André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Neil Young, cala a boca e canta!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Maior coito interrompido do ano: SWU vai trazer Neil Young... para falar.

É isso aí: o velho Neil, mais de 40 discos nas costas, vem a Paulínia falar sobre sustentabilidade. Legal. É o equivalente a colocar o Gabeira para tocar com o Crazy Horse.

 

Eu gosto muito de ouvir artistas falando. De preferência em cima de um palco.

 

Um exemplo: faz dois anos que não paro de ouvir o CD “Leonard Cohen – Live in London”. Tão bom quanto a música, é o papo que Cohen leva com a platéia.

 

“Ah, esse palco... lembro como se fosse hoje da primeira vez que pisei aqui... Eu tinha 60 anos, era só um menino com um sonho doido...”

 

Falar no show é uma arte. E Cohen sempre foi um dos maiores faladores dos palcos. O bruxo consegue transformar um teatro de cinco mil lugares numa sala de estar.

 

Outro dia vi um DVD do Culture Club. Boy George – uma das figuras mais inteligentes do pop – parou o show no meio para reclamar de um fã: “Ei, você aí... Você não sabe que deve calar a boca quando estiver ouvindo uma balada romântica? Baladas exigem silêncio!”

 

Nem todos os artistas sabem falar num palco. Os Ramones não falavam nada. Não precisava. Já Lux Interior e Jello Biafra tinham a manha.

 

Na revista “Uncut”, Allan Jones escreveu um texto divertido sobre Roy Harper. Parece que ele gostava tanto de falar nos shows que às vezes parava a música no meio para contar uma história. Quando terminava a história, recomeçava a canção, como se o som estivesse no “pause”.

 

Por incrível que pareça, um dos artistas que vi falar com mais desenvoltura num palco foi o masoquista e coprófago G.G. Allin. Debaixo de toda aquela escatologia, havia uma verve e tanto.

 

Vi um show em Seattle, em que ele passou o tempo todo fazendo as piadas mais grosseiras com Eddie Vedder e o grunge em geral. Foi inesquecível. Em determinado momento, Allin ficou pelado e começou a fazer uma serenata para o próprio pênis: “Ôooohhh... I’m still alive!”

 

Logo depois, ele apareceu com um pôster de Vedder tirado de uma revista, abriu um buraco na foto (bem na boca, mais precisamente), e pendurou a página no pinto. Passou um bom tempo cantando com Eddie Vedder pendurado no bilau. Foi uma das coisas mais repulsivas e engraçadas que já vi. Passo mal só de lembrar.

 

Então fica o recado: Neilzão, não faz isso com a gente... Está todo mundo preocupado com o aquecimento global, com as florestas e com o mico-leão dourado. Se você fizer um show, prometo que fico depois para ouvir sua palestra...

Escrito por André Barcinski às 00h09

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Cem bandas para um festival dos sonhos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por enquanto, nada de muito empolgante nos line-ups dos festivais de rock por aqui.

 

Entendo que Metallica, Elton John, Black Eyed Peas e Strokes tenham muitos fãs e possam ser considerados bons nomes, mas nenhum deles me faria sair de casa.

 

O único artista que valeria o meu dinheiro - Neil Young - não vem para tocar, mas para falar sobre sustentabilidade. Dá vontade de cortar umas árvores em protesto.

 

Fiz uma lista de cem – isso mesmo, uma centena – de artistas internacionais que eu pagaria para ver. Quem sabe não inspire algum dos nossos festivais? Mande as suas sugestões e compare: 

 

Grandes nomes:

Radiohead, REM, The Cure, Depeche Mode, Bob Dylan, David Bowie

 

Artistas médios / grandes (atraem bom público e são garantia de boas críticas):

Arcade Fire, Gorillaz, Beastie Boys, Neil Young (para tocar, não palestrar), Sonic Youth, Wilco, Flaming Lips, Portishead, Robert Plant & the Band of Joy, Duran Duran, Daft Punk, Ray Davies, Suede, Cee-Lo Green, Chemical Brothers, Arctic Monkeys, Blondie, Rammstein, Morrissey

 

Artistas médios (popularidade limitada, qualidade indiscutível):

Leonard Cohen, My Bloody Valentine, Grinderman, Fleet Foxes, TV on the Radio, PJ Harvey, Primal Scream (tocando “Screamadelica”), Social Distortion, Rancid, The Orb, The Specials, Big Audio Dynamite, Public Image Ltd., Mastodon, Cheap Trick, Los Lobos, Gary Numan

 

Os cults (popularidade mínima, qualidade máxima):

The Horrors, Melvins, Midlake, Anna Calvi, Rome (Danger Mouse & Danielle Lupi), Mercury Rev (tocando “Deserter’s Songs”), Mogwai, Isobel Campbell & Mark Lanegan, Iron and Wine, Explosions in the Sky, Black Rebel Motorcycle Club, You Will Know Us by the Trail of Dead, Decemberists, Drones, Wire, Black Keys, Death from Above 1979, Cat’s Eyes, Thurston Moore (solo), Sonics, Reverend Horton Heat, The Fall, Joanna Newson, Godspeed You! Black Emperor, Eels, Tame Impala, Yo La Tengo, Sons and Daughters, My Morning Jacket, Duane Eddy, Atari Teenage Riot, Drive-By Truckers, White Denim, Jim Jones Review, Swans, Beach House

 

Sonho meu (popularidade zero, satisfação pessoal garantida):

Om, Kylesa, Crass, Emeralds, Hallogallo (tocando NEU!), Wooden Shipjs, Dean Wareham (tocando Galaxie 500), Neurosis, Shellac, Scratch Acid, Boredoms, Mike Watt & George Hurley (tocando Minutemen), Low, Dirty Three, Josh T. Pearson, Bon Iver, Battles, John Grant, The Feelies, The 5,6,7,8’s, Les Savy Fav, Sebadoh

Escrito por André Barcinski às 00h11

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Quem sugere um amigo pro João Sorrisão?

 

 

 

 

 

 

 

Se você não mora em Marte, certamente ouviu falar do tal João Sorrisão.

Para resumir: o programa “Esporte Espetacular”, da TV Globo, lançou uma campanha sugerindo aos jogadores que comemorassem seus gols imitando um boneco João bobo. Virou uma febre entre os jogadores.

Já que nossos boleiros parecem abertos a novas idéias, gostaria de sugerir algumas variações do João Sorrisão que, acredito, adicionariam ainda mais graça e diversão aos jogos:

João Porradão: uma homenagem não só ao futebol, mas à popularidade do MMA no Brasil. Após o gol, o time todo tira as camisas e ataca o autor do gol com joelhadas na cara, chutes no nariz e chaves de braço.

João Ressacão: o artilheiro corre para a câmera, faz cara de bêbado, e, por fim, vomita na lente. Um barato.

João Postão: Esse é bem divertido e serve também como homenagem ao melhor amigo do homem. O artilheiro imita um poste, imóvel, enquanto seus companheiros ficam de quatro, levantam a perninha e urinam no seu pé.

João Imolação: assim que marca o gol, o craque derruba uma garrafa de querosene na cabeça e ateia fogo; seus companheiros se jogam em cima dele para debelar as chamas.

João Kamikazão: Essa comemoração é fantástica: assim que balançar as redes, o artilheiro corre com o dedo médio em riste, pula o alambrado e se joga no meio da torcida adversária. Diversão garantida.

Hoje tem mais uma rodada do Brasileirão. Espero que algum craque leia esse post e se inspire. E quem quiser sugerir outras variações, fique à vontade...

Escrito por André Barcinski às 00h28

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A manhã foi feita para dormir

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em 1992, participei de uma entrevista coletiva com Marcello Mastroianni. O ícone italiano tinha acabado de atuar com Shirley MacLaine em “Used People”, uma produção americana.

Quando perguntaram a Mastroianni como tinha sido a experiência de filmar nos Estados Unidos, ele disse: “Foi exaustivo. Os americanos são loucos, começam a filmar às 7 da manhã, e eu não consigo fazer nada antes do meio-dia!”

Existe uma história célebre de Mastroianni: durante um festival de cinema na Europa, um repórter tanto o importunou que ele concordou em dar uma entrevista logo de manhã. No dia seguinte, seu agente o abordou, furioso, segurando um jornal: “Marcello? O que é isso? Você enlouqueceu?!” A reportagem dizia: “Mastroianni vai fazer Tarzan no cinema”. Mastroianni, claro, não lembrava de nada.

Artistas não costumam funcionar de manhã.

Meu amigo José Mojica Marins, por exemplo, é outro que não engrena antes de duas da tarde. Foi o único artista que eu já vi dormir durante uma coletiva de imprensa.

Recentemente, fiz um trabalho para a TV com Rogéria. Ela mesma me avisou: “Querido, só não me liga antes da uma, senão quem atende é o Astolfo!”

Tenho um amigo americano que é enfermeiro e diz que costumava esbarrar com Keith Richards às 5 da manhã, lendo um livro num banco de uma pracinha em Nova York.

Lembrei dessas histórias porque, recentemente, tive uma série de compromissos matinais, e também não funciono bem de manhã.

Admiro muito pessoas que acordam aos primeiros raios de sol para fazer cooper, nadar ou passear com os cachorros, mas eu não consigo nem sorrir antes de tomar três cafés. Preciso de pelo menos uma hora acordado para retribuir um mísero “bom dia”.

Uma das piores experiências da minha vida foi passar 30 dias chegando às 6 da manhã no quartel do Exército. Chegava tão zumbificado que errava todas as ordens: o sargento mandava fazer polichinelos, eu fazia flexões, mandava correr para um lado, eu corria pro outro. Parecia aquele quadro do Monty Python da corrida para pessoas sem senso de direção.

A única coisa boa é que acabei dispensado do serviço militar. Provavelmente por suspeita de algum problema psicomotor.

Escrito por André Barcinski às 09h13

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Usher e a maldição dos "soulmen" sem "soul"

A vida é muito curta e, com a idade, a gente vai aprendendo a evitar coisas sabidamente ruins.

 

Por exemplo: Usher.

 

Tenho 43 anos e acho que nunca tinha ouvido uma música inteira do cara.

 

Desenvolvi uma espécie de reação alérgica extrema a todos esses cantores de “R&B” moderno, como Usher, R.Kelly e Chris Brown: assim que começa aquela xaropada, meu cérebro reage e ordena a retirada.

 

Até que, alguns dias atrás, estava zapeando a TV e caí no Multishow HD, que exibia o show “Evolution 8701”.

 

Trinta segundos de Usher me deixaram paralisado. Poderia, em todo o universo, existir algo tão ruim?

 

O sujeito cantava mal, não sabia dançar e tinha o carisma de uma caixa de correio. E pior: se achava o Marvin Gaye.

 

Usher olhava para a platéia, apertava os olhos e fazia beicinho, como se estivesse seduzindo 30 mil mulheres de uma vez. Perdi a conta de quantas vezes a câmera flagrou detalhes de seu abdômen malhado e ele (Usher, não o abdômen, claro) sussurrou “I love you...” para ninguém em especial. O resultado era hilariante. Parecia um quadro do “Saturday Night Live”.

 

No meio do show, Usher assassinou “What’s Going On”, de Marvin Gaye. No fim, o canastrão chamou uma fã da platéia, deitou a coitada numa cama no meio do palco e a encantou com uma balada xaropenta, depois de presenteá-la com uma calcinha vermelha. Foi uma das coisas mais engraçadas que já vi. Quando me dei conta, tinha assistido a mais de uma hora de Usher. Era irresistível. Juro que vou comprar o DVD.

 

Usher me fez pensar em todos os falsos “soulmen” e “soulwomen” que existem por aí. Cantores sem carisma e sem suingue, mas que tentam enganar a platéia fazendo beicinho e imitando Sam Cooke.

 

Fiz uma lista rápida: Lenny Kravitz, Jay Kay, Mauricio Manieri, Toni Garrido, Amy Winehouse, Thalma de Freitas - e, já pedindo desculpas à leitora Clarice, grande fã do Simply Red – Mick Hucknall.

 

São artistas de estilos diversos, mas que têm pelo menos uma coisa em comum: se valem de estereótipos e clichês da música “soul” para fingir ser algo que não são.

 

Fica a pergunta: o que é um “soulman”? Como se define? O artista nasce com essa qualidade ou pode “desenvolvê-la” ao longo da carreira?

 

Sempre que penso nisso, lembro de uma frase de Keith Richards sobre os Beatles, em que reconhecia a genialidade, mas ironizava a “dureza” do som da banda; “They can rock, but they can’t roll”.  É isso aí.

Escrito por André Barcinski às 09h04

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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