André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

O melhor filme de 2010 saiu em DVD

O ano está chegando ao fim e até agora nenhum filme, pelo menos para o meu gosto, chegou perto de “O Profeta”, de Jacques Audiard.

Agora que saiu em DVD, ninguém tem mais desculpa para não ter visto.

Aqui vão alguns trechos da crítica que publiquei na Folha em junho, quando o filme foi lançado nos cinemas:

"O Profeta" conta a história de Malik El Djebena (Tahar Rahim), um jovem criminoso árabe que chega a uma prisão francesa. Malik é analfabeto e assustado. Anda pelos corredores de cabeça baixa, olhando para os lados como se esperasse ser esfaqueado a qualquer hora. Mas logo vai se acostumar.

A "educação" criminal de Malik é o mote de "O Profeta": como a prisão transforma jovens fracos em Corleones. O tema já foi explorado diversas vezes, mas nunca com tanto talento.

"O Profeta" não é só um grande filme de gângster, com algumas das cenas mais inventivas e tensas do gênero, mas também um relato cirúrgico das maquinações e da política interna dos presídios, de como os preconceitos sociais e raciais se manifestam também dentro de seus muros.

Pouco tempo depois de chegar à cadeia, Malik tem um encontro com Cesar Luciani (o ótimo Niels Arestrup), um temido chefão córsico que, embora preso, controla todo o local.
A oferta de Niels é simples: ou ele mata um informante árabe, ou morre. É o primeiro assassinato de Malik e vai assombrá-lo para sempre.

Dali em diante, Malik vira um pária: a gangue córsica o renega por ser árabe, os presos árabes o renegam por sua ligação com os córsicos. Escorraçado por todos, o jovem aprende a sobreviver.

Luciani manda Malik em missões fora da cadeia, aproveitando as folgas por bom comportamento do jovem.

Essas missões incluem pagar o resgate de um bandido córsico, negociar um trato com um mafioso rival e assassinar um gângster em Paris. O tiroteio, no meio da rua, é uma das sequências mais espetaculares e assustadoras do cinema nos últimos anos.

"O Profeta" tem qualidades que faltam à maioria dos filmes do gênero: os personagens secundários são complexos e interessantes, não apenas alvos de tiros; o roteiro é bem escrito e consegue ser claro sem ser didático.

A história dá mil voltas, mas tudo é bem amarrado e o espectador pode acompanhar com clareza todas as subtramas.

O filme não tenta explicar nada. Não há grandes tratados sociológicos ou análises; as coisas são o que são.

A violência em "O Profeta" não é estilizada ou glorificada, mas exposta de uma forma crua que a torna ainda mais impactante. O assassinato do informante árabe, em especial, é prova disso: Malik é novato no crime e a maneira atrapalhada e nervosa com que comete o assassinato multiplica a tensão.

O ator Tahar Rahim, um jovem francês de origem argelina, consegue dar a Malik um misto de fragilidade e violência que faz o personagem ainda mais marcante e surpreendente. Enfim, "O Profeta" é um desses filmes que renovam a fé no cinema e dão gás a um gênero que anda afogado em clichês e fórmulas. Imperdível.

Escrito por André Barcinski às 08h11

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Paul McCartney e a questão do analfabetismo funcional

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Você sabe o que é analfabeto funcional?

A Wikipedia diz o seguinte:

“Analfabeto funcional é a denominação dada à pessoa que, mesmo com a capacidade de decodificar minimamente as letras, geralmente frases, sentenças, textos curtos e os números, não desenvolve a habilidade de interpretação de textos (...)

Segundo dados de 2005 do IBOPE, no Brasil o analfabetismo funcional atinge cerca de 68% da população. Somados esses 68% de analfabetos funcionais com os 7% da população que é totalmente analfabeta, resulta que 75% da população não possui o domínio pleno da leitura e da escrita e das operações matemáticas.”

O número, embora alarmante, faz sentido para mim, especialmente depois de ler as quase 200 mensagens que chegaram comentando o post de ontem sobre o show de Paul McCartney.

Se os números do IBGE estiverem corretos, significa que, das 124 mil pessoas que estiveram nos shows do Morumbi, 96 mil não entendem o que lêem.

Peço ao leitor que dê uma lida no post e depois, se tiver paciência, passe os olhos pelas mensagens. É assustador.

Leitores do blog sabem que faço um esforço tremendo para responder à maioria dos comentários. Nesse caso, não tenho tempo para responder a todos, então achei melhor identificar as reclamações mais frequentes e tentar respondê-las coletivamente.

Boa parte dos revoltados diz que eu achei o show ruim. Mentira. Eu disse que o show foi ótimo, inclusive dei cotação “ótimo” na Folha. Só fiz algumas ressalvas à escolha do repertório.

Ah, o repertório... Alguém sabia que existe uma lei obrigando todos os seres humanos a achar “Yesterday” a música mais fantástica já composta?

Outra parte reclama de “tratamento desrespeitoso” a Sir Paul, como se ele fosse alguma espécie de divindade. Aiatolás, não me linchem. Ninguém maculou a honra de Macca. Pelo contrário: o texto diz que ele é um compositor único. Só não gosto de coros de “Na na na na na na naaaaaa...”. Posso?

Uma facção de ultranacionalistas usou o fato de eu ter citado que vi um show de McCartney em Nova York como prova de soberba, quando só fiz isso para comparar o nível das produções dos shows aqui e lá fora e pedir tratamento igual. Não sei quanto a vocês, mas eu acho que ninguém merece ficar três horas procurando um táxi depois de um show.

Alguns extremistas foram mais longe: “vai pra nova York, playboy!”. Pera lá: em Nova York o show do Macca não custa 700 reais. Por esse preço (mais de 400 dólares) você compra três entradas para o mesmo show no Madison Square Garden e assiste bem mais de perto.

Por fim, temos os comentários verdadeiramente surrealistas: um leitor chegou a dizer que Paul não tocou “Something”, o que significa que as outras 63.999 pessoas presentes ao show devem ter presenciado algum tipo de alucinação coletiva.

 

Escrito por André Barcinski às 02h31

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Imagine um show de McCartney sem "Yesterday"?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quando alguém vai escrever sobre um show, deve se concentrar apenas no que acontece em cima do palco?

Afinal, o que é um show?  É o que rola do momento em que o artista sobe no palco ao fim do bis? Ou inclui o antes e o depois? Inclui a chegada ao local? Inclui a volta? O crítico deve pesar apenas a sua reação pessoal, ou a reação do público?

Fiquei pensando nisso enquanto escrevia sobre o show de Paul McCartney para a Folha.

Eu, pessoalmente, não curti tanto. Mas talvez o que eu não tenha curtido foi a experiência de ir ao evento. O show em si foi ótimo, embora eu tenha restrições a alguns instantes (precisava tocar duas músicas do Fireman?).

Deixa eu explicar melhor: vi McCartney no Madison Square Garden, em Nova York, em 2005. A banda era a mesma e o repertório, quase idêntico ao do show de domingo.

A diferença era o ambiente: no Madison Square Garden, você chega de metrô 15 minutos antes do show. O lugar está lotado, mas não há filas para entrar. Você sobe uma rampa, entra no local e seu assento está lá vazio, esperando por você. Daí você assiste ao show a 25 metros de McCartney.

No Morumbi rolou o seguinte: 1h30 para chegar, quase duas horas para sair. Na saída, 64 mil pessoas precisam andar quilômetros atrás de uma condução. Parecia uma daquelas cenas de filme pós-apocalíptico hollywoodiano: multidões tomando as ruas, disputando um táxi a tapas. E quem, meia hora antes, cantava “Give Peace a Chance”, não mostra escrúpulos em correr na frente de um casal de idosos para pegar a primeira condução.

Lá dentro, os jornalistas ficaram na tal “Pista Prime”. O ingresso custava 700 reais. Tinha vendedor ambulante contrabandeando cigarros a 50 reais – isso mesmo, eu vi, 50 reais. Um deles me disse que vendeu uma garrafa de uísque nacional por 400 reais. Por baixo do pano, claro.

O público da Pista Prime era uma mistura de mauricinhos de camisa pólo, patricinhas de salto alto e subcelebridades curtindo seu 15º minuto de fama. Nunca vi um povo tão desanimado. Enquanto a galera da arquibancada chorava, a Pista Prime sacudia as bolsas Louis Vuitton.

Você tem certeza que aquilo ali não é rock’n’roll quando o José Serra está vendo o show ao seu lado.

Daí entra McCartney, e por algum tempo você esquece as circunstâncias.

Meu amigo Thales de Menezes escreveu na Ilustrada que aquilo não foi um show, foi uma celebração. E ele tem razão. Não é todo ano que um Beatle toca por aqui.

Por isso, alguns deslizes de repertório devem ser perdoados em nome do bem comum.

Exemplo: eu acho “Yesterday”, “Let It Be”, “Hey Jude” e “Live and Let Die” quarto das canções mais xaropentas já compostas. Mas imagine um show de Paul McCartney sem essas músicas. Imagine Paul pegando o microfone e dizendo: “Gente, hoje não vou tocar ‘Yesterday’, ok? Nem eu agüento mais cantar essa cafonice!”

Seria uma revolução sangrenta: pais de família partiriam para a barbárie; vovôs e vovós destruiriam as arquibancadas do Morumbi a chutes e mordidas.

Eu achei um crime Macca juntar “A Day in the Life” com “Give Peace a Chance”. É como tomar uma taça de Veuve Cliquot seguida de um shot de álcool Zulu. Mas quando se olha para o público e 98% das pessoas estão chorando e fazendo o sinal da paz, é sinal de que alguma coisa está errada comigo.

Tudo bem, Macca compensou no fim com “Band on the Run”, “Back in The USSR”, “I Got a Feeling”, “Paperback Writer”, “Day Tripper”, “Lady Madonna”, “Get Back”, “Helter Skelter” e “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”. Uma sequência que só ele é capaz de ter no repertório.

E a gente volta pra casa feliz. Felicidade que dura uns 45 minutos, até você descobrir que está perdido no bairro do Morumbi, disputando um lotação com uma horda de bárbaros.

Escrito por André Barcinski às 11h52

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Smashing Pumpkins, ou a noite que foi salva por um solo de bateria

 

 

 

 

 

 

 

Uma das vantagens da experiência é saber que, certas vezes, dá pra abrir mão do couvert e das entradas e se contentar com o prato principal.

Seguindo essa lógica, cheguei ao Planeta Terra às 11 da noite, para ver o Pavement. Não tenho mais perna e nem paciência para ficar andando como um camelo por um festival. Fui pro filé.

Acabei chegando no fim do set do Phoenix. Não deu pra ver grande coisa. Falei com umas cinco pessoas e todas adoraram, pela mesma razão: “Meu, foi muito louco, o vocalista se jogou na platéia!”. Ninguém falou da música. Será que isso basta? Se o Bruno e Marrone mergulharem de cabeça no público, o show terá sido um sucesso? Curioso.

Onze da noite. Assim que o Pavement subiu no palco, me veio um flashback de um episódio de Beavis & Butthead sobre bandas universitárias.

Minha memória tem lacunas justificáveis, então peço ajuda aos leitores de neurônios mais inteiros: não consigo lembrar exatamente que banda Beavis estava sacaneando. Podia ser até o Pavement, embora eu tenha uma ligeira lembrança do Ween. Quem lembrar, por favor, avise.

A história era mais ou menos assim: Beavis e Butthead viam uma banda tipo Pavement, com nerds indies de camisa xadrez em algum videocilpe engraçadinho. A banda iniciava uma cançãozinha meio frouxa, e a dupla começava a reclamar:

- Vai, toca rock! Rock, por favor! Faça barulho!

- Beavis, eles não gostam de rock. São universitários. Universitários não gostam de rock!(Em inglês fica bem melhor: “college bands don’t rock!”).

- A universidade é um saco!

Tenho a mesma impressão do Pavement. Até curto alguns discos, acho o humor ácido do Malkmus bacana, embora sua esperteza e tiradas de duplo sentido me irritem às vezes. Mas, em cima de um palco, não dá. Já vi filas de banco mais animadas.

Saí no meio e fui pro palco secundário ver o tal do Empire of the Sun.

Sério, foi uma das coisas mais constrangedoras que já vi em toda minha vida. Parecia o corpo de baile da boate Nostromondo. Lembra daquele balé de abertura do Fantástico com a Isadora Ribeiro? Agora imagine o mesmo balé, sem a Isadora Ribeiro e com vários go go boys no lugar. Nunca vi nada tão brega.

De lá, voltamos ao palco principal para ver o Smashing Pumpkins. E tenho de dizer que, contrariando a opinião de TODOS meus amigos, curti muito o show.

Gostei de ver que Billy Corgan não apelou só pra nostalgia, como o Pavement. A banda tocou várias músicas novas. Eu não ouvia uma música nova do Smashing Pumpkins desde 1998 e fiquei impressionado com o novo repertório.

O SP versão 2010 é uma banda cover, igualzinha ao Guns’n’Roses do Axl. Mas que banda cover: o baterista Mike Byrne tem 20 anos, é sósia do vilão do Karate Kid (com direito até a bandana na cabeça), mas espanca a coitada da bateria com tanta fúria que fiquei cansado só de olhar pro moleque.

Billy Corgan é tão cara-de-pau que botou outra menina bonitona no baixo e um cara que parece o James Iha na guitarra.

Achei o show pesado, barulhento e até emocionante. Ri muito com os exageros zeppelinianos de Corgan. Fazer um cover de Moby Dick e tocar Star Spangled Banner imitando Hendrix? É preciso, de fato, uma senhora cara-de-pau. Mas depois de ver 15 minutos da modernidade do Empire of the Sun, tudo que eu queria era ouvir um solo de bateria bem velho e datado. Salvou minha noite.

Amanhã escrevo sobre o McCartney...

Escrito por André Barcinski às 00h14

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

O maior show do fim-de-semana

 

 

 

 

 

 

 

Que Paul McCartney que nada. A maior apresentação do domingo foi desse cara aí em cima.

São 3 da manhã, acabei de chegar do Macca. Tô só o pó. A rodada dupla (Barueri e depois Morumbi) não foi mole.

Segunda à noite posto impressões sobre os eventos menos importantes do fim-de-semana, como o Planeta Terra e o show do McCartney. Até lá.

Escrito por André Barcinski às 03h14

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha.com. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha.com.