André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

O Top 10 de Woody Allen (e um P.S. para Rafinha Bastos)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A pedido de alguns leitores e aproveitando o sucesso no Brasil de “Meia-Noite em Paris” (que, segundo um amigo, será o filme de Allen mais visto nos cinemas do país), fiz uma lista com meus dez filmes prediletos do mais adorado neurótico nova-iorquino.

 

Não sou grande fã da fase inicial de Allen, com aquelas comédias escrachadas tipo “Bananas”. Também não me agradam os delírios pirandellianos de “A Rosa Púrpura do Cairo” ou o saudosismo “kitsch” de “A Era do Rádio”. Sempre preferi o Allen urbano e satírico.

 

Aqui vai a lista, em ordem crescente de preferência. Faça a sua e compare.

 

10 - O Dorminhoco (Sleeper, 1973)

Allen é congelado em 1973 e ressuscitado 200 anos depois.  Um filme do início da carreira de Allen e que não envelheceu mal. Sua visão sobre o futuro ainda é hilariante.

 

9 - Tiros na Broadway (Bullets Over Broadway, 1994)

Farsa passada nos anos 20 sobre um dramaturgo (John Cusack, ótimo como sempre) que, para viabilizar uma peça, se mete com gângsteres. Chazz Palminteri no papel de um gângster e Jennifer Tilly como a namorada de um chefe mafioso, estão fantásticos.

 

8 - Poucas e Boas (Sweet and Lowdown, 1999)

Quase ninguém fala desse filme, que está entre os meus prediletos de Allen e é inspirado em “La Strada”, de Fellini. Sean Penn faz um genial e arrogante guitarrista de jazz, obcecado por Django Reinhardt.

 

7 - Maridos e Esposas (Husbands and Wives, 1992)

Mais um dos dramas/comédias de Allen em que múltiplias histórias e romances se intercalam. O elenco desse filme é do outro mundo: Mia Farrow, Liam Neeson, Sidney Pollack, Juliette Lewis e a inigualável Judy Davis.

 

6 - Zelig (1983)

Na época, “Zelig” foi considerado um prodígio técnico em que Allen recriou a estética dos filmes-jornais dos anos 20 para fazer esse falso documentário sobre um homem que absorve as personalidades e aparência física de todos à sua volta.

 

5 - Broadway Danny Rose (1984)

Outro filme considerado menor na carreira de Allen, mas que está entre meus favoritos. Filmado em preto e branco, conta a história de um agente teatral (Allen) fracassado que se mete com a mulher de um gângster, interpretada por Mia Farrow. Um dos filmes mais tristes do diretor.

 

4 - Crimes e Pecados (Crimes and Misdemeanors, 1989)

Comédia/drama de humor negro centrado na história de um médico respeitado (Martin Landau) que resolve matar a amante (Anjelica Huston).  Allen está ótimo no papel de um documentarista que disputa Mia Farrow com um arrogante e estúpido executivo de TV (Alan Alda).

 

3 - Manhattan (1979)

Outro filme-tributo a Nova York, com algumas das sequências mais icônicas dos filmes de Allen. Dessa vez, ele faz um divorciado quarentão que namora uma adolescente (Mariel Hemingway, uma coisa de louco), mas que acaba de quatro pela mulher de um amigo, interpretada por Diane Keaton.

 

2 - Hannah e Suas Irmãs (Hannah and her Sisters, 1986)

Os romances e dramas de três irmãs – Mia Farrow, Dianne Wiest e Barbara Hershey – num dos filmes mais bem escritos e dirigidos de Allen. O elenco é de chorar: Allen, Max Von Sydow, Michael Caine, Carrie Fisher e Julie Kavner (que depois faria a voz de Marge Simpson).

 

1 - Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall, 1977)

O filme mais marcante da carreira de Allen e que estabeleceu sua marca registrada: comédias sofisticadas sobre as neuroses e amores de nova-iorquinos sofisticados. Co-escrito pelo carioca Marshall Brickmann.

 

P.S.: Em defesa de Rafinha Bastos e seu direito de falar besteira

 

Eu não acho a menor graça em Rafinha Bastos. A menor.

 

Achei a tal piada sobre estupro que ele fez em shows, e que foi reproduzida exaustivamente por aí, de um mau gosto infinito.

 

Mas daí o Ministério Público querer investigar o cara por "incitação ao crime" (veja aqui) é um pouco demais, não?

 

Que sociedade hipócrita e fascistóide é essa que estamos criando? Será que o MP não tem assuntos mais importantes para cuidar?

 

 

Escrito por André Barcinski às 00h22

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

A FLIP deveria acontecer todo mês

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ontem começou a Feira Literária Internacional de Paraty, a FLIP.

Nunca vi a cidade tão limpa. Ontem de manhã, batalhões de garis varriam tudo, enquanto operários terminavam os últimos detalhes nas tendas e donos de restaurantes retocavam a pintura. A cidade está um brinco.

 

Este ano, o evento ganhou ainda mais em charme. Uma imensa área junto ao canal, que até o ano passado não passava de um areal pantanoso e abandonado, foi urbanizado, o que permitiu ampliar o espaço físico da FLIP. Agora, quase todo o evento acontece às margens do canal do Rio Perequê-Açú, um lugar bonito e com uma vista incrível do Centro Histórico.

 

Quarta-feira, centenas de alunos das escolas da região passeavam pelo evento. Foi muito bonito ver tantas crianças e adolescentes folheando livros. Uma imagem cada vez mais rara.

 

Para a cidade, a FLIP representa bem mais que um grande evento. É a chance de pousadas, restaurantes e quiosques faturarem tudo o que não faturaram em abril/maio/junho, os meses mais vazios do ano por aqui.

 

Dois mil e onze tem sido um ano de recuperação para o turismo local, depois de duas temporadas de verão péssimas. Em 2009, uma tromba d’água bem no início do ano acabou com a cidade. Em 2010, os deslizamentos trágicos em Angra afugentaram os turistas.

 

Este ano, apesar da queda do número de turistas estrangeiros, por causa das desvalorizações do dólar e do euro, ainda não rolou nenhuma tragédia climática para atrapalhar. Tomara que continue assim.

 

Agora, o que mais interessa para os moradores é o pós-FLIP. O que um evento desses deixa para a cidade?

 

Acho uma vergonha que um lugar conhecido por sua tradição literária e cultural ainda sofra com problemas tão básicos de infra-estrutura como escolas ruins, atendimento médico deficiente, falta de saneamento básico e água de péssima qualidade.

 

Também é inacreditável que um local tão ligado a questões ambientais ainda não tenha coleta seletiva. O lixo da cidade é despejado num “lixão” vergonhoso, que fica escondido num morro a 4 km, na direção de Sâo Paulo (para achar o local, é só olhar para o céu e procurar os urubus).

 

A FLIP vai até domingo. Mas deveria durar o ano todo.

Escrito por André Barcinski às 09h15

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Luciano Huck, nós vamos invadir sua praia!

 

 

 

 

 

 

 

Então Luciano Huck foi condenado pela Justiça por impedir o acesso à “sua” praia particular em Angra dos Reis? (veja matéria do UOL aqui)

 

Não me surpreende em nada.

 

Qualquer um que mora no litoral sabe que há várias ilhas e praias cujos acessos são criminosamente impedidos.

 

O artifício é, quase sempre, o mesmo: o bonitão coloca uma rede fajuta na frente da praia e diz que está “criando marisco”. O objetivo, claro, é não deixar ninguém chegar perto. E proibir acesso a praias é proibido por lei.

 

Quem passeia pela orla de Paraty conhece muito bem esse problema. Logo na saída da Baia, depois das marinas, há uma série de mansões na costeira, pertencentes a executivos de emissoras de televisão e de empreiteiras.

 

Ai de quem tenta chegar perto: se você passar pelas redes, certamente não vai conseguir passar pelos rotweillers que os seguranças soltam na praia.

 

Outro exemplo de apropriação privada de espaços públicos é o Condomínio Laranjeiras, no caminho para Trindade.

 

Depois de impedir, por anos, o acesso de turistas e moradores locais às praias, os ricaços foram obrigados a abrir uma trilha de 1 km no mato.

 

Da última vez que fomos lá, conseguimos entrar sem problema, mas fomos literalmente perseguidos por um segurança.

 

Foi ridículo: um casal com uma filha pequena, andando por uma praia deserta e vigiado de perto por um segurança uniformizado. A situação era tão constrangedora que até avisamos ao sujeito: “Fica tranqüilo, que não vamos roubar nada!” Ele sorriu, sem graça.

 

Enquanto alguns privilegiados tentam monopolizar as belezas da região, outros não se importam em dividi-lo com os outros. É o caso de Amir Klynk, que tem uma casinha numa praia linda chamada Jurumirim, cujo acesso por mar é completamente livre e aberto a todos.

 

O caso de Luciano Huck só tem uma solução: dar uma banana pras redes, passar por cima dos “obstáculos” e chegar à praia. Quem sabe ele não nos processa por atrapalhar sua criação de mariscos?

Escrito por André Barcinski às 00h31

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Até uma criança prefere vinil

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fim de semana passado fiz uma coisa que estava ensaiando há tempos: desencaixotei e montei minha vitrola.

Tenho uma estante de vinis aqui, parados há tempos por pura preguiça e comodismo.

Eu também queria mostrar os discos para minha filha pequena e ver a reação dela aos vinis.

Não vou entrar na velha discussão analógico vs. digital, até porque esse papo já cansou. Todo mundo sabe que vinil soa melhor que CD, que por sua vez soa infinitamente melhor que MP3 (estou lendo “Retromania”, livro novo de Simon Reynolds, em que ele conta que o MP3 foi criado para ser ouvido enquanto se faz outra coisa, no ônibus, na rua, etc. – faço um post sobre o livro quando terminar).

Seria uma experiência interessante: para mim, que cresci ouvindo vinis, seria uma volta proustiana ao passado; para ela, que tem pouco mais de três anos e NUNCA havia visto uma vitrola em ação, seria uma novidade.

Como reagiria uma criança que não tem sequer a lembrança de discos de vinil e, portanto, nenhum tipo de ligação afetiva com o disco? Será que o vinil seria visto como algo menos impactante que, por exemplo, o disquinho pequeno e prateado que ela se acostumou a ouvir?

Fico feliz em dizer que não. O vinil triunfou. Sucesso absoluto.

O que primeiro chamou a atenção dela foi o ato físico de tirar a capa do plástico, tirar o vinil da capa, pousar a bolacha na vitrola, ligar o aparelho, mover o braço, ver o disco rodando e levar o braço até a borda do vinil. Ela ria sozinha. Quando ouviu aqueles ruídos e, por fim, a música, parecia que estava vendo um truque de mágica.

Realmente, comparada à experiência tediosa de enfiar um CD num aparelho e apertar um botão, uma vitrola é uma verdadeira caixa de Pandora. O vinil tem uma qualidade tátil que falta ao digital.

A outra coisa que mais parece tê-la emocionado foi ver as capas, abrir os encartes, enfim, descobrir que, para cada música, havia uma imagem correspondente.

Passamos horas ouvindo discos, trocando lados de bolachas (outra coisa que ela adorou!) e vendo capas.

Fiquei pensando em quanto tempo fazia que eu não deitava no chão da sala para ouvir música.

A música, cada vez mais, tem se tornado trilha sonora de nosso dia a dia. Ouvimos música para ler, para comer, para uma série de coisas, mas ela está sempre lá como pano de fundo, raramente como protagonista. A praticidade e comodidade estão nos deixando cada vez mais preguiçosos.

Temos 20 mil faixas no Ipod, mas ouvimos cada vez menos música. Uma pena.

Escrito por André Barcinski às 09h32

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Alguém ainda se importa com o escrete canarinho?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nos jornais de hoje, todos os comentaristas descem o sarrafo na seleção, que conseguiu empatar sem gols com a Venezuela.

Eu já passei da fase de me chatear. Simplesmente não me importo mais.

Para dizer a verdade, eu nem lembrava que ontem haveria jogo. E acho que não fui o único: passei o domingo todo passeando com a família, encontramos vários amigos e conhecidos, e ninguém – ninguém mesmo - sequer comentou sobre a partida.

Para mim, a seleção só serve para uma coisa: atrapalhar o Brasileirão.

Antigamente, havia os que defendiam só convocar para a seleção jogadores que atuassem no país. O objetivo era aproximar o escrete do povão.

Hoje, acho que o ideal seria o contrário: só convocar jogadores que atuem no exterior. Assim, a gente não precisaria interromper o campeonato brasileiro para aturar a tal Copa América. Deixa eles lá e nós aqui.

Conheço muita gente que pensa o mesmo.

Por que chegamos a esse ponto? Quando paramos de nos importar com a seleção?

Gostaria de acreditar que foi por algum tipo de protesto contra a corrupção e desmandos na CBF. Mas não faz sentido. Se fosse por isso, ninguém se importaria com o Brasileirão, que também é organizado pela gangue do Ricardo Teixeira.

Para mim, a seleção transmite uma arrogância, uma magnanimidade e uma auto-importância que me fazem torcer contra.

Ver a seleção é broxante. Qualquer jogo do Brasileirão – tanto entre times que brigam pelo topo quanto os que brigam para sair da zona de rebaixamento – tem mais drama, brilho e humanidade que os jogos dos milionários arrogantes de amarelo.

Semana passada, me peguei até vendo jogo do campeonato argentino, só para ver o drama do River Plate. Aquilo sim é futebol.

Escrito por André Barcinski às 10h23

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha.com. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha.com.