André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Passe o fim-de-semana com Elizabeth Taylor

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não existe maneira melhor de homenagear Elizabeth Taylor do que assistir a alguns de seus melhores filmes.

 

Aqui vai uma listinha pessoal com seis filmes de Liz. Os melhores? Nem sempre: tem “Cleópatra”, a apoteose do kitsch no cinema, mas que é divertidíssimo.

 

Assim Caminha a Humanidade (1956)

Liz faz a esposa de Rock Hudson, com quem se muda para um rancho no Texas e atrai a atenção de um funcionário do lugar, um rebelde impetuoso interpretado por James Dean. É um melodrama ambicioso sobre a indústria petrolífera no Texas. Foi o terceiro e último filme de Dean, que morreu pouco antes do lançamento.

 

Gata em Teto de Zinco Quente (1958)

Liz e Paul Newman, ambos no auge da beleza, se pegam e escancaram os problemas matrimoniais nesse drama muito bom de Richard Brooks, baseado na peça de Tennessee Williams.

 

De Repente, no Último Verão (1959)

Timaço: Liz Taylor, Montgomery Clift e Katharine Hepburn, em outra adaptação de Tennessee Williams. Hepburn força Clift a lobotomizar a própria sobrinha (Liz), para que ela não revele as causas suspeitas da morte do primo, filho de Hepburn. Que drama!

 

Butterfield 8 (1960)

Liz faz o papel da amante de um executivo (Laurence Harvey), que tenta acabar com o casamento dele. Apesar de ter levado o Oscar, Liz sempre rejeitou o filme, até porque estava passando, na vida real, por situação semelhante, como pivô da separação de Eddie Fisher (que trabalha no filme) e Debbie Reynolds.

 

Cleópatra (1963)

Uma megaprodução – põe mega nisso – e um grande fracasso de bilheteria que quase provocou a falência da 20th Century Fox. Foi uma das filmagens mais conturbadas da história do cinema, o que fez o orçamento do filme multiplicar por 20. O filme se tornou um ícone kitsch, involuntariamente engraçado, e mais curioso ainda pelo romance real que se desenvolvia entre Liz e Richard Burton.

 

Quem tem Medo de Virginia Woolf? (1966)

Uma batalha conjugal entre Liz e Burton, regada a álcool e mais álcool, que curiosamente espelhava o relacionamento do casal na vida real. Liz engordou quase 15 quilos para o papel e levou seu segundo Oscar.

Escrito por André Barcinski às 01h36

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Elizabeth Taylor e o fim de uma era

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Morreu Elizabeth Taylor. Pensei em postar ontem mesmo sobre Liz, mas, como a Ilustrada me pediu um texto, achei melhor esperar até hoje.

Muita gente escreveu obituários bacanas da atriz, falando de sua importância para o cinema.

Seus muitos casamentos e escândalos pessoais também foram dissecados.

Mas o aspecto da vida e carreira de Liz Taylor que acho mais interessante - mais até que seus filmes - é sua posição como ícone do culto à celebridade.

Elizabeth Taylor praticamente inventou a indústria da fofoca. Todo editor de tablóides e de programas sensacionalistas de TV deveria fazer um altar pra mulher.

Veja bem: quando ela despontou como atriz, logo após a Segunda Guerra, a indústria cultural simplesmente ignorava o público jovem.

Até o surgimento do rock’n’roll, de Elvis e James Dean, um adolescente não tinha ídolos próprios. Filhos curtiam os ídolos de seus pais.

A geração de adolescentes americanos do pós-guerra foi a primeira da história que não precisou trabalhar para ajudar a casa. Isso criou um mercado gigantesco para a diversão jovem.

Liz Taylor cresceu no meio disso.

Ela fez seu primeiro filme aos 9 anos. Sua mãe era uma vampira dominadora, que explorou ao máximo o talento da menina, que aprendeu a se defender muito cedo.

Liz logo sacou que “ser uma estrela” não se limitava apenas às telas de cinema. Era preciso criar uma figura pública tão interessante quanto os personagens de seus filmes.

Ela foi além: sua vida foi um melodrama ainda maior e mais sensacional do que os filmes que protagonizou.

Liz Taylor fez amizade com famosas colunistas de fofoca e criou amplo material para os tablóides sensacionalistas.

Quando seu terceiro marido, Michael Todd, 23 anos mais velho que ela, morreu num acidente de avião, Liz foi consolada por um amigo de Todd, o cantor Eddie Fisher. Não demorou pra ele cair de quatro por ela.

Fisher era marido da atriz Debbie Reynolds, com quem tinha dois filhos (incluindo Carrie, a “Princesa Leia” de “Guerra nas Estrelas”). Ele largou a família para se casar com Liz. O escândalo quase acabou com sua carreira. Liz tinha 26 anos.

Depois, ela abandonou Fisher para ficar com Richard Burton, que também era casado. Os tablóides acompanharam o desenrolar do romance durante as filmagens de “Cleópatra”. Foi um verdadeiro “reality show”, muito antes do Big Brother.

Ao longo dos anos, a opinião pública acompanhou a vida de Liz Taylor como se fosse uma novela mexicana: vários casamentos, internações, overdoses, mais internações, bebedeiras, escândalos, a obsessão por jóias, a amizade com Michael Jackson...

Quase ninguém falava da grande atriz Liz Taylor. Sua vida havia eclipsado sua obra.

Barbra Streisand disse tudo: “Liz Taylor morreu. É o fim de uma era”.

P.S.: Desculpem, mas não posso deixar passar: Muricy, o problema era você!

Escrito por André Barcinski às 00h33

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Não caia no golpe do americano!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O golpe é sempre o mesmo.

Você está andando pela rua, tranqüilo, quando um sujeito chega, ofegante, com camisa aberta no peito e expressão de medo no rosto.

“Do you speak English?”

Você responde que sim. Daí o sujeito joga a ladainha: chegou ao Brasil há poucos dias, está num hotel não sei aonde, e acabou de ser roubado e espancado por policiais. Perdeu todos os documentos e precisa de uns 10 ou 20 reais para pegar um táxi e ir ao consulado americano.

Comovido com a situação e envergonhado pelo péssimo tratamento dado a um pobre turista, você ajuda o sujeito.

Isso nunca aconteceu com você?

Não sei se tenho cara de idiota ou de bonzinho, mas sempre tem algum desgraçado tentando me dar esse truque.

A primeira vez que isso aconteceu comigo foi há mais de 20 anos.

Eu estava andando por uma rua tranqüila da Urca, quando fui abordado por um americano, que me contou a tal história.

Estarrecido, dei um dinheiro pro sujeito. Saí me sentindo o próprio Bono.

Algumas noites depois, encontro o pilantra enchendo a cara numa mesa do Baixo Gávea, torrando o meu dinheiro no 34º chopp da noite.

Prometi nunca mais cair no golpe.

Ao longo dos anos, vi o mesmo truque sendo aplicado em diversas ocasiões.

Certa vez, um idoso estava a ponto de dar uma nota de 50 reais para um meliante desses, em frente à Praça Buenos Aires, bem na hora em que eu estava passando. “Senhor, não cai nesse truque, que isso aí é o maior 171!”.

O tal “americano” não só sabia o que era “171”, como ficou me xingando no meio da rua. Mas pelo menos o velhinho se ligou no trambique.

Há um seis meses, presenciei o truque na Avenida São Luís, Centro de Sâo Paulo.

Fui abordado por um ruivo, cara de britânico. Parecia o Thom Yorke:

“Do you speak English?”

“Já sei, você foi roubado pela polícia e precisa de dinheiro pra ir ao Consulado, certo?”

Mas esse era safo. Fingiu que não falava Português: “What? I don’t understand!”

“Entende sim, safado. Espera aí que eu vou chamar um guarda e você conta a sua história pra ele...”

Antes que eu pudesse dizer “You’re a creep!”, Thom Yorke rapidamente saiu correndo, entrou num táxi e se mandou. Foi procurar um pato em outro lugar.

Lembrei desses episódios porque, há pouco mais de um mês, presenciei uma variação asiática do golpe.

Eu estava no carro com minha mulher, preso num engarrafamento na Liberdade, em Sâo Paulo, quando vi um japonês, ofegante, com camisa aberta no peito e expressão de medo no rosto, abordando um oriental na calçada. Não precisei nem ouvir o que ele ia dizer pro coitado:

“Ô amigão! Não cai nessa não, que é 171! Se ele te pedir dinheiro, não dá!”

A que ponto chegamos. Nunca poderia esperar ver um japonês dando um golpe desses.

Deve ser a tal globalização.

Escrito por André Barcinski às 00h41

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Dez leituras de arrepiar

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Há alguns dias, fiz um post sobre romances policiais e outro sobre o grande James Ellroy, que vem à Flip.

 

Alguns leitores escreveram, sugerindo uma lista com os melhores romances policiais.

 

Gosto muito do gênero, mas estou longe de ser um especialista.

 

Mesmo assim, fiz uma lista pessoal, de dez grandes livros que li e adorei. Não são “os melhores”, eu não me arriscaria a tanto. Mas são livros que li e adorei.

 

Mande os seus prediletos e compare.

 

James Ellroy - My Dark Places

Mais de três décadas depois do brutal assassinato da mãe, Ellroy contrata um detetive particular e tenta solucionar o mistério. Parte relato autobiográfico, parte crônica policial, é um dos livros mais pesados e assustadores que já li. Dele, recomendo também L.A. Confidential, The Black Dahlia e American Tabloid.

 

Jim Thompson - 1280 Almas

Thompson escreve histórias tão absurdas e exageradas, que nada é impossível. O livro mais comentado dele é O Assassino dentro de Mim, mas eu prefiro este, história de um xerife de uma cidade poeirenta de 1280 habitantes que manipula os cidadãos e mata quem quiser. Gosto muito também de The Getaway, The Criminal e The Grifters.

 

Cormac McCarthy - No Country for Old Men

Grande livro e grande filme (dos Coen): traficantes, assassinos de aluguel, sociopatas e um veterano do Vietnã se encontram no deserto. Coisa boa não é. Tem um dos personagens mais darks de todos os tempos, Anton Chigurh (interpretado no filme por Javier Barden).

 

Lawrence Block -  Dance at the Slaughterhouse

Para corações fortes.  O detective Matt Scuder acaba no submundo dos “snuff movies” e da pornografia hardcore. Pesadíssimo.

 

Agatha Christie – Five Little Pigs

A mulher escreveu mais de 80 livros. Qual escolher? Nunca li nada dela que não fosse pelo menos divertido. Um que me vem à cabeça (não leio Agatha Christie há uns 20 anos) é Five Little Pigs, uma ótima história de Hercule Poirot.

 

Patricia Highsmith – The Talented Mister Ripley

O primeiro de cinco livros com o misterioso e maquiavélico Tom Ripley, aqui um jovem ambicioso que cai no jet set europeu. A adaptação para o cinema – pelo menos a primeira delas, O Sol por Testemunha, com Alain Delon – é fantástica.

 

Rex Stout – Three at Wolfe’s Door

Será Nero Wolfe o maior detetive de todos os tempos? Li uns cinco ou seis livros de Stout, todos divertidíssimos. Este é uma coletânea com três histórias curtas, todas engenhosas e surpreendentes.

 

Elmore Leonard – Rum Punch

Meu amigo André Forastieri é o maior fã de Leonard que conheço. Não chego a tanto, mas o que li, adorei, incluindo Rum Punch, que Quentin Tarantino transformou em Jackie Brown.

 

Conan Doyle – Um Estudo em Vermelho

Todo adolescente deveria ler Conan Doyle. Lembro bem desse, o primeiro livro de Sherlock Holmes. O Cão dos Baskervilles também é demais.

 

Ed McBain – Killer’s Payoff

A série 87th Precinct, de McBain (Evan Hunter) tem mais de 50 livros sobre o dia a dia de uma delegacia. São histórias curtas e que vão direto ao ponto. Diversão garantida.

Escrito por André Barcinski às 11h05

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O que aprendemos com o blog da Bethânia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Se a discussão sobre o blog de 1,3 milhão de reais de Maria Bethânia serviu para alguma coisa, foi para incentivar a discussão sobre o uso das leis de incentivo.

Acho isso muito válido.

Acho, inclusive, que alguém deveria fazer um blog diário – gratuito, claro – que listasse todos os projetos aprovados e em andamento. É dinheiro público, e a informação precisa ser pública.

Vários leitores escreveram perguntando minha opinião sobre as leis de incentivo. A pergunta mais comum é “as leis são boas?”.

Não é essa a questão. A questão é o uso que se faz delas.

As leis precisam ser usadas com parcimônia e bom senso. E é aí que mora o problema: “dinheiro público” e “bom senso” são coisas que nunca andaram juntas no Brasil.

A verdade é que a cultura brasileira, hoje, depende de leis.

Não conheço nada sobre a história do teatro no Brasil, mas estudei bastante a produção cinematográfica brasileira. E acredite: já tivemos uma indústria de cinema, com empresários que arriscavam seu próprio dinheiro em filmes.

Isso acabou – ou melhor, começou a acabar – lá pelo fim dos anos 60, quando a ditadura criou, em cumplicidade com parte dos cineastas e produtores, a Embrafilme, e o controle estatal sobre o cinema brasileiro se intensificou.

Mas isso é assunto longo e merece outro post.

O fato é: hoje, não se faz teatro ou cinema no Brasil sem as leis de incentivo. Goste ou não. É a verdade. As contas simplesmente não fecham.

Um filme custa 4, 5, ou 6 milhões de reais?

Custa.

Ume peça se paga com o ingresso da bilheteria?

Não.

Se a Dilma desse uma canetada e extinguisse as leis de incentivo, o cinema e o teatro brasileiros acabariam na mesma hora.

Seria um efeito semelhante ao que ocorreu quando Collor acabou com a Embrafilme.

O problema é que as leis, da forma como são hoje, criam uma noção distorcida de “mercado”.

Alguém me explica: faz sentido o Estado pagar por um filme ou uma peça e o lucro ir para os produtores? Ora, quando um projeto é aprovado, não prevê remuneração para todos os envolvidos? Por que as leis não exigem a devolução do dinheiro investido?

Não sou especialista em leis. Mas tenho algumas sugestões.

Em primeiro lugar, acho que os projetos precisam ser divididos em duas categorias:

- Os que são produzidos a fundo perdido, ou seja, onde simplesmente não há arrecadação de bilheteria, como recuperação de arquivos, pesquisas, exposições, filmes e peças de baixo orçamento e de pouco apelo comercial, eventos gratuitos em geral.

- Os privados, ou eventos com potencial de arrecadação, como shows com cobrança de ingressos, filmes e peças mais caros e de grande apelo comercial, etc.

Na primeira categoria, o valor máximo dos projetos seria bem menor, e a verba seria dada a fundo perdido; na segunda, os projetos poderiam pleitear valores maiores, mas a arrecadação de bilheteria ou outros meios deveria ser devolvida aos cofres públicos, até o limite do volume captado.

Imagine só: você capta 3 milhões de reais para um filme ou uma peça, paga toda a equipe, inclusive os captadores e produtores. Daí, vai retribuindo ao erário à medida que o dinheiro for entrando na bilheteria. Completou os 3 milhões? Ótimo, o que vier depois é seu.

É uma idéia totalmente absurda?

Talvez no Brasil, onde, mais difícil que receber dinheiro público, é devolvê-lo.

E se a arrecadação não chegar ao total investido?

Bom, pelo menos uma parte voltaria aos cofres públicos.

Outra questão freqüente: dinheiro público deve ser usado para bancar projetos de artistas famosos?

Os famosos pagam impostos e têm os mesmos direitos a pleitear os recursos do que qualquer outro cidadão.

Mas é óbvio – taí o bom senso de novo – que uma cantora famosa pode fazer uma turnê sem precisar de dinheiro público.

Vi que a Maria Rita pediu mais de 2 milhões para fazer shows com o repertório da mãe, a Elis. Será que ela precisa disso? Ou a Marisa Monte? Ou a Maria Bethânia? O Chico Buarque? Não há gente suficiente nesse Brasil para lotar esses shows?

Outra questão importante: no projeto do blog da Bethânia, o salário dela (600 mil reais) equivale a quase 45% do TOTAL do projeto (1,3 milhão). É ridículo.

Deveria haver um limite de percentual do projeto que pode ser usado com remuneração, para evitar delírios como esse.

Para resumir: sou a favor de leis, contanto que usadas com parcimônia.

Sou contra usar as leis para ajudar projetos que poderiam andar com as próprias pernas.

E sugiro a todos a acessar este link e conhecer o projeto Live Music Task Force, da Prefeitura de Austin, no Texas, uma das capitais mundiais da música ao vivo.

Trata-se de uma associação que reúne músicos, donos de casas de shows e o poder público para discutir e sugerir legislação para incentivar a música ao vivo na cidade.

Enquanto, no Brasil, empresários são punidos com impostos exorbitantes e pouco recebem em troca (eu sei, sou sócio de duas casas noturnas e pagamos impostos absurdos), no Texas a cena musical e o poder público trabalham juntos para que todos ganhem.

Isso é bom senso.

Escrito por André Barcinski às 22h30

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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