André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Filme revela as muitas faces de José Lewgoy

 

 

 

 

 

 

 

Estréia hoje “Eu Eu Eu José Lewgoy”, um documentário de Claudio Kahns sobre o grande ator brasileiro.

 

É um filme simples, mas eficiente, com ótimas cenas de arquivo e boas entrevistas.

 

É divertido ver cenas de algumas velhas chanchadas, em que Lewgoy invariavelmente interpretava o vilão, ao lado de Oscarito, Grande Otelo, Anselmo Duarte e Eliana.

 

Várias histórias contadas no filme foram novidade para mim.

 

Eu não sabia, por exemplo, que Lewgoy havia estudado Teatro em Yale, ou que havia deixado o país depois de fazer sucesso nas chanchadas, para morar na França por dez anos.

 

O filme traz uma emocionante entrevista com o diretor alemão Werner Herzog, em que ele conta detalhes das filmagens de “Fitzcarraldo” e de como ele e Lewgoy sofreram para trabalhar com o psicopata Klaus Kinski.

 

Outro aspecto positivo do filme é que ele não alivia a barra de Lewgoy, mostrado como um artista genial, porém arrogante e difícil.

 

O filme me fez lembrar de outro aspecto interessante da vida de Lewgoy, e um que eu presenciei: a cinefilia.

 

Nos anos 80, cansei de ver Lewgoy, sempre de bengala, assistindo a filmes antigos em algum cineclube do Rio de Janeiro. O coroa era doido por cinema.

 

Uma ocasião, em especial, nunca vou esquecer: certa vez, o cineclube Estação Botafogo estava exibindo uma retrospectiva de Akira Kurosawa. Numa tarde qualquer, fui ver “Os Homens que Pisaram na Cauda do Tigre”, um filme menos conhecido do japonês.

 

Havia pouquíssima gente na sessão, talvez cinco ou seis pessoas. Mas Lewgoy estava lá.

 

No fim da sessão, sentei no lobby do cinema para aguardar o filme seguinte (vida boa, a gente tinha tempo de ver filmes a rodo), quando Lewgoy se aproximou de mim e perguntou se eu tinha gostado do filme. Ele estava extasiado com Kurosawa e precisava dividir aquilo com alguém.

 

Acabamos conversando por mais de meia hora sobre o filme e sobre Kurosawa. Lewgoy sabia tudo sobre ele. Tinha um conhecimento enciclopédico sobre cinema japonês.

 

Nos dias seguintes, Lewgoy voltou diversas vezes ao cineclube para ver mais Kurosawa. Era o único ator ou cineasta brasileiro que eu via com regularidade assistindo a filmes antigos em cineclubes.

 

Lewgoy morreu em 2003. É um gigante do cinema brasileiro e de nossa TV. Vale muito a pena ver o filme para conhecer mais sobre sua vida e carreira.

Escrito por André Barcinski às 09h26

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Cinco filmes que Nicolas Cage não conseguiu estragar... e cinco em que ele não se conteve

 

 

 

 

 

 

São Paulo está cheia de cartazes de “Reféns”, um thriller estrelado por Nicolas Cage e Nicole Kidman. Dê uma olhada na belezinha.

 

Acho que é a primeira vez que um ator consegue ser canastrão num pôster.

 

Mas Nicolas Cage não é um ator qualquer.  Desde que surgiu em Hollywood, há 30 anos, ele vem colecionando atuações marcantes por seu histrionismo e exagero.

 

Confesso que me divirto com ele. Não tenho paciência para esses filmes de terror e ficção que ele vem fazendo ultimamente, mas sempre assisto na TV. É diversão na certa.

 

A despeito de sua canastrice, Cage tem muita moral e consegue trabalhar com ótimos diretores. Deve ter o melhor agente do mundo.

 

Fiz uma lista de cinco filmes muito bons estrelados por Cage, e cinco outros que são até engraçados, de tão caricatos. Faça sua lista e compare

 

OS BONS

 

Feitiço da Lua (Norman Jewison, 1987)

Nunca achei que diria isso, mas Cage e Cher formam um casal divertido.

 

Arizona Nunca Mais – Joel & Ethan Coen, 1987

OK, aqui Cage está meio exagerado. Mas o filme é uma grande brincadeira, parece um desenho animado, e ele encaixou perfeitamente. E Holly Hunter está ótima também.

 

Red Rock West (John Dahl, 1992)

Ótimo filme “noir”, com Lara Flynn Boyle de mulher fatal e Dennis Hopper como um psicopata (o que mais?)

 

Despedida em Las Vegas (Mike Giggis, 1995)

O Oscar de Cage. Ele faz um homem que resolve beber até morrer em Las Vegas. Elizabeth Shue está uma coisa como uma prostituta que tenta ajudá-lo.

 

O Senhor das Armas (Andrew Niccol, 2005)

Cage faz um traficante internacional de armas. Um filmaço sobre homens que enriquecem com a morte.

 

 

OS FEIOS

(Note como eles se concentram no período 1997-98. O que leva à inevitável pergunta: o que estava acontecendo com o cara?)

 

Con-Air – Rota de Fuga (Simon West, 1997)

Mais um torneio de atuações ridículas, dessa vez confrontando Cage, John Malkovich e até Steve Buscemi, todos presos em meio a uma rebelião dentro de um avião. Um típico delírio machista de Jerry Bruckheimer.

 

A Outra Face (John Woo, 1997)

Os dois maiores canastras do cinema – Cage e John Travolta – face a face. E pior: trocando de identidade.

 

Olhos de Serpente (Brian De Palma, 1998)

Revi esse outro dia e não acreditei. Numa luta de boxe, um importante político é assassinado e Cage, que faz um policial que parece ter engolido cinco quilos de anfetamina, precisa manter a calma e solucionar a bagaça.

 

Cidade dos Anjos (Brad Silberling, 1998)

Cage faz um anjo (juro!) que cuida de uma brava cirurgiã, interpretada por Meg Ryan (juro!) nesse besteirol inspirado num filme igualmente insuportável de Wim Wenders. Cage tenta parecer triste, mas parece estar com algum problema estomacal.

 

Vício Frenético (Werner Herzog, 2009)

Quando assistiu a essa refilmagem do seu clássico cult de 1992, Abel Ferrara declarou: “Quero que todos os envolvidos com esse filme queimem no inferno!” Foi a mesma sensação que eu tive. Especialmente Cage, que transformou o tenente psicopata (Harvey Keitel, sublime, no original) em um vilão de desenho animado.

Escrito por André Barcinski às 07h15

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SWU: show marcante foi o dos roadies do Ultraje

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Terminou o SWU. O festival que será lembrado mais pela briga entre Ultraje a Rigor e Peter Gabriel que por qualquer show.

É sempre assim nesses eventos corporativos e previsíveis: qualquer coisa que fuja do script se destaca.

Aconteceu o mesmo quando Axl Rose jogou uma TV (ou terá sido uma cadeira?) no saguão ho hotel, em 1991, ou quando Nick Olivieri ficou pelado no palco, em 2001.

Para mim, o mais marcante – e triste - desse SWU foi a cobertura do Multishow. De vez, a emissora abandonou qualquer pretensão jornalística para fazer propaganda travestida de cobertura. Não houve nenhum tipo de análise, nenhuma pergunta mais desafiadora, nada. Uma pena.

O ápice do servilismo foi o show do Sonic Youth.

Como todos sabem, estava rolando um boato forte de que esse show seria o último da carreira da banda.

O Sonic Youth, goste ou não, é uma banda histórica e relevante. Se aquela fosse mesmo a despedida dos palcos, seria notícia em qualquer órgão de imprensa musical do mundo.

Cinco minutos antes do show, Lee Ranaldo passeava tranquilamente nas barbas de Didi Wagner, que nem falou com ele.

Acho que Didi não tem obrigação de conhecer Lee Ranaldo. Mas a emissora, sim, tem a obrigação de ter um produtor no local que conheça os integrantes da banda.

Por mais de dez minutos, a banda ficou no backstage, esperando o início do show. Erika Mader estava ao lado e não se dignou a dar cinco passos e tentar falar com a banda.

“Eles não queriam falar com a imprensa”, certamente será a resposta oficial.

Pergunto: E DAÍ?

O artista tem o direito de não querer falar com a imprensa, assim como o jornalista tem o dever de tentar arrancar informações, mesmo que isso desagrade à banda ou ao festival.

Digamos que a Erika Mader se aproximasse da banda e perguntasse: “Este será o último show de vocês?”

Qualquer reação seria reveladora. Se a banda virasse a cara, seria revelador. Se xingassem a menina, mais ainda. Se falassem qualquer coisa, por mais burocrático e ensaiado que parecesse, seria pelo menos uma resposta.

O problema é que a cobertura de TV – e não digo só do Multishow, mas da maioria dos canais que cobrem eventos como esse – não tem relevância jornalística alguma. É só cosmética. Ninguém quer desagradar ao evento, para não ficar sem credencial ano que vem.

Eu sou totalmente a favor de não-jornalistas trabalharem em jornais, TVs e rádios. Acho ótimo ler o Tostão ou ouvir ex-jogadores e músicos palpitando sobre futebol e cinema. Acho democrático.

Mas, às vezes, um jornalista faz falta.

Um jornalista enfiaria o microfone na cara de Kim Gordon e perguntaria na lata: “Esse é o último show de vocês?”

Qualquer resposta estaria, hoje, nos TTs do Twitter. Garanto.

Alguém pode argumentar: “Ah, mas é um festival privado, eles fazem a cobertura do jeito que eles quiserem.”

Privado nada. Dê uma olhada no site e você verá, perdido na montanha de logos de patrocinadores, alguns logotipos de prefeituras e até do governo do Estado de São Paulo.

Escrito por André Barcinski às 08h08

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O jornalista que tira os astros do pedestal

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Estou devorando “Everyone Loves You When You’re Dead” (em tradução literal, “Todo Mundo Te Ama Quando Você Está Morto”), novo livro de Neil Strauss.

 

Strauss foi repórter da “Rolling Stone” e do “The New York Times” antes de lançar biografias pesadas e divertidas de gente como Motley Crue, Dave Navarro e Marilyn Manson.

 

Sua praia é o lado mais obscuro do pop, os iconoclastas, inimigos públicos e psicopatas.

 

Strauss não é um crítico musical erudito, como Alex Ross ou Simon Reynolds, mas um fuçador de grandes histórias, na linha de Nick Kent.

 

O novo livro é uma coletânea de 228 trechos de entrevistas que ele fez nos últimos 20 anos.

 

Strauss diz que selecionou passagens – algumas muito pequenas, de duas ou três perguntas – que, segundo ele, “revelam como o artista é de verdade, sem a máscara que ele usa diante do público e da imprensa”.

 

Para isso, Strauss conta com raciocínio rápido e sangue frio, suas armas para pegar os artistas desprotegidos. E consegue isso sem parecer antipático ou forçar a barra, apenas fazendo a pergunta certa na hora certa.

 

Exemplo: Strauss arrancou de Omar-Rodrigues López (At the Drive-In, Mars Volta) a confissão de que foi vítima de incesto.

 

Em outra passagem, pergunta, na lata, a Brian Wilson: “Quanto do seu passado você é capaz de lembrar?” Wilson responde: “Minhas memórias mais sombrias são do período que passei em Malibu. Eu estava num tratamento médico.”

 

Há trechos incríveis de entrevistas com Madonna, em que ela descreve os efeitos que drogas sintéticas têm eu seu corpo, com Tom Cruise, sobre a influência da Cientologia em Hollywood, e com Rick James, que fala de seus anos na prisão.

 

Os artistas parecem se abrir para Neil Strauss. Marilyn Manson diz, sobre o boato de que distribuía cocaína para o público de seus shows: “Você acha que se eu tivesse tanto pó assim, eu daria para alguém? Eu estaria no camarim cheirando, claro!”

 

Numa das passagens mais reveladoras, Strauss lista diversos exemplos da falta de humildade de Joni Mitchell: “Produtor? Eu não uso produtor”, diz Mitchell. “Mozart nunca usou um produtor!”

Escrito por André Barcinski às 09h59

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Cinco momentos que você não viu de Neil Young no SWU

Viu Neil Young no SWU falando sobre salvar o planeta?

Eu não.

Separei cinco trechos dos meus DVDs prediletos de Young, pra gente imaginar o que poderia ter sido a presença dele no Brasil.

Year of the Horse, de Jim Jarmusch

Munido de uma câmera Super-8, Jarmusch acompanha uma turnê européia do Crazy Horse e faz esse documentário lindo, com algumas das melhores performances da banda. As cenas de arquivo também são incríveis, com imagens dos anos 70.

 

Red Rocks Live – Motorcycle Mama

Tenho adoração por esse DVD, gravado no anfiteatro Red Rocks, no Colorado, em 2000. O final é apoteótico, com a banda – incluindo o monstro Donald “Duck” Dunn, do Booker T. & the MGs no baixo – tocando debaixo de chuva.


Comes a Time – Heart of Gold

Trecho do filme-concerto dirigido por Jonathan Demme. Não consigo ouvir cinco segundos dessa música sem chorar. Alguma canção já começou mais linda: “Comes a time when you’re drifting / comes a time when you settle down”?

 

Hey Hey, My My (Into the Black) - Weld

O que adoro no DVD “Weld” são as imagens da platéia. Emocionante. Esse show é brutal. Só tenho dúvidas se é mais brutal que o de baixo.

Like a Hurricane – Live Rust

Gravado na turnê americana de 1978, continua o parâmetro segundo qualquer DVD de show deve ser medido. Se chegar a um décimo da emoção e força desse aqui, tá valendo.

Escrito por André Barcinski às 09h04

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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