André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Qual o maior momento de Stanley Kubrick?

Há alguns dias, eu conversava com o escritor James Ellroy sobre seus filmes policiais prediletos e ele mencionou “O Grande Golpe” (“The Killing”, 1956), de Stanley Kubrick.

 

Coincidência: na noite anterior, eu tinha revisto o filme no TCM. Quando disse a Ellroy que “O Grande Golpe” era, junto com “Glória Feita de Sangue” (“Paths of Glory”, 1957), meu favorito entre os filmes de Kubrick, ele concordou: “Ele só decaiu depois desses, não?”.

 

Tenho de concordar com Ellroy. Por mais famosos e cultuados que sejam “2001”, “Doutor Fantástico” e “Laranja Mecânica”, esses dois filmes da fase inicial de Kubrick são os que me dão mais prazer assistir.

 

“O Grande Golpe” conta a história do assalto a um hipódromo, durante uma importante corrida. Sterling Hayden (1916-1986) lidera uma gangue que pratica um roubo perfeito.

 

O filme é “pulp fiction” pura. Adaptado de um romance de Lionel White (herói de Godard e Tarantino) e com roteiro de outro ás do “noir”, Jim Thompson (que, não por coincidência, escreveu também “Glória Feita de Sangue”), é uma história policial perfeita e um filme perfeito.

 

Eu gosto de tudo nele: até a narração, que tanto me incomoda em outros filmes, nesse lembra muito novelas de rádio, adicionando urgência e emoção à trama.

 

Não há um fotograma sobrando. Tire 30 segundos do filme e nada mais faz sentido. É uma aula de edição e de como contar uma história de forma fluida e imaginativa. Tem 83 minutos e parece que dura 15.

 

E o final? Se não viu, assista.

 

Dizem que Jim Thompson escreveu quase tudo e que Kubrick, um megalômano e egoísta, só lhe deu os créditos de “diálogos adicionais”. Acredito.

 

Como já escrevi aqui no blog, não estou entre os grandes fãs de Kubrick. Há uns 25 anos, li um texto de Rogério Durst sobre “Doutor Fantástico”, que nunca esqueci: “O filme é sessentoso”, definiu Rogério.

 

É isso mesmo: “sessentoso”. Transpira anos 60 por todos os fotogramas. Um filme bonito, bem feito e que capturou com perfeição o “zeitgeist” da Guerra Fria. O problema - e acho que isso aconteceu com vários filmes de Kubrick – é que ele perde força quando tirado da época em que foi feito. Sinceramente, “Doutor Fantástico”, hoje, é só uma sátira ruim.

 

O mesmo pode-se dizer dos outros “filmes-evento” de Kubrick. Gosto muito de “Laranja Mecânica”, que ainda surpreende, mas não consigo ver mais “2001” ou “Spartacus”, que parecem peças de brechó.

 

Acho “Barry Lyndon” um filmaço, se não fosse pela péssima escolha de Ryan O’Neal como protagonista.

 

E quanto a “O Iluminado”, acompanho a opinião da pessoa mais capacitada para falar do filme, Stephen King: “um cético como Kubrick não poderia captar o mal que existe no hotel (...) Então ele procurou pelo mal nos personagens, e transformou o filme numa tragédia doméstica com vagos tons sobrenaturais (..) é um filme de um homem que pensa demais e sente de menos!”

Escrito por André Barcinski às 23h51

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Prefeito de Paraty quer acabar com o Parque Nacional da Serra da Bocaina

 

 

 

 

 

 

 

 

O prefeito de Paraty, Zezé Porto (PTB) foi a Brasília pedir a revogação do decreto 68.172 que, em 1971, criou o Parque Nacional da Serra da Bocaina, numa área de cerca de 100 mil hectares que abrange, além de Paraty, os municípios de Sâo José do Barreiro (SP), Cunha (SP), Areias (SP), Ubatuba (SP) e Angra dos Reis (RJ).

 

A prefeitura acha que a existência do parque dificulta a vida dos cidadãos locais, já que isso impede a aprovação de licenças ambientais para realização de obras. Segundo a prefeitura, na realidade, “o parque foi criado, mas não foi instituído”.

 

Em entrevista a um jornal da região, o prefeito citou, como exemplos de obras paradas, a estrada Paraty-Cunha, uma rede elétrica na área do Parque, e uma nova rede de água em Trindade. “Todo feriado, toda temporada falta água em Trindade, porque foi um bairro que cresceu, com muitas pousadas, e a rede, hoje, é insuficiente.”

 

Ninguém aqui é contra o progresso. Mas, na minha opinião, acabar com o parque seria catastrófico. É ele que ainda mantém – e com muita dificuldade - a região preservada.

 

Porque a gente já sabe o que o fim dele significaria: especulação imobiliária, destruição e poluição.

 

Se isso está acontecendo mesmo com a existência do parque, como seria sem ele?

 

A prova de que isso acontece mesmo com a existência do parque veio da própria boca do prefeito de Paraty. Quando ele diz que o parque “foi criado, mas não foi instituído”, ele está certo. A quantidade de gente que mora ou tem pousadas e quiosques em locais irregulares – em Trindade e em vários outros locais – é assustadora.

 

A lógica é perversa: se uma lei não foi cumprida, acabe-se com a lei. Faz algum sentido?

 

As pessoas que conheço e que trabalham em APAs, no Ibama e no Inea, dizem que a prefeitura local entrega projetos sabidamente mal feitos, sem estudos decentes de impacto e viabilidade, só para serem recusados. Depois, inundam a cidade com cartazes do tipo: “Este projeto está parado por causa do Ibama”, só para deixar os órgãos mal falados entre a população local.

Escrito por André Barcinski às 09h43

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Miles Davis e o dia em que 600 mil pessoas pararam para ouvir jazz

Vi esses dias na TV “Miles Electric: a Different Kind of Blue”, um documentário sobre o show de Miles no famoso festival inglês da Ilha de Wight, em 1970. Saiu em DVD no Brasil e passa de vez em quando no Multishow HD. Não perca.

 

O show foi um marco na carreira de Miles Davis. Ele e banda tocaram diante de 600 mil pessoas, o maior público que já presenciou um show de jazz. Na mesma noite, tocaram The Doors, The Who, Ten Years After, Joni Mitchell e Tiny Tim, entre outros.

 

O filme é dividido em duas partes. Na primeira, fãs, críticos e músicos falam sobre a carreira de Miles. Há imagens de arquivo sensacionais.

 

A segunda parte traz a íntegra do show, que durou apenas 38 minutos.

 

Na época, Miles, inspirado pela música de Jimi Hendrix e Sly Stone, tentava uma fusão do jazz mais tradicional com uma pegada mais pop. Tinha acabado de lançar “Bitches Brew”, uma guinada na direção de um som eletrificado e cheio de improvisações.

 

O álbum dividiu a crítica. Muita gente pirou com as experimentações elétricas de Miles. O resto não entendeu nada.

 

No filme, fãs como Santana defendem o disco, enquanto outros, como o crítico Stanley Crouch, o destroem: “Era uma porcaria”, disse Crouch. “Miles vendeu sua alma e fez um disco para tentar capitalizar em cima do público de rock.”

 

Ponto para o filme: não é um tributo chapa branca qualquer. Não alivia a barra de Miles, que é mostrado como o sujeito difícil e temperamental que era.

 

As entrevistas são reveladoras. Destaque para o percussionista brasileiro Airto Moreira: “Não sei como conseguimos tocar, no estado em que estávamos”.

 

Quando o show começa, dá para entender o que Airto quis dizer: não há uma pessoa, entre as 600 mil, que pareça minimamente sã. As imagens do público – dá para ver até Gilberto Gil, com cara de quem estava gostando muuuuiiiitoooooo – são ótimas.

 

A parte final do filme traz o show. E é lindo ver uma multidão daquelas fazer silêncio para ouvir jazz.

 

Miles comanda um supergrupo que tinha Chick Corea e Keith Jarrett nos teclados, Gary Bartz no sax, Jack De Johnette na bateria, Dave Holland no baixo e Airto Moreira na percussão.

 

Quando perguntaram a Miles o nome de uma música que a banda tinha tocado, ele respondeu: “Pode chamar de qualquer coisa”. Ninguém definiu aquilo com tanta precisão.

Escrito por André Barcinski às 00h18

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O choro do Casão e a bronca da Melancia

 

 

 

 

 

 

 

Cada vez mais, o jornalismo – especialmente na web – é ditado pelo gosto do público.

 

Como a aferição de audiência na Internet acontece em tempo real, dá para saber, imediatamente, o que está agradando ou não. Se uma notícia está sendo muito lida, ela vai para o topo das homes e ganha destaque.

 

Nisso, o jornalismo cibernético se diferencia do impresso, onde não há chance para trocar ou mudar uma matéria, uma vez que ela tenha sido publicada.

 

Só de olhar para as homes dos principais portais do país pode-se ter uma boa idéia do que está interessando ao público. E a notícia não é nada animadora...

 

Anteontem, um dos destaques foi a participação de Casagrande no “Domingão do Faustão”, em que o ex-jogador chorou e se emocionou ao falar sobre seu problema com drogas.

 

Isso sempre funcionou na TV. Ver uma celebridade aos prantos parece enternecer o coração de todos.

 

Veja bem: eu acho que Casagrande foi muito corajoso ao falar de seus problemas. Só fico constrangido que um desabafo extremamente pessoal e traumático precise ser transformado num espetáculo de expiação pública, especialmente com Faustão exalando sua condescendência e apoio moral.

 

Outro tema que bombou semana passada: o jogador Elano anunciou, via Twitter, o fim do namoro com a atriz Nivea Stellman.

 

Pergunto: e eu com isso? Quem quer saber da vida sentimental dos dois?

 

Acho incrível como algumas pessoas acham que o mundo inteiro precisa saber de sua intimidade.

 

É por essas e outras que não aceito quando algum famoso reclama de “perseguição da imprensa”. Como é que alguém que anuncia namoro por Twitter pode ficar irritado quando é seguido por “paparazzi”?

 

Fico perplexo também com a onda de famosas que usam a gravidez ou os filhos pequenos para ganhar algumas linhas de publicidade gratuita.

 

Pode reparar: não passa um dia sem alguma atriz anunciar que está grávida ou que vai levar seu bebê para passear pela primeira vez.

 

Outra ferramenta muito usada nos noticiários cibernéticos é falar de uma novela como se fosse o mundo real.

 

Outro dia, li um título do tipo: “Abel mata Carminha pra ficar com Juju”. Só que essa belezinha estava ao lado de uma chamada sobre Barack Obama, numa confusão proposital entre ficção e realidade. Sinal dos tempos?

 

Agora, o que me divertiu mesmo esses dias foi a entrevista de Andressa Soares, a Mulher Melancia. Falando sobre um novo ensaio - o quinto - para uma revista masculina, ela soltou algumas pepitas que nem uma colaboração entre Groucho Marx, John Cleese e G.K. Chesterton seria capaz de criar. Veja só:

 

“O ensaio está ótimo. Usei o máximo de sensualidade que pude.”

 

“As fotos estão bem naturais, tem uma até em que aparece uma dobrinha na minha barriga!”

 

“Isso foi uma coisa que exigi: naturalidade!”

 

“Naturalidade” e “Melancia”. Duas palavras que eu nunca achei que veria juntas. Vida longa à Melancia.

Escrito por André Barcinski às 09h26

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"Rome" é mais uma pérola de Danger Mouse

Não consigo parar de ouvir “Rome”, o novo disco de Danger Mouse e Danielle Luppi (leia minha crítica na Folha aqui).

 

Danger Mouse é o ás de estúdio por trás de um monte de projetos bacanas – Gnarls Barkley, Broken Bells, “The Grey Album” – e produtor de Gorillaz, Black Keys, Beck e, agora, U2.

 

Danielle Luppi é um compositor italiano de trilhas para cinema.

 

“Rome” é uma homenagem às trilhas sonoras dos filmes italianos dos anos 60 e 70.

 

Danger Mouse e Luppi recriaram toda a atmosfera de sensualidade e mistério da música de monstros como Ennio Morricone, Nino Rota e Nicola Piovani.

 

A dupla gravou o disco ao longo dos últimos cinco anos, usando não só os mesmos estúdios e equipamentos analógicos, como os mesmos músicos que participaram de míticas gravações de Morricone e Rota.

 

O resultado é um discaço, que mistura orquestrações grandiosas, música pop européia dos anos 60 e lânguidas guitarras “surf” à Tarantino. Jack White e Norah Jones cantam em algumas faixas.

 

Nos últimos tempos, a música italiana parece mesmo estar de volta.

 

Mike Patton lançou seu CD “Mondo Cane”, recriação orquestral de sucessos românticos mediterrâneos dos anos 60.

 

Faris Badwan, vocalista do Horrors, montou com a soprano canadense Rachel Zeffira o Cat’s Eyes, que faz um pop sombrio inspirado por trilhas de faroeste “spaghetti” e “girl groups” dos anos 60.

 

Essa turma me fez tirar do armário as coletâneas de Ennio Morricone e pesquisar os discos do Goblin, a banda progressiva/experimental italiana que fez divesras trilhas sonoras para os filmes de terror de Dario Argento.

 

Se você curte música “dark” e de beleza fantasmagórica, vai fundo.

Escrito por André Barcinski às 09h22

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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