André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Quem não viu o Mummies não viveu

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Foto: Otávio Sousa

Ontem rolou show do Mummies em Sâo Paulo.

Muita gente me escreveu nas últimas semanas, perguntando se eu não ia postar nada sobre os shows da banda em SP e no Goiânia Noise (sábado, dia 20).

Acontece que sou sócio do Clash, o clube onde rolou o show, e não acho legal usar um espaço que é da Folha para fazer menção a um evento promovido por nós.

Agora que já rolou o show, acabou o conflito ético. Então vamos ao show...

Antes, um comentário: trabalho com produção de eventos há uns 20 anos, e sempre tive o sonho de trazer duas bandas ao Brasil: o maior sonho eu nunca consegui realizar, que era trazer o Cramps. O outro, realizei ontem, ao ver as quatro múmias tocando.

Mais que uma banda, acho que o Mummies é um estado de espírito. Não é a melhor banda do planeta, mas simboliza muito do que eu mais amo no rock: uma certa demência, aliada a um  espírito anárquico e um amadorismo saudável.

Porque profissionalismo cansa. Perfeição é para quem não tem talento de ser original.

Mummies é uma banda lendária. Literalmente. A lenda, no caso, é bem melhor que os fatos. E entre a lenda e a verdade, publique sempre a lenda, certo?

Qualquer idiota da objetividade pode dar dois cliques no Google e descobrir fatos e verdades sobre o Mummies. Mas quem vai querer arruinar uma coisa tão linda com a realidade?

Aí vão algumas lendas sobre o Mummies:

- O grupo excursionava em um carro funerário.

- Não permitiram, por muitos anos, o lançamento de seus discos em CD. “Fuck CDs” era seu mantra.

- Nos anos 90, a Sub Pop, gravadora do Nirvana, queria contratá-los. A resposta foi acabar com a banda. “Quando alguém nos levar tão a sério a ponto de querer nos contratar, está na hora de acabar”.

- O rider de camarim do Mummies tem apenas um item: “Exigimos uma caixa de cerveja. Mas, se não tiver, a gente toca do mesmo jeito.”

- O rider de palco também é mínimo “um amplificador de baixo, um amplificador de guitarra, e uma bateria”.

- O show dura pouco menos de uma hora e é a maior zona que você já viu em cima de um palco.

Fato ou ficção? Lenda ou realidade? Povo de Goiânia, resta ir ao Noise no sábado e conferir.

Escrito por André Barcinski às 02h55

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Domingão é dia de McCartney

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Paul McCartney vem aí. Não perco por nada.

Vi um concerto de Macca em 2005, em Nova York, e foi fantástico. Parece que o repertório desta nova turnê é ainda melhor.

Confesso que, dos Beatles, sempre gostei mais da música de Lennon. Acho John mais irregular e mais sincero. Quando ele errava, errava pra valer (“Some Time in New York City”). Quando acertava, sai de baixo: “I am the Walrus”, “Mother”, “Isolation”.

Lennon não tinha medo de se expor em suas letras. Era um kamikaze confessional. Dá para conhecer toda sua vida lendo suas letras.

Já McCartney sempre foi um ourives, atrás daquela melodia perfeita. Paul é mais cerebral, mais frio que Lennon. John era impulsivo. Eu daria um braço para ver algum filme dos dois compondo juntos nos primeiros anos dos Beatles.

Já que isso não é possível, o jeito é reler “Revolution in the Head – The Beatles’ Records and the Sixties”, de Ian Macdonald, uma análise de todas as canções dos Beatles. Acho que é o melhor livro sobre a música dos anos 60 que conheço.

Paul não é meu Beatle favorito na música, mas é o que mais admiro. Como esse cara conduziu sua carreira nos últimos 50 anos, navegando por tantas tempestades, é uma coisa absolutamente inacreditável.

Imagine que você é a pessoa mais famosa do mundo. Você fez uma música – “Yesterday” que foi regravada mais de 2200 vezes. Você vendeu mais discos que qualquer outro artista e fundou uma banda que criou o padrão estético de toda uma geração: o modo de vestir, o modo de cantar, como se comportar.

Daí você resolve acabar com essa banda. E o mundo inteiro não quer que isso aconteça. Acabar com a banda significa acabar com os anos 60, destruir a noção de “juventude” que você mesmo criou com sua música. Significa, enfim, virar adulto.

Não deve ser fácil crescer quando todo mundo quer que você continue jovem para sempre. Mas McCartney meteu as caras.

Agora, pense nas figuras com quem Paul brigou nos últimos 40 anos: John Lennon, Yoko Ono, Michael Jackson, Heather Mills. Não tem nenhum santo. Só  casca grossa.

Como pode um ser humano ser xingado por Lennon em “How Do You Sleep?” e ainda manter a diplomacia? Que tal ver Yoko Ono sentada dentro do estúdio, dando pitacos sobre como ele deveria tocar o baixo?

Dizem que Lennon foi o Beatle da paz. Mas quem praticou a paz de verdade foi McCartney.

Qualquer um no lugar dele teria partido pro pau. Nem George Harrison, que era o hippão paz e amor da turma, agüentou: segundo Lennon, George xingou Yoko e disse que ela “transmitia energia negativa”.

Paul aturou Yoko. Depois aturou também Michael Jackson, que surrupiou dele os direitos de edição das músicas dos Beatles. “Isso é só negócio”, disse Jacko. Paul também não reclamou quando o louco apagou seus vocais de “The Girl is Mine” e substituiu sua voz pela de Will.I.am, do Black Eyed Peas, na versão remixada de “Thriller”.

Quando Jacko morreu, Paul foi gentil. Poderia ter falado: “aquele desgraçado, tomara que esteja ouvindo ‘Hey Jude’ no inferno!”, mas só fez elogios ao ex-parceiro.

Para finalizar, teve o tal divórcio de Heather Mills. Coisa feia. Banquete pros tablóides. A mulher disse que ele era drogado, alcoólatra, violento, ameaçou até divulgar fitas privadas de consultas de Macca com um psicanalista.

Seis anos de inferno, que custaram 50 milhões de dólares a Paul. Quando terminou, ele disse: “tenho paz, enfim!”.

Domingão vou ao Morumbi ver Paul McCartney. Já sei tudo que vai acontecer: as luzes vão apagar quando ele cantar “Yesterday”; ele vai sentar no piano em “Let It Be” e vai puxar um coro interminável em “Hey Jude”. Mas nunca é demais ouvir “The Long and Winding Road”, “Helter Skelter”, “Paperback Writer” e, principalmente, “A Day in the Life”. 

Escrito por André Barcinski às 01h57

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Dario Argento encontra David Lynch na TV. Na Inglaterra, claro!

Depois de “Carlos”, o filme de 5h30 dividido em três episódios dirigido pelo francês Olivier Assayas sobre a trajetória do mais notório terrorista do mundo, volto aqui para recomendar outro grande filme feito para a TV.

Terminei de ver ontem as três partes de “Red Riding” – “1974”, “’1980” e “1983” - que a BBC produziu em 2009. Sem exagero, foram as melhores horas de cinema que vi desde “O Profeta”.

“Red Riding” é uma adaptação de quatro livros do inglês David Peace, “Red Riding Quartet”. Tendo como pano de fundo uma série de assassinatos de crianças, os livros são centrados nas atividades suspeitas de uma delegacia policial em Yorkshire, norte da Inglaterra.

Há muito tempo que não assistia a algo tão “dark”. “Red Riding” tem um clima pesado e sufocante. Lembra os clássicos “giallos” de Dario Argento, como “Os Pássaros da Pluma de Cristal”, com toques sobrenaturais de David Lynch. Aterrorizante.

É inacreditável que uma maravilha dessas tenha sido produzida para a TV. Bom, pelo menos inacreditável para nós, que precisamos aturar diariamente o nível ridículo de nossa ficção televisiva.

Não existe um único personagem bondoso em “Red Riding”. É a maior coleção de psicopatas, bandidos, assassinos, sádicos, tarados e corruptos que já vi. Quando você acha que alguém vai ter uma crise de consciência e passar por uma mutação moralista, como sempre acontece no cinema americano, aí é que os personagens pioram de vez.

Embora os três filmes possam ser assistidos separadamente, recomendo ver todos na ordem. Há detalhes inexplicados no primeiro filme, que só serão esclarecidos no terceiro. Personagens e detalhes que parecem sem importância ganham peso.

O elenco dos filmes é incrível. Tem Rebecca Hall (“Vicky Christina Barcelona”), Andrew Garfield (“A Rede Social”) e Peter Mullan (veterano dos filmes de Ken Loach), entre outros.

Mas o destaque é Sean Harris, que periga ser o ator mais assustador do mundo hoje. Você já deve ter visto Harris no papel de Ian Curtis, do Joy Division, em “24 Hour Party People”. Aqui, ele faz um policial violento, quase um réptil de tão asqueroso e escorregadio.

Dei uma fuçada rápida no Google e descobri que pelo menos as duas últimas partes, “1980” e “’1983”, saíram em DVD no Brasil, com os incríveis títulos “Investigação de Risco” e “Crimes e Pecados”. Nos Estados Unidos, os filmes foram lançados nos cinemas.

Faça o que for necessário – compre na gringa, baixe, roube, mas não deixe de assistir.

Escrito por André Barcinski às 10h51

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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