André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Enfim, A Banda Mais Bonita da Cidade...

Pra variar, cheguei atrasado.

 

Parece que o Brasil – e o mundo – já cansaram de falar da tal “Oração”.

 

Meus chapas Forasta (R7) e Álvaro (Folhateen) fizeram textos sobre o fenômeno há cinco dias. Uma eternidade.

 

Eu tinha decidido não escrever nada sobre o tema. Mas foram tantos os pedidos – juro, recebi uns 20 e-mails – que resolvi arriscar, mesmo sob risco de soar datado ou repetir o que já foi dito.

 

O que achei de “Oração”?

 

Olha, sinto desapontar os indies revoltados de plantão, mas a coisa toda não me repeliu, como a muita gente.

 

A música é fraquinha. Mas não é pior que as criações de Mallu Magalhães, por exemplo.

 

O vídeo é bem feito, bem filmado, embora não tenha uma idéia original.

 

Muita gente tem chamado a banda de “infantil”, “ridícula”, e outras coisas piores. Mas eu acho que é quase uma obrigação do jovem ser ridículo. Vai me dizer que você olha uma foto sua adolescente e diz: “Nossa, que pessoa cool e descolada?”. Aos 17 anos, ser ridículo é um dever cívico.

 

Agora, assistir ao clipe todo foi um parto. Tem umas coisas ali que são verdadeiros obstáculos.

 

A primeira imagem já é dura de agüentar: um projeto de Caio Blat olhando pela janela, ruminativo, em contraluz, segurando um...  um... um o quê? Que coisa é aquela na mão do cara? Um smartphone? Um marca-passo? Um controle remoto de ar condicionado? Um vibrador?

 

Poucos segundos depois, aparece um sujeito de chapéu, sentado na cama. Pára tudo! (sei que a nova ortografia pede pra tirar o acento, mas ainda não me adaptei): o último homem com o direito de usar chapéu foi o Humphrey Bogart.

 

Juro que, da primeira vez que vi o clipe, não consegui assistir até o final. E a culpa não foi da música ou do chapéu do sujeito, mas de um estranho fenômeno psicológico que ocorre comigo, às vezes, e que bloqueia todas minhas funções motoras e mentais: a alegria coletiva.

 

Eu não agüento alegria coletiva. Me paralisa. Ver grupos de três ou mais pessoas exalando felicidade, por mais paradoxal que pareça, me deprime.

 

Alguns exemplos:

 

Jogos de vôlei: parei de jogar vôlei quando descobri que eu precisaria abraçar todos os jogadores do time em todos os pontos.

 

Festa de firma: a gente já sabe como acaba: com o chefe de gravata na cabeça, dando em cima da estagiária.

 

Viagens de turismo guiadas: Nada mais deprimente que seguir um guia segurando uma bandeirinha para não se perder do rebanho.

 

Refeições coletivas em restaurantes: Doze pessoas, doze pratos diferentes, brindes “à amizade”, pessoas tirando máquinas de calcular para somar a sua parte, e os inevitáveis espertalhões que tomam 15 chopes, deixam cinco reais na mesa e precisam sair correndo para “um compromisso”.

 

Bom, é isso. Espero ter trazido algo de novo e útil à discussão.

 

E pra dar uma força à Banda Mais Bonita da Cidade, separei aqui a versão que mais curti de “Oração”:

Escrito por André Barcinski às 10h43

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O cão brocha e a cadelinha manca

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Há algumas semanas, nossa casa ganhou novos moradores: dois boxers.

 

São dois bebês. Um é macho e tigrado. A outra é uma fêmea, mais novinha, cor de caramelo e patas brancas. Dois cachorros lindos.

 

Decidimos por um casal porque achamos que seria fantástico para nossa filha acompanhar todo o ciclo de nascimento de filhotes: o cio, a gravidez, o nascimento, e vários cachorrinhos pequenos correndo pela casa.

 

Combinamos com o dono do canil que ele ficaria com todos os filhotes. Perfeito.

 

Minha filha batizou a dupla de Jorge e Bebete, em homenagem a duas músicas de Jorge Ben que ela adora.

 

Eles se adaptaram rapidamente à casa: em poucas horas, já tinham destruído um canteiro de bromélias e mastigado três refletores do jardim. Umas graças.

 

Logo nos primeiros dias, percebemos que Bebete mancava de uma patinha. O veterinário identificou um inchaço na patela e pediu que a observássemos.

 

Algumas semanas passaram, e o inchaço continuava.

 

Achamos um especialista em ortopedia veterinária em Ubatuba, a 70 km de casa. Levamos os dois cachorros.

 

As notícias não foram boas: radiografias mostraram que Bebete tinha uma má-formação da tíbia e do fêmur, o que estava causando um trauma nos ligamentos.

 

Aproveitamos para fazer um check-up em Jorge. O veterinário percebeu que o coitado só tinha um testículo. Ou melhor: o segundo testículo estava “escondido” e com risco de causar uma infecção (não me peçam detalhes, urologia canina não é o meu forte).

 

Para resumir: Bebete precisaria ser operada da perna, e Jorge, castrado. Aliás, Bebete também será castrada, já que os dois têm problemas que podem ser hereditários.

 

Lá se foi nosso sonho de ver uma ninhada nascendo em casa...

 

O caso de Bebete é bem grave. O veterinário diz que não pode garantir o sucesso total da operação. Há uma boa chance de ela ficar manca pelo resto da vida. A cirurgia não é nada simples, e quase caí da cadeira quando o doutor falou o preço da operação. Tivemos de parcelar em quatro vezes.

 

Tentei contornar a situação com bom humor: Jorge passou a ser chamado de “Viagra”, “Bola Um” e “Bola Murcha”, e Bebete, que ganhou muito peso e tem problemas no joelho, de “Bebete Fenômeno”.

 

Assim que chegamos em casa, liguei para o canil. Queria avisar ao vendedor que os problemas dos cachorros poderiam ser hereditários, e que ele deveria observar outros cães das mesmas ninhadas.

 

O sujeito ouviu meu relato e nem titubeou: “Sem problema, a gente providencia a troca dos animais.”

 

Aquilo me pegou de surpresa. Juro que eu nem havia pensado na hipótese.

 

Eu disse que não queríamos trocar os boxers. Ele não acreditou: “Tem certeza? Mas a cadelinha pode ter um problema pelo resto da vida!”

 

Eu entendo a lógica do vendedor. Ele é um comerciante. Se vendeu um produto “defeituoso”, a única coisa a fazer é trocar a “mercadoria”.

 

Entendo também por que muita gente optaria por devolver os cachorros. Se você quer cães para criar, é um risco grande cruzar animais com possíveis problemas genéticos.

 

Mas nosso caso é diferente. Compramos os cachorros para nosso prazer, para ter mais companhia e alegrar nossa casa.

 

Bebete terá “problemas”? Muito provavelmente. Vai precisar de cuidados especiais? Com certeza.

 

Mas problema maior seria justificar para nossa filha porque escolhemos nos livrar de problemas simplesmente trocando as peças defeituosas. Não é assim que a vida funciona.

 

Esperamos que o “problema” de Bebete se torne uma lição bonita para nossa filha: de como devemos aceitar as coisas como elas são, e não como gostaríamos que elas fossem. Mesmo que isso dê muito trabalho. 

Escrito por André Barcinski às 02h49

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Nunca houve um cineasta tão “independente” quanto John Cassavetes

Em comemoração aos 90 anos da Folha de S. Paulo, o jornal está organizando, no Museu da Imagem e do Som de Sâo Paulo (Av. Europa, 158), uma retrospectiva de grandes filmes.

 

Toda quinta, às 19h, até agosto, haverá a exibição gratuita de um filme, seguido por um debate com um dos críticos do jornal: Inacio Araújo, Ricardo Calil e Alexandre Agabiti.

 

Eu também fui convidado a participar. Escolhi debater “Uma Mulher Sob Influência” (1974), de John Cassavetes.

 

A exibição rola amanhã, quinta-feira. Estão todos convidados. Ingressos devem ser retirados no MIS uma hora antes do início da sessão.

 

Cassavetes foi um dos grandes heróis do cinema independente. E pôe “independente” nisso: ele ganhava dinheiro como ator em superproduções hollywoodianas como “Os Doze Condenados” e “O Bebê de Rosemary” e investia tudo em seus filmes. Chegou a hipotecar a casa para fazer “Uma Mulher Sob Influência”.

 

É difícil imaginar um cinema mais livre que o de Cassavetes. Assistir a um filme dele é esquecer, por duas horas, todas as convenções e fórmulas que o cinema comercial vem criando há quase um século.

 

A maioria de seus filmes não tem “história”, mas uma trama superficial, como se fosse uma direção, um caminho.

 

Filmes de Cassavetes são polaróides do dia a dia de personagens comuns, porém angustiados e problemáticos. Não há super-heróis ou grandes reviravoltas na trama. As pessoas são o que são: falíveis, imperfeitas e imprevisíveis.

 

Seus filmes lidam com a vacuidade da vida da classe média americana. Seu tema predileto é o amor, em todas as suas formas: o amor obsessivo, o amor ausente, o amor impossível.

 

Em “Uma Mulher Sob Influência”, Gena Rowlands, esposa de Cassavetes, faz uma mulher desequilibrada, tentando manter em ordem sua vida com o marido (Peter Falk) e os três filhos. É um dos romances mais absurdos, violentos e intempestivos que o cinema já mostrou. Imperdível.

 

Nos filmes de Cassavetes, os dálogos são tão fluidos e credíveis que parece que alguém esqueceu a câmera ligada depois de terminada a cena. Não é difícil entender por que atores adoravam trabalhar com ele.

 

Para o público atual, ver Cassavetes é um desafio. A montagem, o uso do som, as atuações, tudo é diferente do que se vê no cinema contemporâneo.

 

Fico imaginando o que ele estaria fazendo hoje, com as facilidades que a tecnologia digital proporciona.

 

Quem tiver a chance de ir ao MIS verá um filme inesquecível e que continua, 37 anos depois de lançado, mais moderno que a grande maioria dos filmes atuais.

Escrito por André Barcinski às 23h19

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Grandes leituras sobre esporte

 

 

 

 

 

 

 

 

Se você estiver no Rio hoje, a pedida é ir à Livraria da Travessa para o lançamento de “Gigantes do Futebol Brasileiro”, de João Máximo e Marcos de Castro.

 

O livro foi lançado originalmente em 1965 – isso mesmo, 46 anos atrás – e agora ganha uma versão atualizada, com a inclusão de mais nove craques, como Rivelino, Zico, Ronaldo e Romário.

 

Não tive a chance de ler o livro original, esgotado há anos. Mas sempre ouvi dizer que era fantástico.

 

Gosto muito de livros sobre esporte. Por coincidência, acabei de receber um pacote com duas biografias que encomendei: a de Bobby Fischer, o excêntrico mestre do xadrez, e a de Roberto “Manos De Piedra” Duran, o mitológico boxeador panamenho.

 

Fiz uma lista de alguns ótimos livros sobre esporte. Se você tiver dicas, por favor, mande.

 

The Devil and Sonny Liston, de Nick Tosches

Inacreditável história do boxeador Sonny Liston, de sua infância miserável à sua morte, até hoje muito mal explicada. Tosches sustenta a tese de que Liston era leão-de-chácara da Máfia e que entregou duas lutas para Cassius Clay por ordem dos mafiosos.

 

Agassi, de Andre Agassi

Surpreendente autobiografia do homem que revolucionou a imagem do tênis. Agassi conta as batalhas com o pai, um sádico que chegou a apostar a casa da família num jogo do filho, e relata seus pesados problemas com drogas.

 

King of the World, de David Remnick

Um livro curto e intenso sobre a vida e carreira de Muhammad Ali e sua importância icônica na segunda metade do século 20. Remnick, editor da New Yorker, ganhou o Pulitzer pelo livro.

 

Estrela Solitária: um Brasileiro Chamado Garrincha, de Ruy Castro

Difícil imaginar uma trajetória mais triste que a de Garrincha, que conseguia driblar qualquer beque mas não conseguiu driblar a bebida e incontáveis tragédias pessoais.

 

À Sombra das Chuteiras Imortais – Crônicas sobre Futebol, de Nelson Rodrigues

Coletânea de textos de Nelson Rodrigues que abrangem desde a derrota do Brasil para o Uruguai, em 1950, ao tricampeonato, no México.

 

Vida que Segue – João Saldanha e as Copas de 1966 e 1970

Me divirto muito com as crônicas mal humoradas e minimalistas de Saldanha. Mais curioso é ler os textos dele sobre a Copa do México, de onde foi tirado pelos militares.

 

The Fight, de Norman Mailer

Sensacional relato sobre a luta de Muhammad Ali e George Foreman no Zaire, em 1974. Leia e assista a “Quando Éramos Reis”, o documentário de Leon Gast sobre a luta.

 

No Ar Rarefeito, de Jon Krakauer

O que era para ser uma reportagem sobre a comercialização das escaladas ao Everest virou o relato de tragédias que mataram 12 alpinistas. Literalmente, de gelar.

Escrito por André Barcinski às 09h43

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Família unida é a que rouba unida

 

 

 

 

 

 

 

 

Local: uma padaria “de luxo”, das mais caras da cidade de Sâo Paulo. Um misto quente custa o preço de um almoço no Centro.

 

Estou na fila para pagar. Na minha frente, há uma velhinha miúda, de uns 80 anos, acompanhado de um casal de cerca de 50 anos. Os três estão bem vestidos. Parecem estar voltando de uma peça de teatro ou coisa parecida.

 

A velhinha entrega o cartão de comanda para a menina do caixa: “Está zerada a comanda, pode passar, senhora!”

 

Um funcionário da loja se aproxima da velhinha. Ele fala em voz baixa: “Minha senhora, é a terceira vez em dez dias que a senhora dá o mesmo golpe...”

 

A velhinha parece não entender o que se passa.

 

O funcionário mostra uma comanda para ela. “A senhora pegou duas comandas, usou uma, e jogou a comanda usada na lata de lixo. É a terceira vez que eu vejo a senhora fazendo isso em pouco mais de uma semana.”

 

A velhinha esboça um protesto: “Eu não sei o que o senhor está falando...”

 

O funcionário diz, sem perder a calma: “A senhora tem duas opções: ou paga o que tem nessa comanda, ou eu chamo a viatura e a gente vai pra delegacia assistir ao vídeo do circuito interno”.

 

A velhinha, sem dizer nada, pega a comanda e paga a conta: mais de 60 reais. O casal acompanha tudo, calado. Os três saem da padaria.

 

No estacionamento, vejo a mulher discutindo com a velhinha. “Eu te disse, mãe! Você é muito burra! Não te disse que aquele sujeito já tinha sacado?”

 

O trio entra num carro. Preço de tabela do carro: mais de 100 mil reais.

 

Voltei à padaria e procurei o funcionário. Contei que a família toda estava na jogada.

 

“Ah, eu sei, esses três aí dão esse golpe há um tempão”, respondeu. “Cada dia é um que esconde a comanda!”

 

Mas então por que vocês deixam esses safados entrarem na padaria?

 

“Porque senão eles processam a gente por constrangimento público. Hoje eu dei sorte que a velha jogou a comanda numa lata de lixo bem na frente da câmera. Geralmente eles jogam a comanda no lixo do banheiro, onde a gente não pode pôr câmera”.

 

Definitivamente, o Brasil não é para amadores.

Escrito por André Barcinski às 21h24

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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