André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Hoje é o dia nacional de mentir pro patrão

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Véspera de feriado é um dia estranho.

Hoje, quarta-feira, 20 de abril, os vírus vão se espalhar mais rapidamente pelo ar. A poeira causará mais irritação que em outros dias. Tosses. Gripes. Viroses. Resfriados. O sistema imunológico da população está em frangalhos.

Em dias assim, parentes ficam mais doentes. Mães, pais, tios e cachorros de estimação adoecem aos montes. Alguns até morrem. E outros, estranhamente, morrem várias vezes.

Você está no trabalho? Então olhe para o lado: quantos colegas faltaram hoje? Muitos? Repare no silêncio, nas mesas vazias...

A solidão dos escritórios contrasta com a movimentação frenética das rodovias. Pode ter certeza: para cada mesa vazia há um automóvel cheio, zarpando em direção ao litoral.

Porque hoje é véspera de feriado.

Qualquer um que tenha um negócio ou que já tenha passado por algum cargo de chefia sabe que hoje é um dia especial.

Há alguns anos, eu chefiava uma redação. Cansado de ver o sofrimento dos funcionários, fiz uma circular proibindo-os de ficar doente às sextas, segundas e vésperas de feriado.

A circular deu resultado: no mesmo dia, mais da metade da redação veio à minha sala, justificar alguma ausência recente.

A mensagem teve um efeito terapêutico milagroso: depois dela, a saúde da equipe melhorou a olhos vistos. Um verdadeiro elixir.

Não sei que desequilíbrio cósmico causa tantos acidentes e tragédias em vésperas de feriados. Será alguma maldição? Alguma bruxaria? No creo, pero que las hay, las hay...

Tive um funcionário que, mal se aproximava o feriado, começava a sentir dores terríveis nos dentes. Tão terríveis que ele faltava por três ou quatro dias.

Pra piorar, o coitado retornava ao trabalho tostado de sol, certamente por ter ficado horas ao relento, na fila do posto médico.

O curioso é que o atestado era sempre assinado por um dentista com o mesmo sobrenome dele. Seria um parente? Creio que não. Ninguém deixaria um parente sofrer tanto na fila.

Outro fato curioso sobre vésperas de feriado: elas parecem ter um efeito nocivo em nossa rede de transporte público. Como explicar a incrível quantidade de trens que atrasam, metrôs que não chegam, táxis que não param e ônibus que enguiçam? É o verdadeiro poltergeist.

Os óbitos também aumentam muito. Especialmente de parentes distantes. Lembro de um funcionário que perdeu pelo menos quatro ou cinco avós em diferentes feriados. Uma tristeza.

Portanto, aqui vai meu alerta: hoje o bicho está solto. Todo cuidado é pouco. Canja de galinha não faz mal a ninguém.

E pra quem fica, bom feriado, e até segunda.

Escrito por André Barcinski às 00h12

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Os anos 80 não foram só do Spielberg

Semana passada, revi na TV “Vítimas de Uma Paixão”, de 1989.

 

Por que não fazem mais policiais assim?

 

Uma história empolgante, Al Pacino no topo da forma, Ellen Barkin expelindo sexo por todos os poros, diálogos geniais, ótimos personagens secundários (John Goodman, Richard Jenkins), uma trilha sonora matadora. Um filmaço.

 

Fiquei pensando: na história do cinema, a década de 80 é considerada a “era do blockbuster”, dominada por Spielbergs, Lucas, e pela infantilização de Hollywood.

 

Mas os 80 também nos deram alguns grandes filmes de gênero: policiais, gângsteres, “noirs”, muita coisa boa.

 

Revendo esses filmes, duas coisas saltam aos olhos.

 

A primeira é o visual: os cabelos armados das heroínas, os ternos com ombreira dos policiais, muito laquê, calças “baggy” e roupas flúor.

 

A segunda coisa interessante é a música. Era a época dos sintetizadores, e vários filmes do período trazem trilhas sonoras com sons eletrônicos e “espaciais”. Não havia um policial sem uma musiquinha viajante do Tangerine Dream.

 

Fiz uma lista de dez ótimos filmes de gênero dos anos 80. Não incluí os mais óbvios, como “Os Intocáveis” ou “Scarface”, e tentei privilegiar filmes menos vistos. Faça a sua lista e compare.

 

A Testemunha (Witness) – Peter Weir, 1985

O policial Harrison Ford investiga um crime, descobre que o assassino é um policial (Danny Glover) e acaba metido numa comunidade amish, onde se apaixona pela incrível Kelly McGillis.

 

Vítimas de Uma Paixão (Sea of Love) – Harold Becker, 1989

Um “noir” fervente, com Al Pacino investigando uma assassina serial que mata os amantes na cama. A principal suspeita é aquela coisa de louco chamada Ellen Barkin. 

 

Corpos Ardentes (Body Heat) – Lawrence Kasdan, 1981

William Hurt é um advogado entediado, até que conhece um colosso de mulher, Kathleen Turner, que põe fogo em sua cama e o convence a matar o marido. Grande “noir” de Kasdan.

 

Câo Branco (White Dog) – Samuel Fuller, 1982

Pra mim, o maior filme de Fuller. Uma atriz acha um cão branco na rua. Só depois descobre que é um bicho assassino, treinado para matar negros. De arrepiar.

 

Viver e Morrer em Los Angeles (To Live and Die in L.A.) – William Friedkin, 1985

Viu “Operação França”? Gostou da perseguição de carro embaixo do metrô de superfície, em Nova York? Pois Friedkin filmou uma perseguição ainda mais insana nesse policial new wave, com William Petersen, o Russel Crowe dos anos 80, perseguindo um falsificador de dinheiro sádico e violento, interpretado por Willem Dafoe.

 

Dragão Vermelho (Manhunter) – Michael Mann, 1986

Olha aí de novo William Petersen, dessa vez fazendo o policial Will Graham, nessa primeira aparição do personagem Hannibal Lecter nas telas. Graham, que capturou Lecter, pede ajuda ao genial assassino para pegar outro serial killer.

 

A Honra do Poderoso Prizzi (Prizzi’s Honor) – John Huston, 1985

John Huston tinha quase 80 anos quando rodou este filmão, o penúltimo de sua carreira. É um divertido filme de gângster sobre um assassino de aluguel (Jack Nicholson) que se apaixona e casa com uma rival (Kathleen Turner).

 

Acerto de Contas (The Big Easy) – Jim McBride, 1987

Dennis Quaid e a deusa Ellen Barkin metidos na investigação da morte de um mafioso em New Orleans. Um filme quente, sexy e pegajoso como a própria cidade.

 

Parceiros da Noite (Cruising) – William Friedkin, 1980

Al Pacino faz um policial que se infiltra no submundo sadomasô gay de Nova York para procurar um assassino serial. Pesado.

 

O Ano do Dragão (Year of the Dragon) - Michael Cimino, 1985

Antes de virar a piada que é hoje, Mickey Rourke foi o maior bad boy do cinema dos anos 80, um ator intenso e carismático. Aqui, ele investiga a ascensão de um jovem chefão do crime em Chinatown.

 

P.S.: Uma Confraria de Tolos

O livro é uma obra-prima e está fora de circulação no Brasil há décadas. O leitor Diogo Oliveira teve o trabalho de disponibilizá-lo para todo mundo, aqui. Muito obrigado ao Diogo pelo esforço, e espero que gostem do livro...

Escrito por André Barcinski às 08h44

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Quando os leitores se revoltam

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Meu amigo, o fotógrafo Marcos Finotti, me mandou essa foto. Dê uma olhada: mostra a reação de alguns espectadores à crítica que fiz sobre o filme dinamarquês “Um Mundo Melhor”.

Curioso: a Folha recebeu várias cartas reclamando desse texto. Parece que alguns leitores realmente não concordaram com a crítica.

Para quem não leu, a crítica está aqui.

Sobre a foto do Marcos, uma consideração:

“Em Um Mundo Melhor”, a despeito de sua qualidade - ou falta dela -, é um filme sobre a tolerância. Acho engraçado como alguém pode sair de uma sessão desse filme, ler uma crítica negativa e ficar tão furioso a ponto de xingar o autor. Mostra que o filme realmente não o afetou, certo?

Mesmo achando o filme fraquíssimo, recomendo assisti-lo. Alguns filmes merecem ser vistos, nem que seja para desmascará-los.

Aliás, recomendo uma sessão dupla. Assista a “Em Um Mundo Melhor” e depois veja “Homens e Deuses”, do francês Xavier Beauvois.

Vale a pena comparar os dois, até para ver a diferença entre um filme manipulador e que impinge seu humanismo ao espectador, e outro que prefere deixar o público tirar suas próprias conclusões.

“Homens e Deuses” se passa na Argélia, em 1996. O país está em guerra civil. Insurgentes jihadistas executam imigrantes croatas e a população árabe.

Em um mosteiro, vivem oito monges cistercienses franceses. Os monges são adorados pela população local. Freqüentam cerimônias religiosas muçulmanas e dão atendimento médico aos locais. Estão totalmente integrados ao dia a dia daquele povo, apesar das diferenças religiosas.

Quando os conflitos étnicos e religiosos da região ameaçam até o mosteiro, surge o dilema: voltar para a França, ou ficar ao lado da população?

O filme não apela aos clichês do heroísmo. Os monges não são heróis. São seres humanos, com seus interesses e particularidades.

Acompanhamos as conversas entre os oito, em que expõem suas razões para ficar ou para fugir. Os que decidem ficar apelam à fé, outros justificam a decisão de ir embora pelo medo da morte.

“Homens e Deuses” é um filme lento e silencioso, que, sem alarde, toca em questões como a fé, a tolerância religiosa e o colonialismo.

Diferentemente do bombástico “Em Um Mundo Melhor”, não tenta manipular o espectador a concordar com a visão de mundo imposta pelo diretor.

Curiosamente, os dois filmes têm cenas muito parecidas. Em ambos, um protagonista, que é médico, precisa decidir se atende a um carrasco que aterroriza a população local.

A diferença de abordagem e execução das sequências mostra o abismo de qualidade e talento que existe entre os filmes. Assista e comprove.

P.S.: AINDA JOEY RAMONE...

Para quem curtiu a homenagem a Joey Ramone, o leitor Marco Bissoli fez o favor de disponibilizar o texto que meu amigo André Forastieri fez na Bizz, em 1991, contando o programa de rádio que fizemos com Joey, e que durou uma noite inteira. O link está aqui. Obrigado ao Marco. Ah, e amanhã, o tão aguardado link para a versão impressa de "Uma Confraria de Tolos". Aguardem...

Escrito por André Barcinski às 10h04

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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