André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

O Carnaval está chegando - e o fim do mundo também...

Se alguém ainda tinha dúvidas de que o fim do planeta está próximo, elas desapareceram ontem, quando foi divulgada esta notícia estarrecedora:

 

Bell Marques tira a barba e muda visual após 30 anos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Bell Marques vai aparecer no Carnaval deste ano em Salvador com visual novo. Depois de 30 anos barbudo, o líder do Chiclete com Banana fez a barba na manhã desta quarta-feira (2), durante evento patrocinado pela xxxx (não vou reproduzir o nome da empresa), em Salvador.

Participaram do momento histórico de Bell Marques a apresentadora Astrid Fontenelle,
o ator Malvino Salvador, que também tirou a barba ao lado da namorada Sophie Charlotte, e Daniela Mercury, que chegou a declarar que o líder do Chiclete com Banana “está um gato” sem a barba.

(só não entendi uma coisa: a Sophie, namorada do Malvino Salvador, também tirou a barba?)

 

Gostaria de propor ao Chiclete com Banana outras parcerias comerciais que, acredito, mereceriam aprovação maciça da população:

 

- com a fabricante de protetores auriculares Bonsono, que pagaria uma fortuna a Bell para ele não abrir a boca por cinco anos

 

- com o Discovery Channel, que contrataria Bell como apresentador de seu novo programa, “Mergulhando com os Tubarões Assassinos do Pacífico”

 

- com a NASA, que mandaria o Chiclete com Banana numa missão de 12 anos aos Anéis de Saturno

 

Carnaval sem Bell Marques

 

E para quem pretende passar o Carnaval longe da prostituição corporativa de Bell Marques, aqui vai a dica de um disco sensacional:

 

“Peso é Peso – Tuco & Batalhão de Sambistas – Ao Vivo”

 

Tuco, um pesquisador de samba de raiz, e a banda Batalhão de Sambistas tocam uma seleção de 18 pérolas do samba – muitas inéditas – de gente como Cartola, Nelson Cavaquinho, Ismael Silva, Paulo da Portela, Silas de Oliveira, Manacéa, Bide e muitos outros. Uma coisa linda.

 

Ouça o disco aqui. Mas depois compre, que vale muito a pena apoiar iniciativas como essa.

 

Dá uma olhada nesse vídeo, onde eles recebem Roberto Silva, o maior cantor que eu já vi em cima de um palco. É de arrepiar.

E, para encerrar o post, aqui vai a marchinha “China Pau”, que fiquei devendo do post de ontem. Bom proveito.

 

E até a Quarta de Cinzas, que ninguém é de ferro. Bom Carnaval!

Escrito por André Barcinski às 00h23

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A trilha sonora perfeita para o Carnaval

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Oba! O Carnaval está chegando.

 

Sempre curti a folia de Momo. Mas não essa palhaçada de desfile patrocinado por cerveja, com camarotes cheios de celebridades e a alegria inventada da televisão.

 

Só vou abrir uma exceção este ano e assistir ao desfile pra ver o Zé do Caixão na Unidos da Tijuca.

 

Carnaval, pra mim, é um bloco de 40 pessoas cantando marchinha velha e pagando o mico.

 

Não tem nada mais engraçado que ver aquele vizinho tiozão, sempre de terno e cara de sério, fantasiado de neném ou com uma peruca de mulher.

 

Cresci na Ilha do Governador, no Rio, e lá havia muitos blocos de bairro. Lembro das pessoas vestidas de bate-bola e dos blocos das “piranhas”. A gente morria de rir.

 

Mas já tem uns 25 anos que não curto Carnaval. As festas de rua, no Rio, estão impraticáveis. Que graça tem ser esmagado por 150 mil pessoas no Bola Preta ou no Simpatia?

 

Ontem mesmo, uma amiga nos contou que o filho foi roubado num arrastão em plena Cinelândia. Não dá.

 

Mas tenho um pressentimento de que esse Carnaval será diferente. Agora, moramos numa cidade pequena, Paraty, onde ainda rolam muitos blocos de bairro.

 

Semana passada mesmo, um bloco passou em frente à nossa casa. Tinha umas 60 pessoas e só tocava marchinha clássica. Minha filha de três anos pirou.

 

Que bom que ela vai poder curtir um Carnaval sem axé. Aqui em casa, ouvimos marchinhas velhas. Não canso de apreciar as letras espertas e sacanas. E ela ri muito com as letras e já sabe cantar várias.

 

Fiz uma lista de dez marchinhas que fazem sucesso aqui em casa. Não são necessariamente as dez melhores (não tem nenhuma de Lamartine Babo, por exemplo), mas são minhas favoritas pessoais.  Amanhã vou indicar um disco de Carnaval perfeito, que não sai do “repeat” aqui há semanas. Aproveite.

 

E por favor, mande suas dicas de trilha sonora ideal para a festança de Momo. Ajude um cidadão a ouvir música boa nesse Carnaval.

 

A Mulher do Leiteiro (Haroldo Lobo e Milton de Oliveira, 1942)

Não canso de ouvir Aracy de Almeida cantando a saga da coitada da mulher do leiteiro, “a que sofre mais”

 

Passarinho do Relógio (Haroldo Lobo e Milton de Oliveira, 1940)

Outra pérola com Aracy, dessa vez sofrendo com um cuco defeituoso. Impagável.

 

Chiquita Bacana (Braguinha e Alberto Ribeiro, 1949)

Existe alguma marchinha mais linda que essa? Quem, hoje, teria cacife pra escrever uma música de Carnaval inspirada no Existencialismo?

 

Pedreiro Waldemar (Roberto Martins e Wilson Batista, 1949)

Na voz de Blecaute, uma sensacional marcha de protesto que consegue ser crítica sem ser condescendente ou panfletária. Uma obra-prima.

 

Ressaca (Zé e Zilda, 1955)

Como era bom cantar sobre bebida sem um chato para lembrar que isso pode incentivar o alcoolismo. O refrão é um clássico.

 

Nós, os Carecas (Arlindo Marques Jr. e Roberto Riberti, 1942)

A preferida da minha filha. Prefiro ver como uma homenagem dela à minha condição capilar.

 

Fantasia de Toalha (José Saccomani, Arrelia e Ercílio Consoni, 1963)

Arrelia canta essa pérola minimalista e surrealista sobre a mais simples das fantasias carnavalescas,

 

Jacarepaguá (Paquito, Romeu Gentil e Marino Pinto, 1949)

Não paro de rir ouvindo essa jóia. A então longínqua Jacarepaguá era vista como uma terra mágica, onde “mulher é mato”.

 

Faz um Quatro Aí (Belmiro Barrella e Archimedes Messina, 1961)

Mais uma letra hilariante, de uma era pré-bafômetro

 

Marcha do Caracol (Peterpan e Afonso Teixeira, 1951)

Sei que essa não chega nem perto das obras-primas de Braguinha ou Lamartine Babo, mas eu AMO essa música. Gosto da simplicidade da letra e acho o clima eufórico. Posso ouvir cem vezes seguida

Escrito por André Barcinski às 00h40

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Grandes momentos do jornalismo cultural: Judas Priest sai do armário

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Janeiro de 1991. Há exatos 20 anos, acontecia o Rock in Rio 2.

Eu era repórter e fui entrevistar Rob Halford, vocalista do Judas Priest, sobre o show que a banda faria no festival.

Naquela época pré-Internet, pré-Youtube e pré-histórica, o jornalista muitas vezes não tinha a menor idéia de como era a cara do entrevistado.

A gente só conhecia os artistas de capas de discos ou fotos em revistas. E as revistas sempre chegavam aqui com meses – ou até anos – de atraso. Bastava um corte de cabelo para você não distinguir quem era quem numa banda.

Por isso era comum, em coletivas, que os integrantes iniciassem a entrevista se apresentando, para evitar confusões.

Cheguei ao hotel e fui falar com o assessor do Judas Priest. Ele disse que Halford estava na piscina e queria fazer a entrevista enquanto tomava um banho de sol.

Cheguei à piscina, que estava abarrotada. Famílias inteiras de europeus tostados de sol, correndo pelo lugar. Uma barulheira infernal. Como achar Halford?

Não foi difícil. Ele era o único que usava um fio dental.

Rob Halford era inconfundível: careca, branco como uma vela, cheio de tatuagens e com uma sunga preta de couro do tamanho de um tapa-olho. Estava deitado numa espreguiçadeira e tomava drinks coloridos, daqueles decorados com um guarda-chuva pequenininho.

O cara foi uma simpatia. Falou da origem da banda e da expectativa de tocar pela primeira vez no Brasil.

Só se irritou foi quando alguns integrantes do Megadeth começaram a dar bombas na piscina e espirraram água em nós. Halford reclamou e foi repreendido com insinuações homofóbicas dignas de caminhoneiro.

A verdade é que, em 1991, poucos fãs do Priest sabiam que Rob Halford era gay. Para os fanáticos, todo aquele couro preto e tachinhas era coisa do demo, não do Village People.

Halford só sairia do armário em 1998, numa corajosa entrevista para a MTV americana. O baixista Ian Hill resumiu: “era o segredo mais mal guardado da história do metal!”

Mas, de qualquer forma, o intérprete da entrevista coletiva no Rock in Rio tratou de se antecipar. E quando Halford pediu licença para que os músicos se apresentassem: “Please, let us introduce ourselves”, o sujeito traduziu por:

“O Sr. Halford pede licença para que os membros do Judas Priest possam se introduzir uns aos outros!”

Escrito por André Barcinski às 01h00

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Manual do jovem publicitário

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tenho muitos amigos - e até parentes - que são publicitários.

 

E tenho me espantando com a popularidade dessa profissão entre os mais jovens.

 

Para ajudar quem está pensando em se dedicar a essa profissão cheia de glamour, resolvi fazer um pequeno guia. Espero que seja útil.

 

Como se inserir no mercado de trabalho

 

Fácil: minta no currículo. Ninguém vai checar mesmo.

 

Incluir cursos no exterior é sempre bom. Especialmente em cidades modernas e cool como Berlim ou Copenhagen. Ponha lá: “assistente de produção no Stor Oksekod, na Dinamarca”. Ninguém precisa saber que é uma churrascaria.

 

Outra coisa que sempre funciona bem em currículos é incluir premiações. Publicitários adoram premiações, tanto que criaram milhares para distribuir entre eles mesmos.

 

Inclua algo como: “4º colocado do prêmio Golden Taroba na categoria ‘melhor folheto’ no 5º Publicity Awards de Itaperuna”. Sempre ajuda.

 

Pronto, consegui um estágio na agência. E agora?

 

O passo seguinte é achar um nome pra você.

 

Lembre-se que, da porta da agência pra dentro, você é um artista. E todo artista precisa de um nome adequado.

 

Nomes de publicitários se dividem em três categorias básicas.

 

A primeira são os nomes italianizados. Fica bonito e moderno. João vira “Gianni”, Luís vira “Luigi”, Lucicleide vira “Luce”.

 

A segunda categoria é a de nomes monossilábicos terminados em acento circunflexo ou “u”, como “Clô”, “Fô”, “Rê”, “Mô”, “Stê”, “Pê”, “Mu” ou “Du”.

 

A terceira são apelidos bem brasileiros e divertidos, como “Joca”, “Tutuca”, “Drica” ou “Zoza”.

 

Mas lembre-se: independentemente do nome que você escolher, o sobrenome precisa ser grande e insólito. Nada de “Silva” ou “Moreira”.

 

O nome ideal, portanto, seria algo como Du Fregolini, Clô Bierrenbach ou Joca Thompson.

 

Observe que, em todos eles, o primeiro nome tem uma pegada bem despojada, mas o sobrenome dá o tom grave e solene que o publicitário precisa e merece.

 

Vamos supor que seu nome seja Luis Castro. A partir de hoje, você é Luigi Castellari. Parabéns, Luigi!

 

Como me enturmar?

 

Mesmo que você ganhe 545 reais, a melhor idéia é investir uns 4 mil e comprar um abadá no bloco da agência no carnaval de Salvador. É lá que os melhores contatos são feitos.

 

O vocabulário

 

Não estranhe se, na primeira reunião, alguém te disser: “Luigi, vamos dar o start. Você tem o briefing do job? Então faça um c-call com o team do Du Fregolini, que fez o filme do papel higiênico Ralorrabo, e pergunte se o recall do cliente foi satisfatório.”

 

Fique calmo. Ninguém está entendendo nada mesmo. Você se acostuma.

 

A obsessão pelo making of

 

Todo publicitário adora um making of. Esse fenômeno é conhecido por “efeito Narciso”.

 

Lembre-se: para cada segundo de comercial filmado, a agência costuma rodar 30 minutos de making of.

 

O último comercial do desodorante Suvacol, dirigido por Du Fregolini, mereceu um DVD triplo com dezenas de entrevistas, análises e depoimentos. “Fregolini é um gênio”, disse Joca Thompson. “Considero este o Encouraçado Potemkin dos filmes de desodorante”.

 

Características de comportamento

 

Publicitários têm duas características básicas: são extremamente gregários e indecisos.

Isso explica o gigantesco número de reuniões de cinco horas com 15 pessoas em que não se decide nada.

 

A gênese de idéias e da criação publicitária

 

Em reuniões na agência, toda boa idéia, mesmo que venha do estagiário, é reivindicada pelo seu superior imediato, que é então reivindicada pelo superior deste, e assim por diante, até chegar ao dono da agência.

 

E toda idéia que dá errado, mesmo que venha do dono da agência, é colocada na conta de seu subalterno imediato, que passa para o seu subalterno, e assim por diante, até chegar ao estagiário, que é então demitido.

 

A injeção sazonal de modernidade

 

Fenômeno que costuma ocorrer nos meses de agosto e janeiro, quando o dono da agência ou o chefe de criação voltam de Nova York ou Paris, onde viram o Blue Man Group ou o La Fura Dels Baus pela 37ª vez, trazendo as últimas novidades em matéria de comportamento: “Fui ao Brooklyn e vi muita gente usando cueca por cima da calça, é a última tendência!”

 

O fenômeno é seguido, alguns meses depois, por uma enxurrada de comerciais estrelados por pessoas usando cueca por cima da calça, editoriais de moda com modelos usando cueca por cima da calça, e publicitários andando pela agência com cueca por cima da calça.

 

Pronto. Agora é com você. Boa sorte, Luigi!

 

 

Escrito por André Barcinski às 02h11

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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