André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

"O Discurso do Rei" e as dez lições para ganhar o Oscar

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Hoje estréia “O Discurso do Rei”, o filme favorito ao Oscar.

É um bom filme?

Impossível dizer que não. Tem uma história interessante, ótimos atores e uma produção caprichada.

Pra falar a verdade, não dá para achar nada errado no filme. E esse é o problema.

 “O Discurso do Rei” é um filme tão careta, tão sem ousadia, tão mauricinho, tão irritantemente engomado, tão seguidor da cartilha do bom gosto cinematográfico, tão classe média, tão “minha avó vai amar”, que não há outra alternativa senão o sucesso.

Pra quem não sabe, o filme conta a história de George VI, rei da Inglaterra, que precisa superar sua gagueira para assumir o trono do país e liderar a luta contra Hitler na Segunda Guerra.

Mais que um filme, “O Discurso do Rei” é um produto. Um produto feito de encomenda para ganhar um Oscar.

O filme segue algumas fórmulas simples e que sempre dão resultado. Sâo elas:

1)    História inspirada em fatos reais (bom pra incitar discussões entre os espectadores sobre grandes acontecimentos mundiais)

 

2)    Personagem com algum tipo de defeito físico ou dificuldade motora

 

3)    Personagens falando com sotaque britânico (americano acha isso o cúmulo do exotismo)

 

4)    Figuras históricas reais flanando pelo filme (como o Churchill de Timothy Spall, que parece imitação do Castrinho)

 

5)    Uma história sobre realeza (quem não gosta de dar uma espiada na “Hola” e ver o interior de um palácio?)

 

6)    Personagem secundário engraçadinho e simpático (o terapeuta mala interpretado por Geoffrey Rush)

 

7)    Veteranos do teatro (Derek Jacobi, Michael Gambon) em papéis secundários, para dar um ar solene e de gravidade ao besteirol todo

 

8)    Inescapável sequência do início de filme, em que o personagem principal se vê diante de um grande desafio e fracassa (aqui, é o constrangedor discurso em que o rei gagueja)

 

9)    Inescapável sequência do meio do filme, mais conhecida como “sequência da montagem”, presente em TODOS os filmes que lidam com algum tipo de superação pessoal, em que o personagem principal aparece se esforçando ao máximo para superar seus problemas e se preparar para a batalha final. Num filme de boxe, seria Rocky Balboa correndo pela escadaria com aquela cara de prisão de ventre enquanto uma música triunfal enche a sala. Aqui, é o rei gago fazendo exercícios de voz com aquela cara de prisão de ventre, enquanto uma música triunfal enche a sala

 

10) Inescapável sequência do fim do filme, em que o personagem principal triunfa e salva o mundo. Num filme de boxe, seria Rocky Balboa no centro do ringue, levantando os braços após 12 rounds com Apollo Creed e sendo abraçado pela mulher. Aqui, é George VI encarando o microfone de frente, superando a gagueira e livrando a Europa do nazismo. E abraçado pela mulher, a Rainha Elizabeth, claro

Enfim, “O Discurso do Rei” terá o mesmo destino de “Shakespeare Apaixonado” e “O Paciente Inglês”, outros filmes em que o sotaque britânico e uma suposta fleuma escondem a total falta de ousadia e vibração: vai ganhar o Oscar e depois mofar nas locadoras.

Escrito por André Barcinski às 02h05

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Não se toma mais mate como antigamente

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Trinta e quatro graus no Rio de Janeiro.

Encosto num balcão conhecido e peço um mate: “Bem gelado, copo de vidro, 500 eme-ele, sem canudo, por favor!”

“Tem que pegar a ficha no caixa, moço!”

“Como assim, pegar ficha no caixa? Nunca teve isso aqui!”

“Agora tem.”

“Desde quando?”

“Ah, faz uns três ou quatro meses.”

“Mas e se eu quiser um mate, depois um pastel, e no fim um cajuzinho? Vou ter que entrar na fila três vezes?”

“Pede tudo de uma vez, ué!”

“Não, moça, não é assim que funciona. A idéia de pedir no balcão é justamente ir comendo aos poucos, uma coisa de cada vez. Eu não consigo saber agora o que vou querer daqui a cinco minutos.”

“Desculpe, mas eu não posso servir sem a ficha”.

No canto, um senhor careca e barrigudo observa a cena. Reconheço a figura.

“O senhor não é dono daqui?”, pergunto.

“Um dos donos.”

“Não pode mais pedir nada no balcão? Precisa pegar ficha antes?”

“É isso mesmo, meu filho. Agora precisa.”

“Pô, mas eu venho aqui... há... (faço cálculos... sexta série do colégio... deve ter sido por volta de 1982...) há... (será isso mesmo?) Trinta anos!” Trinta anos. Como passa rápido. “Não era assim.”

“Não mesmo.”

“E por que vocês mudaram?”

“Ah, meu filho, eu tava de saco cheio de ser roubado. Vinha um malandro, tomava três mates, dizia que só tinha tomado um; vinha outro, comia três coxinhas e só pagava duas. Isso quando não pegavam o mate na cara de pau e saíam correndo sem pagar! Tive até de botar câmera”, diz, apontando para uma esfera de plástico colada no teto.

“Mas ninguém dava calote antigamente?”

“Ah, era muito raro. A gente conhecia todo mundo que vinha aqui. Hoje em dia isso a cidade mudou muito.”

Olhei em volta. Ele tinha razão.

O local era cercado por lojas de 1,99, lanchonetes de fast food, restaurantes a quilo, magazines gigantes, farmácias de rede, quiosques de marreteiro e caixas automáticos de banco. O centro do Rio parece uma praça de alimentação de shopping.

Tomei o mate, mas dificilmente volto lá.

Porque mate a gente toma em qualquer lugar. Mas carinho é difícil encontrar.

Escrito por André Barcinski às 01h42

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Lições que aprendi na obra

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nos últimos cinco anos, estive envolvido em três obras.

O tempo de convivência com criaturas tão fascinantes como mestres de obra, pedreiros, eletricistas, encanadores, pintores, marceneiros e ajudantes me ensinou lições valiosas. Há algumas semanas, fiz um post com teorias sobre a vida em obras. Mas agora, que a última obra está em seus dias finais, resolvi dividir alguns ensinamentos mais práticos com vocês.

A gramática da obra

Na obra, palavras e expressões podem ter significados diferentes do habitual.

Por exemplo: a expressão “pouca coisa a mais” pode variar de um número próximo do previsto a um valor 6000% maior.

Se um mestre de obras diz que um saco de cimento branco custa “pouca coisa a mais” que um saco de cimento comum, é recomendável conferir antes de encomendar 400 sacos do primeiro, que custa 90 reais cada, enquanto o segundo sai por 18.

A obra tem um vocabulário próprio. Uma porta de acesso a um compartimento interno, por exemplo, é um “açafrão”. Como na frase: “Para entrar na casa de máquinas, é só fazer um açafrão no deck!”

Alguns produtos ganham nomes novos e curiosos. Uma jacuzzi, por exemplo, pode ser chamada de “banheira de vidromassagem”, certamente alguma nova técnica de relaxamento com jatos de vidro moído.

A frase “pode deixar que eu encomendo direto na loja”, proferida por um mestre de obras, equivale a um aviso de falência ou, se você for cardíaco, em risco de morte.

Por sua vez, a frase “pode levar que essa também serve”, proferida por um vendedor, significa “compre, que não vai funcionar e você vai ter que voltar aqui pra trocar”.

Fórmulas, teoremas e filosofias

Numa obra, as verdades científicas são revistas e aperfeiçoadas a cada dia.

Exemplo: para achar o centro de um círculo, basta “desenhar um quadrado no meio da bola”.

Outra teoria interessante: um círculo pode ter várias classificações, como “uma bola bem redondinha”, “uma bola assim, mais quadradinha”, ou, finalmente, “uma bola meio esticadinha”.

Descobri também que o melhor lugar para se colocar um container de depósito de material é EM CIMA do container-dormitório, mesmo que isso obrigue o staff a subir e descer uma escada com sacos de cimento nas costas todo dia e ponha o pessoal em risco constante de morte por esmagamento.

A exemplo da física quântica, qualquer obra se contrapõe à padronização cartesiana do universo.  Numa obra, as noções de tempo e espaço ganham novos conceitos.

Assim, “15 minutos”, como na frase “Vou ali e volto em 15 minutos”, pode significar uma hora, uma semana, seis meses, ou o infinito. Tudo depende se você já pagou o salário do indivíduo ou do porre que ele vai tomar nesses 15 minutos.

O conceito nietzscheano do “Eterno Retorno” se aplica diariamente numa obra.

Explico: toda vez que um peão te pede para comprar material naquela loja nos cafundós do Judas, pode apostar que, assim que você voltar, ele vai se lembrar de um parafusinho que faltou. É o eterno retorno.

Como agir quando um funcionário comete um engano:

Errar é humano. Mas pintar um muro de 40 metros com a cor errada ou começar a construir uma parede no lugar da piscina, só mesmo numa obra.

Quando isso ocorrer, lembre-se de uma coisa: nunca, em hipótese alguma, mostre a planta para o autor da façanha.

Tudo que um mestre de obras mais detesta é ser confrontado com a própria incompetência. Alguns reagem de forma intempestiva, soltando fumaça preta pelas orelhas e emitindo sons guturais: “Hhhmmmgggggghhhttpppfff!”

O melhor a fazer, nesses casos, é sempre culpar o arquiteto. “Olha, o arquiteto tinha pedido esse muro branco, não lilás!”

Costuma funcionar. No máximo, o pintor vai cerrar os dentes e xingar a mãe do arquiteto, mas você não corre o risco de levar uma peixeirada ou ver o pintor abandonar o trabalho, furibundo.

Conclusão

Chega de obra. Nunca mais. Melhor passar o Carnaval do cruzeiro do Chiclete com Banana.

Escrito por André Barcinski às 00h09

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Jorge Ben e o mistério do violão abandonado

Uma turma no Rio de Janeiro está tentando o que fãs de Jorge Ben esperam há anos: convencê-lo a tocar, na íntegra, “A Tábua de Esmeralda”, o mitológico álbum gravado em 1974.

Foi a última vez que Ben gravou um disco inteiro tocando violão. Em 1975, ele usou um violão amplificado para gravar “Solta o Pavão”. No ano seguinte, trocou o violão pela guitarra no LP “África Brasil”, e nunca voltou atrás.

Ao longo dos anos, Ben sempre se esquivou de desvendar o mistério. Quando perguntavam por que abandonou o violão, dizia que os estúdios modernos não conseguiam gravar o instrumento da forma como ele gosta, “com respiração”. Desculpa fajuta, claro. Ele não quer e pronto.

Desde “África Brasil”, Ben nunca mais fez um grande álbum. Fez bons discos (“Salve Simpatia”, de 79 e “Bem-Vinda, Amizade, de 81), mas nada que se compare à sequência impressionante de “Jorge Ben” (1969), “Força Bruta” (1970), “Negro é Lindo” (1971), “Ben” (1972), “A Tábua da Esmeralda” (1974), “Solta o Pavão” (1975) e “África Brasil” (1976).

De todos os discos de Jorge, nenhum chega perto de “Tábua de Esmeralda”. Na minha opinião, o melhor disco pop já gravado no Brasil.

É até difícil falar desse disco, tantas são as suas qualidades. Por onde começar?

Ouça o disco aqui.

“Tábua de Esmeralda” é Jorge Ben no auge de sua criatividade e experimentação. Um disco produzido e tocado com perfeccionismo, mas que mantém uma sensação leve, quase de “jam session”, como se tivesse sido gravado de improviso.

O LP tem doze faixas, todas perfeitas. A ordem das músicas favorece a audição do disco como um todo; uma ópera mística/espiritual/religiosa/cósmica/psicodélica criada por um alquimista dos sons.

Tudo é especial: a sofisticação dos arranjos, os corais tabelando com a voz de Jorge, aquele violão de suingue inigualável, que – me perdoe o próprio Jorge – ele nunca igualou na guitarra.

Uma das coisas que mais impressionam no disco é a métrica de Jorge Ben. Como ele consegue encaixar frases onde elas parecem não caber, esticando sílabas, dobrando vogais, mudando a tônica de algumas palavras.

Em “O Homem da Gravata Florida”, ele acelera e desacelera o ritmo das palavras para encaixar na batida do violão. É tão fluido que parece fácil.

Classificar musicalmente o álbum é impossível. Samba? Rock? Soul? Funk? Bossa Nova? É tudo isso, às vezes numa só faixa.

Algumas músicas parecem trilha sonora de filme, como a psicodélica “Errare Humanum Est”, uma jóia tropicalista em que violinos e sintetizadores fazem a cama para uma divagação cósmica de Jorge.

Curioso pensar que esse disco foi gravado na mesma época da série “Racional” de Tim Maia. O que estava rolando com esse dois no meio dos anos 70? Seriam os sonhos da contracultura filtradas pela ótica black brasileira? A versão Babulina de “Hair”? Estranhos tempos, aqueles...

Um dos destaques do disco é “a Minha Teimosia, Uma Arma Pra Te Conquistar”. Acho o início dessa música um dos sons mais bonitos já gravados.

Mas os momentos transcendentes são muitos. E o violão nervoso que abre “Menina Mulher da Pele Preta”? O solo de guitarra em “Brother”? A cadência dolente do violão em “Hermes Trismegisto”?

Agora, se eu tivesse de escolher uma música só, ficaria com a faixa que encerra o disco, “Cinco Minutos”.

Sabe quando uma grande banda de jazz ou soul entra numa espécie de transe e atinge um momento tão sublime e arrebatador que o fenômeno só pode ser explicado pela conjunção de inspirações e musas que baixaram ali, naquele instante?

Pois é. “Cinco Minutos” é assim, só que gravada em estúdio, sem a possibilidade de inspirações momentâneas aterrisando no local. É a junção da liberdade criativa com o controle. Coisa de gênio.

E se a turma do Rio conseguir convencer Benjor a voltar a ser Jorge Ben, nem que seja por uma noite, eu pago pra ver.

Escrito por André Barcinski às 00h13

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O pior pacote de férias do mundo

 

 

 

 

 

 

 

 

 Nem uma comissão formada por Stephen King, Lovecraft e o Marquês de Sade conseguiria criar um enredo tão apavorante: imagine ser trancado por quatro dias num navio em alto mar, junto com o Chiclete com Banana e três mil chicleteiros cantando Paaa, eô! / Pararararará, eô!” e “cabelo raspadinho / estilo Ronaldinho”?

 

Acredite: isso não só está acontecendo neste exato minuto, como tem gente que pagou até 8 mil reais para participar.

 

Sábado, zarpou de Santos o cruzeiro Carnaval Elétrico, uma autêntica micareta em alto mar. O navio faria escalas no Rio e Búzios antes de chegar a Salvador (leia aqui).

 

Ainda não há estudos sobre o impacto ambiental da empreitada, mas biólogos relataram, em áreas próximas a Ubatuba, um estranho fenômeno de suicídio coletivo de tainhas.

 

“Foi impressionante”, afirmou uma testemunha, “os peixes simplesmente se arremessavam de cabeça contra a nossa lancha.”

 

Na semana que vem sai outro cruzeiro, dessa vez estrelado por Claudia Leitte. A viagem terá abadá, festa à fantasia, micareta na piscina e dois shows privativos com a cantora.

 

A parte mais aguardada da viagem é o encontro com o navio de Ivete Sangalo, que deve acontecer nas proximidades de Itacaré. Fãs das duas cantoras já estão agendando o confronto pelo Orkut, em comunidades como “Eu vou invadir o seu navio” e “Faca na boca e axé no coração”.

 

Quem fatura com isso são as empresas de cruzeiro, que estão criando novas viagens temáticas para suprir a demanda crescente.

 

Alguns cruzeiros programados para os próximos meses:

 

Seas of Mercy

O primeiro cruzeiro gótico. Escalas em Hamburgo, Bremen e Lubeck; cabines privativas com caixões duplos; shows de XMal Deutschland e Clan of Xymox; open bar de vinho e concurso de fantasias de Robert Smith.

 

Cururu dos Mares

Um navio exclusivíssimo reunindo a nata dos jogadores de pólo e socialites. Saída da Praia de Jurerê, com escalas em ilhas privativas (localização sigilosa para evitar farofeiros e novos ricos); piscina especialmente adaptada para competição de water polo sobre cavalos; quiosques da DSquare, Lacoste e Chanel. Na pista, DJ set de Jay Kay (Jamiroquai).

 

Happy Hour of the Ocean

O primeiro cruzeiro da firma. Cabines coletivas com até 16 camas; crachá individual para cada passageiro, com foto, signo e time de preferência. Quatro sessões diárias de amigo secreto; salão de karaokê e restaurantes com mesas para até 90 pessoas.

 

Krisiun Dreams

O cruzeiro para os apreciadores do bom e velho death metal. Saída de Olso e escalas em Gudvangen, Trondheim, Egersund e Stavanger. Monitores especialmente treinados para as divertidas brincadeiras de “Descubra o traidor do movimento” e “Trucide o poseur”. Toda noite, divirta-se a valer na tradicional queima de igrejas no convés.

Escrito por André Barcinski às 00h18

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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