André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

O verão está chegando, salve-se quem puder!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Tempo de verão / e a vida é fácil” diz “Summertime”, a canção imortal de George Gershwin e Dubose Heyward.

Verão, época de vida fácil? Talvez para Gershwin, que nunca passou uma temporada de férias no Guarujá ou em Angra dos Reis.

O verão que nós conhecemos é bem diferente: é a estação de engarrafamentos, vizinhos mal educados, motoristas bêbados estacionando em fila dupla, preços altos, falta d’água e alto-falantes cuspindo música ruim em volume torturante. É o inferno na Terra.

Dá para entender alguém que mora em Minnesota ou na Finlândia se animar tanto com o verão. Ao primeiro raio de sol, todo mundo sai à rua para tentar esquecer os dez meses anteriores de neve e frio.

Aqui não. Temos sol o ano inteiro. Então porque precisamos esperar o verão para liberar nossos instintos bestiais?

Acho engraçado como muitos tentam empurrar o verão como um conceito abstrato de alegria e descontração. Você abre uma revista de moda e todas falam de “moda verão”, de como caftans estão de volta, ou que chapéus usar na estação.

Só se for em Saint Tropez ou Ibiza. A moda verão, pelo menos nas praias que eu conheço, são uma só: para os homens, regatas “Lembrança de Porto Seguro”, “Sou Chicleteiro” e “Sou Louco Por Ti, Corinthians”; para as mulheres, biquínis cinco números menor que o recomendável.

E a comida? Quantas revistas não trazem “receitas leves e saborosas” para o verão? E quem obedece? Já viu alguém levando aipo pra praia? Eu não. Só vejo salada de batata em tupperware, lula frita com molho rosé e crianças de dois anos comendo Fandangos com Coca-Cola.

Não são só as pessoas que tiram férias no verão, o bom senso também. Não adianta os jornais avisarem para não pegar a estrada a certa hora, que é justamente quando todo mundo vai descer a serra. Junto.

Parafraseando Joãozinho Trinta: quem gosta de tranqüilidade é intelectual; povão gosta é de bagunça.

Está chegando o verão. Como faço todo ano, vou ficar quietinho em casa, esperando o outono chegar.

Desejo um ótimo fim de ano para todos. Volto na primeira semana de janeiro. Ate lá!

Escrito por André Barcinski às 00h52

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Geisy Arruda e a difícil arte de fingir de burra

 

Por que algumas pessoas atraem tanta atenção?

Geisy Arruda, por exemplo: a moça ficou conhecida no país todo por ter sido xingada por colegas de universidade ao desfilar pelo local de minissaia.

Depois que o caso esfriou, Geisy não sumiu do noticiário. Muito pelo contrário: começou a aparecer em programas de TV, posou para a revista “Sexy” e participou de “A Fazenda 3”. Agora, está lançando um livro sobre sua vida: “Vestida para Causar”.

Confesso que não sabia o quanto a moça era famosa.

Há algumas semanas, meu amigo Ivan Zumalde, diretor de redação da “Sexy”, me disse que a edição com Geisy Arruda havia sido um sucesso enorme. A maior vendagem da revista em três anos.

Eu estava prestes a começar as gravações da nova temporada de “O Estranho Mundo de Zé do Caixão”, o “talk show” do Canal Brasil apresentado por José Mojica Marins, e Ivan sugeriu que eu convidasse Geisy.

No dia da gravação, quando avisei que Geisy estava prestes a chegar, foi uma comoção: o prédio todo desceu para ver a moça. O estúdio ficou lotado. E não só de marmanjos: um monte de meninas queria ver Geisy de perto.

Na entrevista, Geisy deu um show: cada vez que Mojica fazia uma pergunta cabeluda, ela respondia com alguma história mais escabrosa e surpreendente. Entre outras coisas (a entrevista vai ao ar em abril, não vou entregar muito), Geisy contou que tem tara por taxistas, o que levou Mojica a sugerir ao Sindicato dos Taxistas fazer um ponto em frente à casa dela. Um momento sublime de nossa TV.

Mas o grande destaque da entrevista aconteceu quando Mojica perguntou qual era a estatura de Geisy, e ela respondeu: “O que é estatura?” O silêncio no estúdio foi constrangedor.

Assim que terminou a entrevista, fiz uma edição rápida de algumas cenas e mandei para o site do Canal Brasil. As imagens acabaram em destaque em vários portais.

O Kibeloco editou o trecho da “estatura” e postou no Youtube. Resultado: até ontem, mais de 260 mil acessos só nesse link. Há alguns minutos, digitei “Zé do Caixão Geisy Arruda” no Google e obtive mais de 11 mil links. Incrível.

Juro que não sei o que Geisy tem. Talvez algum sociólogo consiga explicar a atração que essa “Geni” exerce na opinião pública.

Revi o vídeo da entrevista algumas vezes, e uma coisa começou a chamar minha atenção: assim que Mojica pergunta “qual a sua estatura?”, Geisy começa a responder: “Eu tenho...”. De repente, ela para, pensa, e pergunta: “O que é estatura?”

Veja de novo e confira.

Cheguei à conclusão de que Geisy não só sabe muito bem o que é estatura, como nesse exato momento deve estar rindo sozinha com os 11 mil links do Google e as centenas de milhares de views no Youtube.

Cada vez que revejo o vídeo, mais me convenço que ela percebeu na pergunta de Mojica uma chance de ouro de chamar a atenção.

A dúvida é: será que Geisy Arruda é um gênio autodidata do marketing, ou teve a ajuda de alguém muito, mas muito esperto? Quem ensinou Geisy a manipular a opinião pública de forma tão eficiente?

De qualquer forma, palmas para ela. Por que ser famoso por grandes feitos é fácil. Difícil é ser famoso sem ter feito absolutamente nada de relevante.

Sei que muitos vão dizer que Geisy é mais uma prova do nível rasteiro da cultura pop atual. Concordo, mas a culpa não é dela. Geisy não é causa, é conseqüência. Ela percebeu que hoje há espaço na mídia para alguém que não sabe o que é “estatura”. E, se isso diverte as pessoas, é isso que elas terão. Give the people what they want.

Escrito por André Barcinski às 23h45

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"Tetro": um recomeço para Coppola?

 

Não deve ser fácil ser Francis Ford Coppola. Quando você chega aos 40 anos de idade tendo dirigido “O Poderoso Chefão 1 e 2”, “A Conversação” e “Apocalypse Now” e impactado o cinema como ele nos anos 70, o que fazer depois?

 

Coppola passou os últimos 30 anos tentando viver com esse peso.

 

Não foram anos fáceis. O diretor teve uma série de fracassos (“O Fundo do Coração”, “Cotton Club”), fez filmes medianos de encomenda (“Drácula”, “O Poderoso Chefão 3”) e abandonou o cinema em 1997, depois de “The Rainmaker”. Parecia cansado de Hollywood e foi cuidar de seus vinhos.

 

Três anos atrás, Coppola ensaiou uma volta com “Youth Without Youth”, mas a recepção foi péssima. Pelo menos o filme marcou a volta de Coppola a um cinema independente e pessoal. Parecia um recomeço.

 

Agora chega “Tetro”, outro filme barato e bancado pelo próprio Coppola. É seu primeiro roteiro original desde “A Conversação”, de 1974.

 

A história começa quando o adolescente Bennie (Alden Ahrenreich) chega a Buenos Aires em busca do irmão, Angelo (Vincent Gallo), que abandonou a família anos atrás. Depois de fracassar como escritor, Angelo mudou o nome para Tetro, trabalha como iluminador de teatro e vive com a namorada, Miranda (Maribel Verdú).

 

Bennie vai descobrindo, pouco a pouco, as peças do enigma que é Tetro. Bennie encontra um manuscrito de Tetro, escrito em código, que narra a história da família.

 

Tetro largou a família para fugir do pai, Carlo (Klaus Maria Brandauer), um famoso regente de orquestra, sujeito violento e arrogante (“Essa família só em lugar para um gênio”, diz o pai, quando Tetro conta seu sonho de ser escritor).

 

Para subir na vida, Carlo traiu e abandonou o irmão, um músico bem mais talentoso (a briga dos irmãos parece inspirada na própria saga dos Coppola: o pai de Francis, Carmine, que é músico e compôs a maioria das músicas de seus filmes, é irmão de Anton Coppola, um compositor celebrado e autor da ópera “Sacco e Vanzetti”).

 

O início de “Tetro” é promissor. Rodado em preto e branco, o filme tem imagens lindas e um clima misterioso e envolvente. Mas o interesse logo some quando Coppola começa a florear a história com melodrama.

 

“Tetro” tem qualidades de filme de principiante: uma ambição enorme e uma vontade até juvenil de dizer muito. Mas, curiosamente, também traz alguns problemas típicos de cineastas novatos, como um certo exagero estilístico que acaba tirando a força da história.

 

O presente é mostrado em preto e branco, mas os “flashbacks” de Tetro são em tecnicolor. Várias sequências são encenadas como uma peça de teatro. E “Tetro” vira uma opereta dramática.

 

As grandes surpresas que a história parecia reservar para o final acabam não surgindo. O fim é previsível.

 

Saí do filme decepcionado. Mas, pensando bem, acho que “Tetro” pode vir a ser um filme importante nessa retomada da carreira de Coppola. Pela primeira vez em muitos anos, ele arriscou.

Escrito por André Barcinski às 23h47

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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