André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Uma brincadeira divertida para alegrar sua sexta-feira

 

 

 

 

 

 

Há um bom tempo, venho desenvolvendo um joguinho bem divertido. Chama-se “Assuste o funcionário público”.

O jogo não requer grande esforço ou inteligência. Basta um pouco de sangue frio e uma boa dose de cara de pau. Mas é diversão na certa.

A brincadeira consiste em criar uma situação de pânico repentino em algum funcionário público.

Mas note bem: o jogo só funciona se a pessoa estiver matando o trabalho ou claramente dando um “migué” na repartição. Ele não funciona com empregados públicos exemplares.

Por isso mesmo, a sexta-feira é ideal para brincar, já que boa parte do funcionalismo a considera parte do fim-de-semana e, por conseqüência, um dia dedicado a flanar.

O funcionário público é um ser extremamente territorialista, que se sente confortável em seu habitat natural. Por isso, a brincadeira funciona melhor quando você consegue surpreendê-lo fora de seus domínios.

Os locais mais recomendados são onde vários deles passam as sextas-feiras: botecos, restaurantes, pontos de jogo de bicho, karaokês e lojas.

Quando morava em Santa Cecília, eu costumava brincar muito em frente a um famoso restaurante uruguaio, onde, toda sexta, vários carros de chapa branca ficavam estacionados.

Uma de minhas táticas prediletas era agachar junto aos carros e, com o celular, fingir fotografar as placas. Menos de um minuto depois, vários engravatados saíam correndo do restaurante para mudar os carros de lugar. Que pândegos!

Outra variante divertida da brincadeira é entrar em alguma repartição (o horário ideal é depois de 16h de sexta), e perguntar pelos chefes.

Invariavelmente, o estagiário infeliz que estiver lá vai dizer que eles “precisaram sair”. Nesse caso, faça uma cara de revolta e use alguma frase do tipo “Ah, é? Então me dê os nomes de todos que não estão aqui, que vou passar para a secretaria!”. Mas lembre-se: saia correndo imediatamente, sem dar maiores explicações e deixando um clima tenso no ar. O resultado é fantástico.

Outra boa dica é usar sempre o nome de um suposto superior do funcionário. Procure usar sobrenomes comuns, como “Teixeira”, “Barbosa” ou “Duarte”, que sempre funcionam bem.

Um exemplo: outro dia, num canal aqui da cidade, vi quatro funcionários da prefeitura jogando tarrafas para pescar tainhas. Às 11 da manhã de um dia de semana. Detalhe: uniformizados e usando um carro oficial!

Usei o “método do sobrenome”, e o resultado foi incrível: “O quê? Pescando em horário de serviço? Vou ligar pro Teixeira agora mesmo!

As tainhas agradeceram. O erário, nem tanto.

Escrito por André Barcinski às 08h03

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Os deuses (da economia) devem estar loucos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O dólar chegou ao valor mais baixo desde 1999. Nunca foi tão barato passear em Nova York, jantar em Paris ou comprar em Milão.

Enquanto isso, nós, aqui no Brasilzão, vivemos num país cada vez mais caro.

A situação é ridícula.

Semana passada, Comprei um livro pela Internet. Foi mais barato adquirir o livro no exterior e pagar 15 dólares de frete que comprar a versão nacional.

Um jantar em qualquer biboca de Sâo Paulo custa mais que uma refeição completa em restaurantes estrelados na Europa e Estados Unidos.

Conheço um casal que foi a Miami fazer o enxoval de seu bebê. E não foi por ostentação não, é que ficava mais barato que comprar tudo em Sâo Paulo.

A situação afeta quem tem e quem não tem dinheiro.

Um casal de amigos acaba de adquirir um lindo veleiro de 40 pés. Eles compraram o barco no exterior, trouxeram-no da Europa e pagaram 96% de imposto (isso mesmo, 96%!) e, mesmo assim, o barco custou 40% a menos que um similar nacional, que não chega nem perto do importado em qualidade.

Outro amigo, que mora no Rio e trabalha como fotógrafo freelance, fez as contas e decidiu: de agora em diante, só fica no Rio de abril a novembro. Entre dezembro e março, ele aluga seu pequeno apartamento na Zona Sul para turistas e passa meses curtindo seu hobby: escalar montanhas na Patagônia.

“O que eu gasto de supermercado lá é cinco vezes menos que no Rio”, jurou.

Ou seja: explorar a Patagônia virou uma maneira de economizar dinheiro. Os deuses estão loucos. Com certeza.

Escrito por André Barcinski às 09h38

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O dia em que Telê Santana deixou uma multidão esperando

 

 

 

 

 

 

 

 

Telê Santana completaria ontem 80 anos.

Todo mundo tem uma história memorável sobre Telê. No Garagem, o programa de rádio que faço em parceria com Paulo Cesar Martin, Victor Birner contou como Telê, então brigado com a grande imprensa, fazia questão de conceder longas entrevistas para ele numa pequena rádio comunitária de Sâo Paulo (ouça aqui).

Eu também tenho um caso bacana sobre Telê.

No início de 2002, eu estava terminando, com meu amigo Heitor D’Alincourt, um documentário comemorativo do centenário do Fluminense, chamado “Saudações Tricolores”.

Nosso sonho era entrevistar Telê para o filme. Mas sabíamos que ele estava muito doente. Telê havia abandonado o futebol seis anos antes, depois de sofrer uma isquemia cerebral.

Falamos com o filho dele, Renê. Ele foi muito simpático e disse que ia conversar com o pai, mas que não podia garantir nada.

Não levamos muita fé. Era ano de Copa, e certamente toda a grande imprensa estaria procurando o mestre para ter sua opinião sobre a seleção. Com a saúde abalada, dificilmente ele teria ânimo para falar com dois manés fazendo um filme independente.

Mas, quando Renê disse ao pai que o filme era sobre o Flu, ele topou na hora.

Apesar de muito abalado, Telê deu uma entrevista emocionante sobre sua infância em Itabirito e sua paixão pelo Flu. Chegou a chorar lembrando o dia em que vestiu a camisa do clube pela primeira vez.

O filme ficou pronto. Marcamos a estréia para 21 de julho, dia do centenário. Seria uma exibição gratuita na sede do clube. Ligamos para Renê para avisá-lo da estréia, mas não tínhamos a menor esperança de que Telê tivesse condições de comparecer.

No dia, a sede estava lotada. Um telão foi montado no ginásio de esportes. Torcedores novos e velhos estavam lá. Havia personalidades como Pedro Bial e Nelson Rodrigues Filho, além de antigos ídolos, como Pinheiro e Píndaro.

Poucos minutos antes do começo da exibição, alguém avisa: Telê chegou!

Houve uma correria para a entrada do clube. Telê, acompanhado do filho, estava na porta da sede social.

No ginásio, alguém foi ao microfone e anunciou: “Telê Santana está chegando. O filme não começa até ele chegar!” O público vibrou como se fosse um gol.

Daí aconteceu uma coisa espetacular: boa parte da multidão saiu do ginásio e se espalhou pelo caminho entre a entrada do clube e o ginásio, para ver a passagem de Telê.

Ele andava muito devagar, amparado pelo filho e por amigos. As pessoas o aplaudiam como se fosse um desfile. Telê, emocionado, acenava para todo mundo. Muita gente chorava.

Demorou quase uma hora para ele completar o curto caminho (500, 600 metros?) até o ginásio. Quando ele entrou, foi uma explosão: não me lembro de ter visto alguém ser aplaudido com tanto carinho.

Fiquei tão aturdido com a comoção, que, estupidamente, não guardei uma foto sequer daquele dia. Mas achei na web uma imagem de Telê que, espero, mesmo os torcedores de outros times vão gostar de ver.

Escrito por André Barcinski às 11h01

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E o vencedor é...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Chegou ao fim a promoção para escolher o novo nome do blog.

Antes de qualquer coisa, preciso dizer que fiquei impressionado com a quantidade e qualidade das respostas.

Devo ter recebido mais de 300 respostas, até do exterior.

“Enciclopédia Barça” foi uma constante. Pelo menos oito respostas iguais.

Vieram também várias sugestões de nomes mais adequados a bandas de hardcore, tipo “Catarse Esquizofrênica”, “Vômitos, Arrotos e Doçura” e “Meus Dias de Vândalo”.

Outro tema predileto foi o de citações a bandas ou filmes: “Boing Boom Tschak”, “Hey Ho, Let’s Go!” e “Tutti Frutti”.

E chegaram também os extremamente radicais e criativos, como “Supercalifragilisticexpialidocious”, “Toca do Careca” ou “Um Lugar do Caralho”.

No fim das contas, optei por esses três:

3º - “Blitzkrieg Blog” – Eduardo José da Silva (Sâo Paulo - SP)

2º - “Queime Depois de Ler” – Bruno Batista de Paiva (Samambaia – DF)

1º - “Uma Confraria de Tolos” – Gustavo Rossato (alô, Gustavo, mande seu endereço, por favor!)

Gostei muito do título sugerido pelo Gustavo. Além de ser uma homenagem a um de meus livros prediletos, resume, com ironia, um espírito meio anárquico e festivo que, acredito, o blog atingiu. Graças a todos.

Escrito por André Barcinski às 09h31

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Amy e o surto de hipocrisia coletiva

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Engraçado como um fato vem, de vez em quando, botar as coisas em perspectiva.

Amy Winehouse morreu. De verdade. Fato.

Acabou o reality show macabro de sua vida. Nenhum fã vai poder aplaudir de novo quando ela chegar ao palco bêbada, ou quando esfregar as costas da mão no nariz, como se tivesse acabado de dar um teco.

Ontem, a mãe de Amy, Janis, disse aos jornais: “A morte dela era apenas uma questão de tempo. Pouco depois, a família Winehouse divulgou uma nota à imprensa, pedindo “privacidade”.

Curioso: a mesma família que pede privacidade é a que passou os últimos anos dando entrevistas a programas de TV sensacionalistas, como fez o pai de Amy, Mitchell.

A verdade é que a vida de Amy Winehouse foi uma espécie de farsa trágica, acompanhada em tempo real pelos fãs e pela mídia.

Amy não foi uma vítima. Era maior de idade e sabia muito bem o que estava fazendo.

Era uma pessoa doente e que precisava de tratamento.

Infelizmente, muita gente dependia dela. Celebridades não têm tempo para se tratar, porque não podem simplesmente desaparecer.

Uma das coisas mais sensatas que ouvi sobre o caso de Amy veio do médico norte-americano Drew Pinsky, especialista em tratamento de viciados. “Uma pessoa que chega ao estágio em que Amy chegou precisa de muitos meses de tratamento só para recuperar a consciência de que precisa se tratar”, disse. “Só que ela é uma celebridade, de quem muitas pessoas dependem para ganhar dinheiro, e parar de trabalhar é a última prioridade”.

Pisnky citou, como caso de recuperação bem sucedida, o ator Robert Downey Jr.: “Ele fez o certo: sumiu de cena por dois ou três anos, completou seu tratamento, e depois retornou à vida pública”.

Ironicamente, Pinsky é apresentador de “Celebrity Rehab with Doctor Drew”, um programa de TV dos mais apelativos, em que subcelebridades tentam se livrar do vício em drogas e álcool.

Diz muito sobre nós que a pessoa convidada para “iluminar” o caso de uma celebridade junkie seja, ela mesma, uma celebridade.

Sempre defendi aqui que a mídia é um espelho da sociedade. A mídia não cria, ela replica o sentimento coletivo.

Se existem repórteres e “paparazzi” que viviam perseguindo Amy, é porque há uma multidão de consumidores, babando por informações sobre a cantora, por mais inócuas que fossem.

E se outras junkies talentosas como Bille Holiday ou Janis Joplin tivessem vivido durante a era do Youtube, garanto que haveria um site como www.when willbillieholidaydie. Sinal dos tempos.

Escrito por André Barcinski às 10h40

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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