André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Dicas para o construtor de primeira viagem

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Até cinco anos atrás, eu nunca pensava em construir nada. Sempre fiquei com preguiça só de olhar para um terreno vazio e imaginar subir parede por parede, prego a prego.

Mas os caminhos do destino são misteriosos, não é mesmo?

 

Devido a compromissos profissionais e pessoais, acabei tocando três obras nos últimos cinco anos.

 

Foi uma experiência e tanto.

 

Hoje, não posso me considerar um “expert”, mas pelo menos sei o que é uma laje corrida, conheço a diferença entre os vários tipos de cimento, e compreendendo a importância de uma junta de dilatação bem feita.

 

Mais importante: aprendi a conviver com seres tão complexos quanto arquitetos, engenheiros e, principalmente, pedreiros.

 

Listei aqui algumas dicas que, espero, serão úteis para o construtor de primeira viagem.

 

Arquiteto

 

Em primeiro lugar: nunca, jamais, em hipótese alguma, nem que a vaca tussa, comece uma obra sem ter um projeto feito por um arquiteto formado. Lembre que, se eles passaram anos numa faculdade, não foi à toa.

 

Quantas vezes já ouvi: “ah, eu levo jeito pra coisa, vou desenhar eu mesmo?” ou “O projeto é meu!”?

 

Acredite: isso é receita de desastre.

 

Tenho um amigo que “leva jeito para a coisa” e desenhou um pequeno condomínio com quatro ou cinco casas. O projeto é um prodígio: cada vez que você abre uma janela, vê um vizinho diferente pelado.

 

Outra conhecida desenhou uma garagem tão eficiente que o carro não cabe dentro. Se o automóvel entra, ela não consegue fechar o portão. A solução é deixar a lata velha na rua para poder fechar o portão e não ter a casa assaltada.

 

Prazo

 

Sempre que se começa uma obra, a primeira pergunta é: “Quando fica pronto?”. Para ter sua resposta, siga essa simples tabelinha:

 

- Peça uma previsão para o arquiteto e o mestre de obras. Faça uma média dos dois prazos e você terá um número. Este número é popularmente conhecido por “faz-me rir”. Daí pegue o “faz-me rir” e multiplique por três.  Pronto: você já tem uma idéia do prazo.

 

- Se a obra se estender até o fim do ano, próximo ao Natal e Ano Novo, multiplique o “faz-me rir” por quatro. Se chegar até o Carnaval, por cinco. Se estiver construindo em alguma cidade litorânea, com uma praia por perto, multiplique por oito.

 

Orçamento

 

E quanto vai custar a obra?

 

Novamente, peça uma previsão ao arquiteto e ao mestre de obras. Faça uma média dos dois orçamentos e você obterá um valor, conhecido nos meios da construção civil como “engana-trouxa”. Siga essa tabelinha simples:

 

- Se você estiver na obra TODO DIA acompanhando o trabalho, para se certificar de que ninguém está jogando baralho ou curtindo o novo CD do Mastruz com Cimento, multiplique o “engana-trouxa” por três.

 

- Se você for à obra pelo menos uma vez por semana, multiplique o “engana-trouxa” por quatro.

 

- Se você não for à obra e ficar esperando o serviço terminar, vai falir, com 100% de certeza.

 

Compra de material

 

Outra receita de desastre é abrir uma linha de crédito numa loja qualquer e deixar o mestre de obas pedir o material que quiser. Sua chance de falência é de 98,7%.

 

O mesmo vale para arquitetos que escolhem maçanetas de 860 reais ou privadas de porcelana chinesa.

 

Escolha de equipe

 

Se a sua obra necessita de seis pedreiros, sugiro ter pelo menos 600 à disposição.

 

Porque a rotação na equipe de pedreiros é bem maior do que você pensa. Em média, um pedreiro é mandado embora a cada três dias, por razões diversas, que não cito aqui por falta de espaço.

 

O “índice de esquecimento”, que é o percentual de pedreiros que não aparecem para trabalhar nos dias imediatamente seguintes ao pagamento, é de 47% nos centros urbanos e 83% nas cidades litorâneas.

 

Bom, é isso. Espero que essas dicas sejam úteis. Boa obra!

Escrito por André Barcinski às 11h08

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Sâo Paulo perde uma de suas melhores casas de show

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Semaninha braba essa, não?

 

Depois das mortes de Leslie Nielsen e Mario Monicelli, fico sabendo do fechamento de uma das casas de show mais legais de Sâo Paulo, o Comitê.

 

Para quem não sabe, o Comitê era um projeto de pessoas ligadas a algumas casas lendárias da cena musical de Sâo Paulo como o Studio SP, o Urbano e o Grazie a Dio.

 

Eu acreditava muito no sucesso do Comitê, não só por confiar totalmente na competência dos envolvidos, como por achar que faltava na cidade um espaço para shows “médios”. Infelizmente, não foi o que rolou.

 

Um dos sócios do Comitê é meu amigo Alexandre Youssef. Se alguém entende sobre a cena alternativa da cidade e a “economia da noite”, é ele. Inclusive votei no Alexandre para deputado federal. Ele não se elegeu, o que era de se esperar numa cidade que dá 1,3 milhão de votos pro Tiririca.

 

Assim que soube do fechamento do Comitê, mandei algumas perguntas para o Alexandre. Aqui vão as respostas dele, que tocam em vários pontos interessantes sobre a dificuldade em manter um empreendimento artístico alternativo numa cidade como Sâo Paulo:

 

Como você explica que o Studio SP prospere tão bem e o Comitê, que ficava ao lado, não tenha conseguido se sustentar?

O Studio SP faz parte e está vi
sceralmente inserido em uma cena importante de São Paulo. Foi lá que se lançaram ou formaram público a grande maioria de destaques da nova música ao vivo autoral. Muitos encontros musicais e projetos paralelos de grandes artistas aconteceram lá. Muitas bandas e artistas dessa cena se apropriaram do
Studio SP como sendo a "casa" deles. Isso fez com que o Studio ganhasse projeção nacional e importância cultural. Virou desejo de toda banda nova tocar lá. É uma plataforma de lançamentos com uma 
fonte muito poderosa e criativa.


O Comitê foi projetado para atuar um degrau acima desse universo que 
descrevi sobre o Studio. Achávamos que a cidade carecia de uma casa de médio porte (1000 pessoas) e que artistas e bandas com esse perfil no cenário nacional poderiam também gerar esse conceito de apropriacão e residência no espaço. A dificuldade em se estabelecer uma rotina de shows desse tipo de artista e a desvalorização do dólar que desencadeou a maior sequência (que não vai parar tão cedo) de shows internacionais que o país já assistiu, motivaram o fechamento do Comitê, que não teve tempo de criar alma, coisa que sobra no Studio e 
considero ser fundamental para o sucesso e manutenção de qualquer ambiente artístico.

Quais os maiores vil
ôes para um empreendimento do tipo Comitê: a competição de shows internacionais, os shows baratos do Sesc, a falta de público para shows médios?


O maior vilão é a falta de pensamento estratégico da cidade em relação à noite. Quando defendi na campanha eleitoral a Economia Criativa e a valorização da noite, imaginava um cenário de fomento à esse universo que gera tantos empregos e que faz São
Paulo ficar bonita e divertida.


Claro que a super agenda de shows internacionais fez um estrago grande em várias casas, mas não podemos reclamar disso, devemos nos preparar para esse ce
nário que vai durar, em consequência do próprio crescimento econômico do país. O que pode ser feito é direcionar parte desses shows para essas casas de médio porte, como foi o Comitê, ou 
como é a Cla
sh.

 

Para isso, as grandes produtoras que fazem os pacotes de turnês precisam abrir um pouco a cabeça e se conectar com a cena da cidade. Precisa haver mais espaço para intercâmbio cultural dessas bandas com a cena nacional. Para isso, casas menores são essenciais porque têm uma capilaridade sem igual.

 

Sobre o SESC, acho que cumpre um papel interessante e importantíssmo para a cultura, claro. Minha única crítica é qu,e por ser uma instituição dessa natureza, simplesmente não pode agir como se fosse uma casa privada, competindo para fazer o show mais legal, o evento mais legal. Acho triste as cláusulas de exclusividades dos contratos do SESC. A instituicão poderia fomentar a arte na cidade toda e não apenas dentro das suas unidades. Tirem essa cláusula e liberem os artístas para passear, expor e tocar por toda a cidade!

Cada vez mais, sinto que o público "da noite" de São Paulo sai de casa com um único objetivo: beber e se divertir. Casas de shows começam os shows às 2 da manhã, para faturar mais no bar. Você acha que o fato de o Comitê ser uma casa de shows, e não uma "balada", de certa maneira prejudicou a casa?

É fato que existe uma multidão que sai só para se divertir. Mas acho
que com a experi
ência do Studio, nós encontramos um público que quer muito ir para a balada, mas quer que a balada seja feita por um show, com música ao vivo. O próprio público de todas essas novas bandas 
nacionais a que eu me referi é um grande exemplo. Gosta da mistura do show com balada. O Comitê era uma casa de shows que tinha uma pista quente antes e depois da apresentação. Acho que os fatores j
á
mencionados foram mais relevantes no fechamento da casa.

Voc
ê acredita que o Brasil tenha uma cena de artistas "médios" auto-sustentáv
el?

Sim, sem dúvida. Essa cena pode ser vista no Studio SP. Através do
Cedo e Sentado - projeto gratuito para o público - nós formamos público para novas bandas e artistas que depois de um tempo passam a se apresentar nas noites normais durante a semana e depois vão 
ocupando os finais de semana. Esses
artistas que se estabelecem nesse processo, vivem de música. Essa é uma micro cadeia econômica, totalmente auto-sustentável pois não tem um centavo de patrocínio, apoio governamental ou qualquer coisa do tipo. Deveria, ali
ás, ser a 
base de uma política pública cultural: a vitalidade para gerar esses mecanismos auto
-
sustentáveis, como disse, existe.

Para tentar batalhar por apoio e suporte foi Criada recentemente a CASAS ASSOCIADAS, entidade que atualmente estou presidindo e que já está articulada nos conselhos e órgãos decisórios, especialmente a Rede Música Brasil. Não existe possibilidade de difusão verdadeira da música no Brasil, sem a participação de espaços de pequeno e médio porte no processo.

 

Semana que vem estaremos em Belo Horizonte na Feira de Música Brasil para lançar o site e o sistema de filiação. Queremos criar um fórum permanente onde seja possível as casas compartilharem experiências e se organizarem para obter apoios públicos e privados.

Escrito por André Barcinski às 10h35

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Frente a frente com Jaz Coleman, do Killing Joke

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O ano: 1994. O Killing Joke acaba de reformar para alguns shows nos Estados Unidos. A banda estava lançando “Pandemonium”, seu primeiro disco em quatro anos, que marcava a volta do baixista original, Youth.

Na sede da gravadora, encontro o vocalista Jaz Coleman para uma entrevista. Na mesma noite, o grupo faria o primeiro show da turnê americana, no Ritz.

Quem já viu o Killing Joke ao vivo sabe que Coleman é uma presença e tanto. É um sujeito grande, fala alto, e ilustra cada frase com algum gesto de efeito.

Dizem que ele tem um QI quase sobrenatural. Aprendeu a tocar violino aos seis anos, ganhou prêmios como cantor de coros aos 10, e não ouviu rock até os 15. Segundo o próprio, estudou finanças na Suíça e é um padre numa igreja na Nova Zelândia.

Nos anos 80, prevendo o apocalipse, Jaz abandonou a Inglaterra e se mudou para a Islândia, onde conheceu alguns locais que, reza a lenda, tentavam criar uma máquina para “filtrar a energia espiritual de multidões”. Algumas dessas pessoas estavam numa banda chamada Theyr, entre elas uma menina chamada Bjork.

Além de inventar o pós-punk e criar a trilha sonora para o fim do mundo com o Killing Joke, banda que influenciou todo o rock industrial e gótico, Coleman tem um trabalho vasto como compositor clássico e gravou diversos discos com orquestras tocando músicas de Led Zeppelin e The Doors.

Coleman está animado: “O show de hoje à noite será uma celebração. Vamos bater os tambores e conclamar os espíritos de nossos ancestrais para um ritual de purificação. Vamos nos purificar de todos os sons nocivos!”

“E o que você considera som nocivo, Sr. Coleman?”, perguntei.

“Ah, tudo que ouvimos por aí hoje em dia... especialmente o britpop!”

“Britpop? É verdade que você se mudou da Inglaterra para fugir do britpop?”

“Não, na verdade eu saí da Inglaterra há mais de 10 anos, quando me mudei para a Islândia e depois para a Nova Zelândia. A Inglaterra não me interessa mais há muito tempo. Tem tanta coisa melhor em outras partes do mundo.”

“O que te levou à Islândia?”

“Eu era um seríssimo estudioso do ocultismo e vivia tendo sonhos com uma ilha no fim do mundo. Cheguei à conclusão, junto com Geordie, de que aquela ilha era a Islândia. Por isso fomos para lá.”

“E a Islândia era, de fato, a ilha de seus sonhos?”

“Acredito que sim. Muitas coisas boas aconteceram lá. Mas não dá pra dizer que o sonho era uma coisa literal. Hoje vejo o sonho mais como um chamado, que me incentivou a mudar de vida.”

Lembrei desse encontro com Jaz Coleman depois de ler que o governo francês acaba de condecorá-lo com a Medalha do Cavaleiro de Artes e Letras, por sua contribuição à música contemporânea. Jaz agora é “Sir”. Merecido.

 

Escrito por André Barcinski às 13h51

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Adeus a Leslie Nielsen e Mario Monicelli

 

 

 

 

 

 

 

 

Que começo de semana lazarento este, não?

Domingo morreu Leslie Nielsen, 84 anos, nos Estados Unidos. Na segunda-feira, Mario Monicelli, 95 anos, se matou em Roma.

Foram dois artistas que, cada qual à sua maneira, tornaram a minha vida – e, tenho certeza, a de muita gente – mais feliz.

Tive a sorte de entrevistar os dois. Aqui vão algumas lembranças:

Leslie Nielsen

Entrevistei Nielsen no lançamento do terceiro filme da série “Corra Que a Polícia Vem Aí”, em 1994, numa mesa com outros cinco ou seis jornalistas.

Ele chegou à mesa com a cara amarrada. Cumprimentou a todos com formalidade e esperou a primeira pergunta. Eu esperava tudo, menos um sujeito sério e carrancudo.

Assim que uma jornalista começou a formular a pergunta, ouviu-se um altíssimo barulho flatulento. Nielsen virou-se para um jornalista mais idoso e perguntou: “vovô, o que você comeu?” O coitado queria enfiar a cabeça num buraco no chão.

Daí Leslie tirou do bolso um daqueles brinquedos que emitiam o barulho constrangedor.  “Uma pequena brincadeira para descontrair o ambiente!”

Leslie Nielsen era um palhaço.

Ele começou como ator sério. Fez quase 30 filmes – dramas, ficções-científicas, faroestes, musicais - antes de ser “descoberto” como ator de comédias.

“Eu quase implorei ao Abrahams (Jim Abrahams, co-diretor, com Jerry e David Zucker) pelo papel em ‘Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu’”, disse.

Nielsen lembrou o dia em que leu o roteiro pela primeira vez. “Por incrível que pareça, foi dentro de um avião. Eu ria tanto que um sujeito ao meu lado disse: ‘Não pode ser TÃO engraçado assim!’, e eu respondi: ‘É sim, pode acreditar!’, e fiquei imaginando aquelas situações do roteiro acontecendo dentro daquele avião”.

O ator falou também sobre a correção política que, segundo ele, estava tornando o trabalho dos humoristas muito mais difícil.

“Apertem os Cintos”, é bom lembrar, tinha piadas com terroristas árabes e até com pedofilia (quando o personagem de Peter Graves, cheio de segundas intenções, perguntava a um menino: “Você gosta de filmes de gladiadores?”). “Eram outros tempos”, disse Nielsen. “Ninguém parecia se importar muito com essas coisas.”

“Corra Que a Polícia Vem Aí”, o primeiro filme da série, de 1988, é, na minha opinião, um clássico. É uma daquelas comédias que não dá pra parar de assistir.

A história é uma cretinice sem tamanho, com o tenente Frank Drebin (Leslie Nielsen) tentando acabar com um complô para matar a Rainha da Inglaterra durante um jogo de beisebol.

O filme tem várias cenas inesquecíveis:

- Drebin esquece o microfone de lapela ligado durante uma entrevista coletiva, vai ao banheiro e começa a cantar

- Toda a inacreditável sequência em que o tenente é atacado pelo peixinho de estimação do vilão (Ricardo Montalban, de “Ilha da Fantasia”) e acaba matando o bichinho com uma caneta

- as cenas tórridas de Drebin com Priscila Presley

- algunas diálogos imortais, como um entre o prefeito e o tenente:

“Drebin, eu não quero mais problemas como que você teve ano passado...”

“Senhor prefeito, quando eu vejo cinco malucões de toga esfaqueando uma pessoa em pleno parque, na frente de centenas de pessoas, eu atiro nos vagabundos! Essa é a minha política!”

“Aquilo era uma encenação de ‘Julio Cesar’, seu cretino! Você matou cinco atores! E eram bons atores!”

 

Mario Monicelli

Em 1998, Mario Monicelli, um dos grandes mestres do cinema italiano, foi homenageado com uma mostra em Nova York. Eu morava na cidade e fui ver o velhinho de perto. Ele já tinha 83 anos.

Naquele ano se celebrava o centenário de nascimento de Totò, o grande cômico italiano, com quem Monicelli havia feito uma penca de filmes.

Totò é uma obsessão minha. Coleciono os filmes e tenho vários livros escritos sobre ele. E os melhores filmes de Totò foram dirigidos por Monicelli, como “Guardas e Ladrões” e “Totó Procura Casa”.

Em parceria com outro monstro da comédia italiana, Steno (1915-1988), Monicelli praticamente inventou o personagem Totò, o napolitano malandro que tenta a todo custo vencer na vida, mesmo que na base da pilantragem.

Foi emocionante ouvir Monicelli falar sobre Totò. Ele disse que via o personagem como um herói tragicômico. Eu não podia concordar mais.

Totò, na minha visão, simbolizava a vingança do sul pobre contra o norte rico. Até hoje, tenho certeza que Renato Aragão criou seu Didi Mocó, o cearense esperto, inspirado em Totò.

Mario Monicelli morreu segunda-feira em Roma, aos 95 anos. Ele aparentemente se jogou do quinto andar de um hospital, onde estava se tratando de um câncer na próstata. Uma desgraça.

Pra mim, Monicelli foi o maior diretor de comédias que a Itália já teve. O sujeito praticamente inventou a “commedia all’italiana”.

Seus filmes misturavam humor e crítica social. Seus personagens eram quase sempre proletários e miseráveis, às voltas com algum plano mirabolante ou falcatrua – que sempre dava errado.

O cinema de Monicelli tocou em grandes temas, como a luta de classes e as injustiças da sociedade italiana, mas com um humor ácido que era só dele.

Monicelli também dirigiu o que é, pelo menos para mim, a maior comédia já filmada na Itália: “Os Eternos Desconhecidos” (1958).

Uma paródia demolidora dos filmes de assalto como “Rififi”, conta a história de um bando de ladrões incompetentes, liderados por Marcello Mastroianni e Vittorio Gassman, que planeja roubar um cofre. Totò faz um especialista em explosivos que resolve ajudar a turma. Claro que tudo dá espetacularmente errado.

“Os Eternos Desconhecidos” é um dos filmes prediletos de Woody Allen, que o copiou na cara-de pau em “Trapaceiros”. É um desses filmes que alegram qualquer noite triste.

Outros Monicellis de primeira categoria: “A Grande Guerra” (1959), “Os Companheiros” (1963), “O Incrível Exército de Brancaleone” (1966), “A Moça com a Pistola” (1968) e “Meus Caros Amigos” (1975).

Hoje à noite vou rever “Os Eternos Desconhecidos”. Minha mulher não agüenta mais. Mas eu não resisto: a cena em que Totò ensina à trupe como se explode um cofre é um desses momentos sublimes que não dá pra esquecer.

Escrito por André Barcinski às 01h22

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"Casseta" e "Planeta" salvaram meus anos 80

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quem diz ter saudades dos anos 80 é porque não estava lá.

Eu estava, e posso garantir: ser jovem nos anos 80 era um saco.

Não havia discos para ouvir ou revistas para ler. Encomendar um livro no exterior demorava três meses. A secura era tanta que meus amigos e eu viajávamos de ônibus do Rio a Sâo Paulo só para comprar vinis e fitas na Galeria do Rock.

E a TV? Não havia cabo ou programação alternativa. Só nos restava ver a TVE ou o “Viva o Gordo”.

Por isso, quando um bizarro jornal humorístico chamado “Planeta Diário” surgiu nas bancas, ficamos extasiados. Era um fanzine, mas estava em todas as bancas da cidade.

“Depois de ir à China, Sarney irá à merda”, estampou o “Planeta” em uma de suas primeiras manchetes. Os caras estavam mandando o Presidente da República à merda. Punk é isso aí.

Logo depois, chegou a “Casseta Popular”, a prima mais jovem do “Planeta”, com um humor ainda mais escrachado e grosseiro. Os caras colocaram Collor de calcinha na capa da revista. Incrível.

Meu tio, o saudoso produtor musical Paulinho Albuquerque, foi o cara que convenceu os integrantes do “Planeta” e da “Casseta” a fazer um show (essa história está no livro “Bussunda”, de Guilherme Fiuza).

Acompanhei esse show de perto. Foi no Jazzmania, em Ipanema, e atraiu a atenção da Globo.

O resto é história: no início dos anos 90, “Casseta e Planeta Urgente!” chegava ao horário nobre.

Era indescritível a sensação de vitória que meus amigos e eu sentíamos vendo os cassetas e planetas na Globo. Torcíamos por eles. Era como se um amigo, mesmo distante e de outra geração, tivesse enganado o sistema e penetrado num mundo “sério”. Foi a vitória dos malucos.

Os anos passaram, a TV a cabo rachou a programação televisiva, e o programa, claro, optou por um viés mais popular.

Parei de me interessar pelas piadas, mas nunca deixei de admirar o fato de a trupe ter conseguido chacoalhar o humor da TV aberta, que há um tempão definhava em fórmulas de “Praças” ou “Escolinhas”.

O “Casseta e Planeta Urgente!” levou o humor para as ruas. Percebeu a graça de mostrar o povão pagando mico e botou um monte de caras feios e ridículos na frente das câmeras, pagando mico junto.

Se hoje existe o “Pânico”, “CQC”, e toda uma linha de humor que usa a realidade como matéria-prima, devem muito ao “Casseta e Planeta Urgente!”.

Leio que o programa vai acabar. Uma pena. Mas talvez fosse mesmo a hora. Só espero que eles voltem logo com alguma coisa nova.

E torço muito, mas muito mesmo, para que alguma alma boa lance em DVD o “Wandergleyson Show”, o programa – filho único – que Hubert, Reinaldo e Marcelo Madureira fizeram para a Bandeirantes, em 1987. Aquilo fez a minha alegria por muito tempo.

P.S.: Leio que Leslie Nielsen morreu. Estou em viagem, mas terça farei uma homenagem a esse gênio do humor. Com direito a melhores momentos da carreira. Ele merece.

Escrito por André Barcinski às 09h13

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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