André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

O livro mais engraçado do mundo... e o fim de um mistério

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

Se eu fizesse uma lista de meus livros prediletos, ele estaria bem no topo.

Estou falando de Uma Confraria de Tolos (A Confederacy of Dunces), de John Kennedy Toole (1937-1969).

Gosto tanto desse livro que, sempre que encontro um exemplar dando sopa no Estante Virtual, compro e dou de presente a algum amigo ou parente.  Virou um dever cívico apresentá-lo para o maior número possível de pessoas.

E olha que achar um exemplar em Português é bem difícil. Não lembro de ter visto nenhuma edição brasileira posterior a 1980. Uma pena.

Uma Confraria de Tolos é, junto com Don Quixote, o livro mais engraçado que conheço. Na primeira vez que li, tive ataques incontroláveis de riso.

As semelhanças com a obra-prima de Cervantes não param por aí.

O personagem do livro é uma espécie de Don Quixote do século 20, Ignatius J. Reilly, um nerd obeso, glutão, fedorento e desagradável. Reilly despreza a modernidade, ridiculariza a cultura pop e se acha o centro do Universo.  Um delirante megalômano e fracassado.

 A história se passa em New Orleans, nos anos 60. E a forma como Toole descreve a cidade, cheia de malandros, biscateiros, policiais desonestos e aposentados ridículos, é um primor. A cidade vira um personagem.

É difícil resumir a trama. A rigor, é só a história de Ignatius – que ainda mora com a mãe – procurando por um emprego. O que acontece com ele durante essa busca é o interessante.

Tão incrível quando a história de ignatius é a saga de seu criador, John Kenedy Toole.

O talento de Toole nunca foi reconhecido – pelo menos enquanto ele estava vivo.

Depois de ter o livro rejeitado por inúmeras editoras, Toole, que sofria de depressão, cometeu suicídio, em 1969.

Sua mãe, Thelma, disposta a provar o talento do filho, passou os anos seguintes enviando cópias do livro para editoras. Nenhuma se interessou.

Até que, sete anos depois, o conhecido escritor Walker Percy, cansado da insistência de Thelma, aceitou ler o manuscrito. Ficou tão impressionado que convenceu uma editora a publicá-lo.

Uma Confraria de Tolos foi publicado em 1980. No ano seguinte, ganhou o Prêmio Pulitzer de melhor romance.

Mesmo com o prêmio, o livro ainda é um “cult”. Nunca foi uma obra popular, apesar de ser citado como influência por gente bacana como o escritor chileno Roberto Bolaño.

Conheço muita gente que adora literatura e nunca tinha ouvido falar de Uma Confraria de Tolos .

Pra piorar, parece haver algum tipo de maldição sobre o livro.

Ao longo dos anos, vários atores e diretores tentaram adaptá-lo para as telas, mas uma série de tragédias aconteceram.

Em 1982, John Belushi estava escalado para o papel de Ignatius, mas morreu. O mesmo aconteceu com John Candy e Chris Farley. Assustador.

Anos depois, Steven Soderbergh chegou a anunciar que filmaria a adaptação, com Will Ferrell no papel principal. Mas o furacão Katrina destruiu New Orleans e o filme nunca foi feito.

No livro, Ignatius J. Reilly vai ao cinema apenas para ridicularizar os filmes. Seria esta sua vingança contra Hollywood?

P.S.: A justiça tarda, mas não falha

Aqui está ele, meus amigos: o Cocolino!

O leitor Caio Maia encontrou o bendito doce, numa cantina de Pinheiros. Com a palavra, o Caio:

“Foi na Tratoria Originale, uma cantina daquelas "tradiças" de SP, fica do lado do fórum da Vila Madalena. cara, não passa de um sorvete de coco com um recheio mequetrefe de chocolate e umas raspinhas de algo parecido com coco em cima. tipo aquelas  ‘cassatas’ que tinha em todos os restaurantes de SP.”

Incrível como a memória prega peças na gente. Eu jurava que o Cocolino tinha chocolate por fora. Obrigado, Caio!

Escrito por André Barcinski às 00h09

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Caso Cocolino: aqui está a prova do crime!

Os dois últimos dias foram angustiantes.

Desde que escrevi aqui sobre minhas aventuras envolvendo o misterioso Cocolino, fui atacado de todos os lados.

Alguns até insinuaram que o Cocolino não passava de um delírio.

Minha palavra foi colocada em xeque. Meu nome, enlameado por boatos maldosos.

Depois de muito fuçar, achei a prova que me inocenta: no twitter de um abençoado de nome Pedro Porto, encontrei a prova da existência do Cocolino: a foto de um cardápio que traz a iguaria.

Obrigado, Pedro Porto, onde quer que você esteja!

Aliás, Pedro, se você ler esse apelo, imploro que me informe em que restaurante conheceu o Cocolino.

Quero ver o Cocolino com meus próprios olhos. Encará-lo de frente. E gritar ao mundo: “Cocolino, você existe!”

Escrito por André Barcinski às 00h10

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No rock, mais vale ressuscitar que sobreviver

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Já faz algum tempo que a grande moda entre bandas veteranas é revisitar álbuns “clássicos”.

Não dá pra abrir uma revista ou guia de shows sem ver: “Fulano de tal toca, na íntegra, seu disco clássico de mil novecentos e bolinha...”

Nas últimas revistas, vi anúncios de shows de Flaming Lips (tocando “The Soft Bulletin”), Echo and the Bunnymen (“Crocodiles” e “Heaven Up Here”), Dinosaur Jr. (“Bug”), Primal Scream (“Screamadelica”) e vários outros. Bacana.

Só que a coisa anda fugindo do controle.

Hoje em dia, qualquer bandinha mequetrefe se acha no direito de revisitar seus “clássicos”. Só esquecem um pequeno detalhe: não fizeram discos clássicos para revisitar.

O Suede está voltando a excursionar: “Suede toca seus três primeiros e lendários álbuns”, diz o anúncio. Acho o Suede divertido e tal, mas isso deve ser piada.

O que vem depois? Carlinhos Brown revisitando “Omelete Man”? Robertinho de Recife tocando “Metal Mania” na íntegra acompanhado dos Canarinhos de Petrópolis?

Esses shows oportunistas são apenas uma manobra esperta para ressuscitar carreiras mortas ou moribundas.

O que comprova uma teoria que tenho há algum tempo: numa época tão fraca em matéria de novas bandas de rock, a melhor decisão de negócios que um grupo pode fazer é ficar um tempo parado e voltar depois.

Há um mercado gigantesco para isso.

Alguém me responda: por que diabos o Urge Overkill, que nunca fez nada relevante quando estava na ativa, voltou a tocar?

Como explicar que o grande Swans, banda que nunca vendeu mais de 50 discos ou tocou para mais de 30 pessoas, esteja agora se apresentando em festivais e lotando clubes?

Sempre que leio sobre essas ressurreições, penso nos artistas que optaram por não apelar à tática.

Lembro de pelo menos três bandas históricas que, ironicamente, sofrem por nunca ter acabado.

São elas: Mudhoney, Teenage Fanclub e New Model Army.

Imagine se o Mudhoney tivesse parado por uns cinco ou seis anos depois do fim do “grunge” e voltado espetacularmente depois? Estariam fechando o Coachella.

Ou se o New Model Army tivesse dado um tempo nos anos 90 e voltado agora? Quem não pagaria uma fortuna pare ver um show dos caras?

Imagine se o Teenage Fanclub, adorado por Kurt Cobain, resolvesse parar depois de “Thirteen” e retornasse triunfalmente no Reading ou no Lollapalooza?

Mas eles não acabaram. Cometeram o pecado de continuar lançando discos – ótimos, por sinal – e fazendo shows. Vivendo, afinal.

Só que fã de rock é um bicho estranho. Costuma premiar a novidade, nem que seja recauchutada, e rejeitar a velharia. E muitos desses sobreviventes foram jogados pra escanteio.

Sou amigos dos caras do Mudhoney. Já conversei muito com eles sobre isso. Pra meu espanto, percebi que uma tática dessas nunca passou pela cabeça dos caras. E olha que são alguns dos sujeitos mais inteligentes que já conheci na música.

Basicamente, eles gostam tanto do que fazem, têm tanto prazer em gravar discos e excursionar, que uma coisa maquiavélica assim simplesmente está fora do radar deles.

O que comprova outra teoria que tenho há algum tempo: bandas assim são cada vez mais raras. Aproveite enquanto elas estão por aí.

Escrito por André Barcinski às 08h49

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Você já provou um Cocolino geladinho?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sou fascinado por produtos com nomes estranhos.

O que leva alguns empresários a criar certos nomes?

Que tal uma loja de roupas chamada Chernobyl Modas? Ou uma empresa de sistemas de detecção de fumaça chamada Pró-Incêndio? Fascinante, não?

(Se você lembra outros casos semelhantes, mande os nomes, por favor...)

Também adoro slogans esdrúxulos.

Havia no Bom Retiro um salgadinho industrializado que imitava o Baconzitos. Não lembro o nome, mas nunca vou esquecer o slogan: “Enchendo sua boca de alegria!”

Curto também produtos brazucas com nomes estrangeiros bizarros, como as portas FUCK e os famosos rolamentos FAG.

Na inesquecível rave da Amazônia, em 2001, havia uma convenção de funcionários da FAG no mesmo hotel. Os gringos não entenderam nada quando viram dezenas de sujeitos com camisetas estampadas “FAG”.

No meio de tantos produtos com nomes estranhos, um tem lugar especial no meu coração: o Cocolino.

Pra quem não sabe, Cocolino é uma sobremesa industrializada, vendida em cantinas e restaurantes. Você já deve ter visto a guloseima estampada num daqueles anúncios de mesa (a foto acima é meramente ilustrativa, não achei nenhuma imagem do Cocolino no Google).

O sabor? Juro que não sei. Nunca provei um Cocolino.

A única alegria que o Cocolino me proporcionou ao longo dos anos foi ouvir garçons em vários restaurantes do país repetindo seu nome.

É difícil explicar, mas poucas coisas me alegravam tanto quanto ver homens de meia-idade, todos senhores respeitáveis, dizendo a palavra “cocolino”. Perverso, eu sei. Mas eu tenho uma coisa com restaurantes...

Na Barra Funda, há uma biboca a quilo que oferecia, toda quinta-feira, uma iguaria chamada – juro - “Surpresa de Mandioca”. Eu não resistia a perguntar ao caixa: “Qual a surpresa que a mandioca preparou hoje?”

E o restaurante chinês da Mourato Coelho, em que a atendente do delivery tinha uma extrema dificuldade com consoantes? Pelo menos duas vezes por semana eu ligava lá, só para ouvi-la dizer: “lolinho da primavela”.

- E de sobremesa, o que a senhora tem?

- Soblemesa? Tem geratina!

- Geratina? De quê?

- De molango!

Voltando ao Cocolino: criei até um jogo secreto, em que eu tentava, usando astúcia, fazer o garçom repetir “cocolino” o maior número de vezes.

Na hora de pedir a sobremesa, lá vinha a pergunta: “Por favor, amigo, o que é esse Cocolino?”

Minha mulher, pessoa do bem e facilmente envergonhável, chegava a sair da mesa para chorar de rir no banheiro.

Há uma cantina em Pinheiros que oferecia Cocolino. A comida nem era lá grande coisa, mas eu ia lá só para tentar superar o recorde de repetições da palavra.

Durante um bom tempo, meu recorde se manteve em quatro. Um número respeitável.

Até que algo mágico aconteceu.

Não sei que inspiração repentina ou musa me baixou na hora. Só sei que, no momento de pedir a sobremesa, perguntei ao garçom: “Meu amigo, você sabe se Cocolino só existe de chocolate, ou tem de coco também?”

O garçom não titubeou: virou-se para o sujeito do caixa e, em voz alta o suficiente para ser ouvido por todo o restaurante, perguntou: “Ô Silveira! Você sabe se existe Cocolino de coco?”

“O quê? Cocolino?”, respondeu o caixa, enquanto minha mulher saía correndo pro estacionamento...

“É, Cocolino! Tem de coco, ou é só de chocolate?”

“Não sei de Cocolino, pergunta pro Jairo!”

O garçom chamou o tal Jairo, que devia ser o homem das compras. E aí começou uma discussão sobre o tal Cocolino, que acabou envolvendo uns quatro ou cinco funcionários do lugar.

“Olha, eu acho que deve existir Cocolino de coco sim, mas a gente só tem de chocolate!”, disse Jairo, muito prestativo.

“Eu só conheço Cocolino de chocolate, nunca vi de outro sabor”, afirmou o garçom.

“Não é o primeiro cliente que pede Cocolino de coco”, disse um senhor circunspecto, que deveria ser um dos donos. “Jairo, liga lá no fornecedor e pergunta se tem Cocolino de outros sabores”.

Bati o recorde. Na verdade, perdi a contagem lá pelo 14º “Cocolino”. Foi a glória.

Depois desse dia, fiquei um bom tempo sem contato com o Cocolino. O episódio foi tão marcante, que dificilmente algo relacionado ao doce teria o mesmo impacto para mim.

Mas nada como um dia após o outro, certo?

E não é que, algum tempo depois, entramos num restaurante no litoral de São Paulo e damos de cara com um garçom carregando UMA CAIXA DE COCOLINOS?

Nossa próxima missão é descobrir a fábrica. Quem sabe não acabamos conhecendo o CEO da Cocolino Industries?

Escrito por André Barcinski às 00h11

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Iron Maiden ressuscita o adolescente em nós

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fui ao show do Iron Maiden sábado, no Morumbi.

Até meus 16, 17 anos, fui um grande fã dos caras, desses de comprar todos os discos.

Quando anunciaram que o Iron ia tocar no Rock in Rio, em 1985, não acreditei. Não podia ser verdade. Era como se alguém dissesse que várias espaçonaves desceriam na Cinelândia. Só acreditei quando vi os caras acenando na sacada do hotel em Copacabana.

Confesso que parei de ouvir Iron logo depois. Me rendi ao peso de Slayer, Metallica, Voivod, etc.

Tenho de dizer também que prefiro mil vezes as músicas mais curtas e diretas dos primeiros discos às mini-óperas progressivas que eles fizeram depois.

Mas guardei um carinho grande pelo Maiden. É difícil esquecer quem nos alegrou na infância.

Fui ao show empolgado. Logo na entrada, um lembrete de como são divertidos show de metal: na calçada do Morumbi, havia um grupo de seis ou sete fãs do Maiden, todos devidamente uniformizados. Não tinham mais de 16 anos.

Havia também várias jovens com camisetas de “Orientadora”, colocadas ali para dar informações ao público. Nas costas das camisetas das meninas, a frase: “Posso ajudar?”.

Os meninos se aproximaram de uma das orientadoras:

- Você pode me ajudar?

- Claro!

- Mas pode mesmo?

- Posso, claro. O que você precisa?

- Meu amigo aqui comeu um lanche de calabresa e precisa soltar um barro. Você ajuda ele?

Meu lado Beavis & Butthead vibrou.

Fiquei parado ali uns 15 minutos, vendo os moleques aplicarem a mesma piada numas oito orientadoras. Valeu o ingresso.

Dentro do Morumbi, o clima era de paz total.

Foi lindo ver pais trintões com os filhos de 10, 12 anos, todos curtindo o som.

Ou grupos de amigos quarentões, hoje bancários, executivos ou vendedores, pulando juntos em “Two Minutes to Midnight” e fazendo “air guitar” coletiva, numa celebração proustiana da adolescência perdida. Tem coisas que só o metal faz por você.

Foi um bom show?

Não.

Acho que nem o fã mais obcecado dirá que este show ficou marcado na história. A banda parecia cansada, e Bruce Dickinson mostrou até uma certa irritação. Tudo pareceu protocolar e no piloto automático.

Eles tocaram cinco músicas novas, mas o público só se empolgou mesmo com os hits.

Mesmo assim, foi emocionante ver a reação da galera a “The Number of the Beast” e “Running Free”. Flashback total.

Próxima parada nostálgica?

Motley Crue, claro.

Escrito por André Barcinski às 09h27

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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