André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Frente a frente com Dee Dee Ramone

 

 

 

 

 

 

 

Em meados dos anos 90, me envolvi num projeto com os Ramones. Seria um filme sobre a turnê de despedida da banda, que passaria inclusive pela América do Sul.

A idéia era filmar todos os shows e entrevistar fãs, amigos e ex-integrantes.

Isso me levou a Dee Dee Ramone. Na época, ele morava entre a Europa, Argentina (sua mulher, Barbara, era de lá) e o mítico Hotel Chelsea, em Nova York. Foi no Chelsea que o encontrei pela primeira vez para falar do projeto.

O Chelsea é um lendário antro de depravação nova-iorquino, habitado há décadas por artistas e malucos em geral. Foi lá que Sid Vicious  matou Nancy (ou não, como veremos a seguir...) William Burroughs, Leonard Cohen e Jim Carroll moraram no hotel, o que dá uma boa idéia do clima geral.

Eu nunca tinha entrado no Chelsea.E a primeira coisa que me impressionou foi a sujeira. O hotel era, literalmente, um pulgueiro. Só que as suítes custavam  400 dólares por noite, que os turistas idiotas pagavam só para viver sua noite de Johnny Thunders...

O quarto de Dee Dee e Barbara deveria estar competindo em algum torneio de lugar mais desarrumado do planeta. Parecia que um furacão havia passado. Roupas, discos e todo tipo de utensílios estavam espalhados. A bagunça era tanta que, quando Dee Dee pediu comida chinesa, tivemos de sentar no chão para almoçar.

Se Joey era a consciência dos Ramones, Dee Dee era o porra louca. Ele era o verdadeiro gênio por trás de tudo. Só que não sabia disso.

Ex-michê, ex-delinquente, ex-assaltante, ex-heroinômano (ex? será?), e um dos sujeitos mais instintivamente brilhantes que já conheci. Era praticamente analfabeto e mal conseguia juntar duas frases, mas escreveu letras autobiográficas de um minimalismo poderoso e atordoante, como “53rd and 3rd”.

Nesse dia, descobri outra coisa sobre Dee Dee. Não sei se era alguma doença ou resultado de alguma medicação, mas o fato é que ele sofria de um grave déficit de atenção. Ele simplesmente não conseguia se concentrar em nada por mais de cinco minutos.

Dee Dee chegava ao cúmulo de parar frases no meio, ficar em silêncio por alguns segundos e depois emendar outro assunto, sem ter terminado o anterior. Digamos que clareza não era o seu forte. Conversar com ele, especialmente para um jornalista, era enlouquecedor.

Certa hora, começamos a conversar sobre o Chelsea, e eu comentei como era impressionante a quantidade de pessoas que vinham todo dia ao hotel pedindo para ficar no quarto onde Sid matara Nancy (só de curiosidade, o quarto não existe mais).

“O quê? Sid matou Nancy? De onde você tirou isso?”, disse Dee Dee. “Todo mundo sabe que não foi isso que aconteceu!”

Seria esse o furo jornalístico do fim de século? Dee Dee revelaria ao mundo o nome do verdadeiro assassino?

“E quem foi, Dee Dee?”

“Porra, foi aquele traficante que vendia heroína pra Nancy... Como é o nome dele... Fuck...Daqui a pouco eu lembro o nome do cara!”.

Foi a última vez que ele tocou no assunto.

Conversamos por pelo menos duas horas. Dee Dee contou algumas histórias sensacionais.

Falou do fracassado projeto que juntaria em Paris ele, Stiv Bators (Dead Boys) e Johnny Thunders - algo como a santíssima trindade da heroína.

Depois, contou em detalhes a morte de Stiv.  Segundo Dee Dee, Stiv foi atropelado por um táxi, mas estava tão entorpecido de heroína que simplesmente foi andando de volta para casa. Quando os amigos perceberam que ele estava muito mal, o levaram a um hospital, de onde saiu sem avisar e acabou morrendo de hemorragia interna.

Depois, Dee Dee confirmou a lenda de que teria sido despedido dos Ramones depois de roubar o caminhão da banda e vender todo o equipamento.

Eu tinha um compromisso e precisei me despedir. Dee Dee me convidou para encontrá-lo dali a algumas horas numa galeria de arte no Lower East Side, que iria abrir uma exposição de fotos da época do CBGB’s.

Fui para casa, empolgado com a chance de finalmente conhecer Dee Dee Ramone.

Algumas horas depois, cheguei à tal galeria. Era uma noite badalada: Henry Rollins estava lá, assim como membros do Dictators e metade da cena nova-iorquina de 77.

Dee Dee chegou logo depois. Fui cumprimentá-lo: “Oi, Dee Dee...”

“Who the fuck are you?” disse ele, puto da vida.

“Como assim? Estive te entrevistando a tarde toda, não lembra?”, disse, ainda atordoado.

“Hoje? Tem certeza?”

“Sim, nós marcamos de continuar a entrevista daqui a alguns dias...”

“Ah, tá certo. Tá bom, tá bom, passa no hotel no sábado então”.

Sábado, no horário marcado, eu estava lá. Quem não estava era Dee Dee, que havia saído do hotel na quinta. Nunca mais o vi.

O projeto do filme morreu logo depois.  E Dee Dee, em 2002.

Escrito por André Barcinski às 00h57

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O estranho caso do telefone imortal

 

 

 

 

 

 

 

 

Faz seis meses que ele me persegue.

Cada vez que penso nele, vêm as palpitações, os suores frios... enfim, o medo.

Como uma maldição num conto de Poe, ele me atormenta. Não consigo nem dormir pensando que ele está atrás de mim.

E pensar que, há apenas seis meses, ele era meu melhor amigo. Sim, eu dependia dele para muitas coisas. E pagava regiamente por isso.

Estou falando do combo telefone/TV/Internet, que comprei há alguns anos de uma operadora, e do qual agora não consigo me livrar.

Faz seis meses que cancelei o plano. Mas as contas continuam chegando, em meu endereço antigo. Como um labirinto kafkiano, percebo que nunca vou me livrar dele.

Essa semana, depois que recebi mais uma cobrança de um plano que não uso há seis meses, liguei, talvez pela trigésima vez, para a operadora.

Não vou revelar o nome da operadora, sob risco de parecer parcial a outras operadoras igualmente vagabundas. Prefiro escolher um nome que resuma toda a afeição e carinho que tenho pelos serviços maravilhosos que ela já me prestou. Vou chamá-la de CLOACA.

Assim que liguei para a CLOACA, uma gravação me saudou: “Obrigado. Vejo que você é um cliente da CLOACA”.

Como assim? Eu achei que tinha me livrado da CLOACA.

Mais alguns minutos de espera, e finalmente sou atendido por um ser humano.

- Bom dia, aqui é a Silvaneide (nome fictício), atendente da CLOACA. Em que posso ajudá-lo?

- Bom dia, Silvaneide. Em primeiro lugar, eu queria saber por que eu, que cancelei meu plano com a CLOACA há seis meses, ainda estou no cadastro de vocês.

- Ah, isso é norma da CLOACA. A CLOACA tem um cadastro de todos os que já foram clientes. Mas não se preocupe, aqui consta que o seu plano da CLOACA já foi cancelado.

- Ah, tá bom. Então, por favor, me explique por que eu continuo recebendo cobranças de vocês, se não tenho o CLOACAfone, o CLOACAcabo ou o CLOACAinternet há seis meses.

(espera de 4 minutos para que Silvaneide encontre meu caso. No intervalo, ouço anúncios de um novo pacote da CLOACA)...

- Alô, senhor? Olha só, essa cobrança é relativa a 15 dias de Internet, que não foram pagos ainda.

- De que dias são essas cobranças?

Mais uma pausa. Silvaneide acha a informação. Os dias cobrados são posteriores ao cancelamento do plano. Reclamo:

- Mas pera aí: vocês estão me cobrando por dias em que eu não usei a Internet.

- No nosso cadastro consta que o senhor usou.

- Silvaneide, se eu nem estava morando mais no local e o pacote havia sido cancelado, como é que eu posso ter usado?

- Um minuto, senhor, que vou me informar (mais 3 minutos e meio de espera, ao som de um anúncio da CLOACA vendendo o pacote dos campeonatos regionais de futebol)... Volta a Silvaneide:

- Senhor André, descobri: esses 15 dias foram o prazo que a CLOACA levou para retirar o modem do senhor.

- Ah, quer dizer que enquanto vocês não retiram o modem eu sou cobrado, mesmo que o pacote já esteja cancelado?

(pausa para Silvaneide checar o manual da empresa)

- É isso mesmo, senhor André!

- Então me responde uma coisa: se a CLOACA levar um ano pra retirar o modem, eu vou continuar pagando o pacote por um ano?

- Não.

- Ah, não?

- Não. A CLOACA não leva um ano para retirar um modem.

- E quanto tempo leva?

- Isso eu não posso responder ao certo pro senhor, seu André.

- Pelo amor de Deus, Silvaneide, veja se tem mais alguma cobrança aí em meu nome...

(aqui, a pausa foi grande. Mais musiquinha da CLOACA...)

- Alô, senhor André, tem sim, tem mais duas cobranças.

- Duas?

- É, tem uma cobrança de multa porque o senhor não pagou os 15 dias de Internet...

- Mas, Silvaneide, como é que eu poderia pagar se eu tinha cancelado o plano e não morava mais no local?

- Aqui consta que o senhor ainda mora lá.

- Eu acho que eu saberia onde eu moro, você não concorda? E a segunda cobrança?

- A segunda conta é relativa a um desconto que o senhor recebeu do plano de Internet da CLOACA e que ficou de crédito. Quando o senhor cancelou o pacote, perdeu o crédito.

- Então você está me dizendo que a CLOACA dá um desconto e depois cobra o desconto de volta?

- Só em caso de cancelamento, senhor André!

- Silvaneide, por favor, me responda uma coisa: se eu pagar essas duas contas, a CLOACA vai parar de me mandar cobranças?

- Vai sim, senhor André. Aqui só constam essas duas.

- Mas podem aparecer mais?

- Aí eu já não posso garantir!

Escrito por André Barcinski às 00h26

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A última sessão de cinema

 

 

 

 

 

 

 

Fim de semana passado, resolvi visitar um amigo moribundo, que está com os dias contados: o cinema Belas Artes.

Para falar a verdade, ele não está moribundo. Está até muito bem: limpinho, cheiroso e confortável. Mas tem data certa pra morrer: 27 de janeiro.

Fui assistir a “Medos Privados em Lugares Públicos”, de Alain Resnais, que está passando no Belas Artes há anos.

Não gosto nada do filme, mas foi reconfortante assistir a uma cópia em película. Tem alguma coisa naquele barulho de projetor rodando que alegra meu coração. Fiquei feliz até com as marquinhas e falhas na imagem, que provam que aquela experiência já foi compartilhada por outras pessoas.  

Nada no prédio indicava que ele estava prestes a bater as botas. As sessões estavam cheias, os cinéfilos discutiam os filmes na fila, e os funcionários trabalhavam como sempre.

Mas havia uma certa melancolia no ar.

O Belas Artes, para que não sabe, é um dos últimos cinemas de rua de Sâo Paulo. O que significa que não é necessário entrar num shopping ou passar por uma praça de alimentação para chegar a ele.

Acontece que cinemas de rua estão condenados a morrer. Conversei com um dono de cinema outro dia, e ele me explicou que salas de shopping pagam aluguéis bem mais baratos que as de rua. A explicação é simples: shoppings querem ter cinemas, porque atraem público. Alguns shoppings, disse ele, nem cobram aluguel dos cinemas.

Ontem, li que o Condephaat quer tombar o Belas Artes e evitar seu fechamento. Torço para que isso aconteça. Mas fico triste ao perceber que TODAS as soluções de nossa cidade, mesmo as boas, têm um quê de “jeitinho brasileiro”.

Não seria melhor ter uma política pública eficiente, que ajudasse cinemas e teatros, em vez de precisar apelar à bondade do Condephaat? E os milhares de prédios antigos e historicamente relevantes que não tiveram a sorte do Belas Artes?

Dois dias antes, eu tinha ido almoçar num boteco antigo na região de Santa Ifigênia, centro de Sâo Paulo.

A área está no meio de um processo de “revitalização”. O que significa que a Prefeitura está derrubando dezenas de prédios antigos para dar lugar a novas construções que, dizem, vai ressuscitar a área.

Andando pela Santa Ifigênia, vi vários cartazes de protesto. Um deles dizia: “Os nóias desvalorizam pra Prefeitura comprar”.

No fundo, no fundo, é isso mesmo.

A região chegou a um nível tão baixo de humanidade, com crackeiros fumando à luz do dia, famílias inteiras vagando como zumbis pelas ruas e crianças roubando pedestres para comprar droga, que a solução parece ser mesmo acabar com tudo aquilo e começar de novo.

Será mesmo? Lembro do caso de uma região do centro do Rio de Janeiro, próxima à Candelária, que foi totalmente revitalizada depois da inauguração do Centro Cultural Banco do Brasil.

Eu sempre andei pelo centro do Rio, e posso atestar como aquela região mudou depois do CCBB: mais gente ocupando as ruas, mais restaurantes, mais vida (em contrapartida, o Banco do Brasil conseguiu montar uma agência no prédio lindo onde funcionava a Confeitaria Colombo, em Copacabana).

Será que a única solução para a região da Luz (ou Nova Luz, como chama a Prefeitura) é destruir quarteirões, erguer prédios novos, e expulsar os crackeiros simplesmente ocupando a área?

Não sou urbanista, mas sei que aquela região tem prédios antigos lindíssimos. Imagina só o Centro de Sâo Paulo limpo e bem cuidado. Quantas pessoas não iriam querer passar um final de semana hospedadas lá? Imagine: chegar à cidade de trem, pela Estação da Luz, visitar o Mercado Municipal, o Teatro Municipal e a Sala Sâo Paulo? Eu iria.

Só tenho medo de que a “Nova Luz” se transforme numa Nova Berrini. Desconfio que as áreas vão ser dadas a preço de banana para empreiteiras e corporações faturarem ainda mais com especulação. Torço para que isso não aconteça.

Escrito por André Barcinski às 10h32

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O show de Amy e a apoteose dos VIPs

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sábado, no show de Amy Winehouse no Anhembi, uma coisa me chamou a atenção: a área mais disputada e exclusiva, ultramega VIP, não tinha visão do palco.

Não estou falando da área VIP em frente ao palco, mas de uma tenda montada atrás do palco – isso mesmo, atrás – onde rolava uma festa, com DJ e bebida à vontade, enquanto aconteciam os shows.

Nunca tinha visto uma coisa dessas. Por que algum VIP ficaria num lugar de onde não pode ver o show?

Ingenuidade a minha. Pensado bem, faz todo o sentido do mundo: quem está nessa área tem uma preocupação maior do que ver o show: ser visto vendo o show.

Não sei quanto custava o ingresso na tal área, ou se era exclusiva para convidados selecionados. Mas ficava ao lado da sala de imprensa, e era impossível não ver a multidão se divertindo.

Isso está se tornando hábito em eventos no Brasil: enquanto a grande maioria do público – o que paga ingresso “normal” – fica longe do palco, separado por uma barricada, uma minoria de privilegiados, com mais grana ou mais status, ocupa os melhores lugares.

De quem é a culpa? Da organização dos eventos?

De jeito nenhum.

A culpa é do público.

Sou da opinião de que o mercado não inventa nada, ele é reflexo do público. Se há demanda para uma área VIP de mil reais, então haverá uma área VIP de mil reais.

Da mesma forma, não posso concordar com os que criticam as emissoras pelo baixo nível da TV no Brasil, ou as rádios pelas programações ridículas que temos ouvido. Se o público não gostasse, isso não existiria. Se fôssemos mais exigentes, o nível seria melhor. A culpa é nossa.

Voltando aos VIPs: sábado, no show de Amy Winehouse, a frente do palco ficou bem cheia no início do show. Lá pela quarta ou quinta música, já dava para ver filas se formando na direção da área exclusiva. A festa estava melhor.

Eu assistia ao show com dois colegas jornalistas. À nossa frente havia um grupo de meninas, acompanhadas por dois sujeitos de camisa de jogador de pólo. Uma das meninas, percebendo que éramos jornalistas, perguntou se era verdade o boato de que Amy iria se apresentar, depois do show, numa conhecida casa noturna paulistana.

Um dos sujeitos fantasiados de jogador de pólo disse, com ar magnânimo: “Se a Amy for lá, eu fecho o lugar pra ela! Compro todos os camarotes!”

Saindo do Anhembi, impressionava o número de carrões – SUVs eram abundantes. Fui matar a fome numa padaria 24 horas na região de Higienópolis, e no caminho vi uma quantidade assustadora de barbeiragens. Era a festa do playboy louco.

Um sujeito num 4x4 andou meio quarteirão na contramão e simplesmente largou sua caranga na calçada, em frente à padaria. Quando o guardador veio pedir para ficar com a chave, ele xingou o coitado e entrou no local.

Admiro o sangue frio do guardador. Se eu, que não fui xingado, fiquei com vontade de pegar uma chave inglesa e destruir o carro do cururu, imagina ele? Mas ele não podia, claro. Ganha num mês um quinto do que o filhinho de papai gastou naquela noite.

Enquanto isso, o público se acostuma a ser maltratado. O show terminou depois do horário do metrô? Não tem problema, a gente paga 50 reais pro flanelinha ou 200 num táxi. Ficamos lá atrás, sem ver nada? Não esquenta, no próximo show a gente chega mais cedo e se espreme na barricada...

Escrito por André Barcinski às 01h28

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O maior mico de Amy Winehouse

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Já vi shows bons e ruins, mas não me lembro de ter visto um tão amador quanto o de Amy Winehouse.

Eu simpatizo com Amy. Prefiro mil vezes a bagaceira dela às celebridades que posam para revistas mostrando os órfãos que adotaram em algum país miserável.

 Acho que astros “polêmicos” como ela são necessários, embora desconfie que muito daquilo seja marketing (alguém soube de um escândalo sequer protagonizado pela moça SEM um fotógrafo por perto?).

Gosto dos discos também. Não sou grande conhecedor de soul music e não passo semanas ouvindo “Frank” ou “Back to Black”, mas achei os discos divertidos e bem produzidos.

Mas nunca tinha visto um show dela, nem em DVD.

Por isso, o espanto: pelo menos sábado, Amy cantou como uma amadora. Desafinou pacas, errou a letra de várias músicas e atropelou a métrica de outras tantas.

Foi de uma antipatia que raras vezes vi em cima de um palco. Não custava nada ter mostrado um pingo de apreço pela platéia – 30 mil pessoas, segundo a organização. Só falava com a banda.

E a banda? Não conheço os músicos ou seu currículo, mas posso dizer que foi o pior conjunto de músicos que já vi tocando num evento desse porte. Sem vontade, sem garra, tocando o beabá mais rastaqüera. Parecia grupo de beira de piscina de cruzeiro marítimo.

Para realçar a ruindade – e para encher um pouco mais de lingüiça – Amy pediu a cada um deles que fizesse um solo. O solo de guitarra foi um daqueles momentos constrangedores em que você fica com pena do cara, e olha que nem sou músico.

O de bateria foi tão chato que nem a Amy agüentou: sentou no palco e ficou esperando aquilo passar.

Dava para ver claramente que a turnê foi organizada às pressas: não havia cenário, só uma pavorosa montagem do nome da cantora com a bandeira do Brasil, que parecia banner de agência de turismo. Um amigo jura que viu Amy lendo o nome dos músicos em um papel colado no chão do palco (eu não percebi).

Sábado, a banda de Amy esteve no palco por 72 minutos. Já a cantora, subtraindo os momentos em que saiu do palco, as duas cançõess que mandou um vocalista de apoio cantar, os solos dos músicos e o intervalo para o bis, não apareceu por mais de 50 ou 55. Foi a grana mais fácil que ela já ganhou.

Dois fatores realçaram a ruindade do show: em primeiro lugar, o próprio Anhembi, grande demais para shows desse tipo. Num teatro fechado, talvez a apresentação não fosse tão fria e desanimada.

Em segundo lugar, Janella Monáe. A cantora se apresentou antes de Amy e, mesmo exagerando na pose e em alguns truques ridículos (em certo momento ela pinta um quadro no palco), mostrou que canta muito. Janelle e banda suaram a camisa e deram tudo no palco. Não foi um show incrível, mas pelo menos mostrou consideração por quem pagou ingresso – que não era nada barato.

E Amy? Bom, ela embolsou uma fortuna para cantar que nem uma caloura do “Ídolos”. Bateu a carteira e se mandou. Será parte do marketing? Ou falta de talento mesmo?

Escrito por André Barcinski às 11h03

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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