André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Que dia de cão: morreu Sidney Lumet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Foi-se um dos grandes cineastas norte-americanos: Sidney Lumet.

 

Lumet teve uma carreira de exatos 50 anos no cinema, iniciada a encerrada com dois grandes filmes: “Doze Homens e Uma Sentença” (1957) e “Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto” (2007).

 

Ele começou no teatro e desenvolveu um estilo marcante de direção de atores. Trabalhou com alguns dos maiores: Henry Fonda, Marlon Brando, Katharine Hepburn, Rod Steiger, James Mason, Vanessa Redgrave, Al Pacino, John Cazale, Paul Newman.

 

No fim dos anos 60, Lumet alinhou-se com a jovem guarda do cinema alternativo americano (Coppola, Scorsese, Bogdanovich) e começou uma série de filmes baratos e pessoais, filmados com um estilo documental e uma preocupação em mostrar uma América em caos, com os conflitos sociais, a violência urbana e o Vietnã.

 

Fez alguns dos melhores dramas policiais do cinema, como “Um Dia de Câo” e “Serpico”. E encerrou a carreira com o brilhante “Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto”.

 

Junto com Woody Allen, foi o cineasta que melhor filmou Nova York. Diferentemente de Allen, mostrava um lado escuro e perigoso da metrópole.

 

Nesse sábado chuvoso (pelo menos aqui), vale a pena homenagear Lumet, revendo alguns de seus clássicos. Meus prediletos são:

 

Doze Homens e Uma Sentença (Twelve Angry Men, 1957)

Inteiramente filmado dentro de uma sala, onde doze homens de um júri decidem o destino de um rapaz, acusado de assassinato. Henry Fonda e Lee J. Cobb, imortais. Um filmaço.

 

Vidas em Fuga (The Fugitive Kind, 1959)

Ótimo drama inspirado numa peça de Tennesse Williams. Brando faz um vagabundo disputado por Joanne Woodward e Anna Magnani.

 

O Homem do Prego (The Pawnbroker, 1964)

Rod Steiger faz um sobrevivente de campo de concentração, dono de uma loja de penhores num bairro barra pesada de Nova York. Atormentando por lembranças terríveis, o personagem busca se isolar de todos e demonstra verdadeiro asco pela sociedade. Um grande drama sobre racismo, tolerância e perdão, em uma das maiores interpretações de Steiger.

 

 Serpico (1973)

Al Pacino interpreta um policial honesto, Frank Serpico, que é ameaçado quando resolve denunciar a corrupção policial. De arrepiar.

 

Assassinato no Expresso do Oriente (Murder on the Orient Express, 1974)

Divertida adaptação do famoso livro de Agatha Christie, com Albert Finney no papel do detetive Hercule Poirot.

 

Um Dia de Câo (Dog Day Afternoon, 1975)

Pra mim, o maior filme de Lumet, e um dos grandes dramas do cinema americano. Al Pacino, em sua melhor interpretação no cinema, faz um homem desesperado que, com a ajuda de um cúmplice (o inesquecível John Cazale), assalta um banco e faz reféns. A maneira como Lumet vai revelando detalhes da vida do homem, ao longo do filme, é absolutamente brilhante. Um filme tenso, cômico e surpreendente, além de uma metáfora poderosa sobre uma América em colapso. Enfim, uma obra-prima.

 

Rede de Intrigas (Network, 1976)

Uma comédia de humor negro escrita por Paddy Chayefsky, que antecipava em muitos anos a obsessão ocidental com o culto a celebridades e a “reality TV”. Peter Finch faz o âncora de um telejornal que, depois de saber de sua iminente demissão, sofre um colapso nervoso e anuncia que vai cometer suicídio no programa seguinte. Vira um sucesso.

 

O Veredicto (The Verdict, 1982)

Paul Newman na pele de um advogado bêbado e decadente, que se vê diante de um grande caso contra um famoso hospital. Para mim, o melhor papel de Paul Newman.

 

O Peso de um Passado (Running on Empty, 1988)

Uma jóia rara. Drama sobre uma família de classe média americana, que muda de identidade e foge para outra cidade, depois que os pais ferem gravemente um funcionário de um laboratório de napalm, que eles explodiram em protesto contra a guerra do Vietnã. River Phoenix faz um dos dois filhos do casal. Emocionante.

 

Q&A (1990)

Drama policial pesado sobre um agente (Timothy Hutton) que precisa investigar um colega, interpretado por Nick Nolte, acusado de corrupção e abuso de poder. Nolte está absolutamente assustador nesse filme.

 

Sombras da Lei (Night Falls on Manhattan, 1997)

Lumet sai das ruas de Nova York e penetra nos gabinetes escuros dos políticos que mandam na cidade. Andy Garcia faz um promotor de Justiça que tenta desvendar um grande esquema de corrupção na polícia local.

 

Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto (Before the Devil Knows You’re Dead, 2007)

Fui só eu, ou mais alguém achou esse filme espetacular? Phillip Seymour Hoffman e Ethan Hawke interpretam dois irmãos que decidem assaltar a própria joalheria da família. Claro que o plano dá errado, e agora eles precisam fugir da investigação do pai, um sádico interpretado magistralmente por Albert Finney. Um filmaço. De quebra, tem Marisa Tomei mais sexy que nunca.

Escrito por André Barcinski às 15h55

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Já ouviu Midlake?

Eu tinha tudo para não gostar do Midlake.

Em primeiro lugar, muitos chamam a música deles de “folk progressivo”. A capa do último disco, “The Courage of Others”,  parece uma sobra de sessão de fotos do Jethro Tull, com três barbados fantasiados de druidas ou coisa pior.

Mas não desanime com as aparências. Midlake é um achado.

A banda habita um espaço que, acredito, ficou vago com o fim do Gradaddy: uma espécie de “alt-country do mal”.

Explico: a maioria do chamado “country alternativo” de hoje é uma música solar: jovens bonzinhos, vestidos de camisa xadrez, cantando melodias dóceis sobre as delícias da vida no campo e a imensidão dos horizontes.

Mas o country que mais me fascina é outro: é a música do isolamento, da sensação de pertencer a outra época. A música de Neil Young e Gram Parsons. Os lamentos folk de Nick Drake.

Gosto de algumas bandas que reciclam a melancolia do country com toques modernos, misturando os bons sons caipiras até com eletrônica. Fãs de Eels, Grandaddy, Sparklehorse e Lift to Experience sabem o que estou falando.

O Midlake, assim como o Grandaddy, não é uma banda 100% country. Em seus três discos (além do recente “The Courage of Others”, lançaram “Bamnam and Slivercock”, em 2004, e “The Trials of Van Occuphanter”, em 2006), também se ouve influências de pós-punk, ambient, progressivo, guitarras etéreas ao estilo My Bloody Valentine, e eletrônica.

“The Courage of Others” é um disco mais simples e sombrio. Uma ópera gótica/caipira sobre um mundo à beira do colapso.

Parece a trilha sonora de algum culto de fanáticos escondidos num fim de mundo qualquer, esperando o Apocalipse.

Parece estranho? E é mesmo.

Só sei que não consigo largar o disco há meses.  É daqueles que só aparecem de tempos em tempos.

Ontem, eu estava ouvindo “The Courage of Others” pela enésima vez, quando li na web as primeiras notícias da tragédia da escola no Rio de Janeiro. A desesperança do Midlake nunca pareceu tão atual.

Escrito por André Barcinski às 00h10

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Viva a música de protesto!

Encerrando a “semana Bono”, uma lista com dez grandes canções de protesto.

 

Já vou avisando: ficaram de fora monstros como Fela Kuti, Dylan, Aretha Franklin, Sly Stone, MC5, Clash e tantos outros. Só cabiam dez.

 

Dead Kennedys - California Über Alles

O ápice do talento cômico de Jello Biafra. Uma formidável gozação com Jerry Brown, então governador da Califórnia (e atual também!), em que Jello imagina o Estado como uma ditadura “hippie fascista”. A letra sempre me pareceu um pouco injusta, já que Brown fez um ótimo governo e sempre foi um sujeito preocupado com meio ambiente, opositor da pena de morte, etc.

Uma nota curiosa: em 1992, eu estava com Jello num restaurante no Rio, e quem entra? Jerry Brown em pessoa. O cara não só reconheceu Jello, como foi até a mesa cumprimentá-lo. Democracia é isso aí.

 

Noel Rosa – Nâo Tem Tradução

Uma letra ácida sobre a pompa de nossas elites: “Essa gente hoje em dia que tem a mania da exibição / Não entende que o samba não tem tradução no idioma francês / Tudo aquilo que o malandro pronuncia / Com voz macia é brasileiro, já passou de português”

 

Adoniran Barbosa – Saudosa Maloca

Letra dilacerante, narrada em primeira pessoa. Quase dá pra ver Adoniran e seus amigos, Mato Grosso e Joca, olhando impotentes, enquanto os tratores derrubam o barracão.

 

Neil Young – Southern Man

Young fez esse ataque ao racismo do sul dos Estados Unidos depois de ser ameaçado por um grupo de caipiras: “A mudança sulista / virá finalmente / agora suas cruzes / Estão queimando depressa”. O Lynyrd Skynyrd não gostou e revidou com “Sweet Home Aalabama”: “Eu espero que Neil Young se lembre/que um homem sulista não precisa dele por perto”. Mas acabou tudo bem: Young e Ronnie Van Zant tornaram-se grandes amigos.

 

Chico Buarque – Construção

Um relato quase jornalístico da vida – e morte - de mais um João ninguém.

 

Gil Scott-Heron – The Revolution Will Not Be Televised

Em 1970, Scott-Heron via seus amigos voltar do Vietnã em caixões, os bairros negros devastados pela miséria e heroína e Nixon ganhar mais uma eleição. O resultado foi essa obra-prima vitriólica.

 

Billie Holiday (ou Nina Simone) – Strange Fruit

Que “Strange Fruit” – letra escrita por um professor judeu e branco, horrorizado com a notícia de linchamentos de negros no sul dos Estados unidos – é uma das maiores canções contra o racismo já feitas, ninguém discute. O que sempre me deixa na dúvida é que versão é superior: a de Billie Holliday ou de Nina Simone. Billie que me desculpe, mas ainda acho Nina Simone imbatível.

 

Elvis Costello – Tramp the Dirt Down

Se você vai falar mal de alguém, vá até o limite. Foi o que Elvis Costello fez nessa letra sobre Margaret Thatcher, onde diz que sonha em pular na cova da velha. Brilhante.

 

Specials – Ghost Town

O hino de uma Inglaterra cinzenta, triste e dominada por Margaret Thatcher. Tem uma melodia fantasmagórica, que casa perfeitamente com o tema da “cidade fantasma, onde os jovens brigam entre si”.

 

Creedence Clearwater Revival – Fortunate Son

Talvez o momento sublime da carreira de Jon Fogerty. Uma paulada raivosa nos filhinhos de papai que escapavam do Vietnã, enquanto o resto do país ia lutar do outro lado do mundo: “Não sou eu, não sou eu / Não sou nenhum filho de senador / Não sou eu / Não sou nenhum felizardo”.

Escrito por André Barcinski às 00h20

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Abaixo a música de protesto!

Então Bono vai se encontrar com Dilma?

 

O que vem depois? Ozzy Osbourne pede uma audiência com a Presidente e exige carne de morcego nas escolas? Lemmy sugere a redução de impostos na importação de Jack Daniel’s?

 

Artistas pop devem se meter em política? E fazer músicas de protesto?

 

Tenho minhas dúvidas. Desconfio que, para cada “Strange Fruit” ou “Holiday in Cambodia”, existem dezenas de “Operation Mindcrime” ou “O Bêbado e o Equilibrista”.

 

Aproveitando a visita de sua santidade Bono, fiz uma lista de dez momentos tristes da união entre pop e política (lembra outros? Mande aí, por favor...).

 

Aqui vão, sem ordem de preferência, dez músicas de protesto que merecem todos os protestos:

 

OMD – Enola Gay

Um épico synthpop sobre o bombardeio a Hiroshima, com um teclado tão irritante que ficamos torcendo pra bomba cair em cima de Andy McCluskey.

 

John Lennon – Give Peace a Chance

É isso que acontece quando se passa vários dias na cama com Yoko Ono: o apogeu da música de acampamento.

 

Cranberries – Zombie

O videoclipe mais ridículo da história dos videoclipes: Dolores O’Riordan em frente a uma cruz, pintada de dourado (ela, não a cruz) e cercada por querubins com arcos e flechas, cantando sobre os conflitos na Irlanda do Norte. Tira o tubo, por favor.

 

U2 – Sunday Bloody Sunday

Pobre Irlanda do Norte, sempre em guerra e inspirando músicas péssimas. O que dizer desse hino messiânico, com direito a bateria marcial, gemidos sensuais de Bono e aquele refrão para todo mundo pular junto de punhos cerrados, empunhando o Smartphone?

 

Marisa Monte – Segue o Seco

A única seca que Marisa Monte conhece é quando não chove no Baixo Leblon. Essa música e seu videoclipe – uma mistura de “Deus e o Diabo” com comercial da Natura – são dois momentos emblemáticos da “cosmética da fome”, tão em voga na zona sul carioca.

 

Peter Gabriel – Biko

Coitado do Steve Biko.  Como se não bastasse ser assassinado pelo governo racista sul-africano, ainda foi homenageado por Peter Gabriel com essa balada xaropenta e por Richard Attenborough com um filme igualmente meloso, “Cry Freedom”.

 

Tracy Chapman – Talkin’ ‘Bout a Revolution

Se no Brasil não existe um barzinho sequer sem um infeliz tocando “Espanhola”, nos Estados Unidos o hit dos banquinhos é essa coisa chata gravada por Tracy Chapman.

 

Chico Cesar – Mama África

Juro que, quando vi esse clipe pela primeira vez, achei que era alguma pegadinha do Pânico. Não contente em cantar “Mama África / é mãe solteira / e tem que fazer / mamadeira todo dia / além de trabalhar / como empacotadeira / nas casas Bahia”, o cara põe a família toda pra passar vergonha junto com ele.

Bob Dylan – Masters of War

Dylan tinha pouco mais de 20 anos quando compôs esse besteirol. Essa música nunca saiu de moda, até porque sempre tem algum DCE por aí com um mala de 20 anos carregando um violão.

 

Bob Marley – Get Up, Stand Up

Poucas coisas me fazem querer sair de um lugar tão depressa quanto reggae. Meu protesto é sumir.

Escrito por André Barcinski às 00h06

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Bono não aprendeu a lição de Elvis

 

 

 

 

 

 

 

Então Bono vai se encontrar com Dilma.

Não sei o que é mais ridículo: um popstar achar que o presidente de um país tem a obrigação de recebê-lo, ou a presidente de um país concordar com isso.

Não tenho a menor idéia qual será o teor da conversa. Não importa. Não vai dar em nada mesmo. É só marketing.

Antes de Bono, veio Sting. Depois, James Cameron e Madonna. Outros virão.

Não sou xenófobo e odeio qualquer tipo de patriotismo. Acho ótimo que o resto do mundo se interesse por nossos problemas.

Mas não dá pra agüentar popstar metido a santo.

Tenho certeza que Bono é um sujeito muito bondoso e preocupado com os outros. Já ganhou vários prêmios por seu ativismo. Até pro Nobel da Paz já foi indicado.

Mas sua insistência em trombetear a própria bondade joga contra.

Quer fazer o bem? Ótimo. Inspire-se em Bill Gates, que doou 3 bilhões de dólares. Ou em Warren Buffet, que deu 2,5 bilhões de dólares para ajudar a redução de armas nucleares. Ou em Ted Turner, que doou 1 bilhão de dólares para a ONU.

Bono deve valer o quê, meio bilhão de dólares? Se Paul McCartney tem 800 milhões, parece uma conta justa.

Já sei, os fãs de Bono vão dizer que ele usa a própria fama para chamar a atenção para grandes causas. Justo.

Mas fica a pergunta: quem será que se beneficia com a bondade de Bono? As causas ou os políticos que, espertamente, posam ao lado dele e sorriem para a imprensa?

Sempre que leio sobre Bono, lembro de uma história lendária sobre Elvis Presley.

Em 1970, trancado em Graceland e alterado por incontáveis coquetéis de tranqüilizantes, boinhas e todo tipo de remédio, Elvis teve mais um de seus surtos.

Botou na cabeça que precisava mandar uma mensagem às crianças da América sobre o perigo das drogas. Logo ele.

Elvis simplesmente apareceu na porta da Casa Branca às 6h30 da manhã, exigindo falar com o presidente Richard Nixon.

Nixon, que estava sendo massacrado pela opinião pública por causa do Vietnã, viu naquela insanidade toda uma chance de ouro para se aproximar da juventude.

O resultado foi um dos encontros mais grotescos, insanos e oportunistas da velha história da amizade entre pop e política.

Escrito por André Barcinski às 09h01

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OK, tablet, você venceu...

 

 

 

 

 

 

 

 

Já escrevi isso aqui algumas vezes, mas não custa lembrar: sou um analfabeto tecnológico.

Em matéria de novidades e “gadgets”, estou sempre cinco anos atrasado em relação ao mundo. Tanto que comecei este blog – ô coisa mais 2005! - em 2010.

Nada me dá mais medo que um manual de instruções ou um tutorial. Tenho algum tipo de bloqueio neurológico que trava meu cérebro quando recebo qualquer tipo de instrução.

Outro dia, fui montar uma bicicletinha que compramos para nossa filha de três anos. Depois de meia hora penando com parafusos e porcas, a bicicleta estava parecendo uma churrasqueira. “Papai, tá errado”, ela reclamou. Tinha razão, estava errado mesmo.

O antivírus do nosso computador está sempre atualizado. Graças à minha mãe, que nasceu na época dos 78 rotações, mas que, perto de mim, parece o Bill Gates.

Também tenho alergia a novidades. Sou extremamente desconfiado de qualquer coisa que a indústria venda como “o produto que não pode faltar em sua casa”.

Está aí a minha coleção de laserdiscs que não me deixa mentir. O que faço com esses monstrengos agora? E a promessa de que o laserdisc ia durar para sempre? Quem eu processo?

Quando li as primeiras reportagens sobre “tablets”, nem prestei atenção. Pra mim, era como o caderno de automóveis: nem passo os olhos. Como se não existisse.

Mas a realidade se impôs.

Mudamos para um lugar onde não há entrega de jornal. Diabo, nem carteiro tem aqui na rua! Semana passada, descobri que nossa casa é considerada “área rural”.

Até dá para conseguir a entrega de jornal, mas é complicado: o exemplar chega na rodoviária ao meio-dia e depende da boa vontade do entregador, sujeito instável e que parece ter um sério problema com dengue, birita, ou uma combinação dos dois. Já cheguei a receber seis jornais de uma vez.

Por sorte, temos Internet. Ruim, é verdade, uma conexão pré-histórica de 600K. Mas funciona.

Há algumas semanas, compramos um tablet.

Um amigo disse que o tablet era autoexplicativo: “é só ligar que ele te dá todos os passos”.  Otimista, ele.

Pra falar a verdade, até que não foi tão complicado. Levamos só três semanas para descobrir como ligá-lo e começar a usar.

E aí, um novo mundo surgiu diante de nós.

Odeio admitir, mas foi uma glória acordar ontem cedinho, ligar o aparelho e ler o New York Times de domingo. Ler a Folha com todas as revistas e cadernos! Ler a New Yorker! Adeus, idade das trevas!

E teve mais: depois de ler uma crítica maravilhosa escrita pelo Allan Jones na revista Uncut, fiquei com uma vontade doida de ler o novo livro do Elmore Leonard, Djibouti.

Havia duas opções: ou pedir pelo correio e esperar 50 dias, ou comprar ali mesmo, na hora. Será que funcionava?

Dez minutos depois, eu estava refestelado no sofá, em companhia de Leonard (aliás, já li metade, é divertidíssimo).

Passada a fase da descoberta, o problema agora é outro: como não virar escravo do bichinho.

Um grande amigo pegou a doença: outro dia me contou, entusiasmado, que havia baixado um aplicativo que sampleava sons e os transformava em barulhos de flatulências.  Estava obcecado.

Escrito por André Barcinski às 10h36

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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