André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

O "bullying" começa assim...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O assunto “bullying” está em voga.

 

Felizmente, não notamos isso com a nossa filha. Ela tem três anos e estuda numa escola Waldorf. É uma escola bem pequena. O clima é pacífico, e os coleguinhas dela parecem adoráveis.

 

Mas, há alguns dias, tivemos um exemplo de como o “bullying” pode surgir nos lugares mais inesperados.

 

Chegou um circo aqui na cidade. A escola resolveu levar os alunos. Os pais foram convidados a acompanhar os filhos.

 

Eu nunca gostei muito de circo. Mas nossa filha adora. Ela já teve medo de palhaços. Hoje mudou de idéia e gosta muito deles.

 

O que realmente apavora a coitadinha não é uma máscara feia, mas descobrir que existe um ser humano por baixo dela.

 

Um dia, fomos ver a Folia de Reis no Parque da Água Branca. Havia muita gente fantasiada. Ela curtiu e até tirou fotos abraçada a um sujeito com uma fantasia que parecia um cavalo psicodélico.

 

Estava tudo bem, até que o homem tirou a máscara: minha filha teve um ataque histérico e saiu correndo pelo parque, aos berros.

 

De volta ao circo: era um daqueles bem pobrezinhos, em que o trapezista também é o bilheteiro e vendedor de pipoca.

 

Era uma sessão especial para várias escolas da cidade. Minha filha e os coleguinhas ficaram espremidos entre dois grupos com crianças mais velhas, de sete ou oito anos.

 

A primeira atração foi um caubói que, usando um chicote, cortava jornais e tirava cigarros das bocas de duas assistentes. Até eu me assustei com o barulho das chicotadas. Imagino as crianças.

 

Logo depois, entrou um palhaço. Não sei se o cara estava de mau humor ou se tinha tomado um pé da palhaça, mas foi o clown mais barra pesada que já vi.

 

­- Ô você... É, você mesmo... Ô Faustão, vem cá! - disse o sujeito, chamando um menino gordinho da platéia.

 

- Quantas pizzas você comeu hoje? Tua barriga tá que nem a minha!

 

Depois chamou uma menina:

 

- E você, sobe aqui no palco... Que linda! Gente, não parece a Claudia Leitte?

 

A atração seguinte foi a “dança das cadeiras”. Numa prova de sensibilidade digna do Carlos Imperial, o palhaço juntou na brincadeira crianças de dois a oito anos.

 

- Vai começar! Vamos ver quem vai ganhar! Capricha aí, Faustão! Som na caixa!

 

Os alto-falantes cuspiram “Meteoro da Paixão”, de Luan Santana, num volume que parecia um boeing decolando.

 

Claro que o Faustão ganhou a prova. Quando só restava uma cadeira, ele deu uma bundada no rival, um pirralho de uns três anos, que quase foi parar dentro do Globo da Morte.

 

Aí ecoou uma voz que parecia o Mister M:

 

- Agora vamos para o intervalo... Quem quer provar nossos salgadinhos, batatas fritas, algodão doce, refrigerantes e balas?

 

O lugar quase veio abaixo. A molecada invadiu os carrinhos. Foi aquela overdose de calorias.

 

Minha filha olhou para o lado, onde crianças se empanturravam com Sukita, Cheetos, montanhas de algodão doce e batatas fritas besuntadas de óleo. Depois, contemplou o suquinho de maçã e as uvas que havíamos trazido para ela.

 

- Papai, eu quero aquilo!

 

- Mas filhinha, isso faz um mal danado. Esse salgadinho vai estufar a sua barriga! Esse algodão doce deve ter sido feito num porão infecto! O gás desse refrigerante vai corroer seu intestino...

 

- Eu sei, mas eu quero aquele salgadinho amarelo! – e apontou para um menino, que mostrava a língua imunda de Cheetos. O menino ficou com pena dela e ofereceu um salgadinho:

 

- Pode pegar, é o salgadinho do Ben 10!

 

- Papai, o que é o Ben 10?

 

Gelei. Há três anos eu temia por essa hora. Mas já tinha a resposta pronta:

 

- Filhinha, Ben 10 é uma criação do próprio Satanás. Em conluio com os anjos do inferno, também conhecidos por executivos da indústria do entretenimento infantil, o diabo inventou esse Ben 10 para cooptar almas inocentes como a sua e transformá-las em zumbis acéfalos, em marionetes descerebradas que vão lotar shoppings, parques temáticos, e bufês infantis, perpetuando assim uma geração de autômatos, fãs de reality shows e de SUVs.

 

- Ah, tá bom, papai. Mas eu quero o Ben 10!

 

Só nos restou fugir.

 

Isso foi há alguns dias. Minha filha, fico feliz em dizer, está melhor. Acho que a dieta de granola com iogurte está fazendo efeito. A música de meditação, que rola ininterruptamente há três ou quatro dias, ajudou a acalmar a coitadinha. Já, já, esperamos libertá-la do jardim.

Escrito por André Barcinski às 22h01

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Dois gênios em busca do som perfeito

Vi dois filmes essa semana sobre personagens que têm muito em comum.

O primeiro foi “Les Paul – Chasing Sound”, um documentário da TV americana que o Multishow HD está exibindo. O segundo, comprei em DVD: “Tom Dowd & The Language of Music”.

Les Paul e Tom Dowd são dois gênios da música e dois revolucionários das técnicas de gravação de som.

Les Paul (1915-2009) era um misto de Professor Pardal e Django Reinhardt. Um guitarrista virtuoso e um inventor maluco. Criou uma das primeiras guitarras elétricas de corpo sólido e foi um dos pioneiros da gravação em múltiplos canais.

Tom Dowd (1925 - 2002) era um físico nuclear que, depois de abandonar o ramo ao saber que seus estudos colaboraram para a bomba de Hiroshima, caiu de pára-quedas na cena musical nova-iorquina, no fim dos anos 40, e tornou-se o principal engenheiro de som do selo Atlantic, onde gravou discos clássicos com Ray Charles, Aretha Franklin, The Coasters, Thelonius Monk, John Coltrane, Allman Brothers, Eric Clapton, Otis Redding, Cream e centenas de outros.

Os filmes são convencionais: entrevistas, imagens de arquivo, mais entrevistas, fotos antigas, etc. Mas as duas histórias são fascinantes.

Les Paul fala de seus encontros com Lester Young, Django Reinhardt, Bing Crosby, Louis Armstrong, Count Basie e Miles Davis.

Tom Dowd conta histórias da cena musical pré-rock’n’roll e da importância que a Atlantic teve ao trazer para o público branco a música negra, como o soul e o rhythm’n’blues.

Mas o que emociona mesmo é ouvir esses dois falando de suas buscas pelo som perfeito.

É preciso lembrar que, até os anos 60, quando a gravação em múltiplos canais se popularizou, os estúdios eram rudimentares. Vários músicos tinham de se espremer em torno de um único microfone. Instrumentos de som mais baixo costumavam desaparecer nas gravações.

Foi graças a esforços de visionários como Les Paul e Tom Dowd que a gravação de tornou uma arte.

Desde os anos 30, Les Paul já experimentava técnicas primitivas de gravações sobrepostas. Como ele fazia? Simples: naquela época, não havia nem fita magnética, e o som era gravado diretamente num disco de acetato. Les Paul gravava uma guitarra em um disco, depois tocava em cima do som desse mesmo disco, que era captado com um microfone, criando assim dois sons sobrepostos. Chegou a usar 500 acetatos numa só gravação.

Foi só em 1955 que ele conseguiu convencer a marca Ampex a fabricar o primeiro gravador em oito canais. Depois disso, Les passou a gravar todos seus discos em casa, experimentando os efeitos de eco nos corredores e nos banheiros.

Se o primeiro gravador foi o de Les Paul, o segundo foi encomendado por Tom Dowd, que o colocou no estúdio da Atlantic.

No filme, Dowd relata a surpresa de Ray Charles ao ouvir, pela primeira vez, uma gravação em oito canais. “Quer dizer que eu posso aumentar o som da bateria quando quiser?”, pergunta Ray.

Ele conta também seu encontro com George Martin, e sua surpresa ao descobrir que, em toda a Inglaterra, não havia um gravador com mais de três canais. “Os Beatles gravavam em dois ou quatro canais”, conta Dowd. “E nós já usávamos oito canais há pelo menos cinco ou seis anos!”

O que leva a uma questão intrigante: como teriam sido as obras de gênios como Muddy Waters, Robert Johnson, Sidney Bechet, Django Reinhardt e de outros pioneiros do jazz e blues, se tivessem acesso à técnica de gravação em múltiplos canais? Como tecnologias primárias influenciavam decisões estéticas?

E não digo só na música não: como teriam sido os filmes de Chaplin, Buster Keaton, Lang, Pabst e Murnau, se não tivessem o impedimento de trabalhar com câmeras rudimentares? Alguém já notou como muitos filmes dos anos 30 parecem estáticos? Claro, as câmeras sonoras pesavam meia tonelada...

No filme, o chefão da Atlantic, o mitológico Ahmet Ertegun, conta que se irritava ao comparar a qualidade dos artistas ao vivo e em disco. “No fim dos anos 30, fui ver Cab Calloway num teatro, e meu coração quase explodiu de alegria. Nenhum disco dele capturava o som daquela banda em cima de um palco”.

Depois de assistir aos dois filmes, fiquei com alguns pensamentos na cabeça.

O primeiro: a música de hoje é um lixo.

O segundo: o mundo parece não levar a música tão a sério como em outras épocas.

Ouvir esses dois velhinhos contando, em detalhes, suas batalhas para obter o som perfeito, para capturar, como diz Les Paul, “um relâmpago numa garrafa”, arrepia.

Escrito por André Barcinski às 00h15

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Que tal dar mais uma chance para "Ilha do Medo"?

Atenção: esse texto contém “spoilers”. Se você ainda não assistiu a “Ilha do Medo”, sugiro que pare de ler e veja o filme...

Dias atrás revi “Ilha do Medo”, de Martin Scorsese.

Cada vez que vejo esse filme, gosto mais. Quando foi lançado, há cerca de um ano, fiz uma crítica elogiosa na Folha (leia aqui). Mas reparei que muita gente não gostou.

Eu não só adorei, como acho que Scorsese está embalado. Seus três últimos filmes– “O Aviador”, “Os Infiltrados” e “Ilha do Medo” – são, na minha opinião, muito bons.

O que eu acho mais interessante em “Ilha do Medo” é que ele pode ser apreciado sob diversos ângulos.

Se você está assistindo pela primeira vez e não sabe o fim da história, ele funciona como um “thriller” de suspense – se bem que esse é seu lado menos surpreendente.

Se você já viu o filme, ele vira uma descrição aterrorizante do esfacelamento psicológico do personagem de Leonardo Di Caprio. Me lembra muito um filmaço de Samuel Fuller, “Shock Corridor”, em que um jornalista se finge de maluco para penetrar num hospício e tentar solucionar um crime.

Quando assisti ao filme pela primeira vez, confesso que adivinhei o final bem no começo da história.

Com poucos minutos de filme, Scorsese começa a espalhar alguns erros de continuidade, pequenas “falhas”. Detalhes de mãos que estão em uma posição e, no contraplano, aparecem em outra; objetos que somem de um plano para outro.

Nenhum desses erros acontece com o personagem de Di Caprio, apenas com os personagens que contracenavam com ele. Ou seja, era como se Di Caprio estivesse observando, nos outros, uma narrativa fragmentada. Ficou óbvio que algo estava errado com o sujeito.

Quando você assiste ao filme pela segunda vez, já sabendo disso, começa a ver a história por um ângulo diferente: percebe-se, claramente, como aquilo tudo é um circo, uma encenação para tentar tirar Di Caprio de seus delírios.

Há uma cena fantástica, em que Di Caprio e Mark Ruffalo interrogam uma paciente. Di Caprio pergunta sobre um certo “Doutor Sheehan”, um médico que poderia ajudar na investigação, mas que sumiu antes de ser interrogado (descobriremos, depois, que Ruffalo é o próprio Sheehan).

Quando Di Caprio pergunta à paciente sobre Sheehan, ela dá uma olhada de leve para Ruffalo, quase um reflexo inconsciente. Da primeira vez que assisti, não identifiquei nisso um sinal de reconhecimento, apenas de nervosismo da mulher. Mas, revendo a cena, fica claro que ela dá aquela olhada como se dissesse: “Então, Doutor Sheehan, nosso teatrinho está funcionando...” É outro filme.

Eu gosto de tudo em “Ilha do Medo”: a fotografia, o clima de terror paranóico que é Fuller na veia, os delírios technicolor e a reconstituição teatral da tomada de Dachau. Mas a edição é o que mais me impressiona: Como Scorsese e sua colaboradora mais fiel, Thelma Schoonmaker, conseguem, por meio de engenhosos detalhes de montagem, dar dimensão psicológica a cenas que parecem corriqueiras.

Scorsese está embalado. Não posso esperar pelo próximo filme dele, “The Irishman”, que, além de reuni-lo novamente com Robert De Niro, Joe Pesci e Harvey Keitel, vai promover sua primeira colaboração com Al Pacino. Sai de baixo.

Escrito por André Barcinski às 10h54

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A guerra das comidas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Há algumas semanas, fiz aqui no blog um texto exaltando o que chamei de “gastronomia ogra”, ou a boa e velha comida de boteco. No texto, fiz uma lista de dez condições que um restaurante precisava obedecer para se credenciar ao título de “ogro”.

Um monte de gente republicou a matéria. Os posts – fiz duas continuações, com listas dos meus restaurantes ogros prediletos no Rio e em Sâo Paulo – tiveram centenas de comentários, com incontáveis dicas de leitores.  Juro que não esperava tanta repercussão.

Só que algumas pessoas parecem ter levado a coisa para um lado extremo. Pintou uma espécie de xiitismo gastronômico, como se gostar de baixa gastronomia significasse desprezar a cozinha mais sofisticada.

Vi vários comentários do tipo: “É isso aí, ninguém agüenta mais tanta frescura!” Só faltaram as tochas pra queimar os hereges da alta gastronomia.

Escrevo isso na semana em que o Maní, restaurante chefiado por minha amiga Helena Rizzo e pelo marido, Daniel Redondo, entrou em 74º lugar na lista dos 100 melhores do mundo, escolhidos pela revista inglesa Restaurant. O Brasil teve dois outros restaurantes na lista: o D.O.M., em sétimo, e o Fasano, em 59º.

Acho que colocar a alta e a baixa gastronomia em cantos opostos de um ringue, como se fossem adversários, é uma besteira sem tamanho.

Comer é muito bom, tanto num restaurante estrelado quanto numa chapa engordurada às quatro da manhã, saindo da balada. É tudo uma questão de circunstância.

Dá pra fazer uma analogia musical: se a Galinhada do Bahia é o Ramones, o Maní é a PJ Harvey. Um é simples e direto; o outro é cerebral e delicado. Mas os dois são igualmente ótimos. O negócio é saber apreciá-los.

Lembro que Alex Atala, chef do D.O.M., deu uma entrevista para José Mojica Marins no programa de TV que eu dirijo, “O Estranho Mundo de Zé do Caixão”.

Foi bonito vê-lo falar dos anos de estudo e prática que levou para aperfeiçoar suas criações, e depois contar o prazer que sente ao comer um simples peixe frito na praia.

Ou seja: o chef mais estrelado do Brasil parece entender que cada prato tem sua hora e seu lugar. Não entender isso, ou ficar com ortodoxias, é pra quem prefere brigar a comer.

Escrito por André Barcinski às 00h06

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Meu feriado na praia: por C., 9 anos

Este feriado de Semana Santa bateu todos os recordes de lotação, sujeira e engarrafamento. Foi impressionante. Nunca vi o litoral tão abarrotado.

Durante o feriado, recebemos alguns amigos aqui em casa. Pedi ao filho de um amigo, um menino de nove anos, que escrevesse uma redação contando sobre seus dias na praia. Aqui vai o relato (nomes foram suprimidos ou mudados para evitar possíveis constrangimentos).

Meu feriado na praia – por C.(nove anos)

Passamos o feriado em Paraty, na casa do tio A. e da tia P.

Saímos de Sâo Paulo na quinta de manhã. Foi muito legal. Nunca vi tantos carros juntos. Levamos mais de uma hora só para sair da garagem do prédio. Papai começou a gritar e bater no teto do carro. Foi muito gozado.

Na estrada, vi uma coisa da hora: um moço que tocava pandeiro e dirigia o carro ao mesmo tempo. O carro dele estava lotado. Todo mundo tocava um instrumento diferente. Tinha pelo menos sete pessoas no carro. Era um pessoal muito alegre e engraçado. Eles cantavam pagode e jogavam comida na estrada pela janela do carro. Mamãe achou um horror. Mas eu ri muito.

Chegamos em Paraty quase onze da noite. Papai disse que era mais rápido ir pros Estados Unidos.

De manhã, fomos até o cais pegar um barco. Estava muito cheio. Parecia uma cena daquele filme Piratas do Caribe. Tinha barco com gente pendurada no mastro. Da hora.

Fomos até uma praia chamada Salvador Moreira. Fica na Ilha do Araújo. Tio A. disse que era uma praia linda. Mas não deu pra ver a praia direito. Tinha tanta fumaça que a gente não conseguia ver a areia. A fumaça era de um churrasco. A praia inteira estava com cheio de lingüiça. Fiz até uma foto com o celular, dá uma olhada.

Mamãe ficou triste. Ele disse que era Sexta Feira Santa e que o pessoal não deveria comer carne.

Fomos almoçar em outra ilha. Tio A. disse que era um lugar tranqüilo e sossegado. Chegamos lá e tinha um pessoal dançando o Rebolation na areia. Foi muito engraçado. O pessoal fazia pirâmides e depois caíam todos na areia, um por cima do outro. Parece que um até quebrou a cabeça. Era uma gritaria só.

Fomos almoçar num quiosque. Pedimos peixe frito com pirão. Mas eu acabei comendo biscoito, porque o peixe demorou muito pra sair. Já era quase de noite quando o moço trouxe os pratos. Em vez de peixe, ele trouxe macarrão com farofa. Papai brigou com o moço. Tivemos de sair correndo para o barco. O moço ficou muito bravo e disse que ia bater na gente.

Na manhã de sábado, tio A. e tia P. levaram a gente para uma praia chamada Praia das Tartarugas. Tio A. disse que o lugar tinha muita tartaruga. Eu vi uma coisa grande boiando. Achei que era uma tartaruga. Mas era uma garrafa PET de Fanta Uva.

Vi um monte de coisas na água, mas nenhuma tartaruga. Vi sacos de Doritos, vidros de Cenoura e Bronze e um monte de latinhas de cerveja. Tinha também um pessoal de jet ski que quase atropelou uma família em cima de um barco em forma de banana.

O pessoal era muito engraçado. Tinha um grupo do lado da gente que estava comendo frango com molho. Depois de comer, fizeram uma guerra de areia. Nossas coisas ficaram sujas de areia e molho de tomate. Eu ri muito.

Voltamos pra casa no domingo de manhã. Papai falou que a gente ia sair cedo pra não pegar trânsito. Mas começou a chover muito. Chegamos em Sâo Paulo segunda de manhã. Papai falou um monte de palavrões. Mamãe até chorou. Mas eu achei da hora. Nunca tinha visto um sofá boiando na Marginal com um moço em cima.

Vim para a escola direto. Estou morrendo de sono. Papai disse que nunca mais a gente vai viajar no feriado. Mas eu não posso esperar pelo próximo.

Escrito por André Barcinski às 10h26

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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