André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Emissoras preguiçosas prejudicam cinéfilos

Já virou hábito: todo dia, dou uma olhada na programação de filmes da TV, em busca de algo que mereça ser gravado. Há vários tesouros perdidos nas madrugadas.

Outro dia encontrei um filme chamado “Vivendo na Corda Bamba”. A sinopse dizia o seguinte:

“Três funcionários de uma fábrica de automóveis são amigos que passam seu tempo bebendo cerveja e se divertindo juntos.”

Vamos combinar que a sinopse não é muito animadora, certo?

Mas o filme era “Blue Collar”, de 1978, a estréia de Paul Schrader na direção, um drama cômico extraordinário com um elenco idem: Richard Pryor, Harvey Keitel e Yaphet Kotto.

Eu mal lembrava que o título em português era “Vivendo na Corda Bamba” e fiquei felicíssimo de poder revê-lo.

Mas o fato me chamou a atenção para o desserviço que as emissoras fazem ao não caprichar mais nas sinopses de suas programações.

Para um espectador ligado em filmes mais alternativos, seria essencial que os resumos dos filmes trouxessem informações sobre a importância da obra, de seu diretor e seus atores.

Outro exemplo: a sinopse de “Em Busca do Ouro”:

“Em plena corrida ao ouro nos EUA, homem parte para o Alasca em busca do valioso metal e encontra o amor.”

Não havia uma única menção a Charles Chaplin.

Da mesma forma, o resumo de “Festim Diabólico” não mencionava Hitchcock, e o de “Glória Feita de Sangue” ignorava Kubrick.

Vamos dizer que você esteja zapeando e encontre a seguinte chamada para um filme:

“Sanjuro Kuwabatake, um sagaz guerreiro, arrisca a própria segurança ao trabalhar para duas gangues rivais ao mesmo tempo.”

Qual a chance de você se animar a assistir? Pouca, acredito.

Mas e se a sinopse abrisse com “Clássico dirigido por Akira Kurosawa”, essa chance não aumentaria?

O filme, claro, era “Yojimbo”.

O caso me lembrou um episódio que rolou há mais de 20 anos, em meu primeiro emprego em jornal.

Havia um estagiário muito esforçado, que a editora promoveu a repórter. E sua primeira função foi escrever as sinopses dos filmes dos cinemas.

“Eu quero que você resuma o filme ao máximo, entendeu?”, mandou a editora.

No primeiro dia, ele mandou:

“Atração Fatal”: “Homem encontra mulher. Começa a confusão.”

Escrito por André Barcinski às 09h10

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Petrucio Melo invadiu minha casa!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Você já teve a sensação de estar em meio a uma situação tão bizarra e surreal que mais parecia um sonho?

Eu já. Várias vezes. Graças a um amigo, José Mojica Marins, que é um verdadeiro ímã para esse tipo de situação.

Certo dia, Mojica me ligou. Precisava de alguém para acompanhá-lo a uma “festa de gala”. Eu não tinha nada melhor para fazer mesmo.

A tal festa de gala seria num clube de samba no Bixiga. Era aniversário do apresentador Petrucio Melo.

Os mais velhos certamente lembram Petrucio Melo participando de programas de TV nos anos 80. Hoje ele é presidente e apresentador da TV Orkut.

Chegamos ao clube e logo fomos levados a uma mesa, onde já estavam alguns convidados. Fomos apresentados a um senhor, dono de um bufê em Valinhos ou coisa parecida. Ele estava nervosíssimo: “Vou entregar o prêmio de comunicador do ano para o fulano (não me lembro o nome), preparei até um discurso.”

Ele leu o discurso todo ali na mesa, para que déssemos nosso veredicto. A única coisa que lembro é que citava Gutenberg. A mesa toda aplaudiu.

Logo depois, começou um empolgante show de samba. Um corpo de baile formado por duas mulatas e um rapaz encenou coreografias que traçavam um panorama da história do Brasil.

No meio do show, Petrucio passou de mesa em mesa, cumprimentando todos os amigos. “Aqui está um dos maiores batalhadores do nosso cinema: José Mojica!”, disse Petrucio. Mojica retribuiu com elogios a “um grande homem das nossas comunicações”. Bonito.

Depois foi a vez de um dos momentos mais esperados da noite: a entrega do troféu “Artista do Ano”. O vencedor foi o cantor Ovelha.

Ovelha subiu ao palco. Emocionado, ouviu discursos de vários amigos, ao melhor estilo “Esta é Sua Vida”. Um senhor, dono de alguma rádio do interior, lembrou a primeira vez que viu Ovelha em cima de um palco: “Ele era um menino, estava muito nervoso e inseguro. Mas eu já tive a certeza, desde aquela primeira vez, que ali estava um dos maiores talentos de nossa música.”

O final da festa foi apoteótico: as duas mulatas do corpo de baile passaram de mesa em mesa, distribuindo – juro – máscaras de papel com o rosto de Petrucio Melo. E todos os convidados, fantasiados de Petrucio, entoaram o “Parabéns Pra Você”, enquanto o aniversariante soprava as velinhas. Inesquecível.

Da festa, levei, além de memórias eternas, uma linda máscara de Petrucio Melo. Mas a máscara não durou muito. Resolvi fazer uma surpresa para minha mulher e entrei em casa vestido de Petrucio. Ela estava lendo, deitada, e tomou um susto tão grande que saltou a uns dois metros de altura. Eu não via nada parecido desde Linda Blair em O Exorcista. Descontrolada, ela rasgou a máscara. Adeus, Petrucio!

Escrito por André Barcinski às 09h22

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Quando astros se xingam

 

 

 

 

 

 

 

 

Aproveitando o sucesso do post “Quando cineastas se xingam”, publicado há alguns dias, o leitor Ivo Branco me enviou uma lista, que ele diz ter sido compilada pelo blog Viver e Morrer no Cinema, com opiniões iradas de atores sobre alguns companheiros de profissão. É diversão garantida. Confira:

 

John Wayne sobre Clark Gable:

“Gable é um idiota. Você sabe por que ele é um ator? Porque é a única coisa para a qual ele é suficientemente inteligente.”

 

Tallulah Bankhead sobre Bette Davis:

“Eu sei quem anda espalhando boatos sobre mim. Depois de todas as coisas boas que falei sobre aquela bruxa. Quando a encontrar, vou arrancar todos os fios do seu bigode!”

 

Joan Crawford sobre Bette Davis:

“Ela tem um culto, eu tenho fãs. Há uma grande diferença.”

 

Bette Davis sobre Joan Crawford:

“Eu não mijaria nela nem se ela estivesse em chamas.”

 

Sterling Hayden sobre Joan Crawford:

“Não há dinheiro em Hollywood que me faria trabalhar em outro filme com Joan Crawford. E olha que eu gosto de dinheiro!”

 

Cary Grant sobre Marlon Brandon, Montgomery Clift e James Dean:

“Eu não tenho nenhuma simpatia pelos novos ídolos da tela, e isso inclui Marlon Brando e seu estilo de ‘method acting’. Certamente inclui Montgomery Clift e o péssimo James Dean. Algum produtor deveria escalá-los todos no mesmo filme e deixar os três se matarem. Depois, James Stewart, Spencer Tracy e eu voltamos e começamos a fazer filmes como costumávamos.”

 

Richard Burton sobre Marlon Brando:

“Marlon ainda não aprendeu a falar. Ele deveria ter nascido duas gerações antes e atuado em filmes mudos.”

 

Walter Matthau a Barbra Streisand:

“Eu tenho mais talento em um peido do que você em seu corpo todo!”

 

John Cassavettes sobre Ricardo Montalban:

“Montalban é, para a atuação de improviso, o que o Monte Rushmore é para a animação.”

 

Richard Harris sobre Michael Caine:

“Um gordo, flatulento, saco de vento de 62 anos. Um mestre da farsa, mascarando sua vasta limitação em virtudes humildes.”

 

John Gielgud sobre Ingrid Bergman:

“Ingrid Bergman fala cinco idiomas e não consegue atuar em nenhum deles.”

Escrito por André Barcinski às 08h32

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Acima de qualquer suspeita: uma entrevista com Scott Turow

 

 

 

 

 

 

 

Em 1987, o advogado Scott Turow usou o tempo livre que tinha na viagem de trem até o trabalho e escreveu, à mão, num caderno emprestado pela filha, um romance.

 

O livro, “Acima de Qualquer Suspeita”, acabou virando um best-seller internacional, tornou Turow um dos maiores nomes dos thrillers de tribunal, e foi adaptado para o cinema, com Harrison Ford no papel de Rusty Sabich, um promotor acusado de ter matado uma colega de trabalho.

 

Vinte e quatro anos depois, Turow lança “Inocente”, a continuação de “Acima de Qualquer Suspeita”. No livro, Sabich, agora um juiz, é novamente acusado de um crime.

 

Entrevistei Scott Turow, 52, para a Folha (leia aqui). Aqui vai a íntegra da conversa:  

 

- Por que o senhor decidiu fazer uma sequência de um livro que fez tanto sucesso quanto “Acima de Qualquer Suspeita”?

- Para ser honesto, por muitos anos eu nunca achei que faria uma continuação. Sempre achei que imitar a si mesmo é uma coisa muito limitante para um escritor, e eu tinha medo de tentar igualar um livro cujo sucesso, na época, ocorreu justamente porque consegui fazer algo que foi considerado novo.  Mas, depois de fazer outros livros de sucesso, com temas variados, eu perdi esse medo de me limitar. E muito tempo havia passado, e havia muita gente – incluindo eu mesmo – que gostaria de saber o que aconteceu com Rusty (Sabich, personagem de “Acima de Qualquer Suspeita”).

 

- O senhor ficou preocupado com as inevitáveis comparações com o livro original?

- Sim, fiquei intimidado. Eu escrevi o livro com um abutre sobre o ombro.

 

- Como é voltar a personagens que foram interpretados na tela por atores icônicos como Harrison Ford, por exemplo? Isso afeta a forma como o senhor descreve o personagem, hoje?

- Não acho que teve muito efeito no estilo, mas sou o primeiro a admitir que filmes são um meio tão poderoso que até eu mesmo via Harrison Ford em minha mente quando estava escrevendo. Mas posso dizer que, com o passar do tempo, Rusty tornou-se meu Rusty novamente, sem uma semelhança com algum ator.

 

- Quando o senhor escreveu “Acima de Qualquer Suspeita”, imaginou o personagem parecido com Harrison Ford?

- Sim. Sempre disse que, se você olhar a descrição física do personagem, verá que Harrison parece muito com ele.

 

Vamos falar um pouco de suas inspirações literárias: quais eram seus autorres favoritos antes de o senhor iniciar sua carreira de escritor?

- Charles Dickens, Saul Bellow, Graham Greene e John Le Carré.

 

- Há algum autor que o senhor acredita tenha lhe ajudado a moldar seu estilo e o tema de seus livros?

- Acho que Dickens teve muita influência na maneira como eu concebo romances, mas o estilo e conteúdo foram minhas próprias – e vacilantes – descobertas.

 

- Numa entrevista recente, o senhor disse: “Todo escritor precisa de outra atividade”. O senhor ainda busca muito de sua inspiração na vida cotidiana?

- Eventos contemporâneos sempre se infiltram em meus romances, mas raramente os dominam. As pessoas são dominadas por suas paixões pessoais, não por eventos correntes, a menos que isso seja seu trabalho. Os casos em que atuei como advogado não entram diretamente em meu trabalho, mas o meio e as circunstâncias inevitavelmente o influenciam.

 

- Estou curioso sobre seu método de trabalho. O senhor tem um método definido para escrever? Muitos autores estabelecem metas de tantas páginas por dia, por exemplo...

- Escrevo de manhã. Minha metodologia, basicamente, é caos organizado. Prefiro ser totalmente espontâneo, especialmente nas primeiras fases de um livro. Eu começo com as idéias básicas do tema do livro, depois começo a escrever para desenvolvê-lo melhor.  Às vezes, faço notas sobre detalhes da trama, outras vezes, escrevo diálogos. Eu pulo muito de uma coisa para outra, tentando encontrar meu caminho.

 

- O número de livros policiais e de mistério lançados toda semana é absolutamente inacreditável. Acredito que nenhum fã do gênero consegue se manter atualizado com todos os lançamentos. Como o senhor avalia a qualidade da literatura criminal publicada hoje?

- Acho que o nível é muito alto. A fronteira entre crime e literatura de ficção acabou, e grande parte dos livros hoje são psicologicamente mais realistas, com personagens bem definidos e prosa melhor que na época de Mickey Spillane (famoso autor “pulp”, criador do personagem Mike Hammer).

 

- O senhor leu recentemente algum livro que o tenha impressionado, no gênero?

- Li alguns livros da Tana French (autora irlandesa) e gostei muito, mas não sei se ela qualifica como “nova”. Recentemente, li a trilogia “Hunger Games”, de Suzanne Collins, que minhas filhas recomendaram.  Na teoria, são livros para adolescentes, mas todos que vejo lendo os livros são adultos.

 

Turow participa de sabatina na Folha

 

A Folha promove, em parceria com o UOL, no dia 9/9, às 13h, sabatina com o escritor e advogado americano Scott Turow. Ele participa de uma sessão de autógrafos após o evento.

Turow responderá a perguntas de quatro entrevistadores, da plateia e de internautas. O evento terá transmissão ao vivo.  Os entrevistadores serão Fernanda Mena, editora da Ilustrada, Josélia Aguiar, colunista da Folha, Taís Gasparian, advogada da Folha, e Diego Assis, chefe de reportagem do UOL Entretenimento.


Os interessados em participar do evento no Teatro Folha (av. Higienópolis, 618, 2º piso, São Paulo) podem se inscrever pelo e-mail eventofolha@grupofolha.com.br ou pelo telefone 0/xx/11/3224-3473, das 14h às 19h, de segunda a sexta-feira. É preciso informar nome completo, telefone e RG.

Escrito por André Barcinski às 08h59

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Nada une uma família quanto "Os Três Patetas"

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Toda família tem episódios marcantes em sua vida.

Para algumas, é a primeira vez que o bebê fala “papai” ou “mamãe”. Para outras, é o primeiro dia da criança na escola.

Aqui em casa, tivemos uma dessas experiências inesquecíveis semana passada: a primeira vez em que nossa filha pediu para assistir a “Os Três Patetas”.

Foi um choque. Eu assisto de vez em quando, tenho vários DVDs e costumo gravar alguns episódios do TCM, que reprisa a série de madrugada. Mas não sou nenhum especialista, como Paulo Cavalcanti, da Rolling Stone, ou o Walter, da London Calling, que sabem tudo sobre a série.

E nunca imaginei que uma criança de três anos e meio pudesse gostar de Moe, Larry e Curly.

Mas ela gosta. E muito. Seu favorito é o Larry, que eu sempre achei o peso morto do trio.

Ela gosta tanto do Larry que até o transformou em amigo imaginário, com direito a visitas à sua casa e passeios: “Mamãe, fui visitar o Larry hoje e ele me mostrou o jardim da casa dele.” Medo.

O mais curioso é que ela não começou a gostar por influência direta de ninguém. Numa noite qualquer, eu estava assistindo a um episódio. Ela viu um trecho, riu muito e virou fã. Agora não fala em outra coisa.

Como praticamente não vemos TV, estabelecemos um limite: um episódio de 15 minutos por noite. E eu dou uma olhada antes, para garantir que não haja nenhuma imagem mais pesada, como o Moe arrancando os dentes do Curly com um alicate ou queimando o pé do careca com um maçarico.

Ela ri demais com os três. E nós rimos mais ainda com as reações dela.

Expressões como “cucamonga” e “cabeça de pudim” (que o dublador de Moe, Borges de Barros, diz ter criado de improviso), viraram hits aqui em casa.

Por falar em Borges de Barros, que dublagem é aquela? Sem exagero, as vozes dubladas em português são muito mais engraçadas e marcantes que as originais (aliás, achei num blog da AIC uma bela entrevista com Borges de Barros, veja aqui).

E aqui tem uma entrevista que fizemos em 1999 com Borges e José Soares (que dublou o Shemp), no Garagem:

Parte 1

Parte 2

Boa parte do humor de “Os Três Patetas” vem do confronto com algum tipo de autoridade, seja um policial, bombeiro ou juiz. Inevitavelmente, o “homem sério” acaba levando a pior nas mãos dos Patetas.

É o mesmo tipo de humor anárquico dos Irmãos Marx e de grandes quadros escritos por John Cleese para o Monty Python. Acho isso fantástico.

E nossa filha já está começando a entender isso também. Num episódio que vimos há alguns dias, Moe, Larry e Curly são bombeiros e precisam tomar conta do carro do chefe dos bombeiros. “Papai, os que os Patetas vão fazer com o carro do moço?” Claro que o carro vira cinza.

Separei aqui um clipe que mostra a genialidade da dublagem brasileira. Dê uma olhada no que Moe diz, a 0:37, antes de esbofetear Curly. Passo mal toda vez que revejo isso...

Escrito por André Barcinski às 09h01

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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