André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Pearl Jam, ou como admirar uma banda sem gostar dela

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Hoje vou ao Morumbi cobrir o show do Pearl Jam para a Folha de S. Paulo.

 

Confesso que não sou grande fã da banda. O que não quer dizer que não admire muito os caras.

 

Em 1991, quando eu estava nos Estados Unidos fazendo meu livro “Barulho”, pintou a chance de entrevistar o grupo. Mas eu não tinha gostado nada de “Ten”, que me soava meio “classic rock” demais, e recusei. Besteira. O livro certamente teria vendido o dobro com o Pearl Jam.

 

Ao longo dos anos, vi vários shows do Pearl Jam. E foram todos ótimos.

 

No Lollapalooza de 1992, eles detonaram. Foram o grande destaque do festival. E olha que o line-up era uma monstruosidade, com Red Hot Chili Peppers, Ministry, Soundgarden, Ice-T e Jesus & Mary Chain.

 

Mesmo não gostando do som, é difícil não simpatizar com o grupo.

 

Achei incrível eles terem desafiado, nos anos 90, o monopólio da Ticketmaster, empresa que dominava a venda de ingressos para shows nos EUA.

 

Gosto também da atitude dos caras, sempre defendendo causas interessantes e tocando com pessoas legais – Neil Young, Nusrah Fateh Ali Khan, etc.

 

Eddie Vedder é um grande fã dos Ramones, foi amigão de Johnny Ramone, e sempre fez questão de falar da importância do grupo. Tenho certeza que muita gente começou a ouvir Ramones por causa dele.

 

Outra coisa: eles sempre deram força para bandas boas e que não tiveram grande sucesso comercial.

 

Na turnê sul-americana anterior a essa, chamaram o Mudhoney para abrir os shows. Para essa turnê, estão trazendo o mitológico X (razão de sobra para chegar cedo ao Morumbi).

 

Na turnê com o Mudhoney, fui visitá-los no camarim e tive a chance de conversar bastante com os caras do Pearl Jam. Eles só confirmaram o que muita gente me dizia: que eram todos gente finíssima, sem estrelismos.

 

Hoje, vou ao Morumbi, feliz, ver o show de uma banda cuja música não me interessa muito. Contraditório?

 

Hoje, na CBN...

 

Hoje, sou convidado do programa “Fim de Expediente”, na CBN, às 18h. Tô louco para sentir de novo como é fazer rádio ao vivo. Poucas coisas são tão divertidas.

Escrito por André Barcinski às 08h54

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O motoqueiro flamenguista e a blitz vascaína

 

 

 

 

 

 

 

 

 

V., vinte e poucos anos, trabalha na construção civil.

 

Semana passada, V. estava aqui em casa, ajudando num reparo. O rapaz parecia competente e trabalhador. Demonstrava apenas um único defeito, e bem grave: a insistência em usar camisa do Flamengo no trabalho.

 

No terceiro dia da obra, V. chegou duas horas atrasado. A explicação: sua moto havia sido apreendida numa blitz. “O PM era vascaíno”, disse.

 

V. deu azar: a PM fazia uma blitz para capturar dois menores de idade, suspeitos de matar uma balconista em Guarulhos. Os menores foram presos e a moto de V., apreendida.

 

Não sem razão: a moto não tinha sequer placa. E ele não tinha carteira.

 

Há mais de seis meses, V. pilotava a moto, novinha, sem placa ou habilitação: “Gastei tanto na moto que nem pensei em colocar a placa”.

 

V. me contou que a moto custou 13 mil reais, parcelados em três anos. Um valor alto, especialmente para quem ganha menos de mil reais por mês.

 

V. tem dois filhos do primeiro casamento e ajuda a sustentar outra criança, filho de sua atual namorada, M.

 

As multas pela apreensão da moto e a emissão da carteira de habilitação custarão a V. cerca de mil reais.

 

Perguntei a V. porque ele, que mora a menos de quatro quilômetros do trabalho, precisava de uma moto nova e tão cara.

 

Para viajar, certamente não era, já que ele nem se aventurava pelas estradas mais conhecidas, com medo de ser parado.

 

“Uma vespa usada, mais barata, não resolveria?”, perguntei. A resposta: “Ah, eu sempre quis uma moto nova.”

 

Que bom que V. pode ter uma moto nova. Sinal dos tempos. Mais uma prova da estabilidade econômica do país.

 

Ao mesmo tempo, que pena que V. não se importe em guiar uma moto sem placa ou habilitação. Mais uma prova de nossa esculhambação geral.

 

O caso de V. é uma analogia perfeita do Brasil: um país onde todo mundo pode comprar carro, mas que não tem estradas; onde as classes sociais mais carentes podem, finalmente, viajar de avião, mas que não tem aeroportos; um país que gasta bilhões com estádios para uma Copa desnecessária, mas que não tem dinheiro para construir hospitais e escolas.

 

O que falta a V. é o mesmo que falta ao país: infra-estrutura.

 

Os filhos de V. estudam num colégio público literalmente caindo aos pedaços, mas ele gasta 13 mil reais numa moto que não pode usar.

 

Sua namorada, M., vive com dor de cabeça. V. diz que ela precisa usar óculos, mas eles não têm dinheiro para ir ao oculista.

 

V. tem um celular que só falta voar, mas nunca tem crédito e só nos liga a cobrar.

 

Sem infra-estrutura, sem base, os bens materiais de V. não valem nada. São só cosmética. No dia em que alguém roubar a moto - que não tem seguro, claro - V. vai ficar a pé e com um papagaio de 13 mil reais no banco.

 

Que é exatamente o que vai acontecer com o Brasil depois da Copa do Mundo.

Escrito por André Barcinski às 07h43

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"Contágio" é o melhor filme de Soderbergh desde "Traffic"

Se você quer pegar um cineminha no feriado e não conseguiu ingressos para a Mostra, a melhor pedida é assistir a “Contágio”, de Steven Soderbergh.

É uma meditação cabulosa sobre uma praga que ameaça acabar com a humanidade.

É, também, o melhor trabalho de Soderbergh desde “Traffic” (2000).

Curiosamente, são filmes parecidos: ambos atacam grandes temas (em “Traffic” o tráfico de drogas, em “Contágio”, uma epidemia mortal), usando múltiplos personagens e histórias que se cruzam.

“Contágio” começa em Hong Kong, onde uma americana, Beth (Gwyneth Paltrow) janta num restaurante local, antes de embarcar de volta para casa. Numa escala do avião em Chicago, ela dorme com um ex-namorado e depois embarca em outro vôo para retornar ao marido (Matt Damon). Algumas horas depois, Beth sofre uma convulsão e morre. Os médicos não sabem dizer o que a matou.

A partir daí, o filme traça o alastramento do vírus em vários países (Inglaterra, Japão, Estados Unidos) e o esforço de médicos e cientistas para evitar sua disseminação.

Soderbergh é um cineasta bem acima da média. Consegue transitar bem por filmes de gênero, menores, como “Out of Sight”, e por megaproduções ao estilo de “Onze Homens e Um Segredo”.

Não acerta sempre – “Che”, por exemplo, foi uma bola fora – mas tem muitos filmes bons no currículo (meus favoritos são “Out of Sight”, “Traffic” e, agora, “Contágio”).

Soderbergh gosta de fotografar os próprios filmes – ele assina a fotografia de “Contágio” com o nome de “Peter Andrews” - e está sempre experimentando soluções estéticas variadas.

Por exemplo: “Contágio” é um filme-catástrofe que abre mão de vários clichês do gênero. Não há cenas de heroísmo ou corridas alucinadas contra o relógio. Às vezes, o filme parece um documentário, filmado de maneira fria e até um pouco distante, como se Soderbergh estivesse apenas observando as ações.

Nesse filme, ele prefere usar um artifício não tão batido e de alto impacto dramático: cenas em que a câmera permanece pousada, por alguns segundos, na imagem de um objeto – um corrimão, uma maçaneta, um copo – tocado por uma pessoa infectada. O resultado é de arrepiar.

“Contágio” pode ser visto de várias formas. É um assustador drama médico, mas funciona muito bem como uma analogia de Soderbergh aos nossos tempos, tocando em temas como globalização, miséria, paranóia e ameaças terroristas. A exemplo de seu diretor, um filme muito acima da média.

Escrito por André Barcinski às 09h17

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Livro desvenda o universo de Scorsese

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Se estivesse hoje em São Paulo, eu não perderia a exibição da versão restaurada de “Taxi Driver”, de Martin Scorsese, seguida de um debate com o crítico norte-americano Richard Schickel. Rola no Cine Sesc, às 20h10.

 

Schickel, 78, há décadas crítico da revista “Time” e autor de mais de 30 livros, incluindo biografias de Elia Kazan, Clint Eastwood, Woody Allen, Marlon Brando, Griffith e Harold Lloyd, vem ao país para o lançamento de seu livro “Conversas com Scorsese” (Cosac Naify).

 

O livro é fantástico. Uma aula de cinema em forma de bate-papo. Mas não é uma conversa qualquer. Reúne um dos críticos mais importantes dos últimos 50 anos e um dos cineastas mais importantes dos últimos 40.

 

Desde que François Truffaut lançou seu “Hitchcock/Truffaut”, em 1967, o formato de livro de entrevistas com cineastas se popularizou.

 

“Conversas com Scorsese” segue a mesma linha: Schickel sabatina Scorsese sobre cada um de seus filmes e sobre alguns temas específicos: sua infância, a formação no curso de cinema da NYU, a obsessão por John Ford, a importância da montagem.

 

Um capítulo especialmente revelador é sobre storyboards. Scorsese revela que faz os próprios storyboards há 40 anos, e que todas as cenas de seus filmes são imaginadas, primeiro, como desenhos, incluindo sequências famosas como as cenas de luta em “Touro Indomável”.

 

Por sorte, Scorsese gosta muito de falar sobre cinema. Diferentemente de alguns cineastas, que têm dificuldade em falar dos próprios trabalhos (Woody Allen, por exemplo, jura que nem assiste aos próprios filmes depois de terminados), Scorsese tem prazer em revelar os segredos por trás de suas obras.

 

É inevitável que um papo entre dois sujeitos que sabem tanto sobre cinema acabe, muitas vezes, desviando do rumo. Eles começam falando de um filme qualquer de Scorsese e, meia página depois, estão discutindo a montagem de Hitchcock ou uma cena de um velho filme de Frank Capra. Divertidíssimo.

 

“Conversas com Scorsese” é um daqueles livros que se lê fazendo anotações e listas de filmes para assistir depois. Recomendo demais.

Escrito por André Barcinski às 08h21

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Um livro para entender o (sub)mundo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

OK, eu sei, estou três anos atrasado. Mas só li o livro agora, é fantástico, e não posso deixar de recomendá-lo.

 

Estou falando de “McMáfia”, de Misha Glenny. Li o original em inglês, mas o livro foi lançado no Brasil pela Cia. das Letras.

 

Glenny, um repórter investigativo premiado por sua cobertura da Guerra da Bósnia, viajou por dezenas de países para tentar compor um cenário de como organizações mafiosas operam em diferentes países. Uma espécie de guia de viagem sobre os homens mais casca grossa do planeta.

 

Glenny foi à Rússia investigar a máfia local, visitou o Japão para conhecer mais sobre a Yakuza, investigou a indústria de falsificações na China, cybercrimes e o PCC no Brasil, estelionato cibernético na Nigéria, tráfico de maconha no Canadá.

 

Visitou os cartéis na Colômbia e México e foi a diversos antigos países comunistas para mostrar como a queda do Muro ajudou a criar poderosas organizações criminosas lideradas por ex-militares.

 

O começo do livro, em que Glenny fala da queda do comunismo e de como os países antes ligados à União Soviética sofreram com o surgimento de grupos criminosos, é impressionante.

 

A história foi igual em todos os países: assim que o Muro caiu, milhões de militares e membros de forças de segurança subitamente perderam seus empregos. A solução? Virar criminosos, aproveitando a bagunça dos Estados, a confusão quanto às fronteiras na Europa, e a fraqueza das instituições locais.

 

Aprendemos, por exemplo, que a máfia búlgara era formada não só por antigos membros do exército e da polícia secreta, mas também por halterofilistas e campeões de luta livre, modalidades em que o país sempre se destacou.

 

Outra surpresa é a descrição da máfia de contrabando de cigarros na Macedônia, que, na prática, sustentou o país todo durante vários anos.

 

Glenny conta que as próprias empresas fabricantes de cigarros participavam do esquema, enviando produtos sem imposto para países como Suíça, de onde eram transportados até o porto macedônio de Bar e, de lá, levados de lancha para o porto de Bari, na Itália (a conexão Bar-Bari).

 

Alguns trechos são especialmente chocantes. Que tal essa frase do diretor do Ministério do Interior da Bulgária:

 

“Nossos meninos (os búlgaros) estavam apenas brincando de gângster. Já os iugoslavos estavam roubando e matando na Europa, de verdade, por décadas. Até hoje, se você quer alguém morto de forma rápida e barata, contrate um sérvio. Eles são os melhores assassinos.”

 

Um ou dois dias depois que terminei o livro, recebi um spam de um certo Mr. James Jamal, do BOA (Banco da África), de Burkina Faso.

 

Sr. Jamal dizia que eu havia recebido 22,5 milhões de dólares de um parente não-identificado e que bastaria eu mandar algumas informações pessoais para resgatar o dinheiro.

 

Antes de ler “McMáfia”, eu me perguntava se alguém ainda caía nesse golpe. Hoje, já sei: muita gente cai. E esse estelionato cibernético faz fortunas para espertalhões em toda a África, especialmente na Nigéria.

Escrito por André Barcinski às 08h58

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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