André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Um Top 10 do cinema brasileiro

Há alguns dias, um leitor sugeriu que eu fizesse uma lista de grandes filmes brasileiros. Aí está.

 

É uma lista pessoal. Junta filmes que me impressionaram muito e outros cuja importância histórica não pode ser ignorada.

 

Como toda lista, está sujeita a esquecimentos e distrações. Mande a sua e compare.

 

Em ordem cronológica:

 

O Pagador de Promessas – Anselmo Duarte (1962)

Começa como um drama religioso –homem quer carregar uma cruz para pagar uma promessa - e termina como relato de uma história triste, usada como munição por religiosos, imprensa e políticos. Até hoje, o único filme brasileiro a vencer a Palma de Ouro em Cannes.

 

À Meia-Noite Levarei Tua Alma” (1964) e O Despertar da Besta”/”Ritual dos Sádicos” (1969) – José Mojica Marins

Juntei os dois filmes para abrir espaço para mais um cineasta. “À Meia-Noite” apresentou o personagem Zé do Caixão e é uma bomba blasfema de criatividade estética chocante. Já “Despertar” é, na minha lista, junto com “O Bandido da Luz Vermelha”, o maior filme feito no país. Uma radiografia cinzenta do Brasil pós-AI 5 e dos subterrâneos de São Paulo. Se Welles, Buñuel e Jodorowsky se juntassem e fizessem um filme na Boca do Lixo, sairia algo parecido com isso.

 

Deus e o Diabo na Terra do Sol – Glauber Rocha (1964)

Glauber Rocha sofre do mesmo mal de Raul Seixas: seus fãs são tão chatos e fazem tanta questão de endeusar até seus momentos mais sacais e auto-indulgentes, que prejudicam uma apreciação isenta de sua obra. “Deus e o Diabo” é um filme marcante, espécie de faroeste sertanejo de alto impacto visual. E a música de Sergio Ricardo é incrível.

 

Os Fuzis – Ruy Guerra (1964)

Soldados chegam a um povoado para proteger um carregamento de farinha de saques do povo faminto. Um drama intenso e emocionante, com uma atuação incendiária de Nelson Xavier.

 

A Margem – Ozualdo Candeias (1967)

Um delírio surrealista às margens do Tietê, filmado por um ex-motorista de caminhão que parecia estar reinventando o cinema à sua maneira. Um dos filmes fundamentais do Cinema Marginal Brasileiro.

 

O Bandido da Luz Vermelha – Rogério Sganzerla (1968)

Clássico absoluto, um filme totalmente em sintonia com as perplexidades e o caos do fim dos anos 60. Sganzerla mistura gibis, literatura “pulp”, filmes policiais, Samuel Fuller, radionovelas e Orson Welles, num samba do paulista doido que ainda é, pelo menos para mim, um dos filmes mais criativos e rebeldes feito no Brasil.

 

Pixote – a Lei do Mais Fraco - Hector Babenco (1981)

Baseado no livro “Infância dos Mortos”, de José Louzeiro, continua tão forte como há 30 anos. Revi recentemente, e o retrato do submundo paulistano continua chocante, mas há um lirismo ali que falta em muitos filmes do gênero. E Marilia Pêra, como a prostituta/”mãe” de Pixote, está fantástica.

 

Sargento Getúlio – Hermano Penna (1983)

Talvez a maior atuação de um brasileiro no cinema. Lima Duarte faz Getúlio, um sargento que tem a missão de levar um prisioneiro, adversário de um influente político de Sergipe, da Bahia para Aracaju. Baseado no livro de João Ubaldo Ribeiro.

 

Cabra Marcado Para Morrer – Eduardo Coutinho (1985)

Gosto muito dos filmes recentes de Coutinho, especialmente “Jogo de Cena” (2007), mas “Cabra” continua no topo da minha lista. Coutinho começou o filme como um documentário sobre um líder camponês, em 1964, mas o golpe militar interrompeu as filmagens. Dezessete anos depois, ele retomou o tema, acrescentando a história da própria interrupção do filme. Brilhante.

 

Cidade de Deus – Fernando Meirelles (2002)

E o Brasil aprende a fazer cinema pop. “Cidade de Deus” acabou de vez com os preconceitos – não sem fundamento - do público brasileiro contra a má qualidade técnica de nosso cinema. Bem feito, bem dirigido e bem atuado.

 

10 filmes que bateram na trave na lista:

 

Vidas Secas – Nelson Pereira dos Santos (1963)

Noite Vazia – Walter Hugo Khouri (1964)

São Paulo S.A. – Luis Sergio Person (1965)

Todas as Mulheres do Mundo – Domingos Oliveira (1966)

Dona Flor e Seus Dois Maridos – Bruno Barreto (1976)

O Homem que Virou Suco – João Batista de Andrade (1981)

Filme Demência – Carlos Reichenbach (1987)

Santiago – João Moreira Salles (2007)

A Festa da Menina Morta – Matheus Nachtergaele (2008)

Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo - Karim Ainouz e Marcelo Gomes (2009)

Escrito por André Barcinski às 08h34

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Um lembrete aos festivais brasileiros: Leonard Cohen e Ray Davies estão vivos!

 

Atenção, Rock in Rio, SWU, Terra e outros: Leonard Cohen e Ray Davies estão aí, vivinhos da silva. E nunca tocaram no Brasil.

Quem sabe alguém de bom gosto e boa vontade não se empolga traz os dois para se apresentar por aqui?

Leonard Cohen tem quase 77 anos. Voltou à cena em 2008, depois de anos exilado num monastério budista. Foi roubado pelo empresário e, falido, voltou a fazer shows. Sorte nossa.

A turnê que ele fez entre 2008 e 2010 rendeu dois discos ao vivo, um DVD, e alguns dos melhores concertos de sua carreira. E parece tê-lo revigorado criativamente, tanto que está produzindo um novo disco, seu primeiro de inéditas desde 2004.

Já Ray Davies, o gênio por trás do Kinks e um dos grandes cronistas pop da vida proletária inglesa, também está numa fase de ressurreição.

Lançou um disco não tão bom, “See My Friends”, duetos com Springsteen, Billy Corgan e – uhmm? – Bon Jovi. Mas tem feito shows sensacionais.

No fim de 2010, emocionou Glastonbury com um show dedicado a Pete Quaife, seu velho companheiro do Kinks, que havia morrido.

E acabou de ser o curador do festival Meltdown, em Londres, onde fez uma seleção fantástica de artistas, incluindo Sonics, Wire, Yo La Tengo, Madness, The Legendary Pink Dots e outros, além de ter encerrado o evento com uma apresentação em que cantou, na íntegra, o disco “The Kinks are the Village Green Preservation Society”, além de clássicos do Kinks, acompanhado por coral e pela Orquestra Filarmônica de Londres.

Taí um show que me faria aturar chuva, lama, distância, ou qualquer outro inconveniente.

Não custa sonhar.

Escrito por André Barcinski às 09h41

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Quando cineastas se xingam

 

 

 

 

 

 

 

O leitor “R.” (misterioso!) me chamou a atenção para uma matéria divertida no site “Flavorwire”, com uma lista das frases mais grosseiras que um cineasta já disse sobre outro.

 

Tem coisas com as quais concordo, outras discordo, e algumas que que são puro veneno (será que Vincent Gallo disse aquilo antes ou depois de trabalhar com Coppola em “Tetro”?) .

 

De qualquer forma, é muito bom ver cineastas falando o que realmente pensam, sem corporativismo ou gentilezas.

 

Aqui vai uma pequena amostra.

 

Ah, e um aviso: viajo hoje à tarde e volto quarta à noite. Por isso, adianto o post de quarta, aqui, e só conseguirei responder aos comentários amanhã à noite.

 

Ingmar Bergman sobre Orson Welles:

“Para mim, é uma enganação. É vazio. Não é interessante. É morto. ‘Cidadão Kane’ é um saco. As interpretações não valem nada. O respeito que esse filme tem (com a crítica) é inacreditável.”

 

Ingmar Bergman sobre Jean-Luc Godard:

“Nunca senti nada por seus filmes. Eles me parecem intelectualmente falsos e completamente mortos. Desinteressantes cinematograficamente e infinitamente tediosos. Godard é um tédio do c.... Ele fez seus filmes para os críticos.”

 

Werner Herzog sobre Jean-Luc Godard:

“Alguém como Godard me parece dinheiro falso quando comparado a um bom filme de kung fu.”

 

Jean-Luc Godard sobre Quentin Tarantino:

“Ele batizou sua produtora com o nome de um de meus filmes. Eu preferiria se ele tivesse me dado dinheiro.”

 

Jacques Rivette sobre Stanley Kubrick:

“Kubrick é uma máquina, um mutante, um Marciano. Ele não tem um único sentimento humano. Mas é ótimo quando máquinas filmam outras máquinas, como em ‘2001’”.

 

Tim Burton sobre Kevin Smith (depois que Smith disse, em tom de brincadeira, que Burton plagiou o fim de “Planeta dos Macacos” de um gibi de Smith):

“Todos que me conhecem sabem que eu não leio gibis. Especialmente um criado por Kevin Smith.”

 

Kevin Smith sobre Tim Burton (em resposta):

“Isso, para mim, explica ‘Batman’.”

 

Kevin Smith sobre Paul Thomas Anderson (especificamente sobre “Magnólia”):

“Nunca vou assisti-lo de novo, mas vou guardá-lo. Vou deixá-lo bem na minha mesa, como um lembrete constante de que um inflado senso de auto-importância é a qualidade menos atraente de uma pessoa ou de seu trabalho.”

 

David Gordon Green sobre Kevin Smith:

“Ele meio que criou uma Olimpíada especial para cinema. Ele baixou os padrões. Tenho certeza que os pais dele estão orgulhosos, só não é algo para o qual eu compraria ingresso.”

 

Vincent Gallo sobre Martin Scorsese:

“Eu não trabalharia para Martin Scorsese por 10 milhões de dólares. Ele não fez um filme bom em 25 anos. Eu nunca trabalharia com um ególatra decadente.”

 

Vincent Gallo sobre Sofia e Francis Ford Coppola:

“Sofia Coppola gosta de qualquer cara que faz o que ela gostaria de fazer. Se ela que ser fotografa, ela vai trepar com um fotógrafo. Se ela quer ser cineasta, vai trepar com um cineasta. Ela é uma parasita assim como seu pai, aquele porco gordo.”

 

Vincent Gallo sobre Abel Ferrara:

“Abel Ferrara estava fumando tanto crack quando fiz ‘O Funeral’, que ele nem ficava no set, estava sempre em meu quarto roubando uns trocados.”

 

David Cronenberg sobre M. Night Shyamalan:

“Eu ODEIO esse cara! Próxima pergunta!”

Escrito por André Barcinski às 11h49

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O palmito, esse desconhecido...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Nona de Beethoven, a Capela Sistina de Michelangelo, os três minutos finais de “Cinderela Baiana”... Algumas obras de arte são tão sublimes, tão próximas da divindade, que renovam nossa fé no ser humano.

 

Meu amigo Marcelo Orozco, um abnegado, sempre em busca dos raros lampejos de inspiração nessa época de trevas, acaba de encontrar, em meio a escombros cibernéticos e montanhas de lixo virtual, uma dessas obras capazes de elevar nosso espírito.

 

Peço licença ao Marcelo para transcrever sua descoberta. E espero, leitor, que ela tenha em sua vida o mesmo impacto dilacerante que teve na minha:

 

“Festa da Pupunha mobiliza agronegócio

 

3ª edição do evento traz atrações entre 8 e 11 de setembro e desperta importância do consumo consciente de palmito

 

Experimentar doce de palmito pode parecer algo exótico, mas a delícia deve conquistar o paladar dos visitantes da 3ª Festa da Pupunha e do Agronegócio, entre 8 e 11 de setembro. O evento, que acontece no Centro de Eventos de Juquiá, no Vale do Ribeira Paulista, pretende mobilizar o setor do agronegócio sobre a importância de uma solução sustentável para o consumo consciente de palmito no mundo.

 

Entre as atrações está o lançamento do livro de receitas da Família Floresta, especializada na produção de palmito, que se destaca há mais de 40 anos no mercado. Ao todo são 10 sugestões culinárias tradicionais, sendo duas delas assinadas pela chef Cris Macarrone (...)

 

No local haverá divulgação de insumos e serviços e também a 3ª Feira da Pupunha com seminários, palestras e cursos. Na praça de alimentação o destaque será a culinária regional. Em todas as noites haverá shows artísticos com grandes nomes como a dupla Jorge Mateus que marca presença no domingo (11/09).

 

No primeiro dia do evento (08/09) será realizado o IV Encontro de Apicultores no Vale do Ribeira, das 14h às 18h. No dia 9 de setembro acontece o 1º Seminário Estadual de Palmito Pupunha, das 8h às 18h. Neste dia o especialista em qualidade, fundador do Instituto Palmito Seguro e diretor da Palmito Floresta, Khalil Yepes Hojeije, abordará o tema “Desmistificando o palmito: produção, industrialização e consumo”, a partir das 15h10.

 

O 2° Encontro da Família Produtora de Banana do Vale do Ribeira dá início às atividades do dia 10 de setembro, às 8h. No mesmo dia serão realizados mini cursos gratuitos na área de industrialização de palmito e cuidados sanitários, de culinária à base de pupunha, além de recomendações de boas práticas de manipulação de alimentos e sobre palmito pupunha minimamente processado.    

 

Os inscritos do mini curso sobre industrialização do palmito e cuidados sanitários serão recebidos na agroindústria Palmito Floresta e as orientações terão início às 8h30. A organização do evento ressalta que as vagas são limitadas (...)

 

Para encerrar a programação dos eventos técnicos, no dia 11 de setembro, das 9h30 às 13, será realizado um dia de campo sobre o corte de palmito e demonstração de controle biológico com inseticida Boveril.”

 

Compromissos profissionais e familiares me impedirão de comparecer ao evento. Mas faço um apelo aos leitores: se alguém puder ir, disponibilizo o blog para um relato detalhado dos procedimentos. Seria um favor a todos nós, fãs e amigos do palmito.

Escrito por André Barcinski às 23h34

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Entrevista com Simon Reynolds, autor de "Retromania"

 

 

 

 

 

 

 

Sábado, a Ilustrada publicou uma entrevista (veja aqui) que fiz com o crítico musical inglês Simon Reynolds, que lançou um livro tentando explicar um dos fenômenos mais evidentes da cultura pop atual: por que tanta música nova parece cópia de música mais antiga?

 

O livro se chama “Retromania– Pop Culture’s Addiction to Its Own Past” (em tradução livre, “Retromania - A Obsessão da Cultura Pop por seu Próprio Passado”), ainda inédito no Brasil.

 

Como a entrevista foi longa, muita coisa não coube no jornal. Aqui vão alguns trechos:

 

No livro, você diz que tem um filho pequeno. Ele é fã de música? Como você compara a sua própria experiência, crescendo como um fã de música nos anos 70 e 80, à experiência do seu filho?

 

Kieran tem 11 anos e não parece muito interessado em música. Possivelmente, por ter um pai que é crítico de música e que fica tocando música o tempo todo e de todos os tipos, muitas vezes música estranha. É como se música fosse o “meu” negócio e ele estivesse em busca do negócio “dele’.

 

Kiean adora videogames, diferentemente de mim, que nunca fui interessado nisso. E ele também adora qualquer coisa relacionada a computadores – e-mail, Youtube, Ebay. Ele cresceu como parte da geração conectada. Este é seu mundo.

 

Acredito que, para a geração dele, música é legal e divertido, mas não tem a mesma importância que teve para a minha geração ou para a geração que sucedeu a minha, a juventude dos anos 90.

 

Nós realmente víamos a música como a principal arena cultural, era o que nos explicava a nós mesmos e parecia se conectar a todas as outras áreas da cultura e política. Se você, como eu, era ligado em punk e pós-punk, então lia certo tipo de livros, via certo tipo de filmes, tinha interesse em teoria crítica e outras coisas do tipo. Acho que a música foi relegada a ser apenas uma pequena parte do horizonte cultural, e não a parte principal.

 

Minha filha Tasmin tem 5 anos e ama música. Ela adora dançar, tem um bom senso rítmico e é capaz de passos incríveis, algo no meio do caminho entre o break e artes marciais. Ela tem artistas favoritos, como Pink, Justin Bieber, Ke$ha e Katy Perry. Basicamente, ela gosta de qualquer coisa que toque no rádio e que pareça uma versão pop do Techno e da house music que eu dançava nos anos 90. Ela curte melodia e ritmo, basicamente.

 

 

Você acha que a facilidade em baixar música tem, de certa maneira, desvalorizado a música?

 

Pessoas de tendência liberal ou de esquerda muitas vezes têm um reflexo anticapitalista de dizer: “Que bom que a música é de graça agora, que não está apenas enriquecendo corporações”. Mas sou da opinião que isso não tem funcionado muito bem para a música.

 

Claramente, é um desastre para os artistas e para a indústria. Mas também para ouvintes e fãs. Veja bem: quando a música custava dinheiro e vinha numa forma sólida, em que, para consegui-la, você tinha de ir a uma loja, e isso envolvia tempo e dinheiro, as pessoas davam mais valor a ela.

 

A equação é simples: se você gastou dinheiro num bem cultural, seja um livro, revista, disco, etc., você vai gastar tempo tentando extrair o máximo dele. Se você gasta dinheiro com um CD, vai prestar atenção nele quando tocá-lo, e vai tocá-lo mais vezes. Se você obtém um CD de graça, na forma de downloads, você fica mais propenso a ouvir poucas vezes e de uma forma mais distraída. Você vai ouvir a música enquanto faz outras coisas no computador (chamam a isso de “síndrome de atenção parcial”), e você muitas vezes nem vai ouvir o disco todo.

 

Além disso, se você vive baixando muita música, como as pessoas tendem a fazer quando conseguem música de graça, é matematicamente mais provável que você ouça cada canção menos vezes. E muitos discos só começam a se revelar totalmente depois de repetidas audições.

 

Para responder à sua pergunta: sim, eu diria que a cultura digital se fundamenta na facilidade, e que a facilidade de acesso e o custo mínimo de aquisição têm levado a uma depreciação no valor da música e à degradação da experiência audiófila.

 

Mesmo os artistas novos que você elogia no livro – Ariel Pink, por exemplo – fizeram suas carreiras reinterpretando o passado. Você consegue enxergar algo realmente novo sendo feito hoje em dia?

 

Sim, vejo um número razoável de coisas que eu poderia descrever como relativamente novo ou vagamente inovador. Mas aquelas coisas que, de vez em quando, surgiam como “Uau! FUTURISTA!”, essas sumiram, são cada vez mais raras.

 

Nos anos 90, havia vários gêneros ou movimentos que pareciam grandes ondas de inovação que se sustentaram por vários anos, ou por toda a década: gêneros como jungle, R&B, street rap ou dancehall.

 

Nos últimos dez anos, parece que os gêneros se tornaram quase estáticos, mas, de vez em quando, no meio de tanta coisa banal e mundana, você via o brilho de algo realmente novo. Em R&B, por exemplo, uma vez ou outra você via algo realmente extraordinário como “Umbrella”, da Rihanna, ou “Single Ladies", da Beyoncé.

 

O dubstep me parece uma extensão dos anos 90, como um tipo de versão adulta e lenta de jungle. Mas produz algumas coisas excitantes: o EP homônimo do Zomby e partes de seu novo álbum, ”Dedication”, que saiu pelo selo 4AD, as faixas de Cooly G no selo Hyperdub, algumas coisas de James Blake e Ramadanman.

 

Na música eletrônica tem gente fazendo coisas interessantes: Ricardo Villalobos, Actress, Tobias... Nomes como Oneohtrix, Point Never e Laurel Halo se inspiram muito no passado – música analógica de sintetizadores dos anos 70 e 80, New Age, etc., mas é inegável que fizeram coisas novas.

 

Uma das áreas onde, acredito, coisas muito interessantes vêm aparecendo é a área de manipulação de vozes: texturização digital de vocais, aceleração e redução de vocais, micro-edição de “samples” de voz. Você pode ouvir isso em música eletrônica extrema e underground (Burial, James Blake) e também no gênero witch house (Salem, etc.), e até na música pop mais comercial (Black Eyed Peas, Ke$ha).

 

Isso é excitante, embora, se você pensar bem, pode ser rastreado aos anos 90 e a coisas com vocais sampleados que produtores de house e jungle fizeram. Sem esquecer Cher e de sua faixa “Believe”, em 1999, com vocal manipulado via Autotune!

 

 

Há algumas semanas, o Arctic Monkeys colocou na web seu novo álbum para os fãs ouvirem. Cada faixa tinha um contador, que permitia ver quantas vezes havia sido ouvida. Mais de 75% das pessoas que ouviram a primeira música não chegaram à última. Você acha que isso pode ser explicado mais pelo déficit de atenção do público, ou pelo fim do LP como um formato de lançamento viável?

 

Acho que se refere ao que escrevi sobre a depreciação no valor da música e os efeitos da cultura digital na capacidade de atenção do público. O problema de ouvir música via computador ou Iphone conectado à Internet é que o mesmo portal que está conectando você à música é também capaz de, simultaneamente, conectá-lo a milhões de outras coisas. Então, há uma tentação irresistível a clicar em outra coisa e fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo – checar e-mails, baixar mais música, etc. Então você raramente está imerso apenas na música.

 

Publicações na web são criadas para desestimular o leitor a terminar de ler qualquer artigo, porque elas têm uma série de links coloridos e que chamam a atenção. As publicações não querem que você termine o artigo, porque querem o maior número possível de cliques. Quanto mais você pular de uma parte a outra, melhor para eles.

Escrito por André Barcinski às 09h27

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Entrevista com Simon Reynolds (parte 2)

Você acredita que a mesma visão que seu livro traz da música pode ser estendida ao cinema? Me parece que, desde o surgimento de Tarantino, Robert Rodriguez e outros diretores criados à base de filmes velhos em vídeo e TV a cabo, o cinema tem se tornado cada vez mais uma colcha de retalhos de outros filmes.

 

Não me parece tão crônico em cinema quanto em música. Você está certo sobre Tarantino, ele é o exemplo óbvio de um fenômeno que detalho em meu livro, que é o do “curador-criador”. E se no rock existem as “bandas de colecionadores de discos”, com músicos que trabalharam em lojas de discos (como Ariel Pink, por exemplo), o mesmo aconteceu com Tarantino, que foi balconista de uma locadora de filmes. Foi ali que ele criou todo seu conhecimento sobre filmes e sistematicamente dissecou a história do cinema. Então faz sentido que seus filmes sejam baseados em vários estilos e repletos de piadas e sacadas com filmes antigos. O mesmo ocorre com Jim Jarmusch.

Tenho uma filha de três anos. Alguns dias atrás, montei minha velha vitrola e toquei alguns discos para ela. Foi fascinante perceber a reação de alguém que, nascida na era digital, teve, pela primeira vez, a chance de ver uma agulha tocando num pedaço de plástico e produzindo som. Você acha que esse aspecto tátil da música, tanto no ouvir música quanto na produção, está mudando a maneira como a música é percebida?

 

É claro que existe algo de muito estranho na música pop moderna, em que se simula a energia e o som de música tocada ao vivo, mas onde toda a integridade da performance foi desvirtuada pelo uso de elementos de copy/paste que permitem mover a música e torná-la “perfeita”. Você consegue perceber, quase subliminarmente, que o que você está ouvindo não é real.

  

Não é de hoje que gravações de rock têm sido melhoradas por “overdubs” e erros têm sido consertados por edições e substituições, mas hoje vivemos a era em que os sons se tornaram apenas uma massa que pode ser processada ou mudada a gosto.

 

De uma certa forma, é exatamente como eu imaginava a música com o pós-rock, mas, em outro nível, tem uma certa fraudulência no ar, já que simula o som de uma banda tocando ao vivo. Depois, quando você adiciona tratamentos como compressão e AutoTune, o resultado é algo realmente horrível de escutar.

 

Em gêneros como hip hop, R&B e dance music, isso não parece importar muito, já que são gêneros antinaturais, dependentes da tecnologia e onde não há sequer a intenção de simular “pessoas tocando juntas num estúdio”.

 

Como autor e alguém que depende de seus livros e artigos para sobreviver, como você vê a troca de arquivos na Internet?

 

Bom, é ótimo poder achar aquele disco raro que eu sempre quis. Mas, de maneira geral, a troca de arquivos tem sido muito ruim para a minha apreciação de música. Para uma pessoa como eu, que cresceu numa época em que música custava dinheiro, ter música de graça na internet é como ganhar a chave da maior loja de discos do mundo. O problema é que nosso tempo não é infinito.

 

 

Eu adorei seu livro, mas tenho de confessor que me deixou triste, porque o futuro não parece muito promissor. Como a experiência de escrevê-lo te afetou?

 

Quando comecei, estava perplexo e ansioso pelo estado da música e, embora eu tenha encontrado muitas explicações no caminho, por meio de minha pesquisa e pensamentos sobre o assunto, terminei exatamente como comecei: perplexo e ansioso.

 

Concluí que há muita coisa legal para ouvir, mas que a maioria envolve, de certa forma, a reinterpretação do passado. Não tenho ouvido coisas que, na época, me pareceram tão novas e radicais quanto “Remain in Light”, do Talking Heads, por exemplo, um disco que, especialmente no segundo lado, parece conter em cada canção uma nova direção para a música.

 

Tenho acompanhado o lado eletrônico-techno-rave da música, mas a primeira década do século 21 parece ter atingido um ponto em que as pessoas estão experimentando com formas já conhecidas ou criando híbridos ao combinar coisas diferentes da própria história da música eletrônica. Então, tem sido difícil encontrar, hoje, a mesma sensação de novidade absoluta e energia que senti quando ouvi jungle, gabba ou techno minimal nos anos 90.

 

Eu diria que o futuro não parece muito promissor, embora, muitas vezes, períodos de estagnação sejam prólogos para algum tipo de erupção cultural.

 

Estou cautelosamente otimista sobre a nova geração de músicos que só conheceram a Internet. No mínimo, estou curioso sobre o que vai acontecer daqui por diante. Me parece que vivemos uma época interessante. A velha maneira analógica de fazer as coisas – a forma como a cultura funcionava – entrou em colapso, mas acho que alguma coisa vai surgir dessas ruínas.

 

Escrito por André Barcinski às 09h14

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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