André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Quando grandes cineastas cometem grandes abacaxis

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um leitor sugeriu: que tal uma lista de filmes péssimos feitos por grandes cineastas?

 

Selecionei onze para o time titular e mais cinco para o banco de reservas. Faça sua lista e compare. E bom fim-de-semana...

 

Werner Herzog – Vício Frenético (2009)

O que acontece quando o cineasta mais egocêntrico e centralizador da história – Herzog - encontra o ator mais canastrão e exagerado do planeta - Nicholas Cage? O resultado é essa refilmagem delirantemente ridícula do clássico “cult” de Abel Ferrara. O próprio Ferrara, ao assistir ao filme, resumiu tudo: “Espero que todas as pessoas envolvidas com esse filme queimem no inferno!”

 

John Huston – Fuga para a Vitória (1981)

O que John Huston tinha na cabeça quando aceitou dirigir um filme sobre um time de futebol formado por prisioneiros em um campo de concentração nazista, estrelado por Pelé e com Sylvester Stallone de goleiro? Ninguém pode nem acusar Huston de estar gagá, já que, depois, ele ainda faria “À Sombra do Vulcão”, “A Honra do Poderoso Prizzi” e “The Dead”.

 

Sam Peckinpah – Elite de Assassinos (1975)

Se você dublasse as vozes de James Caan e Robert Duvall com as de Renato Aragão e Dedé Santana, e dissesse que o filme era de JB Tanko, juro que eu acreditaria. Há uma inesquecível sequência de artes marciais em um navio que é de passar mal de rir.

 

Jean-Luc Godard – Alphaville (1965)

Tudo bem, Godard mudou o cinema com “Acossado” e “Pierrot Le Fou”, palmas pra ele. Mas desafio alguém a assistir a “Alphaville” hoje e achar qualquer coisa além de puramente ridículo. Um pastiche de ficção-científica e filme “noir” que envelheceu pior que um croquete esquecido num armário.

 

Roman Polanski – O Último Portal (1999)

Um filme de terror que provoca mais gargalhadas que sustos. O grande – porém efêmero – Elvis Mitchell, do New York Times, disse que o filme era “tão assustador quanto uma versão com marionetes de ‘ABruxa de Blair’”, e certamente não tão divertido”.

 

Michelangelo Antonioni – Zabriskie Point (1970)

Os melhores filmes de Antonioni – “L’Avventura”, “A Noite”, tratavam da incomunicabilidade dos seres humanos. Em “Zabriskie Point”, ele estendeu essa incomunicabilidade aos espectadores, que não entenderam patavinas daquele videoclipe pedante e sacal sobre a juventude rebelde do fim dos 60. No fim, rola uma explosão gigante na tela, o que causou erupções de aplausos de platéias em todo o mundo.

 

Bernardo Bertolucci – O Pequeno Buda (1994)

Keanu Reeves interpreta o príncipe hindu Siddhartha. Basta.

 

François Truffaut – A Noiva Estava de Preto (1968)

Tão ruim, mas tão ruim, que o próprio Truffaut admitiu: “os críticos estão certos, é ruim mesmo!”

 

Federico Fellini – Cidade das Mulheres (1980)

Um delírio surrealista sobre o feminismo, tão careta e moralista quanto sem graça. O diretor russo Andrei Tarkovsky resumiu: “É uma nulidade!”

 

Wim Wenders – O Hotel de Um Milhão de Dólares (2000)

Um policial ambientado num hotel cheio de gente muioto doida, bicho: tem um malucão que jura ser o quinto Beatle, e até Mel Gibson fazendo um policial de três braços (juro!). A idéia do filme foi de Bono, do U2, o que já era um mau presságio. Numa entrevista coletiva, Mel Gibson não se conteve: “O filme é mais chato que o c... de um cachorro!” Depois, de arrependeu: “Como pude ser idiota a ponto de falar aquilo? Eu produzi o maldito filme!”

 

Clint Eastwood – Gran Torino (2008)

Fiquei em dúvida entre este e “Cowboys do Espaço”, mas acabei ficando mesmo com “Gran Torino” e sua hilariante visão do bairro multiétnico em Michigan, com personagens tão caricatos que fazem “Desejo de Matar” parecer um documentário. O final, com o malvadão Clint se sacrificando como uma Joana D’Arc moderna, quase me matou de rir.

 

 

No banco de reservas:

 

Francis Ford Coppola – Jack (1996)

Robert Altman – Popeye (1980)

Martin Scorsese – Vivendo no Limite (1999)

Stanley Kubrick – De Olhos Bem Fechados (1999)

Brian De Palma – Missão Marte (2000)

Escrito por André Barcinski às 23h54

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Só a bandalheira nos une

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dia desses, vi um debate interessante na TV: jornalistas discutiam por que o povo brasileiro, mesmo submetido a um número infinito de escândalos e falcatruas de nossos governantes, não se revoltava.

O consenso foi de que os casos de corrupção e roubalheira eram tantos, que causavam uma certa preguiça no povão. As pessoas simplesmente não conseguiam acompanhar tantas notícias absurdas.

Tenho outra tese. E a minha consegue ser ainda mais pessimista...

Acho que as pessoas não se revoltam porque têm inveja dos corruptos. A maioria, no lugar deles, faria o mesmo. Ou até pior.

Cheguei à conclusão, infelizmente, de que a desonestidade é a cola que segura nossa sociedade. Sem ela, entraríamos em colapso.

Não tenho provas ou números para embasar minha teoria. Apenas exemplos empíricos do dia a dia.

Vamos a alguns casos práticos, todos ocorridos nos últimos dias:

Perto aqui de casa há um pequeno restaurante, que serve uma comida caseira maravilhosa. A dona do lugar é uma senhora simpática e falante, que chamarei de “Dona I.”.

Dona I. vive reclamando da prefeitura, que não incentiva o turismo local, que promete há anos asfaltar a rua dela e que fechou uma escola no bairro. Parece uma mulher atuante e politizada.

Há alguns dias, fomos ao restaurante. Estava fechado. Havia um sujeito lá, que disse ser o dono do imóvel. Ele nos contou que Dona I. fora despejada. Não pagava o aluguel há quatro anos. E pior: já tinha sido expulsa de outro local por dar o mesmo golpe.

Outra história curiosa: dias atrás, paramos numa floricultura na estrada e compramos várias mudas de plantas.

Ontem, o dono da floricultura veio entregar as plantas. Chegou num caminhão da prefeitura. E ainda me cobrou 15 reais de frete, “pra ajudar no diesel”.

Quer mais?

Conheço uma professora primária que vive num lote ilegal dentro de um parque florestal, assiste TV a cabo por meio de um gato, rouba eletricidade do poste e mata animais silvestres - supostamente protegidos pelo Ibama - para fazer churrasco. Mas vive reclamando do governo.

No meu quarteirão, se não pagarmos uma caixinha cada vez que os lixeiros passam (três vezes por semana), eles simplesmente esquecem o lixo apodrecendo na porta da nossa casa.

Se não dermos a caixinha do pessoal do Departamento de Água, ficamos a seco.

Semana passada, os rapazes que fazem entrega de supermercado aqui no bairro pediram uma ajuda para terminar a casa de um deles, que estava casando e “tinha uma filha pequena pra criar”. Comovidos, colaboramos com dez reais.

Ontem, comentando com um vizinho sobre o valoroso exemplo de solidariedade dos rapazes, descobri que eles dão esse truque há anos. Nem o prédio do Lalau demorou tanto pra ficar pronto.

Fico imaginando o que aconteceria se, de um dia pro outro, a corrupção acabasse no país.

Será que o povo estaria disposto a abrir mão de gatos de TV a cabo, ligações ilegais de eletricidade e caixinhas?

Duvido. Tá bom assim.

Escrito por André Barcinski às 00h06

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Quem é o diretor de cinema mais subestimado do planeta?

Se eu tivesse de votar, escolheria Michael Mann, disparado.

Claro que cinema não é campeonato de tênis, para ter ranking. Mas acredito que uma hipotética lista dos grandes diretores do cinema atual não poderia deixar Mann de fora.

Gosto de tudo que ele já fez. Até filmes menores, como “Colateral” (2004) ou “Thief” (1981), têm cenas fantásticas.

Mann faz filmes hipermasculinos, cheios de homens maus e violentos. Mas tem uma mão incrível para mostrar pequenos dramas pessoais em meio a uma grande história.

Dia desses, revi “O Informante”. É a história de dois homens, Jeffrey Wigand (Russel Crowe), um cientista de uma empresa de cigarro que resolve denunciar a firma por manipular o produto para viciar usuários, e Lowell Bergman (Al Pacino), um jornalista da TV americana que tenta levar a história de Wigand ao ar.

Além de ser um thriller empolgante – e baseado em uma história real, o filme é um drama intenso, mostrando como a vida pessoal desses dois homens foi afetada pela decisão de fazer a coisa certa.

 “Fogo contra Fogo” (1995), talvez o melhor filme de Mann, tem vários personagens fascinantes: Robert De Niro e Val Kilmer fazem dois assaltantes de banco; Al Pacino é o policial que os persegue há anos.

A história da caça aos bandidos se confunde com a história de vida de cada um dos personagens.

Numa época em que o cinema parece buscar cada vez mais os estereótipos, talvez para facilitar a vida do espectador, Mann faz o contrário: tenta humanizar todos os personagens. Em seus filmes, ninguém é só mocinho ou só bandido. Todos têm um pouco de tudo.

Tecnicamente, os filmes são prodigiosos. Não canso de assistir às cenas de tiroteio com a câmera no ombro, sem steadycam, tremendo mesmo.

Mann também adora filmar em movimento, por cima do ombro do protagonista, jogando o espectador diretamente na ação.

“Miami Vice”, “Fogo Contra Fogo” e “Inimigos Públicos” têm algumas das melhores sequências de tiroteios que já vi. Confira, acima, a perfeição técnica da famosa cena do tiroteio na rua, em “Fogo Contra Fogo”.

Aliás, o que o fotógrafo italiano Dante Spinotti, colaborador freqüente de Mann, fez em “Fogo Contra Fogo” e “Inimigos Públicos”, é brincadeira. Que esse cara nunca tenha levado um Oscar parece piada.

Mann tem outra qualidade: filma diálogos como poucos. Sabe criar tensão entre os personagens e esticar o drama até o limite do suportável.

Certamente, ele aprendeu muito quando trabalhou na série de TV “Police Story” com um grande criador de diálogos, o romancista americano Joseph Wambaugh.

Em “Colateral” – repito, um filme menor de Mann – há uma sequência em que o assassino de aluguel, interpretado por Tom Cruise, vai a um clube de jazz. Ele puxa conversa com o dono do local. Eles falam sobre jazz e Miles Davis. Você percebe, na hora, que há algo misterioso naquela conversa, um certo perigo escondido por trás das palavras amistosas. Não vou estragar a surpresa, mas o clímax da cena é inesquecível.

Escrito por André Barcinski às 08h00

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Cada época tem o cerol que merece

 

 

 

 

 

 

 

Brian Wilson tem uma canção com um dos melhores títulos já criados: “I Just Wasn’t Made for These Times” (em tradução livre, “Eu Simplesmente Não Fui Feito Para Esses Tempos”).

Você nunca se sentiu assim, deslocado no tempo? Incapaz de compreender o presente?

Eu já.

Esses dias, por exemplo, aconteceu duas vezes.

A primeira rolou quando fui soltar pipa - ou empinar papagaio, como dizem alguns -com minha filha.

Na praia, encontramos um amigo. Ele nos contou que uma criança havia cortado a mão na linha de pipa. “Foi cerol?” perguntei. “Que nada, foi a linha chilena!”, respondeu.

Juro que nunca tinha ouvido falar na tal linha chilena.

Chegando em casa, procurei na web. Descobri que a linha chilena é a grande coqueluche dos amantes da pipa: uma linha extremamente cortante e perigosa, tratada com uma mistura de quartzo moído e óxido de alumínio. Uma verdadeira espada ninja. E pior: vendida livremente na Internet.

No mesmo dia, a notícia: em Campo Limpo, Sâo Paulo, um policial à paisana que andava de moto morreu ao ter o pescoço atingido por uma linha dessas. O coitado quase foi decapitado.

O que houve com o velho cerol? Não é letal o suficiente? Já não basta a estupidez de empinar pipa com cerol, agora a molecada compra linha já pronta, e com máximo impacto cortante? Qual o próximo passo? Pipas eletrificadas? Papagaios com controle remoto?

Alguns dias antes, eu havia tomado outro choque de realidade: ao entrar numa loja de pesca para comprar anzóis, vi um sujeito adquirindo, todo pimpão, uma sonda para peixes.

“É moleza”, disse o vendedor. “Você vê até o tamanho do bicho!”

Sou eu, ou as pessoas estão ficando loucas?

Qual é a graça de pescar com uma sonda? Já que o negócio é facilitar a vida, por que o sujeito não compra logo o peixe numa peixaria?

Tudo bem que a vida moderna e a tecnologia estão aí para nos trazer conveniência, mas será que o pessoal não está exagerando?

A impressão é que ninguém quer dar sopa para o azar. O sujeito tem um sábado por mês para pescar, então não vai ficar esperando pelo peixe. Vai atrás dele armado até os dentes. A mesma lógica se aplica à linha chilena.

Sem querer soar nostálgico, mas lembro de uma época em que a gente ia soltar pipa ou pescar sem saber como seria o resultado. A graça era essa.

Escrito por André Barcinski às 08h44

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Você não precisa gostar do Rush para gostar do filme do Rush

Me perdoem os fãs do Rush, mas nunca consegui gostar da banda.

Sempre achei a música do Rush um saco. Não tenho paciência para aquele metal progressivo xaropento, com letras pomposas e a voz de galinha d’angola do Geddy Lee.

Até que assisti ao documentário “Rush – Além do Palco Iluminado”, que a TV a cabo está exibindo esses dias.

Depois de conhecer mais sobre a história do grupo e ouvir opiniões de fãs como Billy Corgan (Smashing Pumpkins), o ator Jack Black e Matt Stone, criador de “South Park”, mudei de opinião: agora, realmente odeio o Rush.

Porque o filme revelou coisas que eu não conhecia do grupo, como sua risível fase new wave, em que trocaram as guitarras pelo sintetizador e passaram a imitar o Human League.

Mas, confesso, gostei muito do filme. O que nos leva a outra questão: é possível curtir filmes – ou livros, ou programas – sobre artistas que você detesta?

Claro que sim. Uma boa história é uma boa história.

Gostei de conhecer mais sobre a vida dos caras. Não sabia, por exemplo, que Geddy Lee e Alex Lifeson eram filhos de sobreviventes do Holocausto.

Também fiquei impressionado com as imagens de arquivo. Numa cena em que Alex Lifeson fala de suas constantes brigas com a família, vemos um filme caseiro de Alex, na época com uns 16 anos, discutindo com os pais. Quem filmou isso?

Há imagens de ensaios do grupo na casa de Lee e da banda tocando em colégios, aos 15 ou 16 anos. E são cenas com ótima qualidade de som e imagem. Assombroso.

Mas, principalmente, fiquei fascinado com a história de vida de Neil Peart, disparado o personagem mais interessante dos três.

Obcecado por literatura e história, Peart parece um sujeito em constante crise existencial, sempre tentando se superar.

Há muito considerado um dos melhores bateristas do mundo, Peart procurou ajuda do lendário Freddie Gruber, um octogenário baterista que havia tocado com Charlie Parker, para ter aulas e melhorar sua técnica.

O filme conta também a história familiar trágica de Peart, que, depois de perder a filha e a esposa, saiu numa viagem de moto sem destino e sem dia para terminar.

Depois de percorrer quase 90 mil quilômetros e deixar a banda parada por anos, o baterista sentiu-se forte o suficiente para retomar a carreira.

Outro aspecto fascinante do filme é a obsessão da banda em ser reconhecida pela crítica. Era de se esperar que um grupo tão famoso e com fãs tão ardorosos já tivesse superado essa insegurança, mas Geddy Lee e Alex Lifeson parecem genuinamente surpresos com o fato de ainda carregarem a pecha de grupo “eternamente cafona”, como alguém escreveu há muito anos.

Curioso: eles não se acham cafonas, mas não vêem problema algum em tocar num palco decorado com dezenas de televisões de cachorro, como fizeram numa turnê recente (veja os frangos ardendo atrás de Geddy Lee, em 0:25) Coisas do Rush...

Escrito por André Barcinski às 10h01

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha.com. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha.com.