André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Encerrando a "Semana Noel Rosa", um top 10 pessoal

 

Para encerrar a Semana Noel Rosa, uma seleção de meu Top 10 do gênio de Vila Isabel. Claro que muitos vão discordar e citar outras canções. Faça a sua lista e compare:

 

O “X” do Problema

Uma das maiores criações de Noel. A narradora é uma mulher que recebe convites para largar a boemia e morar “num grande palácio”, mas não consegue abandonar a escola de samba. A última estrofe é uma obra-prima: “Nasci no Estácio / Não posso mudar minha massa de sangue / Você pode crer que palmeira do Mangue / Nâo vive na areia de Copacabana”.

 

Seu Jacinto

Eu morro de rir toda vez que escuto essa música. Uma cutucada em todos que comem mocotó e arrotam caviar: ”Quando tem baile lá na casa da Teresa / Ela faz pano de mesa / com lençol que cobre a cama / Bota nos copos água usada na banheira / depois diz à turma inteira / que é cerveja lá da Brahma”.

 

Coração

Enquanto a maioria dos compositores fala do coração com analogias parnasianas, Noel disseca o órgão de maneira cirúrgica. Pra mim, uma das letras mais surpreendentes e engraçadas da música brasileira: “Coração, grande órgão propulsor / transformador do sangue venoso em arterial / coração, não é sentimental / mas, entretanto, dizem que és o cofre da paixão / Coração, não estás do lado esquerdo / nem tampouco do direito / ficas no centro do peito, eis a verdade / Tu és pro bem-estar do nosso sangue / o que a casa de correção / é para o bem da humanidade”.

 

Mentiras de Mulher

Várias vezes Noel criou perfis pouco elogiosos de mulheres que conheceu. Este aqui é engraçadíssimo: ”Quando no reino da intriga / surge uma briga por um motivo qualquer / se alguém vai pro cemitério / é porque levou a sério / as palavras da mulher”.

 

Mulher Indigesta

Hoje, Noel seria linchado por esse samba machista e violento. Mas é de rolar de rir: “Mas que mulher indigesta / indigesta / merece um tijolo na testa (...) e quando se manifesta / o que merece é entrar no açoite / ela é mais indigesta do que prato / de salada de pepino à meia-noite”.

 

Coisas Nossas

Noel canta as coisas do Brasil trocando o ufanismo pela ironia. O primeiro verso é, na minha lista, um dos mais belos versos de abertura de todos os tempos: “Queria ser pandeiro / pra sentir o dia inteiro / a sua mão na minha pele a batucar”.

 

Positivismo

O leitor - e sociólogo - Herbert já destacou essa letra aqui, e com razão. Imagine alguém, hoje em dia, escrever algo assim: “A verdade, meu amor, mora num poço / É Pilatos, lá na Bíblia, quem nos diz / e também faleceu por ter pescoço / o autor da guilhotina de Paris (...) O amor vem por princípio, a ordem por base / o progresso é que deve vir por fim / desprezaste esta lei de Augusto Comte / e foste ser feliz longe de mim”.

 

Você, por Exemplo

Outra letra de crítica social em que Noel esculhamba os esnobes. Atenção para a contraposição das palavras “muda” e “mudo”: “Quanto barbado que não paga o engraxate / muda de casa e deixa mudo o alfaiate / Quanto barbado que jejua mais que o Gandhi / Você, por exemplo / você, por exemplo / não tem barba grande!”

 

Pra Que Mentir?

Uma das músicas mais melancólicas de Noel. Muita gente gravou, incluindo Silvio Caldas, mas a versão de Aracy de Almeida é insuperável: “Pra que mentir / se tu ainda não tens / a malícia de toda mulher / pra que mentir, se eu sei / que gostas de outro / que te diz que não te quer?

 

Três Apitos

Uma das músicas mais bonitas já compostas por Noel, em que ele faz um apelo a uma namorada que trabalha numa fábrica (na verdade a moça, chamada Fina, não trabalhava no local, apenas ia lá para levar marmita para a irmã). A letra faz um contraponto incrível entre o apito da fábrica e a buzina do carro de Noel: “Quando o apito na fábrica de tecidos / vem ferir os meus ouvidos / eu me lembro de você (...) Você que atende ao apito de uma chaminé de barro / Por que não atende ao grito tão aflito / da buzina do meu carro?”. A versão de Aracy de Almeida, novamente, deixa todas as outras no chinelo.

 

Pra encerrar, dêem uma olhada nesse vídeo. É, aparentemente, a única imagem em movimento de Noel. Meu saudoso tio, o produtor musical Paulinho Albuquerque, me disse que, até ver essas imagens, não acreditava que Noel tivesse, de fato, existido: “Ele era bom demais pra ser verdade!”

Escrito por André Barcinski às 13h38

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Semana Noel Rosa: 10 clássicos

No post de ontem, o biógrafo de Noel, João Máximo, escolheu cinco músicas fundamentais para conhecer a obra do gênio. São as cinco primeiras dessa lista.

Depois adicionei mais cinco, formando um top 10 de clássicos absolutos de Noel Rosa.

 

O que mais impressiona em Noel é a economia dos versos. Ele diz apenas o necessário, sem floreios ou penduricalhos. São letras com incrível poder de síntese e, por isso, poderosas.

 

Amanhã, no encerramento da “Semana Noel Rosa”, o meu top 10 pessoal, com músicas mais raras. Aproveite:

 

“Quem Dá Mais?”

A ironia de Noel em grau máximo: “Quem dá mais / Por um samba feito nas regras da arte / sem introdução e sem segunda parte / Só tem estribilho / Nasceu no Salgueiro / e exprime dois terços do Rio de Janeiro”.

 

“Conversa de Botequim”

Uma obra-prima da pilantragem e uma das canções mais cinematográficas de Noel: você ouve e imediatamente consegue visualizar algum boteco suspeito da Lapa e um cliente folgado que abusa do garçom. João Máximo e Carlos Didier, em “Noel Rosa – Uma Biografia”, atentam para a perfeita acentuação da letra, que acompanha a acentuação musical. Coisa de gênio.

 

“Não Tem Tradução”

O complexo de inferioridade brasileiro e a supervalorização de tudo que vem de fora, tratados com ironia fina. Veja essa letra e diga se não é atual: “Amor, lá no morro é amor pra chuchu / as rimas do samba não são ‘I love you’ / e esse negócio de ‘Alô, alô boy, alô Johnny!’ / Só pode ser conversa de telefone”

 

“Gago Apaixonado”

Letra engraçadíssima que usa a gagueira do personagem como artifício rítmico: “Mu.. mu.. mulher / em, mim fi... fizeste um estrago / Eu de nervoso / Estou... tou... fi... ficando gago”

 

“Último Desejo

Uma das músicas mais bonitas de Noel, fala de um amor que já acabou e que não tem volta: “Às pessoas que eu detesto / Diga sempre que eu não presto / Que meu lar é um botequim / Que eu arruinei sua vida / Que eu não mereço a comida / Que você pagou pra mim”.

 

“Feitiço da Vila”

Nunca a palavra “farofa” foi usada com tanta elegância: “A Vila tem um feitiço sem farofa / Sem vela e sem vintém / Que nos faz bem”. Uma elegia à Vila Isabel, com uma estrofe que periga ser uma das maiores criações de Noel: “O sol na Vila é triste / Samba não assiste / Porque a gente implora: / Sol, pelo amor de Deus / Não venha agora / Que as morenas / Vão logo embora”.

 

“Palpite Infeliz”

Quando Noel fez “Feitiço da Vila”, o sambista Wilson Baptista atacou com um samba irônico, “Conversa Fiada”: “É conversa fiada / Dizerem que o samba na Vila tem feitiço / Eu fui ver pra crer / E não vi nada disso”.

A réplica de Noel foi “Palpite Infeliz”: “A Vila é um cidade independente / Que tira samba, mas não quer tirar patente / Pra que ligar a quem não sabe / aonde tem o seu nariz / Quem é você que não sabe o que diz?” Genial.

 

“Fita Amarela”

Samba melancólico e fetichista, em que Noel continua fazendo graça mesmo depois de “morto”: “Não tenho herdeiros / Não possuo um só vintém / eu vivi devendo a todos / Mas não paguei nada a ninguém”.

 

“Com Que Roupa”

Primeiro grande sucesso de Noel, em que ele antecipava a auto-paródia que seria uma de suas marcas registradas: “Agora eu não ando mais fagueiro / Pois o dinheiro não é fácil de ganhar / Mesmo eu sendo um cabra trapaceiro / Não consigo ter nem pra gastar / Eu já corri de vento em popa / Mas agora com que roupa? / Com que roupa em vou / Pro samba que você me convidou”.

 

“Feitio de Oração”

Essa é de chorar. Versos minimalistas, sem floreios ou adjetivos desnecessários: “O samba na realidade / não vem do morro nem lá da cidade / E quem suportar uma paixão / Sentirá que o samba então / nasce no coração”.

Escrito por André Barcinski às 11h40

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Semana Noel Rosa: a biografia proibida

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O jornalista João Máximo avisa: quem deu a sorte de comprar um exemplar de “Noel Rosa: uma Biografia”, o volume monumental que ele e Carlos Didier escreveram sobre Noel, é bom não emprestar a ninguém, porque periga nunca mais vê-lo na frente.

 

Impedido de circular por um entrave com os herdeiros do biografado – assim como já havia ocorrido com a biografia de Garrincha escrita por Ruy Castro e com o livro de Paulo Cezar Araujo sobre Roberto Carlos, proibido pelo próprio – o livro é um documento indispensável para se conhecer a obra do poeta da Vila. Infelizmente, está virando item de colecionador.

 

E, assim, o Brasil continua nas trevas. Enquanto herdeiros puderem impedir a livre circulação de idéias, o público perde grandes chances de saber mais sobre seus ídolos.

 

Leia mais sobre a proibição do livro aqui.

 

Por e-mail, João Máximo respondeu a algumas perguntas sobre Noel Rosa. Aproveite:

 

 

- Quais as maiores qualidade de Noel Rosa como músico e letrista?

- Como músico, ter abraçado, conscientemente, o tipo de samba que os compositores do Estácio vinham fazendo desde a década de 20. É o samba do qual descendem os melhores sambistas de hoje, Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Wilson Moreira, Nei Lopes. Um samba diferente, em estrutura rítmica e em invenção harmônica, daquele que os baianos e seus descendentes faziam na Cidade Nova. Noel rosa foi o único branco, de classe média, a se em parceirar com aquelas sambistas, os "de morro", nos anos de 1929 a 1933. O que enriqueceu bem mais o seu estilo. Quanto à letra, reinventou a lírica da nossa música popular. Cronista, crítico, irreverente, filosófico (mas não filósofo), escreveu sobre os personagens e os episódios do dia a dia, do povo, do carioca como símbolo do Brasil.


- As letras de Noel têm um humor muito peculiar. Você vê paralelos entre ele e outros compositores da época, ou esse humor era uma coisa dele próprio?
- Acho que Lamartine Babo também tinha um fino humor carioca. Era, porém, mais lírico, mais romântico, mesmo em suas graças. Noel era um pessimista 

- se você tivesse de indicar cinco músicas para alguém que não conhece a obra de Noel, quais seriam?

- “Quem Dá Mais?” (pela visão do Brasil por um jovem de 19 anos), “Conversa de Botequim” (pela perfeição do casamento de letra e música), “Não Tem Tradução” (como crítica de costumes), “Gago Apaixonado” (pela originalidade) e “Último Desejo” (pela beleza).

 

- Noel morreu aos 26 anos. você já imaginou o que ele teria composto se tivesse vivido, digamos, até os 60 ou 70?
- Nem calculo.

 

- Quem é o melhor intérprete de Noel Rosa, na sua opinião?
- Depois dele mesmo, Mario Reis e Aracy de Almeida.

 

- Pra finalizar: por que seu livro ele não está mais disponível?
- É assunto longo e complicado. o “Estadão” acaba de me encomendar um artigo sobre esse porquê. Mas veja bem: se já tem, segure, pois nunca mais será reeditado.

Escrito por André Barcinski às 01h18

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Noel Rosa, 100 anos

Se você tivesse de escolher apenas um disco de sua coleção para salvar de um incêndio, qual seria?

Eu não hesitaria: correria até minha estante e salvaria das chamas “Noel Pela Primeira Vez”, uma caixa com 14 CDs contendo todas as gravações originais de Noel Rosa. Aquilo ali me basta para a vida toda.

Sábado que vem, dia 11 de dezembro, Noel Rosa faria 100 anos.

É difícil acreditar que suas músicas foram compostas há 70 ou 80 anos. Elas não envelheceram um dia sequer.

Mais difícil ainda é imaginar que Noel Rosa morreu aos 26 anos.

Ele nasceu em 1910. Escreveu suas primeiras músicas por volta de 1929 e morreu em 1937. Ou seja: compôs por menos de oito anos. E, nesse curto período, escreveu cerca de 300 canções, incluindo dezenas de obras-primas como “Último Desejo”, “Conversa de Botequim”, “Com Que Roupa”, “Fita Amarela”, “Quem Dá Mais”, “Gago Apaixonado” e tantas outras.

Noel fez a ponte entre o morro e o asfalto. Foi o maior cronista da boemia carioca e um satirista sem igual. Suas letras são engraçadíssimas, pequenas jóias de humor negro e ácido.

Em matéria de amor, era um pessimista. Via a paixão como um jogo de cartas marcadas, em que sempre perdia. Perdia a mulher, mas não perdia a esportiva e sempre conseguia rir da própria desgraça: “Quando no reino da intriga / Surge uma briga / Por um motivo qualquer / Se alguém vai pro cemitério / É porque levou a sério / as palavras da mulher”, cantava em “Mentiras de Mulher”.

Várias coisas impressionam nas letras de Noel. Seu poder de síntese é uma delas. Suas letras são, na teoria, simples, sem a linguagem empolada e rococó de muitos compositores da época.

Noel dizia muito falando pouco. E sua habilidade com as palavras era assombrosa: “Agora, vou mudar minha conduta / eu vou à luta / pois eu quero me aprumar / vou tratar você na força bruta / Pra poder me reabilitar”, diz o início de “Com Que Roupa”, um de seus primeiros sucessos.

Noel tinha um humor fino. Adorava esculhambar os hábitos provincianos da burguesia da época. Em “Seu Jacinto”, uma de minhas músicas prediletas, traça um perfil hilariante de um desses sujeitos que se acha mais do que é: “O seu Jacinto que é cheio de chiquê / Eu não sei dizer por quê / Dorme de cartola e fraque / Anda dizendo que o seu sonho dourado / É morrer esmigalhado / Por um carro Cadillac”.

Alguns compositores da época, mesmo sujeitos geniais como Lamartine Babo e Braguinha, tinham um pé no ufanismo que eu, pessoalmente, não curto. Mas Noel não. Em vez de louvar o Brasil, preferia cutucar nosso complexo de inferioridade, sempre com ironia, como em “Não tem Tradução”: “Essa gente hoje em dia que tem a mania da exibição / Não entende que o samba não tem tradução no idioma francês / Tudo aquilo que o malandro pronuncia / Com voz macia é brasileiro, já passou de português”.

Outra coisa que impressiona em Noel é a qualidade quase cinematográfica de suas letras. Ouvindo algumas, você imediatamente consegue visualizar o ambiente descrito por ele. Como em “Conversa de Botequim”, uma ode à pilantragem narrada por um espertalhão que faz do boteco “o seu escritório”: “Seu garçom me empresta algum dinheiro / Que eu deixei o meu com o bicheiro / Vá dizer ao seu gerente / Que pendure esta despesa / No cabide ali em frente”. É um roteiro de filme, esperando para ser filmado.

Essa semana farei uma homenagem especial a Noel.

Amanhã, quarta, vou postar uma entrevista com João Máximo, co-autor de “Noel Rosa: Uma Biografia”, livro essencial sobre o poeta da Vila Isabel.

Na quinta, um top 10 comentado, com as músicas mais conhecidas de Noel. E na sexta, encerrando a semana, outro top 10, dessa vez com minhas prediletas do gênio.

Escrito por André Barcinski às 01h50

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Flu campeão: quem tem Muricy não tem superstição

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Fluminense é campeão brasileiro.

Pra variar, foi um título sofrido. E não podia ser diferente. Tenho 42 anos e nunca – mas nunca mesmo – vi o Fluminense ganhar nada fácil.

Não me lembro de nenhuma ocasião em que gritamos “é campeão” aos 25 do segundo tempo, com o jogo decidido por dois ou três gols. Não é da nossa natureza.

Isso pode até ter acontecido nos longínquos anos de Preguinho, Hércules ou Marcos Carneiro de Mendonça, mas, na minha vida, nunca.

Só vi o Flu ganhar como ontem: no fio do bigode, segurando o resultado pelas pontas dos dedos, com o olho no campo e o ouvido num radinho qualquer, secando os rivais. Coisa linda.

Ser Fluminense é viver numa eterna montanha-russa de emoções.

Do céu ao inferno e de volta ao céu novamente. Essa é a sina do tricolor. Um sobe-e-desce que faz a fortuna dos cardiologistas, mas que eu não troco por nada.

Dizem que há coisas que só acontecem ao Botafogo. Discordo: há coisas que só acontecem ao Fluminense! Não existe um time que proporcione tantas emoções extremas a seus torcedores quanto o nosso amado Flusão.

É só pensar nos dois últimos anos:

Em 2008, depois da campanha mais linda da história da Libertadores, vencendo batalhas épicas contra Sâo Paulo e Boca Juniors, deixamos a Copa escapar para um timeco, nos pênaltis, diante da festa mais extraordinária que uma torcida já fez em qualquer parte do mundo.

No ano seguinte, estávamos com 99% de chances de rebaixamento no Brasileiro e, simultaneamente, na final da Sul-Americana, depois de vencer uma penca de jogos nos acréscimos. Nos livramos por milagre no Brasileiro e perdemos a Sul-Americana para o mesmo timeco.

Um ano depois, o mesmo time que se livrou raspando da série B, é campeão brasileiro.

É ou não é um roteiro de “thriller” hollywoodiano?

O herói

Nessa campanha de 2010, dois nomes se destacaram: Conca, o argentino de ferro, e Muricy.

Conca que me perdoe, mas gostaria de usar meu espaço aqui pra falar de Muricy. Pra mim, se tem um nome que merece ser destacado nessa conquista, é ele.

Gostaria que alguém me respondesse: existiu algum técnico na história do Campeonato Brasileiro que ganhou o título sem Centro de Treinamento, sem estádio, sem goleiro e sem ataque?

Porque Muricy acabou de fazer isso.

Imagine o sujeito que treinou Inter e Sâo Paulo, dois dos clubes mais bem equipados do Brasil, e de repente cai nas Laranjeiras? Imagine o choque de culturas?

Que tal ficar sem o Maracanã no início do campeonato e ter de jogar no Engenhão, com aquele gramado que mais parece campo de areia? Ou ter de apostar no terceiro goleiro, Ricardo Berna?

E que tal ser campeão com o ataque titular – Fred e Emerson – no estaleiro por 75% do campeonato? Só mesmo o Muricy.

O cara deve ser mágico pra sacar da cartola o Tartá, que estava esquecido no banco, e que resolveu três jogos pra nós: marcou os gols da vitória contra Vasco e Palmeiras e sofreu o pênalti contra o Atlético-PR.

Tenho de concordar com meu grande amigo e grande tricolor, Heitor D’Alincourt: o maior milagre de Muricy foi ter acabado com a superstição no Fluminense.

Porque com Muricy não tem mandinga, não tem pé de coelho, não tem santinho.

 Tem tática, tem aplicação, tem estudo.

Nunca vou esquecer uma entrevista rápida que Muricy deu no intervalo do jogo contra o Palmeiras. Quando o repórter perguntou o que ele havia falado pros jogadores no intervalo, quando o jogo estava empatado, respondeu: “Eu disse pra eles que a gente estava criando tantas chances que, uma hora, a bola ia entrar”. E entrou mesmo, não é, Tartá?

No jogo de ontem, fiquei muito nervoso. Sempre fico. Mas, no fundo, no fundo, sabia que o golzinho ia sair, mais cedo ou mais tarde. Porque Muricy me ensinou que, pra ser campeão, é preciso muita calma. Afobação é coisa de quem nunca ganhou nada.

O ano de 2010 não poderia terminar melhor. Além do título do Flu, duas coisas aconteceram nesse ano que vão marcar mina vida.

Em primeiro lugar, me mudei com a família para Paraty, no Estado do Rio. E todo mundo que nasce aqui, já nasce fluminense. O lugar é abençoado.

Em segundo lugar, 2010 foi o ano em que levei minha filha, Nina, pela primeira vez ao Maracanã para ver o Flu. Nina é pé-quente: dois jogos, duas vitórias.

Libertadores, aí vamos nós!

Escrito por André Barcinski às 01h15

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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