André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Ler a "Trilogia" de James Ellroy é uma humilhação para quem escreve

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Estou terminando “Blood’s a Rover”, de James Ellroy. Na verdade, emendei três livros de Ellroy na sequência: “American Tabloid” (“Tablóide Americano”) e “The Cold Six Thousand” (“Seis Mil em Espécie”), que eu já conhecia e reli agora e, para finalizar, “Blood’s a Rover”, que no Brasil ganhou o ótimo título de “Sangue Errante”.

Os três livros fazem parte da “Trilogia do Submundo Americano”, uma saga que Ellroy começou em 1995. Têm, juntos, duas mil páginas. As duas mil páginas mais intensas que já li. E a Record lançou os três.

Até começar a tal trilogia, Ellroy – que estará na FLIP, em julho - era conhecido por histórias policiais violentas e romances pulp como “L.A. Confidential” ou “Dália Negra”. Mas cansou do gênero e resolveu dedicar-se a romances históricos.

A “Trilogia” é sua tentativa de contar a história dos Estados Unidos por meio da ficção. Os livros cobrem anos de chumbo do país: do meio dos anos 50 ao início dos anos 70; do início da conspiração mafiosa e governamental que culminaria com os assassinatos de JFK, Martin Luther King e Bobby Kennedy, ao escândalo de Watergate.

Se você gosta de histórias sobre conspirações, agentes infiltrados, traições, paranóia, golpes de Estado e governos totalitários espionando cidadãos, esses livros são obrigatórios.

Misturando personagens reais e fictícios, Ellroy conta a história secreta de um país: Howard Hughes é um racista, junkie e obcecado em controlar os cassinos de Las Vegas; J. Edgar Hoover é um deus orwelliano que, do alto de seu Olimpo particular no FBI, controla todas as atividades ilegais da nação; o sindicalista Jimmy Hoffa é um assassino sádico e leão-de-chácara da Máfia.

E tem mais: John e Bobby Kennedy, mafiosos como Sam Giancana e Carlos Marcello, Martin Luther King, o boxeador Sonny Liston, o ator Sal Mineo, Frank Sinatra, Dean Martin, Ava Gardner... Dezenas e dezenas de personagens, reais ou quase.

O estilo de Ellroy é inimitável. Dá vergonha escrever qualquer coisa depois de ler cinco páginas dele. As frases são curtas. Estilo telegráfico. Staccato! Bang! Bang! Direto ao ponto.

“Seis Mil em Espécie”, então, parece um longo telegrama: mais de 600 páginas sem uma vírgula ou adjetivo. O estilo do livro reflete a violência e secura de seu conteúdo. É uma porrada atrás da outra.

Escrevi um post outro dia dizendo que Cormac McCarthy perigava ser meu escritor vivo preferido. Posso estar mudando de idéia. No último mês pelo menos, ninguém me moveu tanto quanto James Ellroy.

O problema de ler Ellroy é que qualquer outra literatura policial ou de mistério fica parecendo brincadeira de criança. Nesse período, li também obras de Michael Connely (“O Espantalho”), Patricia Highsmith (“Este Doce Mal”), Rick Riordan (“Tequila Vermelha”) e até o último de Elmore Leonard, “Djibouti”.

Não havia nada particularmente ruim em nenhum deles. Eram todos livros bons, bem escritos e com histórias eficientes. Mas pareceram, na comparação, extremamente rígidos, duros, sofrendo com aquelas fórmulas batidas de livros do gênero – pistas “jogadas” pelo caminho para guiar o leitor a conclusões, heróis fatalistas, diálogos “espertos” demais para ser verdade, finais previsíveis, enfim, toda uma carga de clichês e amenidades que, francamente, não me emocionam mais.

Ler a “Trilogia” de James Ellroy foi uma das experiências literárias mais humilhantes e acachapantes que já tive na vida. Ele não concordaria com os adjetivos. James Ellroy não usa adjetivos. Adjetivos são para quem não consegue escrever como James Ellroy.

Bom fim-de-semana, e até segunda!

Escrito por André Barcinski às 21h15

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Que tal brincar de "forca" com seu filhinho?

Cada vez que a falta de noção das pessoas chega ao limite, vem alguém e bate um novo recorde.

Semana passada, levamos nossa filha de três anos para comer um cachorro-quente numa famosa lanchonete de Sâo Paulo.

No fim do lanche, o garçom chegou, todo sorridente, e deu uma caixinha de presente para ela: “Isso é pra você brincar, neném!”.

Só percebemos o que era o tal brinquedinho quando chegamos em casa: um jogo da forca completo, incluindo um bonequinho enforcado para montar, com direito a expressão de dor no rosto e tudo. Detalhe: faltam três ou quatro anos para ela ser alfabetizada, ou seja, a chance de ela entender o que é o "jogo da forca" antes dos sete anos de idade é, na teoria, nula.

Parece mentira. Se alguém me contasse, eu não acreditaria. Por isso fiz questão de fotografar o brinquedinho...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pensei em outras brincadeiras semelhantes que a lanchonete poderia criar para entreter seus clientes mirins:

Ligue os Pontos de Dallas: faça como o FBI e a Comissão Warren: conecte a cabeça de JFK ao rifle de Lee Harvey Oswald!

Chacina dos Sete Erros: compare essas duas imagens de uma matança e tente achar as sete diferenças

Qual o Desastre?: Ligue os locais a suas respectivas tragédias:

a)    Porto Príncipe; b) Japão; c) Nova Orleans; d) Chernobyl

1)    vazamento radioativo; 2) tsunami; 3) terremoto; 4) furacão seguido de enchente

Hot Dog Sacco & Vanzetti: Agora você e sua família podem assar suas próprias salsichas de hot dog usando a nossa exclusiva cadeirinha elétrica. É só botar ligar a salsicha nos eletrodos, puxar a alavanca, e – záz! – seu hot dg está prontinho! Peça ao garçom!

Quem Matou Quem?: Um jogo divertido em que você precisa ligar os nomes de celebridades a seus respectivos algozes:

a)    John Lennon; b) Martin Luther King; c) Abraham Lincoln; d) Odete Roitman

1)    James Earl Ray; 2) John Wilkes booth; 3) Leila Cantanhede; 4) Mark David Chapman

Escrito por André Barcinski às 18h28

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Cuidado com os bólidos no caminho de Ubatuba!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Olha a foto acima.

Será Valentino Rossi pilotando sua Ducati a 300 por hora em Imola? Casey Stoner exibindo sua técnica em Spa Francorchamps?

Nada disso. Essa foto foi tirada domingo passado, às 11h47 da manhã, na estrada Taubaté-Ubatuba (Rodovia Oswaldo Cruz), onde o limite de velocidade é de 60 km por hora (antes que alguém pergunte: eu tirei as fotos do banco do passageiro de nosso carro, eu não estava dirigindo).

Quem costuma pegar essa estrada sabe que é uma das vias mais bonitas do Estado. A Oswaldo Cruz passa por pequenas cidades turísticas como Natividade da Serra e Sâo Luiz do Paraitinga e corta o Parque Estadual da Serra do Mar. É uma estrada bonita e tranqüila.

Quer dizer, era tranqüila. Até que virou ponto de encontro de projetos de Rubinho Barrichello, que insistem em usar a via, todo domingo de manhã, para fazer “pegas” a 180 por hora.

Já perdi a conta de quantas vezes cruzamos com os bólidos. Eles andam em grupos grandes, de até 20 motos. As máquinas fazem tanto barulho que a população local sai de casa para vê-las queimar o asfalto.

O problema é que os Rubinhos esquecem que não estão sozinhos na estrada. Há famílias andando pelo acostamento. Há cavalos, vacas e cachorros circulando pela pista. Há ciclistas. Enfim, é uma estrada pública, que eles utilizam como seu playground particular.

Domingo passado, depois de quase sermos abalroados três vezes pela gangue,  vimos um guincho do DER parado na estrada. O motorista me disse que não há um único posto da Polícia Rodoviária num raio de 90 km. “E a sinalização de radar na estrada? É mentira?”, perguntei. Ele ficou sem graça e desconversou.

Logo depois, vimos a turba vindo de novo em nossa direção. Tive a sorte de conseguir registrar esse instantâneo, que mostra um gênio das pistas andando no acostamento:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fica então a dica para você, que planeja visitar Sâo Luiz do Paraitinga durante as festas juninas: qualquer problema, há um hospital na cidade. O outro hospital mais próximo fica em Ubatuba, a 50 km. Boas festas. E boa sorte.

Escrito por André Barcinski às 00h11

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Arctic Monkeys fez um disco ótimo. Pena que nem os fãs agüentam ouvir

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Segunda, dia 6, chega às lojas “Suck It and See”, o quarto disco do Arctic Monkeys.

Eu gostei muito do disco. Achei o melhor da banda até hoje (leia a crítica que fiz na Folha aqui).

Mas uma coisa me chamou a atenção: no site oficial do grupo (www.arcticmonkeys.com), eles colocaram o disco na íntegra, para os fãs ouvirem antes do lançamento.

Repare no player: ele mostra o número de audições de cada faixa.

A primeira música do disco, “She’s Thunderstorms”, foi ouvida pouco mais de 150 mil vezes. A faixa seguinte, “Black Treacle”, já caiu para 120 mil audições. Ou seja: 20% dos fãs só ouviu a primeira música, mesmo de graça.

É impressionante: o número de audições vai caindo, faixa após faixa. A 12ª e última música do disco, “That’s Where You’re Wrong” (uma das melhores do álbum, que lembra muito The Smiths), teve pouco mais de 50 mil audições.

Concluindo: quase 70% dos fãs que ouviram a primeira música não tiveram paciência de ouvir o disco até o fim. E olha que é um disco curto, de apenas 40 minutos.

Dá para tirar algumas lições disso:

- O formato “LP” está, definitivamente, morto. Enterrado. Pode preparar a missa.

- O público não tem mais paciência para ouvir mais que duas ou três músicas de uma vez. E raramente chega ás últimas músicas.

- Nunca houve tanta música disponível, mas nunca se ouviu tão pouca música. O público prefere ouvir 30 segundos de dez músicas diferentes do que dar chance a duas faixas de uma banda que não conhece.

- Uma banda boa como o Arctic Monkeys periga desperdiçar ótimas músicas, que poderiam render “singles” de sucesso, colocando-as no fim de um disco.

- Se eu fosse produtor de uma banda ou dono de gravadora, parava de lançar LPs. Lançava uma música por mês, com uma estratégia de marketing diferente para cada uma. No fim do ano, o conjunto de canções venderia muito mais do que se tivesse sido lançada de uma vez.

- Se as propagandas estão certas e as novas tecnologias permitem um acesso muito mais rápido e fácil à música, então os dias devem ter diminuído de duração e as horas devem ter encolhido. Só assim para explicar por que ninguém tem mais tempo de ouvir música.

Escrito por André Barcinski às 09h23

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Dez dicas para o DJ de rock

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pra começo de conversa: eu não sou DJ.

 

Não sei mixar. Não seria capaz de sincronizar a batida de duas músicas nem se minha vida dependesse disso. Não conheço a função de 90% dos botões de um mixer. Minha técnica é primitiva: acaba uma música, começa outra.

 

Faço sets de rock. Gosto de tocar sons dos anos 80 e 90, com uma musiquinha mais nova de vez em quando.

 

Sei como é difícil tocar bem. Admiro muito artistas como Mau Mau, Renato Cohen, Murphy, Guab, Snoop, Marky, Nuts, Zegon e tantos outros, que fazem mágica com duas pick-ups e um mixer.

 

Mesmo sendo um completo amador, toquei em dezenas de festas e clubes nos últimos 20 anos. Nesse tempo, aprendi algumas lições. Espero que sejam úteis para alguém:

 

Pista de rock não é lugar para mostrar conhecimento musical

Diferentemente do público de música eletrônica, que gosta de ouvir novidades, o fã de rock gosta de reconhecer as músicas que ouve na pista. Por isso, não adianta colocar aquele lado B do Two Door Cinema Club ou o novo remix que um esloveno fez para o Empire of the Sun: é Moisés na certa (“Moisés” é um fenômeno que acontece quando alguém parte uma pista em dois e abre um clarão no meio).

 

Isso quer dizer que não dá pra tocar novidade?

Claro que dá. Mas é preciso saber dosar. Não adianta fazer um set que só você e seus amigos vão gostar. Minha pista preferida, claro, é a da festa do Garagem, onde o público já nos conhece, tem bagagem musical, e onde dá para arriscar um pouco mais.

 

Às vezes, uma banda merece ser desconhecida

Numa festa do Garagem, o DJ convidado colocou três músicas seguidas do Grizzly Bear. Parecia que tinham soltado uma bomba de gás lacrimogêneo na pista. O pessoal não voltava nem se a gente distribuísse barras de ouro de graça.

 

Procure sempre obter informações sobre o tipo de público da festa

Nada pior que chegar na cabine, olhar para a pista, e não ter a MENOR idéia do que tocar. Fui discotecar num clube de rock certa vez. O público era todo na casa dos 30, 35 anos. Havia pôsteres de Rolling Stones e The Who nas paredes. Abri com “Gimme Shelter”. Ficou todo mundo parado, parecia que eu tinha colocado o CD de salmos do Cid Moreira. Por isso, recomendo sempre levar um Ipod com toda sua discoteca. Você nunca sabe do que vai precisar.

 

Olhei pra pista, não conheço ninguém. O que faço?

Uma boa dica: procure alguém usando camiseta de banda e toque uma música da banda. Costuma funcionar. Pode ser que ninguém mais reaja, mas pelo menos aquela pessoa vai gritar “Uhuuuu!!!!” e achar que a música foi escolhida especialmente pra ela. Mas cuidado com “poseurs”: uma vez, numa festa miada, tinha um moleque com camisa do My Bloody Valentine. Desesperado com a apatia geral, toquei “Only Shallow”. No meio da música, o cara chegou mostrando a camisa: “Conhece My Bloody? Rola aí, DJ!”

 

Alguém entrou na cabine para pedir música. E agora?

Isso vai rolar, é certeza. Só há uma coisa a fazer: tenha sempre um sorriso congelado no rosto e uma frase na cabeça: “Se eu tiver a música, eu toco!” E não importa o quão esdrúxulo seja o pedido, reaja sempre da mesma maneira. Argumentar é inútil. Um amigo contou que, no meio de um set, um cara chegou para ele e disse: “Aí, DJ, põe uma música pra eu rodar!” Ele não entendeu: “Como assim? Música pra rodar?” O sujeito se irritou: “É, cacete, música pra rodar, tipo ‘I Just Can’t Get Enough”, pô!”

 

Esteja preparado para o confronto

Minha pior experiência numa cabine foi num clube do ABC. Era uma festa de molecada meio gótica, meio emo. Só que o promoter não me avisou. Quando eu cheguei, o lugar parecia uma mistura do Crepúsculo de Cubatão com o Parque da Mônica. Coloquei uns sons darks dos anos 80, tipo The Cure e Siouxsie. Fui xingado, alvejado com guimbas de cigarro e latas. Um pirralho de 15 anos me entregou um CD do Tristania: “Toca a faixa 4”. Eu estava tão irritado que mandei o moleque encontrar a mãe no prostíbulo e acabei com a festa tocando “Stigmata”, do Ministry. Fica a lição: sempre grite mais alto.

 

Tente sempre manter as meninas na pista

Festas de rock costumam ser verdadeiras reuniões do Talibã, com oito a dez homens para cada mulher. O pior que você pode fazer é tocar algo que vai espantar as meninas. Por isso, evite Dead Kennedys, Ministry, Rage Against the Machine, Rammstein e Motorhead. Prefira sempre The Cure, Smiths (ou qualquer coisa do Morrissey), Siouxsie, Radiohead e Blondie.

 

Chegue cedo para “entender” a pista

Uma boa dica é chegar pelo menos meia hora antes do horário marcado e tentar captar o que está funcionando ou não. Tente fazer amizade com o DJ que toca antes de você e torça para ele não ferrar a sua vida. Uma vez, o DJ que tocou antes de mim teve a brilhante idéia de emendar uma hora dos sons mais ogros e machos da história. Rolou até Slayer. A última música que o gênio colocou foi “Killing in the Name”. O que fazer depois de Rage Against the machine? Olhei pra pista: tinha uns 30 caras – nenhuma mulher, claro – todos com olhos injetados, com baba caindo dos cantos das bocas, parecendo uma matilha de dobermans tarados.  A solução foi fingir um problema técnico e deixar o clube todo em silêncio por uns cinco minutos, até o nível de testosterona descer a níveis abaixo dos de uma luta do UFC.

 

Às vezes, as festas que menos prometem são as mais divertidas

Sábado passado, fiz um set de 5h30 no casamento de minha cunhada. Nenhum dinheiro do mundo vale a alegria de ver seu sogro, de terno e gravata, fazendo a dança do passarinho ao som de “Insane in the Brain”, do Cypress Hill. Tem coisas que só a música faz por você...

Escrito por André Barcinski às 08h36

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Um fim-de-semana de fúria (e agora com Twitter!)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Faz quase um ano que trocamos Sâo Paulo pela praia.

 

Desde o nascimento de nossa filha, há mais de três anos, que pensávamos em sair da cidade. Queríamos dar uma vida mais divertida para ela.

 

Não digo vida “melhor”, porque acho que isso é relativo. Tem gente que adora morar na cidade, que gosta do agito, das infinitas opções de lazer, de gastronomia, etc., e que aborreceria morando aqui.

 

No nosso caso – vejam bem, esse é o NOSSO caso, não estou dizendo que é a melhor opção para todo mundo – não agüentávamos mais Sâo Paulo.

 

Semana passada, fomos à cidade para alguns eventos – um casamento, a festa do Garagem, um debate da Folha, e o show do Gang of Four, domingo à tarde.

 

A viagem foi tranqüila. Atá a entrada de Sâo Paulo, andamos 270 km em 3h40 (média de 74 km/h). De Guarulhos ao nosso destino, que ficava a 30 km, levamos mais 1h45 (média de 17 km/h).

 

Tínhamos em compromisso na Vila Madalena.

 

Assim que entramos na rua Purpurina, levamos uma fechada criminosa de uma dondoca num carro de luxo, que falava num celular. Não reagimos.

 

Alguns metros adiante, a dondoca simplesmente parou o carro no meio da rua e começou a digitar uma mensagem no Smartphone. Era uma rua estreita de mão dupla, e não dava para ultrapassá-la. Minha mulher deu uma buzinada – de leve. A dondoca esticou o braço para fora da janela, estendeu o dedo médio, e continuou a digitar a mensagem como se estivesse na praia.

 

O farol abriu e fechou duas vezes, e a mulher continuava ali, tranqüila. Atrás de nós, pelo menos dez carros buzinavam furiosamente. Motoboys conseguiam furar o bloqueio e passavam zunindo e xingando a mulher. Ela só interrompia a digitação para imitar uma galinha e fazer sinais de “passa por cima”.

 

Qualquer um que conheça minha mulher sabe que ela é uma pessoa calma. O “nervoso” da família sempre fui eu. Mas ela surtou de tal maneira que achei que ela is sair do carro e espancar a dondoca: “SUA VAGABUNDA! FILHA DA P...! SAI DA FRENTE, SUA MADAME DE M...!”

 

O episódio acabou com o nosso dia. Levamos boas horas para voltar a um ritmo cardíaco normal – ou perto disso.

 

À noite, para relaxar, resolvemos ir a um de nossos restaurantes japoneses prediletos (uma das coisas que mais sentimos falta na praia é justamente um bom sushi).

 

Pedimos o de sempre: um combinado especial cheio de iguarias como água-viva, mini-polvos, ovas, etc. É um prato que pedimos há anos. Só bebemos chá e água.

 

Quando veio a conta, um choque: 230 reais.  Achei que havia algo errado. Em fevereiro, estivemos no restaurante, comemos exatamente a mesma coisa, e havíamos gasto 150. Fui checar o cardápio e era isso mesmo: o combinado tinha subido quase 50%.

 

No dia seguinte, sexta, precisei ir à Avenida Faria Lima buscar uma encomenda que um amigo de meu irmão, gentilmente, havia trazido dos Estados Unidos. Era uma pequena lente para ampliador fotográfico preto e branco, que eu comprara no Ebay por 40 dólares.

 

Era meio-dia. Eu tinha uma hora para ir dos Jardins à Faria Lima e voltar a tempo de levar nossa filha no cinema. O trajeto completo, ida e volta, dava menos de 12 km. E melhor: o táxi poderia ir pela faixa seletiva da Nove de Julho.

 

Pois bem: 50 minutos depois – 50! – o táxi não tinha andado nem 4 km. Fizemos meia-volta. Desisti. Gastei 42 reais de táxi, não consegui buscar a encomenda, e precisei contratar um motoboy para apanhar a tal lente. Só a saga de BUSCAR a encomenda custou mais que a mercadoria.

 

Chegamos no cinema, ficamos um total de 24 minutos na fila para comprar ingressos e pipoca. Quando fui entrar na sala, carregando tudo, quase levei um tombo cinematográfico porque um funcionário estava esfregando o chão ENQUANTO os espectadores entravam.

 

Aí, foi a minha vez de explodir: “P... QUE PARIU! VOCÊ PRECISA MOLHAR O CHÃO BEM NA HORA EM QUE TEM UM MONTE DE CRIANÇA ENTRANDO???!!! NÃO DAVA PRA FAZER ESSA M... DURANTE A SESSÃO?? OU VOCÊ TÁ TENTANDO MATAR ALGUÉM?!!”

 

Mais um dia estragado.

 

O sábado foi um pouco mais tranqüilo. Pelo menos até o fim da tarde, quando terminou a cerimônia de casamento de minha cunhada, em Perdizes, e os convidados se dirigiram à festa, que rolaria no início da Rua Augusta (distância: cerca de 5 km).

 

Muitos convidados – incluindo idosos de 80 e 90 anos – ficaram presos no trânsito por quase uma hora por causa da Marcha da Maconha, rebatizada de Marcha da Liberdade.

 

Domingo tinha o Gang of Four. De graça. Há meses que vínhamos sonhando em ver o show. Mas, assim que acordamos, pegamos o carro e fugimos da cidade.

 

Tudo, menos voltar na segunda e pegar o trânsito na Marginal Tietê.

 

P.S.: Twitter

Por sugestão de meu amigo Gabriel, fiz uma conta no Twitter para ajudar a divulgar o blog. Aí vai: @AndreBarcinski

 

Escrito por André Barcinski às 11h14

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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