André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Respostas Cretinas Para Perguntas Imbecis

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Continuando o post de ontem, separei alguns casos curiosos de entrevistas que, por uma razão qualquer, não saíram conforme o esperado.

Um leitor pediu que eu contasse o caso de um papo com Jon Bon Jovi que terminou em sangue.

Explico: quando me levantei do sofá do hotel para cumprimentá-lo, enfiei a testa num abajur de ferro e abri uma fenda na cabeça.

Bon Jovi e uma assistente, muito prestativos, pegaram toalhas no banheiro e me ajudaram a estancar o sangue.

Alguns minutos depois, já recuperado da chifrada, fiz a entrevista, sempre segurando uma toalha ensangüentada na cuca. Inesquecível.

Inesquecível também foi o dia em que um repórter japonês quase acabou com a entrevista de Jeff Goldblum durante o lançamento de “Jurassic Park”. O sujeito tomou a palavra:

- Jeff Gordbrummm.... ghrrrjhummkiooo... gruuhumnmjhnhn... Jurassic Paaaaark????

- Desculpe, o que você disse? – respondeu Goldblum.

O japonês mandou de novo:

- Jeff Gordbrummm.... ghrrrjhummkiooo... gruuhumnmjhnhn... Jurassic Paaaaark????

Por três vezes, Goldblum pediu que o japonês repetisse a pergunta, e nas três o jornalista emitiu a mesma mistura de grunhido, tosse e pigarro.

- Deus do céu, alguém me ajude! O que esse homem está querendo dizer? – suplicou Goldblum.

- Jeff Gordbrummm.... ghrrrjhummkiooo... gruuhumnmjhnhn... Jurassic Paaaaark????

Tiveram de buscar outro repórter japonês para traduzir:

- Senhor Goldblum, ele está perguntando que filme o senhor vai fazer depois de Jurassic Park!

Também nunca esqueço um repórter israelense que sempre perguntava aos artistas o que eles planejavam fazer depois de se aposentar.

Nas entrevistas de “A Época da Inocência”, Wynona Ryder achou que ele estava sugerindo que ela se aposentasse após o filme:

- Você achou que eu trabalhei tão mal assim?

Agora, inacreditável mesmo foi quando um velhinho barbudo e de cabelo tigelinha apareceu, sozinho, na redação da Ilustrada. Não lembro todos os detalhes – faz quase 20 anos - mas a cena se desenrolou mais ou menos assim:

- Pô, olha só aquele coroa, é a cara do Ray Conniff! – eu disse.

- Caramba, é impressionante! O cara é igualzinho ao Ray Conniff!

Ficamos rindo um tempão e fazendo piadas ridículas, enquanto o coroa andava do outro lado da redação que nem uma barata tonta:

- Vai lá, pede pra ele tocar My Way!

- Aí, Ray, onde você comprou essa peruca tinha pra homem?

Até que o coroa chegou perto de nós e disse:

- Hello, I’m Ray Conniff!

- Puta que pariu, o Ray Conniff!!!

Escrito por André Barcinski às 01h42

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Quando astros dão chilique

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Já aconteceu com todo jornalista: de vez em quando, uma entrevista envereda por um caminho pouco amistoso e termina de maneira traumática.

Tive algumas experiências ruins com entrevistados antipáticos ou esnobes.

John Lydon, por exemplo, foi insuportável. De mau humor, respondeu a todas as perguntas com monossílabos e não disse coisa com coisa.

Billy Corgan, do Smashing Pumpkins, fez tipinho de irritado durante uma coletiva e ameaçou sair da sala se as perguntas não “melhorassem de nível”.

Mas a pior experiência que tive foi com o ator Gary Sinise.

Nas entrevistas de lançamento de “O Preço de um Resgate”, um filme policial em que ele faz um detetive que seqüestra o filho de um milionário (Mel Gibson), o ator já chegou à mesa dos jornalistas com cara de poucos amigos.

Nesses eventos, os jornalistas são divididos em grupos de cinco ou seis, cada grupo ocupando uma das várias mesas espalhadas por um grande salão. Os entrevistados – atores, diretor, produtor – se revezam passando por todas as mesas, por períodos de 20 a 30 minutos.

Sinise já chegou bufando e reclamando com uma produtora.

A entrevista começou, e o bicho estava furioso. A cada pergunta, uma patada. Um pobre coitado perguntou:

- Como foi trabalhar com Mel Gibson?

- Como você acha que foi? Foi duro, cinema é trabalho duro! Ou você é daqueles que acham que atores são um bando de vagabundos que não fazem nada o dia todo?

Ficamos perplexos. Outro jornalista tentou mudar de assunto, mas as patadas continuaram. Sinise não dava uma resposta que não fosse um soco na cara.

Até que alguém perguntou como era, para ele, interpretar um vilão.

- Como assim, um vilão? Eu?

Eu respondi:

- Bom, mas você faz um policial corrupto que seqüestra uma criança...

- Ah, já sei! Vocês vão escrever no jornal que eu faço um vilão e vão estragar o filme para todo mundo que for ao cinema!

- Como assim, “estragar a surpresa”? Você aparece no trailer brigando com Mel Gibson! É claro que as pessoas vão saber que você é um vilão!

O cara ficou roxo que nem uma beterraba:

- O quê? Botaram isso no trailer!? Motherfuckers! Foda-se essa merda toda! - e deu um murro na mesa, derrubando xícaras de café e quase matando todo mundo do coração, antes de sair correndo da sala como um rinoceronte enlouquecido e encerrando a entrevista mais curta da história.

Escrito por André Barcinski às 00h57

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O que você assiste para se inspirar?

A grande arte tem a capacidade de levantar o espírito e nos inspirar ao sublime.

O cineasta Akira Kurosawa, por exemplo, já declarou que costumava ouvir sonatas de Beethoven de manhã, para clarear os pensamentos e facilitar a inspiração.

Selecionei aqui um pequeno trecho de uma obra que, há alguns anos, vem inspirando um sem-número de pessoas, artistas ou não.

São apenas três minutos de filme. Uma jóia fílmica com a rara qualidade de sintetizar toda a complexidade social, cultural e antropológica de nosso país.

Acompanhe:

0:06 – a contraposição de três imagens – o carro de luxo último modelo, o trabalhador com a enxada, e o avião ao fundo – são um comentário irônico sobre os extremos de miséria e riqueza do Brasil, um ícone de nossa “Belíndia”.

0:12 – A imagem de jovens praticando a desobediência civil, ao sujar a estrada com terra, é uma poderosa metáfora sobre o poder do proletariado e a viabilidade do confronto como instrumento de transformação social.

0:27 – Um monólogo poderoso sobre a importância da educação como ferramenta transformadora  de nossa sociedade.

0:32 – Ao antecipar o som da enxada batendo na estrada, claramente sem sintonia com a imagem, o filme nos faz refletir sobre o surrealismo da situação, em que crianças são submetidas a trabalhos forçados. Um artifício claramente inspirado nos experimentos do Teatro do Absurdo, mas raramente utilizado no cinema com tanta liberdade e força dramática.

0:35 – Um momento de intenso drama surrealista-religioso: a protagonista, tal qual Sâo Francisco de Assis, conversa com os pássaros, conclamando-os à revolução pacífica.

0:45 – Aqui, a sequência atinge o clímax de sua intensidade dramática: com um recurso extremo de pura inspiração metalingüística, que lembra os experimentos narrativos de um Godard circa “A Chinesa”, a protagonista interrompe a narrativa tradicional e promove uma ruptura, falando diretamente ao espectador. Note a ironia do texto, ao afirmar peremptoriamente a “fome” das crianças, ao mesmo tempo em que mostra os pássaros voando para a liberdade sob os olhares atentos dos jovens. É uma arrebatadora metáfora social e ambiental: mesmo famintas, as crianças, demonstrando notável consciência ecológica, não jantam os pássaros. A cena termina com mais um extraordinário arroubo metalingüístico (0:50), em que o som da pá - símbolo da opressão popular – chega aos nossos ouvidos uma fração de segundo antes da imagem correspondente.

0:56 – Outro momento de ruptura narrativa metalingüística, dessa vez acrescida de um adendo icônico, na forma da pomba da paz criada com as mãos da protagonista.

1:00 – A imagem diz tudo: a música como instrumento de revolução social. Mas percebam, nos detalhes, como a obra nos alerta para o real perigo da falta de consciência política de algumas camadas da população. No extremo direito da imagem, há a silhueta de um jovem de cabeleira avantajada que, diferentemente dos outros protagonistas da cena, não parece aderir à revolta de imediato. Parece amedrontado e complacente. Será uma referência ao personagem principal de “O Conformista”, de Bernardo Bertolucci?

A sequência musical, que fecha esse trecho, é uma obra-prima do realismo mágico, evocando alegorias políticas, religiosas e até culinárias para mostrar a força da arte como agregadora das manifestações populares mais vitais. Atentem, a 2:35, para a menção, tenebrosa porém necessária, dos perigos da repressão estatal, por meio da imagem de um lúgubre objeto voador. Um lembrete de que, enquanto não formos totalmente livres, estaremos sempre sujeitos a ameaças totalitárias.

Escrito por André Barcinski às 02h20

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Mais um disco para a lista de melhores do ano

Melhores discos do ano até agora (aqui em casa, pelo menos):

PJ Harvey – “Let England Shake”: PJ fala de guerras e pede paz sem ser chata ou panfletária.

Danger Mouse e Danielle Luppi – “Rome”: Música de cinema italiano ressurge pelas mãos de dois sujeitos talentosos e de bom gosto.

Anna Calvi – “Anna Calvi”: Siouxsie encontra Roy Orbison num disco tão lúgubre quanto bonito.

Surgeon – “Breaking the Frame”: Techno, ambient, drone, minimal... Sons desafiadores, cortesia de um dos grandes iconoclastas da música eletrônica.

Cat’s Eyes – “Cat’s Eyes”: Será 2011 o ano do renascimento gótico? Farris Badwan, do Horrors, se junta à soprano Rachel Zeffira e lança esse projeto que junta o som das “girl groups”de Phil Spector com os sons tenebrosos de Gyorgy Lygeti.

The Horrors – “Skying”: Juro que não achava que eles conseguiriam superar o disco “Primary Colors”, mas o Horrors mostra, mais uma vez, que está longe de ser apenas o xerox de Cramps e Birthday Party que aparentava.

A esses, somo agora “Demolished Thoughts”, terceiro disco solo de Thurston Moore.

Moore deixou de lado a microfonia e barulho do Sonic Youth e fez um disco acústico, produzido por Beck. Tem violinos, harpas, violões.

Estou ouvindo direto há pelo menos três semanas. É daqueles que ficam. Meio Nick Drake, meio Roy Harper. Coisa finíssima.

Não tenho planos de ver o Sonic Youth no SWU, acho que é a quarta ou quinta vez que eles tocam em festivais por aqui. Mas bem que Moore poderia fazer um show solo em algum lugar pequeno. E perto!.

Escrito por André Barcinski às 01h06

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Duas chances raras: Elio Petri e Paulinho da Viola de graça!

Quinta agora, dia 11, o Museu da Imagem e do Som (Av. Europa, 158, Jardim Europa) promove mais uma sessão de cinema em homenagem aos 90 anos da Folha de S. Paulo.

Será exibido o grande “A Classe Operária Vai ao Paraíso” (1971), do italiano Elio Petri. A sessão é gratuita e começa às 19h.

Logo após a sessão, participo de um debate sobre o filme. Estão todos convidados.

É uma chance rara de ver o filme de Petri numa tela grande. Não posso esperar para apreciar a fotografia de Luigi Kuveiller e, especialmente, a música marcante de Ennio Morricone, numa cópia em película (vejam acima que fantástico, Morricone regendo sua própria música para o filme).

“A Classe Operária Vai Ao Paraíso” é um dos maiores momentos do cinema político italiano dos anos 60/70.

Petri, junto com Gillo Pontecorvo, Francesco Rosi, Bertolucci e tantos outros, fizeram no período filmes politizados e esteticamente radicais, que ressuscitavam os temas sociais do neo-realismo, mas sob óticas narrativas mais experimentais e ousadas.

O filme de Petri é um bom exemplo. Na superfície, conta a história simples de um operário, Lulu (Gian-Maria Volonté), que se vê indeciso entre a complacência com as condições desumanas de seu trabalho numa fábrica e a revolta que poderia lhe custar o emprego.

Mas o filme é bem mais que isso. É uma alegoria freudiana sobre a relação do homem com o trabalho. Disse o roteirista do filme, Ugo Pirro: “Tanto Petri quanto eu éramos apaixonados leitores de Freud e de Jung, então era natural que, na estrutura do filme, houvesse traços desse nosso interesse.”

Pirro cita também Brecht e sua “busca de distanciamento da matéria tratada” como outra grande influência.

Outro grande destaque é a atuação de Gian-Maria Volonté, que faz de Lulu um homem no limite do patético, uma figura que ora inspira simpatia, ora repulsa.

Quem puder, compareça. Não é todo dia que se pode ver um filme desses na telona.

P.S.: Paulinho da Viola, Luiz Melodia e Joel Nascimento de graça?

Para quem estiver de bobeira no próximo fim-de-semana, recomendo dar um pulo aqui em Paraty, onde vai rolar o 1º Festival de Choro e Samba. Vão rolar shows gratuitos e ao ar livre de gente como Paulinho da Viola, Luiz Melodia, Henrique Cazes, Zé da Velha e Joel Nascimento. A programação está aqui.

Escrito por André Barcinski às 09h31

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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