Flu x Botafogo. Incrível.

 

Se ainda usássemos o sistema de mata-mata, a essa altura, apenas duas torcidas estariam ligadas no campeonato. Para mim, não há comparação: acho o sistema de pontos corridos muito mais emocionante.

 

E para quem diz que o nível do campeonato é baixo, Luis Roberto, que já cobriu seis Copas do Mundo, jura que o momento mais emocionante de sua carreira no futebol foi ter narrado Santos x Flamengo, o jogaço do primeiro turno: “Foi um jogo inesquecível, o encontro de duas gerações de craques do futebol brasileiro. Ronaldinho Gaúcho de um lado, Neymar de outro. Foi um privilégio ter narrado aquele jogo.”

Escrito por André Barcinski às 08h49

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Quem disse que velório não pode ser engraçado?

 

Aproveitando o post de anteontem sobre a burocracia de velórios e enterros, lembrei desse vídeo sensacional de uma cerimônia em tributo a Graham Chapman, do Monty Python.

O discurso de John Cleese é antológico. Confira.

O vídeo me fez lembrar um velório que presenciei.

Meu tio, Paulinho Albuquerque, era um sujeito sensacional, muito querido e conhecido por toda a classe musical do Rio. Era produtor de discos, foi curador de Free Jazz Festival e do Tim Festival, entre outras coisas. Uma figura inesquecível.

Era também a pessoa mais engraçada que já conheci, sempre inventando trotes para sacanear os amigos. Tinha um humor muito peculiar e fazia piada com qualquer coisa, incluindo a própria mãe, minha avó, que morria de vergonha quando Paulo assobiava e gritava da janela: “Aí, Sarinha, tá com tudo em cima, hein? Gostosa!”.

Quando a cantora Shirley Horn morreu, em 2005, ele sugeriu ao amigo Zé Nogueira, que o ajudava com a curadoria do Tim Festival, uma homenagem a Horn: “Ainda está em tempo. Podíamos pedir duas horas de silêncio no palco de música eletrônica!”

Foi Paulo quem teve a idéia de juntar as trupes do Planeta Diário e da Casseta Popular em um show, o que acabou dando no programa de TV “Casseta e Planeta”. Era muito amigo de todos eles, em especial de Bussunda.

No meio da Copa do Mundo de 2006, Bussunda morreu. Paulinho ficou muito abalado. Nove dias depois, teve uma parada cardíaca e morreu. Tinha 64 anos.

O velório foi no Caju. O lugar ficou lotado de amigos e o clima era de consternação.

Mas, sendo velório do Paulo, que não levava nada a sério, logo começaram as piadas. Um dos Cassetas, estarrecido por duas mortes de pessoas próximas em tão poucos dias, comentou: “Que merda! Bem que disseram que ia começar a fase do mata-mata na Copa!”

Depois, começou a sessão de piadas envolvendo o Botafogo, time do Paulo, que inclusive foi cremado com uma camisa do clube. Um funcionário do Caju disse: “Com essa camisa, não precisa nem perguntar se ele quer ser cremado, né?”

Um dos integrantes do Casseta, Reinaldo, montou um blog divertido sobre o Paulinho, reunindo várias histórias contadas por amigos e parentes. Quem se interessar, pode ver aqui.

Para arrematar o tom tragicômico, um dos familiares, na época trabalhando na produção de um evento de música eletrônica, chegou ao velório numa van adesivada com o logotipo da festa. O nome: EUPHORIA.

Escrito por André Barcinski às 08h52

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Frente a frente com Ronnie Biggs, o assaltante do trem pagador

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Semana passada fui a Londres entrevistar Ronald Biggs, o famoso assaltante do trem pagador.

A reportagem saiu domingo no caderno Ilustríssima (veja aqui).

Houve uma coletiva de imprensa de Biggs, sua primeira em solo britânico.

Havia muitos jornais e equipes de TV na coletiva. Biggs está lançando sua autobiografia e, mesmo fora da mídia há algum tempo, ainda é notícia na Inglaterra.

O que mais me chamou a atenção na coletiva foi a ferocidade da imprensa britânica.

Há muito, admiro a tenacidade e independência dos jornalistas ingleses. Se entrevistas coletivas no Brasil costumam parecer mais chás de bebê, com  perguntas inofensivas e um clima geral de paz e amor, na Inglaterra a coisa é muito diferente.

A primeira pergunta foi: “Ronnie, como você se sente há tanto tempo faturando em cima de um crime?”

A segunda foi:  “Você planeja doar parte da renda do livro para a família de Jack Mills?”

(Jack Mills era o condutor do trem. Ele levou um golpe na cabeça durante o assalto e, mesmo sem sofrer seqüelas graves, virou o mártir da história. Quando morreu de leucemia, sete anos depois do assalto, a família disse que ele nunca havia se recuperado do golpe).

A relação de Biggs com a mídia britânica sempre foi conturbada. Logo depois do assalto, ele e os outros 15 membros da gangue foram tratados como heróis populares. Viraram ícones da “Swinging London”, verdadeiros Robin Hoods que humilharam um governo reacionário e impopular.

Depois que Biggs escapou para o Brasil, em 1970, a situação se inverteu, e ele passou a ser visto como o malandrão que vivia no bem bom em um paraíso tropical, tomando caipirinha com os Stones e os Sex Pistols.

Na coletiva, o filho de Biggs, Mike (ex-cantor do Balão Mágico), deu uma cutucada na imprensa: “É bom vocês lembrarem que, nos anos 80, quando vocês não tinham o que escrever, era só mandar alguém para o Brasil entrevistar meu pai. Ele rendeu muitas manchetes para vocês todos.” E é verdade.

No fim da entrevista, muitos dos jornalistas que haviam atacado Biggs fizeram fila para que ele autografasse seus livros.  Ou seja: não era nada pessoal, alguns até simpatizavam com Biggs. Mas estavam ali fazendo seu papel de jornalistas.

Algumas horas depois da coletiva, assisti ao programa “Hardtalk”, da BBC. A apresentadora, Zeinab Badawi, entrevistou Sebastian Nerz, líder do Partido Pirata alemão. Foi uma das maiores frituras que já vi um jornalista promover em um entrevistado (veja aqui).

Usando apenas perguntas contundentes, Badawi mostrou que Nerz não sabe o que fala, não tem plano, e que a expressiva votação do Partido Pirata na Alemanha só pode ter sido uma piada de mau gosto.  Uma aula de jornalismo e objetividade.

Gostando ou não das posições políticas e das abordagens dos jornais e TVs britânicos, é inegável que a qualidade da imprensa local é muito alta. Aliás, sempre foi.

Escrito por André Barcinski às 08h37

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A burocracia não perdoa nem os que se foram

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Recebemos a notícia tarde da noite: uma pessoa próxima, e muito, mas muito amada, morrera.

 

Ele tinha 91 anos. Estava mal de saúde há um bom tempo e sua morte não foi uma surpresa.

 

Morreu em casa, tranqüilo, cercado por pessoas que o amavam.

 

Mesmo com todos os avisos e prenúncios, nada te prepara para receber uma notícia dessas. No momento em que você percebe que aquilo não é ficção, o choque é inevitável.

 

Outro choque de realidade envolve a burocracia pós-morte. É um processo meio surreal, em que dois mundos muito diferentes – a celebração à pessoa amada e os arranjos necessários para as cerimônias fúnebres – se encontram.

 

Como disse, a morte não foi surpresa. Mesmo assim, é difícil ter cabeça para tomar decisões objetivas numa hora em que todos estão num estado de absoluta fragilidade emocional. É o pior momento para decidir coisas como o modelo do caixão, o local da cerimônia, etc.

 

Somos governados pela burocracia. Perdemos boa parte de nossa vida preenchendo formulários, autenticando documentos, fazendo atestados. Tudo para provar que estamos vivos. Por que seria diferente na hora de provar que estamos mortos?

 

O processo burocrático da morte tem aspectos kafkianos.

 

Um exemplo: para cremar uma pessoa, são necessárias assinaturas de DOIS médicos no atestado de óbito. Alguém consegue imaginar a dificuldade de conseguir dois médicos no meio da madrugada?

 

Outro fato curioso: pessoas com marca-passo não podem ser cremadas antes de retirar o aparelho, sob risco de explodir o formo crematório. E, para retirar o marca-passo, é necessário achar um cirurgião.

 

Um dos médicos contou coisas eu que desconhecia a respeito do mundo pós-morte: descobri, por exemplo, a existência de “esticadores de cadáver”, profissionais especializados em colocar o corpo numa posição ideal para o enterro.

 

O médico relatou que uma de suas pacientes morrera sentada numa poltrona. A morte só foi descoberta horas depois, e o rigor mortis fez com que ela ficasse congelada na posição, o que impossibilitava a colocação do corpo no caixão.

 

A solução foi chamar os esticadores. Usando nada mais que força bruta, eles romperam as juntas do corpo e conseguiram colocar a falecida no caixão.

 

Parece horrível, e é. Mas é uma tarefa absolutamente necessária, sem a qual os ritos fúnebres simplesmente não poderiam ter sido realizados.

 

Felizmente, tivemos a ajuda de um prestativo funcionário da Santa Casa, que explicou todos os processos e ajudou na tomada de decisões, valendo-se da experiência de quem vivencia situações semelhantes todos os dias.

 

Deve ser difícil viver entre esses dois mundos, o luto e a burocracia. É uma tarefa incômoda, mas que alguém precisa fazer.

Escrito por André Barcinski às 08h47

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Filme discute: a Internet vai matar os jornais?

Quem se interessa por jornalismo tem um ótimo filme para assistir: “Page One – Inside The New York Times” (em tradução literal: “Página Um: Por Dentro do The New York Times”). O documentário foi exibido em outubro no Festival do Rio, mas ainda não tem data de estréia no Brasil.

O filme conta os últimos dois ou três anos da trajetória do jornal, centrando as atenções nos profissionais da editoria de mídia, criada em 2008 para cobrir a verdadeira revolução que a Internet vem causando no jornalismo e na indústria da notícia.

Um dos grandes momentos do filme é a cobertura da demissão de cem dos 1250 jornalistas da redação do próprio jornal. 

Os dois personagens mais marcantes do filme são Brian Stelter, um jovem de 26 anos que foi contratado pelo “Times” por causa da qualidade de seu blog sobre mídia, e David Carr, o polêmico colunista de mídia do jornal.

Se eu já admirava Carr pela qualidade de seus textos, gosto ainda mais dele depois de conhecer um pouco sobre sua trajetória: ex-viciado em crack, morador de rua e presidiário, Carr reconstruiu sua vida e hoje é um dos jornalistas mais respeitados do país. Grande figura.

O tema central do filme é a crise dos jornais em todo mundo e a possibilidade de que, um dia, o “The New York Times” deixe de existir.

Há inúmeros especialistas falando sobre a maciça migração de leitores e anunciantes para a Internet, e alguns desses especialistas dão prognósticos negros sobre o futuro dos jornais.

Minha opinião, e que só foi reforçada depois de assistir ao filme, é simples: acredito que a Internet mudou, de fato, a maneira como a informação chega às pessoas. Mas não creio que ela tenha mudado a maneira como a informação surge.

Acho que a origem da informação vem sempre de alguma testemunha – jornalista ou não – que presencia o fato e o relata. Isso não mudou. E a qualidade dessa informação depende da capacidade que essa pessoa tem de fazer o relato de maneira eficiente e imparcial.

Ou seja: por mais que a web, os blogs e o twitter ajudem a disseminar a informação com uma rapidez impressionante, eles não teriam o que noticiar se não fosse o trabalho de jornalistas.

Por mais que eu tenha certeza de que boa parte da mídia é tendenciosa, incapaz e até mesmo corrupta, tenho medo de viver num mundo em que toda nossa informação venha de alguém sentado numa sala, em frente a um computador.

Tenho medo também de um mundo onde o noticiário seja pautado de acordo com o ranking de reportagens mais lidas na Internet, um mundo de faz-de-conta que só privilegia frivolidades e fofocas.

Vendo, no filme, grandes jornalistas como David Carr, David Remnick (editor da revista “The New Yorker”) ou Carl Bernstein (repórter do “Washington Post” que revelou o escândalo de Watergate) falando da importância do trabalho de campo dos jornalistas, lembro por que optei por passar a vida numa redação. E imagino o quão deprimente seria um mundo sem jornais.

Escrito por André Barcinski às 08h35

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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