André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Dez filmes para aquecer seu Dia dos Namorados

Como prometido, aqui vai uma lista de dez filmes românticos para assistir a dois.

 

Escolhei só filmes ótimos, o que explica a ausência de “Titanic”, “Ghost” e “Dirty Dancing”. Até segunda e feliz Dia dos Namorados para todos.

 

Minnie & Moskowitz – John Cassavetes, 1971

Minnie (Gena Rowlands) é uma mulher culta, curadora de um museu. Moskowitz (Seymour Cassell) é um bronco, funcionário de um estacionamento. Mas se apaixonam. Cassavetes faz sua versão das comédias românticas de Frank Capra e comete um dos romances mais lindos e improváveis do cinema. “Eu amo você tanto que esqueço de respirar e esqueço de ir ao banheiro”, diz Moskowitz.

 

Irresistível Paixão (Out of Sight) – Steven Soderbergh, 1998

George Clooney é um ladrão de bancos. Jennifer Lopez é uma policial. Clooney escapa da prisão escondido dentro da mala de um carro... com Jennifer Lopez. Baseado num livro de Elmore Leonard. Precisa de mais?

 

Viagem à Itália – Roberto Rossellini, 1954

Eu sei, o casal (Ingrid Bergman e George Sanders) passa mais tempo discutindo que se amando. Mesmo assim, as imagens da Itália e um clima lúdico fazem desse filme uma obra-prima do romantismo. Lindo de morrer.

 

Luzes da Cidade (City Lights) – Charles Chaplin, 1931

O vagabundo e a cega vendedora de flores. Você já viu dez vezes. E, nas dez, chorou no final. Ou então você é de pedra.

 

Brilho Eterno de Uma mente Sem Lembranças – Michel Gondry, 2004

Jim Carrey e Kate Winslet são ex-amantes que contratam uma empresa para “apagar” suas memórias afetivas. Um delírio surrealista e muito, mas muito bonito.

 

Entre Dois Amores (Out of Africa) – Sidney Pollack, 1985

Quênia, início do século 20: Meryl Streep faz uma nobre, presa a um casamento de conveniência com um barão dinamarquês (Klaus Maria Brandauer), mas que se apaixona por um caçador aventureiro (Robert Redford). Filmaço.

 

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall) – Woody Allen, 1977

Ainda o melhor filme de Allen. Ele documenta, com todo seu arsenal de neuroses, a montanha-russa do amor. E tem em Diane Keaton sua melhor parceira nas telas (e, na época, fora delas também).

 

Um Corpo Que Cai (Vertigo) – Alfred Hitchcock, 1958

Hitch nunca foi tão fundo na obsessão e loucura causadas pelo amor. O detetive Scottie Ferguson (James Stewart) é tão magnetizado por Kim Novak que tenta até ressuscitá-la.

 

Ensina-me a Viver (Harold and Maude) – Hal Ashby, 1971

Harold é um jovem obcecado pela morte, que tem por hobby fingir o próprio suicídio. Maude é uma senhora de 79 anos. Eles se apaixonam. Tudo pode acontecer num filme de Hal Ashby. E normalmente acontece mesmo.

 

Três é Demais (Rushmore) – Wes Anderson, 1998

Eu amo esse filme. Amo o clima despojado à Cassavetes, o humor negro à Hal Ashby, e a trilha sonora, com Kinks, Faces, e o melhor uso de uma música de John Lennon (“Oh Yoko”) no cinema. Pra completar, tem Bill Murray e Jason Schwatzmann. O primeiro é um milionário excêntrico. O segundo, um estudante excêntrico. E os dois disputam o coração de uma professora. Uma jóia.

Escrito por André Barcinski às 23h37

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Dez músicas para esquentar seu Dia dos Namorados

Domingo é dia dos namorados. Selecionei dez músicas para embalar sua noite a dois. Aproveite. E mande suas sugestões, por favor.

 

Sexta-feira farei mais uma listinha, dessa vez com dez filmes ideais para assistir a dois. Ah, e respostas para comentários, hoje, só à noite...

 

Chet Baker – Almost Blue

Nenhum músico me faz parar tudo que estou fazendo como Chet Baker. Aqui está ele, um fiapo, poucos meses antes de morrer, no filme-tributo “Let’s Get Lost”, de Bruce Weber. Baker está moribundo. Sua voz parece que vai despedaçar. Mas é de arrepiar.

 

Nina Simone – My Baby Just Cares For Me

Cada vez que eu ouço ou vejo essa mulher, tenho mais convicção de que ela veio de outro planeta. Ninguém foi tão sofisticada e primitiva ao mesmo tempo.

 

Zé Ramalho – Chão de Giz

Uma das músicas prediletas da minha mulher e um dos momentos sublimes da carreira de Zé Ramalho.

 

Jacob do Bandolim – Ingênuo

Essa é de parar o coração. Não conheço nenhuma versão mais bonita do clássico de Pixinguinha. E como nosso país fez o favor de não guardar nenhuma imagem de Jacob tocando, escolhi essa versão mais nova, com seu grupo, o Época de Ouro.  O senhor gordinho tocando violão é César Faria, pai de Paulinho da Viola.

 

Frank Sinatra – You Make Me Feel So Young

Quer dar um disco lindo, animado e romântico para seu amor? Que tal “Songs for Swingin’ Lovers” (1956)?

 

Ella Fitzgerald – Our Love is Here to Stay

Em 1978, a TV mostrava isso: Ella Fitzgerald cantando Gershwin. Pode chorar.

 

Led Zeppelin – Thank You

A opulência, a grandiosidade, o virtuosismo, enfim, tudo que mais me incomoda no Led Zeppelin, é exatamente o que me emociona nessa música.

 

Carpenters – Superstar

“Guilty Pleasure” total. Uma música arrebatadora e, por que não, fantasmagórica.

 

Leonard Cohen – Dance Me to The End of Love

Duas pessoas sozinhas, Leonard Cohen na vitrola... Se não acontece nada, é melhor desistir. E essa música valeria um Nobel só pela frase “Deixe-me ver sua beleza / Quando as testemunhas sumirem”.

 

Eels – Love of the Loveless

Cada vez que eu ouço E e seu Eels, gosto mais. Não achei nenhum clipe ao vivo dessa música linda, mas essa colagem é bem bonita.

Escrito por André Barcinski às 00h36

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Grandes momentos da propaganda de rua

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Sou fascinado por sinais de rua e seu humor involuntário.

Dia desses, passeando com a família, dei de cara com essa pérola aí de cima. Brilhante.

Ao contrário da maioria, não acho muita graça em placas com erro de português. Fico sempre com pena do autor. Dá para perceber que o sujeito fez um esforço para escrever corretamente, mas a ignorância não deixou. E ignorância, como sabemos, tem conserto.

Já burrice é uma estrada sem volta. Como explicar uma placa que diz: “Aperte a campainha e espere 5 minutos. Se ninguém atender, vá embora!”? Não tem escola que dê jeito.

Quando eu morava no Centro de Sâo Paulo, havia uma depiladora que anunciava a seguinte promoção:

“Faça uma axila e ganhe um buço”.

A placa levantava algumas questões pertinentes: se o cliente fizer as duas axilas, ganha um buço sobressalente? Quem preferir ficar com o buço, pode trocá-lo por uma virilha?

No tradicional bairro da Liberdade, reduto de orientais em Sâo Paulo, fica uma de minhas placas de trânsito prediletas, cheia de conotações eróticas e étnicas:

“Cuidado ao entrar no amarelo piscante”.

Outra coisa que me diverte são slogans publicitários infelizes.

Lembro de uma conhecida marca de café cujo cartaz estampava a frase “Os bons tempos voltaram” embaixo da imagem de um escravo carregando um saco de grãos na cabeça e de um senhor de engenho saboreando um cafezinho na varanda. Incrível.

E a rede de motéis no Rio que enfureceu secretárias com a promoção “Comemore o Dia da Secretária no Motel Tal”? São relíquias do politicamente incorreto.

Às vezes, do nada, nos deparamos com frases tão absurdas e delirantes que se destacam em meio ao caos visual das metrópoles. Certa vez, vi num carro um adesivo que dizia:

“O que você está esperando? Crie cabras!”

Assim, seco, direto, sem maiores explicações. Crie cabras. Sua vida vai melhorar. É uma ordem.

Outra vertente de placas e sinais que me agrada é a vertente lusa. Qualquer um que já tenha visitado Portugal sabe que andar por lá é um colírio para os olhos e o espírito.

Em que outro país do mundo você pode desfrutar de pratos como chambão estufado com arroz de grelo malandro, hospedar-se no Hotel Bago D’Ouro, ou visitar a cidade de Tomar, banhada por um rio chamado Nabão? Já pensou nas possibilidades? Ai, terrinha querida...

Algumas vezes, são as circunstâncias que fazem toda a diferença. Existe uma placa em Sâo Paulo que não teria destaque algum, se não estivesse posicionada onde está.

O local é a portaria do prédio onde mora meu amigo José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Na porta, há um sinal que diz: “Proibida a entrada de pessoas estranhas”.

Quando comentei com Mojica sobre a ironia do texto, ele respondeu: “Ainda bem que botaram essa placa aí! O que tem de gente estranha querendo entrar nesse prédio não é mole!”

Escrito por André Barcinski às 23h54

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"Escuta Aqui" R.I.P.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Foi uma segunda-feira com cara de segunda-feira.

No Folhateen, meu amigo Álvaro Pereira Junior se despediu de “Escuta Aqui”, a coluna que ele escreveu no caderno por mais de 15 anos (leia a última coluna aqui).

O maior elogio que posso fazer a “Escuta Aqui” é que eu continuava lendo toda segunda-feira, mesmo não sendo teen há quase 30 anos.

Porque a coluna nunca foi “para” adolescentes. Ainda bem. Que adolescente quer ler sobre outros adolescentes?

Quando eu era jovem, não queria alguém me dizendo o que eu era, queria alguém que me mostrasse o que eu poderia vir a ser. E nunca tive a sorte de ler alguém me sugerindo Gang of Four, Mission of Burma, a “Uncut” ou William Faulkner.

“Escuta Aqui” foi isso. Um farol. Uma coluna pessoal que tentava indicar uma direção. E muita gente embarcou: perdi a conta de quantas vezes ouvi a frase “li na coluna do Álvaro”.

Pergunte a qualquer indie paulistano com trinta e poucos anos onde ele soube primeiro de PJ Harvey, Radiohead, Boss Hog, Mazzy Star, Come, Belle & Sebastian, Throwing Muses e Nick Hornby, e acho que a resposta será a mesma.

Como qualquer trip pessoal, a coluna não era unanimidade. Fez amigos e inimigos igualmente fervorosos.

As boas brigas sempre marcaram sua trajetória. Seja com os Paralamas, Titãs, Marisa Monte, Caetano ou no recente arranca-rabo com os “indies estatais” da Abrafin.  

As fagulhas queimavam todos que estavam por perto. Senti isso na pele quando editei o Folhateen, há uns dez anos, e o Álvaro fez uma coluna descendo o pau numa banda brasileira e insinuando que ela teria se “inspirado” numa música do Cure.

Passei vários dias recebendo telefonemas e e-mails enfurecidos do tal grupo. Os caras estavam possessos. O vocalista me encheu tanto o saco que eu apelei: “Faz o seguinte: se você acha mesmo que a música não tem nada a ver com o Cure, escreve uma réplica detalhando as diferenças entre as duas melodias, que eu publico.” O sujeito nunca mais me procurou.

Queria encerrar esse post com um apelo ao Álvaro: sei que o tempo anda escasso e que o trabalho no Fantástico não é mole. Mas pede pros leitores escolherem as duzentas melhores colunas e publica um livro, vai. Ou melhor: faz só a versão para tablet, que é mais teen...

Escrito por André Barcinski às 23h29

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Adeus, Fogueteira!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

3 de setembro de 1989. Mais 140 mil pessoas lotam o Maracanã para assistir a Brasil e Chile, pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 1990.

Na época, eu era fotógrafo do Jornal do Brasil. Queria muito estar no Maraca, mas o jornal, claro, mandou ao jogo seus fotógrafos mais experientes. Eu fiquei de plantão na redação.

Não era um jogo fácil. O Brasil precisava de um empate para se classificar à Copa. O Chile precisava vencer. No início do segundo tempo, Careca fez 1 a 0.

Aos 24 minutos do segundo tempo, um sinalizador caiu dentro do campo, aparentemente atingindo o goleiro chileno Rojas. Ele desabou no gramado e não levantou mais. O banco do Chile invadiu o campo. Rojas saiu do gramado com o rosto sangrando. Os chilenos, revoltados, abandonaram o jogo.  O juiz encerrou o jogo.

Na arquibancada do Maracanã, os torcedores deduraram à polícia a autora do disparo: Rosenery Mello, uma torcedora de 24 anos. Ela foi presa.

Na redação do jornal, o editor mandou que eu corresse para a delegacia próxima ao Maracanã. Rosenery certamente seria levada para lá.

O Brasil inteiro ficou em pânico. Se a Seleção perdesse os pontos daquele jogo, poderia não ir à Copa da Itália.

Quando cheguei à delegacia, já havia uma multidão na frente. Porque nem um gol da Seleção é capaz de unir mais o povão que um bom linchamento.

Rosenery chegou logo depois. Parecia a chegada do Fernandinho Beira-Mar, com dezenas de policiais e viaturas. O povão urrava: “Se o Brasil perder, você vai morrer!”

Dentro da delegacia, a coitada foi exposta como se fosse uma criminosa. Ela chorava muito.

Naquela noite, o Brasil foi dormir achando que estava fora da Copa. Rosenery era a inimiga pública número 1.

Nos dias seguintes, no entanto, a farsa chilena foi desmascarada. O sinalizador havia caído a alguns metros de Rojas. O goleiro, sentindo a oportunidade, cortou o supercílio com uma gilete e fingiu que havia sido atingido. A seleção chilena foi banida do futebol por quatro anos.

Rosenery passou de linchada a adorada. Virou a “Fogueteria”. Deu entrevistas em todas as TVs e jornais. Dois meses depois, a glória: ela estava na capa da “Playboy”.

Naquela época pré-Internet, quando a velocidade da informação era muito mais lenta que hoje, Rosenery foi uma das primeiras celebridades instantâneas do país.

Aqui, é preciso diferenciar “instantânea” de “fugaz”. Porque sempre existiram celebridades cuja fama duraram pouco – os tais 15 minutos que Warhol vaticinou. Mas Rosenery foi uma das primeiras a se transformar em celebridade em poucos minutos.

No caso dela, a fama foi instantânea e fugaz. Pouco tempo depois, ninguém mais falava na coitada. Mas o nome “Fogueteira” ficou. E qualquer um com 35, 40 anos lembra da história.

Rosenery morreu sábado, aos 45 anos, de um aneurisma cerebral. Godspeed, Fogueteira!

Escrito por André Barcinski às 09h46

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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