André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Lux & Ivy, Johnny & June, e os casais mais legais do rock

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Acho que nunca escrevi no blog sobre a vida pessoal de ninguém, mas tenho de dizer quer fiquei bem triste com a notícia da separação de Kim Gordon e Thurston Moore, do Sonic Youth.

 

Os dois estavam casados há 27 anos. Achei que acabariam seus dias velhinhos, tocando suas velhas Jazzmasters sentados em cadeiras de balanço, vendo os netos brincando no quintal. Uma pena.

 

Resolvi fazer uma lista dos casais mais bacanas do rock. Veja bem, são os casais mais legais, não os mais famosos ou conturbados. Nada de Sid & Nancy ou Ike & Tina Turner. Prefiro casais que não se esfaqueiem.

 

Em ordem crescente, meus casais prediletos do rock. Faça sua lista e compare:

 

Chrissie Hynde e Ray Davies

Durou pouco – três, quatro anos – e rendeu uma filha, mas o romance, ao que tudo indica, não foi dos mais felizes. Chrissie e Ray quase se casaram. Chegaram a ir ao cartório, mas o escrivão se recusou a casá-los porque eles estavam brigando demais. Só fica a pergunta: por que não gravaram juntos? Já imaginou um disco pop reunindo Pretenders e Kinks?

 

Mary Ford e Les Paul

Um romance de 18 anos (1946-1964) e que acabou num divórcio feio. Mas vendo os clipes dos dois na TV americana, parecem o casal mais feliz do mundo. O que a música não faz...

 

PJ Harvey e Nick Cave

Esse durou pouco mesmo, e quase acabou com a carreira de Cave. Ele ficou tão arrasado com o fora que exorcizou o fim do romance no disco “The Boatman’s Call”. O disco tem várias menções a PJ, a mais óbvia em “West Country Girl”: “com seu sorriso torto e seu rosto em formato de coração...”.

 

Debbie Harry e Chris Stein

Ela era a musa da cena do CBGB’s, gostosíssima e sexy. Ele era um nerd, obcecado por magia negra e ocultismo. Foram “o” casal nova-iorquino da segunda metade dos anos 70. Tudo acabou, pelo menos romanticamente, no início dos anos 90. Musicalmente, continua até hoje. “Nunca vamos ficar longe um do outro”. Disse Stein. “Tenho certeza que nos conhecemos de vidas passadas”.

 

Marianne Faithfull e Mick Jagger

Já existiu um casal mais glamouroso que esse? Difícil. Dois gênios explosivos e difíceis, num romance que terminou com Marianne arrasada, falida e viciada em heroína, mas que inspirou Jagger a escrever algumas das músicas eternas dos Stones, como “You Can’t Always Get What You Want” e “Wild Horses”. Marianne co-escreveu “Sister Morphine”, e foi indiretamente responsável por “Sympathy for the Devil”, ao apresentar a Mick o livro “O Mestre e a Margarida”, do russo Mikhail Bulgakov, que o inspirou a escrever a música.

 

June Carter e Johnny Cash

Quando eles se conheceram, eram casados com outras pessoas. Isso foi em meados dos anos 50. Mas foi só em 1968 que June aceitou casar-se com Johnny. Ele era teimoso: pelo menos trinta vezes, havia pedido a mão da moça. Até que ela aceitou, em cima de um palco, durante um show. Ficaram juntos por 35 anos, superando drogas, álcool e doenças. Johnny Cash morreu em 2003.

 

Poison Ivy e lux Interior (The Cramps)

Sacramento, Califórnia, 1972. O estudante Erick Lee Purkisher sai de uma aula na faculdade e vê uma aluna pedindo carona. Ela é Kristy Marlana Wallis, está usando “um shortinho apertado, com um buraco na bunda, por onde se vê uma calcinha vermelha”. Paixão à primeira vista. No dia seguinte, descobrem que estão na mesma aula: “Arte e shamanismo”.

Por 37 anos, até a morte de Lux, em 2009, foram o casal perfeito do rock: lindos, loucos e apaixonados. Filhos? Só um, o Cramps. Mas que deixou milhões de netos por aí...

Escrito por André Barcinski às 08h18

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Uma cidade onde até os bueiros são lindos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não queria encerrar o assunto “férias” sem falar de Budapeste. Que cidade!

 

Acho Praga, Florença e Bruges lindíssimas, mas Budapeste superou todas. Nunca curti tanto passear por uma cidade.

 

Talvez seja pelo fato de Budapeste ser toda linda e surpreendente, mesmo longe das partes turísticas.

 

Praga e Bruges são impressionantes, mas chegam a parecer cidades cenográficas, de tão perfeitas. Difícil acreditar que alguém more ali.

 

Já Budapeste, não. A capital húngara tem uma pegada mais urbana, mais metrópole, e com uma arquitetura inigualável.

 

Em Budapeste, você acha desde ruínas romanas como Aquincum, relíquia da época em que a cidade, chamada Pannonia, fazia parte do Império Romano, até prédios art nouveau do início do século 20.

 

A cidade é uma alegre bagunça de estilos: tem prédios góticos, renascentistas, barrocos, e uma enorme influência da arquitetura otomana.

 

Acertou em cheio quem definiu Budapeste como “uma mistura de Paris com Istambul”.

 

Budapeste consegue superar até Paris na qualidade e beleza de suas ciclovias urbanas. E toda a área de Pest é plana, o que facilita os passeios. Já a região de Buda se espalha por morros verdes e bosques, mais adequados a caminhadas.

 

Sempre que viajamos, tentamos passar longe de áreas turísticas. A pior coisa que você pode fazer na Europa é enfrentar filas de museus e templos, disputando espaço com hordas de turistas. Fizemos a burrice de tentar ver a exposição de Munch no Pompidou, e saímos em 20 minutos. É pedir para se aborrecer.

 

Em Budapeste, dá para fugir dos turistas e, mesmo assim, ver lugares lindos. Para melhorar, mesmo as avenidas e monumentos mais populares, como a Praça dos Heróis, são amplos o suficiente para ninguém ser esmagado.

 

Em nossas viagens, tentamos também fugir dos horários de pico. Gostamos de passear pelas cidades tarde da noite, quando a maioria dos turistas está descansando das filas. E Budapeste é ideal para isso: segura e muito bem iluminada.

 

A vida cultural é intensa. A cidade tem pelo menos oito cineclubes, que exibem filmes alternativos e antigos. Na noite em que chegamos, rolou uma homenagem ao nonagenário Miklós Jancsó, herói do cinema húngaro, com a exibição de seu maravilhoso “Vermelhos e Brancos”.

 

Mas o melhor mesmo é andar sem destino pela cidade. Numa esquina qualquer, você se depara com algum prédio art nouveau, ou com algum telhado em estilo otomano, ou, quem sabe, até mesmo com um bueiro, que, em Budapeste, são verdadeiras obras de arte.

 

Para encerrar, um caso que rolou em nossa última noite lá, e que dá uma boa idéia de como os locais parecem gostar da cidade: estávamos voltando para o hotel, depois de um cinema e um jantar. Passava da meia-noite de uma terça-feira. As ruas estavam desertas.

 

Chegamos a uma praça muito bonita e arborizada, onde vimos um casal jovem, de vinte e poucos anos. Eles procuravam alguma coisa que haviam perdido na grama da praça, usando a lanterna do celular para iluminar os jardins.

Demoramos um pouco, mas descobrimos o que estava acontecendo: eles procuravam o local onde o cachorro deles (era um animal tão pequeno que eu nem havia reparado nele) havia feito cocô no gramado. Encontrado o cocô, o casal usou um saquinho para jogá-lo numa lata de lixo e prosseguiu seu passeio pela madrugada de Budapeste.

Escrito por André Barcinski às 07h31

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Que tal alugar um carro elétrico?

Passear na Europa é sempre bom, especialmente para confirmar que viver numa grande cidade ainda pode ser agradável.

 

Não vou nem falar de Budapeste ou Praga, onde estive. Perto de São Paulo e Rio, as duas cidades européias parecem de brinquedo, de tão lindas, limpas e organizadas.

 

Mas acho que dá para usar, como exemplo, Paris, uma cidade que também sofre com problemas que conhecemos bem, como pobreza, drogas, sujeira, poluição e excesso de gente.

 

Enquanto nós comemoramos recorde em cima de recorde na venda de carros e inauguramos estações de metrô que já nascem obsoletas, Paris vai na contramão e tenta tirar os carros das ruas.

 

Na semana em que estive lá, a cidade inaugurava o “Autolib”, sistema de aluguel de carros elétricos públicos.

 

Funciona igualzinho ao “Velib”, o fantástico serviço de bicicletas públicas: você pode pegar o carro elétrico em qualquer um dos postos espalhados pela cidade, e o devolve em qualquer outro posto, onde ele é conectado a uma tomada para recarregar.

 

Até junho de 2012, Paris terá dois mil veículos no sistema. Vi o carro funcionando, parece coisa dos Jetsons. Nem barulho faz.

 

Sobre Paris, não vou chover no molhado e falar das infinitas atrações culturais, das ciclovias, dos bistrôs onde se come pela metade do preço de SP, ou dos 177 filmes (eu contei!) que os cinemas exibiam numa terça-feira qualquer. Isso todo mundo já sabe (aliás, quem quiser uma lista de bistrôs bons e baratos na cidade, clique aqui).

 

O que continua impressionando, seja em Paris, Praga ou Budapeste, é o respeito ao bem público.

 

Além do carinho que a população tem com suas praças, parques e monumentos, existe uma barreira clara entre o público e o privado.

 

Explico: tente encontrar, em qualquer local público dessas cidades européias, algum outdoor de companhia de celular, supermercado ou automóvel. Não existe. O que existe é uma distinção clara: isso aqui é um bem público, e não pode ser usado para fins privados.

 

No Brasil, o Estado gasta tão mal nosso imposto, que até achamos bom quando alguma companhia de celular “adota” um parque ou uma praça.

 

Nossa sanha privatista é 100% alimentada pela incompetência do Estado em gerir seus próprios bens, como se a privatização, e não o bom uso de dinheiro público, fosse a solução para tudo.

 

Claro que os parisienses vivem reclamando dos altos impostos que pagam e da incompetência do governo. Mas, quando você visita as bibliotecas públicas, as piscinas públicas, os parques públicos e as cinematecas públicas, tem a certeza de que o dinheiro deles não está sendo tão mal gasto assim...

 

P.S.: Amanhã, a pedidos, um post sobre a inigualável Budapeste.

Escrito por André Barcinski às 08h21

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Em Praga, até show do Melvins é civilizado

Já estávamos ficando irritados.

 

Quatro dias em Praga e não havíamos visto um papel no chão.

 

Começamos a sofrer uma crise de abstinência de bagunça. Uma espécie de “cold turkey” do esculacho.

 

Tentamos sair da parte turística: “Vai ver que essa limpeza toda só rola perto dos turistas...”

 

Andamos meia hora de trem. O que, na República Tcheca, equivale quase ao interior do país.

 

Era a mesma coisa: transporte público perfeito. Ruas limpas e arborizadas. Povo cortês e alegre. Não havia pichações ou orelhões quebrados. Não vimos ninguém com a capota do Citroen aberta, ouvindo Dvórak ou Liszt no volume dez.

 

Tanta civilidade já estava dando no saco.

 

Até que veio a salvação: num jornal alternativo, descobrimos que o Melvins tocaria na cidade. Que bom: tirando presídios e casas de correção em geral, a maior concentração de degenerados de qualquer lugar pode ser encontrada num show do Melvins.

 

Chegamos no clube, e logo nossas suspeitas se confirmaram: não havia muita gente – umas duzentas pessoas – mas ali estava a fina flora da mocidade tcheca: punks, crusties, motoqueiros, headbangers em geral e muitos órfãos do grunge. Garantia de uma boa bagunça.

 

Mas não foi o que rolou.

 

Antes de falar do show, algumas considerações sobre o clube:

 

Depois de trabalhar com produção por um bom tempo, posso garantir que qualquer casa de shows brasileira que fizesse o mesmo que vi em Praga, iria à falência em três dias.

 

Veja bem:

 

Havia, no clube todo, o total de UM segurança. Na porta.

 

No bar, o cliente pagava a bebida diretamente ao barman, que depositava o dinheiro numa caixinha e servia o cliente. Não havia fichas ou câmeras.

 

O bar servia cerveja em garrafa de vidro, sem se preocupar que alguém pudesse quebrar uma delas na cabeça de um amigo.

 

O palco não tinha mais de 80 cm de altura. Não havia barreiras de proteção, e o equipamento da banda, incluindo pedais raros de Buzz Osbourne, ficava ao alcance da mão de qualquer fã.

 

Ah, quase ia esquecendo: o clube oferecia aos clientes testes gratuitos de bafômetro, para ninguém correr o risco de pegar o carro com mais álcool no sangue do que o permitido por lei.

 

Fumar cigarro era liberado no clube, mas ninguém jogava cigarro no chão. Quando o show terminou, contei oito copos de plástico no chão e nenhuma bituca de cigarro. Nenhuma mesmo.

 

Os punks esbarravam em você na frente do palco e pediam desculpas. Prova de que você pode odiar o sistema, mas não precisa odiar os outros.

 

Agora, ao show:

 

Sobre o Melvins, não precisa dizer muito. É uma das três ou quatro melhores bandas que vi ao vivo. Coisa de louco.

 

Nos últimos 20 anos, vi uns oito shows do Melvins, cada um melhor que o outro.

 

O grupo já tinha um dos maiores bateristas da Terra em Dale Crover. Depois que se juntou ao Big Business, incorporando o baixista Jared Warren e o baterista Coady Willis, atingiu outra estratosfera. Deixou de ser uma banda e virou uma espécie de obra de arte conceitual, esticando os parâmetros de como usar barulho e peso na música (não digo “rock”, porque é um pouco limitante para o que faz o Melvins).

 

Em cima de um palco, o Melvins é uma experiência sonora e visual inigualável. Ver Dale e Coady em ação, um destro, outro canhoto, com suas baterias espelhadas, é um espetáculo.

 

A banda atingiu um nível de sofisticação e perfeição técnica que permite experimentações altamente complexas e surpreendentes. Eles fazem barulho como ninguém e parecem, de vez em quando, estar voando em queda livre, sem piloto.

 

Mas é só impressão. Quando você menos espera, do nada, eles retomam a direção e controle. É uma espécie de free jazz/drone do inferno. Ou caos controlado, se é que existe.

 

Gosto muito das músicas rápidas da banda, mas as lentas são as mais fortes. O Melvins sabe que barulho não é nada sem um silêncio no meio para contrabalançar. E ver o respeito do público com as paradas no meio de “Lizzy”, por exemplo, foi uma coisa linda. O clube ia de 100 decibéis ao silêncio absoluto, para depois explodir de novo em distorção. Emocionante.

 

O show terminou às 23h. Enquanto o público saía educadamente do clube, sem brigas, xingamentos ou cusparadas, todos pareciam aliviados. Porque show do Melvins pode ser prenúncio de catástrofe. Em fevereiro, o grupo tocava na Nova Zelândia, no dia do terremoto de Christchurch. No mês seguinte, foi tocar no Japão. Adivinha o que aconteceu?

 

Alguém disse “tsunami”?

Escrito por André Barcinski às 07h40

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Cumbica, 7 da manhã: “Um dia, isso aqui vai explodir...”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Passei vinte dias no exterior e voltei no meio da semana passada.

 

Assim que saí do avião com minha mulher, percebi que alguma coisa não estava certa. Os corredores de Cumbica, que levam ao salão da Polícia Federal, estavam lotados.

 

Difícil calcular com exatidão, mas eu diria que a fila para a fiscalização de passaportes tinha quase um quilômetro.

 

Minha mulher está grávida. Por sorte, vimos um funcionário do aeroporto conduzindo uma idosa em cadeira de rodas. Entramos num comboio com outros idosos, gestantes, e famílias com crianças pequenas. Levamos 20 minutos para chegar ao início da fila.

 

“Esse aeroporto não tem mais jeito”, disse o funcionário. “Um dia, isso aqui vai explodir!”

 

Ele me contou que os funcionários de Cumbica vivem assustados. “Todo dia é essa tensão. Ninguém consegue trabalhar assim.” E nem era feriado, mas uma quarta-feira normal. “Se você acha isso ruim, experimente chegar numa segunda ou sexta”, disse o rapaz.

 

Segundo ele, toda manhã, seis ou sete vôos internacionais chegam juntos, e a infra-estrutura do aeroporto não é suficiente para atender a todos os passageiros. “Não tem um dia em que não aconteça uma briga ou discussão na fila.”

 

Depois de passar pela PF, fomos buscar as malas. Outra cena de caos: esteiras abarrotadas, passageiros brigando. Nenhuma fiscalização. Poderíamos ter roubado as malas que quiséssemos. Ninguém checou nossos tíquetes de bagagem.

 

A fila para a Alfândega era outro pandemônio: uma gigantesca procissão de carrinhos abarrotados, crianças chorando e adultos a ponto de explodir. Um fiscal me disse que a fila estava demorando, em média, uma hora e meia. Por sorte, não precisamos enfrentá-la.

 

Depois de passar pela PF, buscar as malas e percorrer a fila da Alfândega, a última parte da saga de Cumbica é conseguir um táxi.

 

Na calçada, a fila do táxi demorava mais de uma hora. Novamente, tivemos sorte: havíamos deixado nosso carro num estacionamento próximo e não precisamos apelar ao táxi do aeroporto.

 

Um cálculo rápido: duas horas na fila da PF, uma hora e meia na Alfândega, e mais uma hora para pegar um táxi. Total: quatro horas e meia, do avião ao táxi. Sem contar o tempo que se levaria para chegar em casa, desafiando o trânsito matinal em São Paulo. Calculo, por baixo, mais umas duas horas.

 

É uma temeridade submeter pessoas que chegam cansadas, depois de 12 ou 15 horas de vôo, a uma tortura dessas. Fiquei com a sensação de que um quebra-quebra poderia acontecer a qualquer minuto.

 

Um dia, vai acontecer.

 

Pode ser em Cumbica, em alguma fila de banco ou algum engarrafamento na cidade.

 

Um dia desses, duas pessoas vão discutir. A discussão vai levar a uma briga, que acabará se espalhando por toda a cidade, incontrolável.

 

Já vi isso acontecer.

 

Foi em 1986. Sarney, Sayad e Funaro tinham acabado de anunciar o ridículo Plano Cruzado, congelando os preços.

 

Eu estava no Centro do Rio. No Largo da Carioca, uma multidão se aglomerava em frente ao Bob’s. Todos vaiavam um gerente, que estava remarcando os preços, à vista de todos.

 

Bastou um sujeito jogar uma pedra no vidro da lanchonete. A multidão invadiu o lugar, destruiu e saqueou tudo. Vi senhores de terno e gravata saindo da lanchonete com caixas de pão.

 

Dali, a multidão, sempre crescente, invadiu outras lojas no Largo da Carioca. Bancas de jornal foram incendiadas e carros, depredados. Nem uma livraria escapou. A polícia chegou com cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo. Foi um caos.

 

Quarta-feira passada, em Cumbica, tive a mesma sensação. Só faltou alguém jogar a primeira pedra.

Escrito por André Barcinski às 07h57

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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