André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Dez momentos sublimes de Ray Davies

OK, Lennon, McCartney e Brian Wilson são intocáveis; o Pelé, o Garrincha e o Maradona da música pop.

Mas Ray Davies não fica muito atrás. Para mim, o gênio dos Kinks foi o maior cronista de costumes que a música pop já teve.

Davies captou, como ninguém, o senso de melancolia e saudosismo da geração que cresceu no pós-guerra na Inglaterra.

Se o rock sempre foi “do contra”, Ray Davies era ainda mais radical: ele foi contra ser do contra; um dos poucos artistas de sua geração que não viveu às custas de destruir a herança das gerações anteriores.

Li há poucos dias uma entrevista muito legal do irmão de Ray, Dave Davies, seu comparsa no Kinks - e hoje, infelizmente, seu inimigo. Dave dizia: “Nos anos 60, o The Who mandava os jovens culparem seus pais por tudo. Nós nunca fizemos isso, até porque nossos pais eram pessoas maravilhosas e que sempre nos apoiaram. Ray entendeu isso. Ele sacou que nem tudo que era antigo precisava ser descartado, que muito daquilo deveria ser guardado para nos orientar para o futuro.”

Quando ouço a música dos Kinks, especialmente os três álbuns antológicos que marcaram a maturidade de Ray Davies como compositor - “Face to Face” (1966), “Something Else” (1967) e “The Kinks Are the Village Green Preservation Society” (1968) - percebo exatamente isso: um artista que respeita e recicla as tradições musicais e culturais de sua juventude.

Ninguém escreveu com tanta classe, ironia e carinho sobre a classe média inglesa como Ray Davies.

Selecionei minhas dez músicas prediletas dos Kinks. Ficaram de fora algumas músicas consideradas clássicas da banda, mas, como escrevi, é uma seleção pessoal. Mande a sua e compare.

Aí vão, em ordem cronológica:

I Need You (1965) – Pra mim, uma paulada mais furiosa que “You Really Got Me”. A microfonia na abertura arrepia. Dois minutos de pura perfeição pop.

Tired of Waiting for You (1965) – Melodia preguiçosa, com Davies lamentando um amor que não deu certo. O tempo parece parar quando a música desacelera e ele canta “It’s your life / You can do what you want”...

See My Friends (1965) – Kinks com um pé na psicodelia, prenunciando, com melodias indianas e cítaras (na verdade, uma guitarra soando como uma cítaras), o que os Beatles fariam em “Norwegian Wood” e os Byrds em “Why”.

Too Much on My Mind (1966) – Davies pondera sua própria sanidade. O cravo que acompanha o refrão é um dos sons mais lindos já criados por qualquer ser humano.

Sunny Afternoon  (1966) – Davies tem um humor tão fino que até essa letra, uma brincadeira boba com os altos impostos cobrados pelo governo, toma a dimensão de um comentário sobre a vacuidade e a melancolia da fama.

Warterloo Sunset (1967) – Pára tudo. Se você não fica com um nó na garganta nos primeiros 15 segundos dessa música, vai se tratar. O que é “Waterloo Sunset”? Um lamento por uma Inglaterra que já não existia? Uma fotografia sépia de imagens que povoavam os sonhos de Davies? Ou só a história de dois namorados andando por baixo de uma ponte?  

Two Sisters (1967) – Novamente, o arranjo usa um cravo (tocado por Nicky Hopkins – aliás, saiu um livro fantástico sobre ele) para dar à música um tom saudosista e triste. A letra supostamente fala das diferenças entre duas irmãs, mas pode ser vista como um comentário entre a rivalidade de Ray e Dave.

The Village Green Preservation Society (1968) – “Preservando os modos antigos de abuso / Protegendo os novos modos para você e para mim”, canta Ray Davies nesse delírio folk-psicodélico sobre a necessidade de entender e respeitar o passado. De chorar.

Big Sky (1968) – Ray não canta, ele declama essa música como se fosse uma narração de rádio. Uma faixa solar, livre, apoteótica, com uma letra críptica, aparentemente inspirada na visão de pessoas correndo como formigas enquanto Ray as observava, do alto de um hotel.

Lola (1970) – Uma crônica quase jornalística sobre o encontro, num clube do Soho, com um travesti chamado Lola. Davies afirmou várias vezes que a música foi inspirada por uma pessoa real. “Não interessa se é homem ou mulher”, disse.

Escrito por André Barcinski às 22h00

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

A noite em que o Brasil sofreu um apagão

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Impressionante a rodada do futebol ontem. Os quatro times brasileiros que entraram em campo foram eliminados – Internacional, Cruzeiro, Fluminense e Grêmio.

O mais impressionante foi a paralisia coletiva que atacou os times. Ninguém conseguiu jogar.

Por favor, peço que não transformem esse post em mais uma daquelas briguinhas infantis do tipo “meu time é melhor que o seu”. Apagões desse tipo acontecem com todo mundo. Basta ver o segundo tempo que nosso melhor time, a seleção brasileira, jogou – ou melhor, não jogou – contra a Holanda, na Copa de 2010.

O que faz onze jogadores bem preparados não conseguirem trocar passes de dois metros? O que faz goleiros consagrados travarem os músculos e não chegarem em bolas fáceis?

Tenho uma teoria: acho que o futebol é propenso a apagões e zebras por ser o esporte mais coletivo que existe.

Em outros esportes coletivos – basquete, vôlei, handebol – um jogador excepcional pode fazer a diferença, sozinho. Isso não acontece no futebol. Não adianta ter um Messi no meio-campo, se a bola não chega até ele. Não adianta ter o Casillas no gol, se a defesa for uma peneira.

Outro fator importante: na maioria dos esportes, a pontuação é muito mais alta que no futebol. Existem muito mais pontos a ser disputados, e isso acaba equilibrando as coisas.

Morei bastante tempo nos Estados Unidos, e a coisa que mais me irrita no esporte norte-americano é a ausência da zebra. Americano não gosta de surpresas. Isso se estende ao esporte. Tanto que as finais de basquete, beisebol e hóquei são disputadas em melhor de sete jogos.

O único esporte norte-americano onde, vez por outra, pinta uma zebra, é o futebol americano. É o único campeonato decidido em um só jogo e, claro, é parente do nosso futebol.

Mas o número de zebras é bem menor que no futebol “brasileiro”, até porque o jogo é interrompido a cada 30 segundos e os times são divididos entre ataque e defesa, que nem entram em campo juntos.

O beisebol, então, é o esporte coletivo mais individualizado que existe. Cada jogador tem uma pontuação própria, e seus resultados são tabulados individualmente. As marcas individuais são tão importantes quanto a colocação final do time no campeonato.

Não adianta os comentaristas tentarem explicar os apagões dos times de futebol. Está tudo na cabeça. Os times sabem como devem jogar, os técnicos dão as instruções certas, os planos estão traçados. Mas o cérebro dos jogadores se recusa a obedecer.

Escrito por André Barcinski às 09h00

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Prostitutas, uísque, volume e anfetamina: o mundo de "Lemmy"

Finalmente assisti a “Lemmy”, o documentário sobre o mítico líder do Motorhead. É divertidíssimo.

O filme traz dezenas de depoimentos de gente como Dave Grohl, Billy Bob Thornton, Dave Navarro, Alice Cooper, Ozzy Osbourne, Peter Hook, Slash, Ice T, Henry Rollins, os integrantes do Metallica e antigos parceiros e colaboradores.

Há ótimas cenas de arquivo de Lemmy, desde sua infância, passada em meio aos escombros da Segunda Guerra, passando por seus biscates como roadie de Jimi Hendrix e chegando à consagração com o Hawkwind, a banda mais demente e junkie do planeta, da qual Lemmy conseguiu ser despedido por ser excessivamente demente e junkie.

Os integrantes do Hawkwind são entrevistados. E Lemmy pega pesado: “Sâo todos uns filhos da puta, me deixaram arrasado. De vingança, eu comi as mulheres de três deles”.

O mais interessante do filme, no entanto, são as cenas íntimas, mostrando o dia a dia de Lemmy em seu pequeno apartamento em Hollywood, um muquifo forrado com memorabilia do Motorhead e com sua vasta coleção de objetos de guerra, em especial artefatos nazistas.

O personagem que surge é um homem triste e solitário. Lemmy fala pouco de sua vida pessoal e não consegue esconder o constrangimento quando está próximo ao filho, Paul.

Lemmy não é a pessoa mais afetuosa do mundo. Em certo momento, conta, na frente do filho, como ele foi “um acidente”.

Paul já deve estar acostumado com o estilo “pedreiro” do pai, e relata algumas histórias curiosas do mito: “Quando eu fiz 17 anos, meu pai me disse: ‘filho, você já é um homem, e quero te dar um conselho: você precisa prometer que nunca, nunca mesmo, vai cheirar cocaína... use anfetamina, que é muito melhor!’”

A lendária resistência de Lemmy a qualquer tipo de estimulante é motivo de espanto. Ouvir junkies de carteirinha como Ozzy Osbourne e Dave Navarro contando como não conseguiam acompanhar Lemmy em suas incursões anfetamínicas, impressiona. “Aquele filho da puta é feito de aço”, diz o sempre cândido Ozzy.

Jim Heath, conhecido por Reverend Horton Heat, conta que começou a tomar umas e outras com Lemmy durante um ensaio e acabou no hospital, em coma alcoólico.

Mas o filme não se estende muito sobre o assunto. Quem quiser conhecer outras histórias escabrosas sobre o lado mais escuro de Lemmy deve ler sua autobiografia, “White Line Fever”, em que ele descreve a sensação de ficar oito dias direto acordado.

No fim das contas, o que surge é uma figura solitária e melancólica, cujos interesses na vida se resumem, como diz um empresário, a “putas, anfetamina, som alto e Jack Daniel’s”.

Escrito por André Barcinski às 11h28

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Bin Laden ressuscita a indústria da conspiração

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vivemos numa época em que a propaganda e o noticiário estão tão conectados, que a primeira reação ao ver qualquer notícia é questionar: “quem se beneficia com isso?”

 

No fim-de-semana passado, o mundo assistiu a três grandes eventos de relações públicas.

 

O primeiro foi o casamento real na Inglaterra. O segundo, a beatificação do Papa João Paulo 2º. E o terceiro, claro, foi o anúncio da morte de Osama Bin Laden.

 

Foram três acontecimentos históricos que serviram para dar novo fôlego a instituições que já viram dias melhores: a realeza britânica, o Vaticano, e o governo de Barack Obama.

 

Não estou fazendo nenhum juízo de valor. Independentemente de você ser monarquista, católico ou norte-americano, é inegável que os eventos foram orquestrados para obter máximo impacto midiático.

 

No caso de Bin Laden, o que mais me impressionou foi a desconfiança com que a notícia foi recebida por leitores de sites e em grupos de discussão.

 

Poucos minutos depois do anúncio, já pipocavam na web as teorias mais diversas: que a morte teria sido uma farsa para alavancar a popularidade de Obama; que a foto de Osama morto seria uma fabricação, e que o sumiço do corpo do terrorista estava muito mal explicado, entre outras.

 

Sem querer aderir a teorias conspiratórias, mas não dá para negar que alguma coisa não bate bem nessa história: por que não há uma única foto do corpo ou da cerimônia em que ele foi jogado ao mar? Será que essas imagens existem? Serão divulgadas?

 

Para falar a verdade, não importa. A largada foi dada, e a indústria da conspiração deve estar a todo vapor.

 

Tenho certeza que, nesse exato momento, dezenas de livros estão sendo escritos sobre a “farsa” da morte de Bin Laden. Jello Biafra já rabiscou algumas letras sobre o tema. E, em algum lugar da Califórnia, Oliver Stone prepara seu novo filme.

Escrito por André Barcinski às 09h00

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Segunda, Sâo Paulo vai acabar

Passei o domingo todo pensando: o que pode ser pior que assistir a uma corrida de Fórmula Indy no Anhembi, ouvir Luan Santana cantando o hino nacional, tomar quatro horas de chuva na cabeça, ver a prova ser adiada e descobrir que ela será realizada na manhã de segunda-feira, quando cinco milhôes de pessoas estarão tentando chegar ao trabalho?

Difícil. Talvez ser atropelado por um trio elétrico dirigido pelo Luan Santana enquanto ele canta o hino nacional debaixo de uma tempestade. Talvez.

Nem a imaginação mais doentia é capaz de antever o sétimo círculo do inferno em que se transformará a cidade de Sâo Paulo segunda (escrevo isso domingo à noite).

Para melhorar, leio no UOL que a direção da prova cogita fazer a corrida de portões abertos. Alguém me tira o tubo, por favor?

Talvez a cidade de Sâo Paulo esteja tentando estabelecer um recorde mundial de engarrafamento de trânsito. Afinal, não há milhares de turistas na cidade, todos fãs de automobilismo? E quem adora carro deve curtir ficar doze horas preso dentro de um, certo?

Já que a idéia é dar um nó na cidade, porque não fazem a primeira metade da corrida às 9 da manhã, interrompem para um almoço, e depois retomam às 5 da tarde? Não seria mais divertido? Por que não deixam os carros correr no meio da Marginal, junto com os fretados e os motoboys? Que tal fazer a entrega dos troféus na 23 de Maio, às seis da tarde?

Aí sim, a cidade iria parar de verdade para ver a Indy.

Escrito por André Barcinski às 19h10

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha.com. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha.com.