André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Hoje está difícil escrever sobre qualquer coisa...

Desculpem, mas depois de ver as imagens da região serrana do Rio, não há motivação para escrever sobre cinema, música, ou qualquer outra coisa. Tudo parece banal.

E todo ano é a mesma coisa, não? Chega janeiro, a gente fica esperando pra ver onde vai desabar um morro ou que cidade será alagada. Quando não é em Santa Catarina é no Nordeste, ou em Angra dos Reis.

Enquanto isso, o poder público culpa a chuva e a população continua a jogar lixo na rua e em bueiros.

Moro em Paraty. A cidade vive de turismo e só agora está se recuperando de dois anos péssimos, causados por enchentes em 2009 e 2010. O que tem de pousada falida por aqui não é brincadeira.

Enquanto isso, a estrada Paraty-Cunha, uma das vias mais ativas do turismo pra região, está interditada há dois anos por causa da chuva. E a Rio-Santos tem - mais de um ano depois das chuvas - inúmeros locais ainda com obras de contenção. 

Claro que isso não é nada comparado à tragédia de Nova Friburgo. Mas não é também um crime condenar pessoas à falência? Causar o fechamento de hotéis, pousadas, restaurantes, pequenos negócios?

Escrito por André Barcinski às 14h10

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Será o fim para Robert De Niro?

 

 

 

 

 

 

 

 

Certa vez, fui entrevistar Harrison Ford.

No meio do papo, ele insinuou que estava de saco cheio de trabalhar em megaproduções e disse que adoraria fazer um filme pequeno e independente. Eu fiz a pergunta óbvia: “Então porque você não faz um filme pequeno e independente?”

Ele respondeu: “Porque no momento em que eu assinar o contrato, ele deixa de ser pequeno e independente!”

Foi aí que me caiu a ficha: grandes astros não têm liberdade total de escolha, porque existem projetos que não suportam grandes astros. Deu pra entender?

Se Harrison Ford chegasse um dia para o agente e dissesse: “Eu quero fazer um filme pequeno, com um diretor novato e orçamento barato”, a primeira reação do agente seria interná-lo num manicômio. A segunda seria procurar um estúdio para bancar o projeto. E assim que o estúdio soubesse que Ford estava envolvido, o orçamento já quintuplicaria.

Lembrei dessa história vendo Robert De Niro em “Entrando Numa Fria Maior Ainda com a Família”.

Sobre o filme, não vou perder muito tempo: é uma das experiências mais deprimentes que já tive num cinema.

Sabe quando você se pega vendo de relance “A Fazenda” ou “BBB” e fica constrangido em nome de toda a humanidade? Fiquei assim vendo De Niro nesse filme.

O que leva um ator como ele a fazer uma cena em que toma uma injeção no bilau para curar uma ereção induzida? Juro, não estou inventando, essa cena existe e está em “Entrando Numa Fria...”.

Robert De Niro. Taí um sujeito que é, sem medo de errar, um dos maiores atores de cinema de todos os tempos. E há 15 anos não faz um filme que presta. Eu olhei no IMDB: desde 1995, quando fez “Fogo Contra Fogo” e “Cassino”, só faz porcaria.

Como pode? Será que ele desaprendeu a ler roteiros? Enlouqueceu? Quer sabotar a própria carreira?

Ou está jogando o jogo da indústria, fazendo filmes fáceis, desses que não dão trabalho, não exigem preparação e rendem cheques polpudos?

Será que só existe esse caminho para atores na casa dos 70 anos? Se isso é verdade, então porque Al Pacino não entrou na onda? Quem viu o sujeito interpretando o “Dr. Morte” Jack Kevorkian no recente telefilme da HBO “You Don’t Know Jack” sabe que foi uma das grandes atuações de sua carreira.

Já De Niro anda devendo.

Tomara que ele compense em “The Irishman”, seu primeiro filme com Scorsese desde “Cassino”. E que tem no elenco – vixe – Al Pacino e Joe Pesci.

Scorsese, De Niro, Pacino e Pesci no mesmo filme? Sai de baixo. Torço para que me faça esquecer os últimos 15 anos de Robert De Niro.

Escrito por André Barcinski às 09h30

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Liberdade é jogar o celular no lixo!

 

 

 

 

 

 

 

 

Estou curado. Hoje faz um mês que vivo sem celular.

Ou melhor: que vivo sem telefone móvel.

Explico: como não temos ainda telefone fixo em casa, mantivemos um celular, com a promessa de nunca tirá-lo de casa.

Nos primeiros dias, a crise de abstinência bateu forte. Eu andava na rua e, cada vez que ouvia um celular chamando, botava a mão no bolso. Puro reflexo.

Passados 30 dias, posso dizer que sobrevivi. Já não tenho a obsessão de retornar qualquer chamada em 12 segundos, nem de andar com o celular na orelha falando sozinho na rua.

É muito boa a sensação de chegar em casa e ver quem te ligou. Você pode ignorar os malas, deletar os recados da operadora  e responder só aos telefonemas que importam.

O maior alívio foi me livrar do rádio. É bem pior que celular. Acho que é o aparelho mais inconveniente já criado. É um Big Brother - o do Orwell, não do Bial - te seguindo 24 horas por dia.

“É necessário pro trabalho”, dizem. Tá bom. Quer dizer que ninguém nunca trabalhou antes do Nextel?

O mais engraçado foi ir à loja comprar esse aparelho novo. A vendedora fez cara de nojo quando eu disse que não queria um smartphone, não queria telefone com câmera, bluetooth, canivete suíço ou escova de dentes. Eu só queria um telefone que telefonasse. Seria pedir demais?

Aparentemente, sim. Não havia um modelo sem câmera. Nenhum. Até o modelo mais furreca tinha uma câmera de não sei quantos pixels (por que as empresas que fabricam máquinas fotográficas não fazem modelos com telefones móveis? Ou será que já tem?).

Voltando ao celular: quando decidimos abolir a telefonia móvel em casa, os questionamentos foram os mais extremos. Variaram de “será que você vai conseguir trabalhar?” a “e se for um caso de vida ou morte?”

Bom, não sou neurocirurgião nem traficante, então a chance de ser chamado no meio da madrugada por algum paciente ou cliente é bem pequena. Resolvi tentar a sorte.

Até agora, deu certo.

E o perigo de uma recaída, existe? Possível, mas improvável. Depois de 30 dias felizes de desintoxicação, ninguém pode querer voltar àquela fissura de junkie de abrir a mochila correndo para não perder a ligação.

Superado esse desafio, vou me dedicar agora a um novo, bem mais difícil: acessar a Internet só duas vezes por dia. Godspeed!

Escrito por André Barcinski às 00h12

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Os melhores filmes que o Brasil não viu em 2010

O cronograma de lançamentos de filmes no Brasil é tão confuso que fica difícil saber que filmes estrearam ou não. Tem filme que passou por poucos dias, outros foram direto pra vídeo, e alguns simplesmente não foram lançados.

 

Fiz uma lista de alguns ótimos filmes que vi em 2010 e que, salvo engano, não estrearam comercialmente no país (se alguém tiver informações sobre lançamento em cinema ou DVD, por favor se manifeste).

 

Alguns da lista vão estrear, com certeza. Os que não passarem, recomendo procurar por aí. Boa sorte.

 

Winter’s Bone

Junto com “O Profeta”, o melhor longa que vi em 2010. História de uma jovem do interior dos Estados Unidos (mais especificamente dos Ozarks, região caipiríssima do centro do país) que sai à procura do pai, foragido da polícia. Um dos filmes mais tensos e impactantes dos últimos anos. Tem uma cena envolvendo um lago e uma serra elétrica – não vou contar mais – que é coisa de antologia.

 

Peacock

Drama sobre um homem (Cillian Murphy, de “A Origem”) vivendo uma vida dupla como mulher, numa cidadezinha do Nebraska. Um pesadelo gótico de primeira. Este chegou a ser anunciado em cinemas, mas depois sumiu. Acho que nem chegou a estrear.

 

Smash His Camera

Documentário de Leon Gast (“Quando Éramos Reis”) sobre o mítico paparazzo Ron Galella, que por 40 anos perseguiu celebridades – e foi perseguido por algumas, como Marlon Brando, que lhe arrancou cinco dentes com um soco na cara.

 

Animal Kingdom

Filmaço australiano sobre um adolescente de 17 anos que, depois da morte da mãe por overdose, busca abrigo na casa dos tios, um grupo de bandidos procurados pela polícia local. Tenso. A incrível Jacki Weaver (grande atriz australiana de “Piquenique na Montanha Misteriosa”) faz a avó mais assustadora que já vi numa tela.

 

Exit Through the Gift Shop

Passou na Mostra de SP, mas acho que nem chegou a entrar em cartaz esse documentário, supostamente dirigido pelo artista plástico e terrorista cultural Banksy, que questiona a autenticidade da criação artística. Divertidíssimo.

 

Restrepo

Documentário incrível sobre a vida de soldados americanos na linha de frente do combate ao Talibã, no Afeganistão.  A impressão é que nenhum deles tem a menor idéia do que está fazendo lá. Triste e revoltante.

 

The Cove

Um mistério por que esse documentário sobre a indústria da pesca de golfinhos no Japão, que ganhou o Oscar, não estreou no Brasil. O filme sofre de um certo didatismo e parece um pouco comercial de ONG, mas as cenas das matanças de golfinhos são aterradoras. Eu também não tinha a menor idéia de que a captura e treinamento de golfinhos para parques aquáticos fosse um negócio bilionário, como mostra o filme.

 

Inside Job

Narrado por Matt Damon, este documentário trata da crise global de 2008, que custou 20 trilhões de dólares ao planeta e, como o filme mostra, poderia tranquilamente ter sido evitada. Filmaço.

Escrito por André Barcinski às 00h06

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Curtindo as férias com Keith Richards

 

 

 

 

 

 

 

 

Fugindo das hordas de jet skis, lanchas barulhentas e Passats detonados tocando axé, me refugiei em casa nos primeiros dias do ano, esperando o verão passar – pelo menos os primeiros dias da estação, que são sempre os mais traumáticos.

Passei horas muito divertidas lendo “A Vida”, autobiografia de Keith Richards.

Confesso que não sou grande fã dos Stones. Sei da importância histórica e reconheço a genialidade da dupla Jagger/Richards, mas tem algo naquele pastiche de rhythm’n’blues e soul negão que não me convence. Não consigo gostar de Mick Jagger fingindo que é James Brown ou Sam Cooke.

Já Keith é outra história. O verdadeiro príncipe negro do rock. O cara que inventou os clichês do roqueiro kamikaze. Ri muito com os casos escabrosos dele.

Mas, antes de chegar nos casos, não posso esquecer dos trechos em que ele conta como foi influenciado por alguns guitarristas.

Não sou músico e não tenho muito saco para análises técnicas de instrumentistas e coisas do tipo. Mas é impossível não se emocionar quando Keith fala de caras como Junior Wells, John Lee Hooker, Scotty Moore e Muddy Waters, e de como esses monstros influenciaram o seu próprio estilo.

Há outra parte interessante, em que Richards conta como descobriu os segredos da afinação aberta em sol, o verdadeiro Santo Graal do som dos Stones. Ninguém aí nunca se perguntou por que as guitarras de Keith têm só cinco cordas?

Agora, aos casos: como diz logo no início do livro, Keith Richards, durante boa parte de sua vida, dormiu apenas duas noites por semana. O que significa que ficou acordado por “pelo menos três vidas”.

Seu recorde de resistência, conta, foi de nove dias seguidos movido a cocaína, anfetaminas e sabe-se lá o que mais. E nesses estupores, muita coisa estranha aconteceu.

O livro relata dezenas – dezenas mesmo, sem exagero – de prisões e problemas com a polícia, cada um mais engraçado que o outro.

Keith conta que teve a brilhante idéia de levar o filho de sete anos em turnê, porque era a única pessoa que conseguia acordá-lo para os shows. A equipe dos Stones aprovou, até porque o guitarrista dormia com um 38 embaixo do travesseiro e ninguém queria correr o risco de vê-lo acordando de mau humor.

Richards relata cenas dantescas com parceiros de esbórnia como Bobby Keys, Gram Parsons, Anita Pallenberg, Ron Wood e John Lennon (um fracote sem resistência).

Mas fala muito pouco – e mal - de Brian Jones. A impressão é que o clima não era lá muito amistoso entre os dois. Keith até hoje parece não compreender o mito que se criou em torno de Brian.

Algumas das partes mais divertidas, claro, são sobre Mick Jagger, ou “Brenda”, como Keith o chama há 30 anos, desde que brigaram por causa da suposta traição de Mick que, segundo Keith, teria usado o prestígio dos Stones para tentar alavancar sua carreira solo. Há 30 anos, um não entra no camarim do outro. “Eu tenho saudades do meu amigo de antigamente”, diz o guitarrista.

E as lendas keithianas? Será verdade que ele trocou de sangue numa clínica da Suíça? Que ele cheirou as cinzas do pai? Pista: uma é verdade, a outra não. Leia e descubra.

Escrito por André Barcinski às 10h22

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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