André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Um filme para entender o cinema americano dos anos 70

Sábado, à 0h05, (atenção, de hoje para amanhã), o TCM vai reprisar “A Década que Mudou o Cinema” (“A Decade Under the Influence”), documentário de Ted Demme e Richard La Gravanese sobre uma das fases mais prolíficas e brilhantes do cinema americano: os anos 70.

 

O filme não só traz entrevistas com os maiores cineastas e produtores do período, mas também tenta explicar por que tantos filmes bons foram produzidos no país a partir do fim dos anos 60.

 

Na época, os estúdios de Hollywood passavam por uma crise financeira braba. Pareciam ter perdido contato com o gosto do público.

 

Em meio à guerra do Vietnã e a conflitos sociais e raciais no país, os estúdios insistiam em produções de época e dramas históricos. Eram filmes caríssimos e pareciam relíquias de outra era. Havia um abismo entre o público e os filmes.

 

Até que surgiram jovens cineastas, como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, William Friedkin, Peter Bogdanovich e outros, que trouxeram uma nova visão ao cinema americano.

 

O filme conta como esses diretores foram influenciados pelo cinema europeu e japonês. Friedkin fala do impacto que a liberdade estética de Godard e da Nouvelle Vague teve nos jovens cineastas americanos. Sidney Lumet baba em cima de Akira Kurosawa.

 

Os europeus e japoneses, por sua vez, tinham sido influenciados pelo próprio cinema americano. Godard e Truffaut amavam Orson Welles, Nicholas Ray e Howard Hawks, e Kurosawa sempre foi obcecado por John Ford.

 

O documentário tem o mérito de dar espaço a figuras menos badaladas do período, como Hal Ashby, Monte Hellman, Paul Schrader, Jerry Schatzberg, Paul Mazursky e o produtor John Calley (que morreu anteontem). E valeria só pela entrevista hilariante com o maluco beleza Bruce Dern.

 

A nota triste é que o diretor do filme, Ted Demme, morreu de um ataque do coração, aos 38 anos, antes de terminá-lo. Ted era sobrinho de Jonathan Demme e fez um ótimo filme, “Profissão de Risco” (“Blow”), com Johnny Depp.

Escrito por André Barcinski às 09h13

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Vinte documentários para ver antes de morrer

O canal norte-americano Current TV está exibindo o festival “50 documentários para ver antes de morrer”. Os filmes foram selecionados por Morgan Spurlock, diretor de “A Dieta do Palhaço” (“Super Size Me”), filme em que relata sua experiência como cobaia numa dieta à base de sanduíches do McDonald’s.

 

A lista de Spurlock é, francamente, ridícula (veja aqui). Pra começar, ele inclui o próprio filme, que não passa de uma curiosidade, como o quinto melhor documentário dos últimos 25 anos. Claro que há filmes interessantes na lista, mas boa parte são desses que mais parecem programas de TV, como os documentários de Michael Moore, engenhosas peças de propaganda mas cinema de quinta categoria.

 

Resolvi fazer uma lista de meus 20 documentários prediletos, para comparar com a lista de Spurlock. Só concordamos em seis títulos. Aqui vai minha lista, em ordem cronológica. Faça a sua lista e compare...

 

Nanook, o Esquimó (Robert Flaherty, 1922)

Várias sequências foram reencenadas para as câmeras, mas isso não tira o brilho dessa obra-prima que conta um ano na vida de um esquimó. Flahrety fez também o extraordinário “Homem de Aran” (1935), sobre a vida em uma ilha remota da Irlanda.

 

O Homem com a Câmera (Dziga Vertov, 1925)

Até hoje é um choque ver esse mosaico da vida russa dos anos 20, em que Vertov praticamente inventa a linguagem cinematográfica moderna. 

 

Olympia (Leni Riefensthal, 1938)

A cineasta predileta de Hitler revolucionou o cinema com técnicas surpreendentes para a época – closes, câmeras que filmavam de ângulos inusitados e com movimentos fluidos, câmera lenta – e copiadas até hoje. O filme é controverso, mas, a bem da verdade, Riefensthal dedica imagens lindas a Jesse Owens, o atleta negro que irritou Hitler com suas vitórias nas pistas.

 

Marjoe (Howard Smith e Sarah Kernochan, 1972)

Imperdível. Conta a história de um evangelista, Marjoe Gortner, que tem uma crise de consciência e resolve mostrar para as câmeras suas técnicas de charlatanismo. O filme causou tanta revolta na época que nunca mais foi exibido, apesar de ter levado o Oscar. O negativo por pouco não foi perdido e o filme só foi lançado em DVD há pouco tempo.

 

Corações e Mentes (Peter Davis, 1974)

Obra-prima do cinema documental ou uma eficiente peça de propaganda contra a presença americana no Vietnã? De qualquer forma, vale a pena ver esse filme, que causou muita polêmica na época e continua impressionante.

 

Grey Gardens (Albert e David Maysles, 1975)

Filme arrasador sobre a vida de duas socialites decadentes, mãe e filha, vivendo numa mansão decrépita em Nova York e tentando manter as aparências.

 

Harlan County, USA (Barbara Kopple, 1976)

Clássico sobre a luta de mineradores do Kentucky contra as condições desumanas de trabalho impostas por uma grande empresa de carvão.

 

A Batalha do Chile (Patricio Guzman, 1975-1979)

Documentário em três partes que narra a ascensão e queda de Salvador Allende no Chile. O negativo foi doado pelo cineasta francês Chris Marker (“La Jetée”), e o cinegrafista sumiu, junto com milhares de outras vítimas de Pinochet. Cinema-verdade é isso aí.

 

Koyaaniskatsi (Godfrey Reggio, 1982)

Imagens delirantes, nenhum diálogo, e a música gélida de Phillip Glass fazem desse filme sobre os perigos da modernidade uma experiência aterradora.

 

Cabra Marcado para Morrer (Eduardo Coutinho, 1984)

Depois que os militares interrompem as filmagens de um documentário sobre lideranças camponesas, em 1964, Coutinho volta ao local, 18 anos depois, para retomar a história. Fascinante.

 

The Thin Blue Line (Errol Morris, 1988)

Errol Morris é o cara. Qualquer filme dele poderia figurar nessa lista. Escolhi “The Thin Blue Line”, história real de um homem condenado à morte por um crime que não cometeu. Não vou estragar a surpresa do fim. É ver para crer.

 

Francis Ford Coppola – O Apocalypse de um Cineasta (Fax Bahr, George Hickenlooper, 1991)

Narrado pela mulher de Coppola, Eleanor, documenta a saga das filmagens de “Apocalypse Now”, marcada por acidentes, problemas gigantescos e egos maiores ainda.

 

Hoop Dreams (Steve James, 1994)

O esporte como único meio de ascensão social para famílias negras norte-americanas é o tema desse filme comovente. O diretor acompanhou anos da vida de dois meninos que sonham em jogar basquete profissional.

 

Crumb (Terry Zwigoff, 1994)

Fiquei estarrecido quando vi este filme pela primeira vez e descobri a história da vida de Crumb e seu relacionamento traumático com os irmãos. Revi o filme há pouco tempo. Continuei estarrecido.

 

Paradise Lost: The Child Murders at Robin Hood Hills (Joe Berlinger e Bruce Sinofsky, 1996)

Berlinger e Sinosfky fizeram também os ótimos “Brother’s Keeper” e “Some Kind of Monster”, o documentário sobre o Metallica. Aqui, eles contam a história de três adolescentes acusados de matar um colega em um ritual de magia negra. Apavorante.

 

Meu Melhor Inimigo (Werner Herzog, 1999)

Herzog tenta entender a demência do amigo/inimigo Klaus Kinski. Melhor momento: um índio se oferece a Herzog para matar Kinski, durante a filmagem de “Fitzcarraldo”.

 

Na Captura dos Friedmans (Andrew Jarecki, 2003)

Os Friedman eram uma típica família de classe média suburbana. Até que o pai e um dos filhos são acusados de molestar sexualmente crianças. Uma história marcante sobre linchamentos coletivos e o sensacionalismo da imprensa.

 

Santiago (João Moreira Salles, 1997-2007)

Adorei esse filme extremamente simples e pessoal sobre a vida do mordomo da família Salles, Santiago, um personagem obsessivo e fascinante.

 

The King of Kong (Seth Gordon, 2007)

Filme divertidíssimo sobre dois nerds que disputam o título de campeão mundial do videogame “Donkey Kong”.

 

Dear Zachary: a Letter to a Son About His Father (Kurt Kuenne, 2008)

Quando seu melhor amigo – cuja esposa está grávida - é assassinado, Kuenne resolve fazer um filme sobre ele, para mostrar ao filho que vai nascer. Já vou avisando: é uma das experiências mais arrasadoras do cinema nos últimos anos.

Escrito por André Barcinski às 00h17

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No creo en brujas, pero que las hay...

 

 

 

 

 

 

 

 

A derrota arrasadora do espanhol Rafael Nadal para o sérvio Novak Djokovic no Aberto de Tênis dos Estados Unidos, anteontem, foi o mais recente capítulo de uma verdadeira maldição que parece ter se abatido sobre o esporte espanhol.

 

Há pouco mais de um ano, as seleções espanholas e os atletas de ponta do país sofrem com resultados decepcionantes, em diversas modalidades. Curiosamente, a “seca” parece ter começado logo após a conquista inédita da Copa do Mundo de Futebol, em 2010.

 

A série de fracassos esportivos espanhóis impressiona:

 

Tênis

Em julho de 2011, Rafael Nadal perdeu a primeira posição do ranking para Djokovic. O sérvio venceu todas as seis finais que disputou recentemente contra o espanhol.

 

Fórmula 1

Em novembro de 2010, o espanhol Fernando Alonso, que liderava o campeonato, chegou em sétimo lugar na última prova, em Abu Dhabi, e perdeu o título para o alemão Sebastian Vettel.

Em 2011, Alonso só venceu uma de 13 corridas e está 112 pontos atrás de Vettel na classificação.

 

Basquete

Em setembro de 2010, a seleção espanhola, campeã mundial e vice-campeã olímpica, perdeu para a Sérvia, numa zebra incrível, e terminou o mundial em sexto lugar.

 

Ciclismo

O ciclista Alberto Contador, bicampeão da Volta da França 2009/2010, começou 2011 envolvido em escândalo de doping. Escapou da punição, disputou a edição de 2011 do Tour de France, mas abandonou por conta de dores no joelho decorrentes de um tombaço.

 

Futebol

Logo após a vitória na Copa do Mundo, a Fúria disputou três amistosos. Empatou com o México e tomou goleadas de quatro de Argentina e Portugal.

Mais recentemente, sequer se classificou para o mundial Sub-17 e foi eliminada pelo Brasil no mundial Sub-20, na Colômbia.

 

O que acontece com a Espanha? Ninguém parece ter uma explicação.

 

Alguns buscam respostas em uma notícia aparentemente desimportante, divulgada em julho de 2010. Veja aqui.

 

Apesar de não acreditar nesse tipo de coincidência, acho que o público tem o direito de ser informado, para só então tirar suas próprias conclusões.

 

Enquanto isso, continua o mistério...

Escrito por André Barcinski às 07h19

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"Nevermind", 20 anos depois

 

 

 

 

 

 

 

Dia 24, “Nevermind” completa 20 anos.

 

Quem quiser saber tudo – mas tudo mesmo – sobre a gravação do disco, com detalhes técnicos e análises das letras misteriosas e criptografadas de Kurt Cobain, deve correr à livraria mais próxima e comprar “Kurt Cobain – Fragmentos de uma Autobiografia”, do chapa Marcelo Orozco, livro que já recomendei diversas vezes.

 

O que me interessa, hoje, é tentar entender as conseqüências do disco. O que ele mudou em nossas vidas?

 

Costuma-se dizer que “Nevermind” foi um divisor de águas. E foi mesmo.

 

Para entender o impacto do disco, é preciso pôr em perspectiva a cena musical da época.

 

Há 20 anos, havia uma barreira gigante entre o alternativo e o comercial. Eram dois mundos distintos.

 

Quem gostava de bandas independentes comprava discos em certas lojas, lia certas revistas, ouvia certas rádios e se correspondia com pessoas de gosto semelhante.

 

Era um clubinho fechado, que nasceu, cresceu e se multiplicou por muitos anos, sem ser incomodado e sem perturbar o “mainstream”.

 

Bandas como o Nirvana, que nasceram no meio independente, nem sonhavam em ter uma música nas paradas de sucesso ou um clipe na MTV. Isso era para os outros.

 

No entanto, lá pelo fim dos anos 80, uma série de fatores começou a mudar esse panorama.

 

Em primeiro lugar, a venda de discos independentes começou a crescer em todo o mundo. Ao mesmo tempo, os artistas pop mais famosos passavam por uma crise comercial e artística.

 

Grupos oriundos da cena alternativa, como REM, Red Hot Chili Peppers e Metallica, tornaram-se gigantes da indústria.

 

Em 1991, Perry Farrell lançou o Lollapalooza, festival que provou o potencial mercadológico da cena mais alternativa.

 

As grandes gravadoras, percebendo a maré favorável, começaram a contratar diversas bandas antes consideradas indesejáveis e sem potencial de mercado.

 

Daí veio “Nevermind”.

 

O que rolou imediatamente após o lançamento do disco foi um fenômeno semelhante ao que aconteceria, dez anos depois, com a bolha da Internet: megacorporações jogado dólares para o alto e comprando, a peso de ouro, qualquer bandinha – especialmente as de cabelo comprido e camisa xadrez.

 

Era insano: bastava Kurt Cobain elogiar uma banda para, minutos depois, ela ser contratada a peso de ouro. Aconteceu com Shonen Knife, Flipper, Eugenius, Flaming Lips, Redd Kross e TAD.

 

Até o Melvins, uma das bandas mais anticomerciais da história, ganhou uma bolada da Atlantic Records para gravar “Houdini”, disco em que Cobain tocou guitarra e, supostamente, produziu. Digo “supostamente” porque o próprio Buzz Osbourne me disse que Kurt só colocou o nome nos créditos para ajudá-los: “Kurt não era capaz de produzir nem um bolo instantâneo, quanto mais um disco.”

 

As grandes gravadoras compraram também diversos selos independentes.

 

Essa corrida ao ouro durou por uns dois ou três anos. Lá por 1995, a bolha indie estourou. E o resultado foi uma cena alternativa completamente esfacelada. Parecia o fim de uma guerra.

 

Algumas bandas – pouquíssimas, na verdade – sobreviveram. A grande maioria sumiu, levando junto bilhões de dólares em adiantamentos e contratos.

 

Selos alternativos que, por anos e anos, haviam formado bases sólidas de fãs, foram abandonados por seus novos donos.

 

Kurt, claro, já não estava vivo para testemunhar. E seu “Nevermind”, o disco que ele chegou a renegar, virou o símbolo dessa época que, paradoxalmente, marcou o apogeu e o início do declínio da cena alternativa.

 

“Nevermind” foi como o topo de uma montanha, que bandas, selos e fãs levaram anos para atingir, só para despencar lá de cima, abraçados, numa avalanche que soterrou todo mundo.

Escrito por André Barcinski às 09h04

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E se Glauber passasse na "Sessão da Tarde"?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sexta passada, fiz um post sobre a péssima qualidade das sinopses de filmes fornecidas pelas emissoras.

 

O leitor Danilo deu uma sugestão sensacional: e se todas as sinopses de filmes parecessem com as da “Sessão da Tarde”?

 

Confira aí algumas sugestões. E mande as suas, por favor...

 

Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola

Essa turminha do barulho vai invadir a selva em busca de muita aventura e confusão! Um pelotão muito doido, que vai fazer de tudo para achar o coronel Kurtz! E, no meio da guerra, eles ainda arrumam tempo pegar uma onda e cair no surfe! Um filme que vai divertir a sua tarde, com muita ação e alegria!

 

Hiroshima Mon Amour, de Alain Resnais

Ela veio da França. Ele, do Japão. Juntos, são um casal super atrapalhado, metido em uma grande confusão.  Uma história que é uma verdadeira bomba atômica. Prepare-se para um festival de gargalhadas, muita narrativa não-linear... e muita paquera, claro!

 

Saló, ou os 120 Dias de Sodoma, de Pier Paolo Pasolini

Você vai gargalhar com essa história muito louca! Um grupo de gatinhos endiabrados e gatinhas divertidas, armando a maior confusão em uma escola muito diferente.  A República Fascista de Saló vai ficar de pernas pro ar com essa turminha do barulho!

 

Gritos e Sussurros, de Ingmar Bergman

Três irmãs muito atrapalhadas, vivendo uma tremenda confusão. Agnes está com um problema, mas suas irmãs prometem ajudá-la... E farão de tudo para botar um sorriso no rosto da menina. Você vai se emocionar, gritar de alegria e sussurrar de felicidade com essa história emocionante!

 

Aguirre, a Cólera dos Deuses, de Werner Herzog

No meio de uma floresta encantada, um sujeito muito doido – e põe doido nisso! - comanda uma louca expedição, em busca da cidade de ouro. Uma aventura cheia de amor, brigas, perseguições...  e muita confusão! Uma aventura do Peru!

 

Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha

Sol... Calor... Alegria! Você vai se divertir a valer com as loucas trapalhadas de Dadá, Corisco e Antônio das Mortes! Essa turminha do balacobaco vai armar a maior confusão no meio da caatinga!  Quem vai vencer essa briga, Deus ou o Diabo? Prepare a pipoca e fique na torcida!

Escrito por André Barcinski às 09h01

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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