André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Todo grande cineasta tem seu lado B

Dia desses, a TV reprisou pela enésima vez “Frenesi”, de Alfred Hitchcock. É mais um daqueles filmes que eu vejo toda vez que passa.

Quando se fala em Hitchcock, ninguém lembra de “Frenesi”. Compreensível: o sujeito fez tantas obras-primas - “Psicose”, “Um Corpo Que Cai”, “Janela Indiscreta”, “Festim Diabólico” – que um filme menor como “Frenesi” acaba esquecido.

 

Mas isso não me impede de adorar o filme.

 

Para quem não conhece, “Frenesi” é o penúltimo filme de Hitchcock, feito em 1972. É uma comédia de humor negro sobre Richard Blaney (Jon Finch), um homem injustamente acusado de ser o “estrangulador da gravata”, um assassino serial que aterroriza Londres.

 

Hitchcock sempre adorou o tema do “homem errado” e parece sentir um prazer mórbido em colocar na tela um personagem tão azarado quanto Blaney. Ele está sempre no lugar errado na hora errada. É angustiante.

 

O filme é uma jóia do macabro. Os diálogos são cirúrgicos e muito, mas muito engraçados. Há uma subtrama divertida sobre a esposa do chefe das investigações, uma dondoca desocupada que passa as tardes num curso de culinária e assombra o marido com as criações gastronômicas mais estapafúrdias.  

 

E “Frenesi” tem uma das sequências mais geniais e exasperantes de Hitchcock. Não vou estragar a surpresa, mas dá pra dizer que envolve um cadáver, um caminhão e um saco de batatas. Assista.

 

Eu estava vendo “Frenesi” e pensando: se tivesse sido dirigido por qualquer outra pessoa, seria considerado um clássico.

 

Mas todo grande cineasta também tem seu “lado B”, aquele filme considerado menor e que raramente é citado. Preparei uma lista de algumas dessas jóias raras para assistir no final de semana:

 

Luis Buñuel – “Ensaio de um Crime” (1955)

A fase mexicana de Buñuel sempre foi a minha predileta, com filmaços como “Os Esquecidos” (1950), “´Él” (1952) e “O Anjo Exterminador” (1962). Mas pouca gente fala de “Ensaio de um Crime”, um dos meus top 5 do cineasta espanhol.

É um “thriller” de terror psicológico sobre Archibaldo de La Cruz, um homem que confessa ser um “serial kiler”. Mas fica a dúvida: teria Archibaldo realmente cometido os assassinatos, ou seriam só criações de sua mente doentia? Imperdível.

 

Federico Fellini – “A Trapaça” (1955)

Quando o assunto é Fellini, eu ando na contramão: me incomoda muito o sentimentalismo exagerado de alguns de seus filmes mais famosos. Não suporto “Amarcord” e não consigo ver cinco minutos de Giulieta Masina em “La Strada” ou “Noites de Cabíria”. Me dá diabetes.

Mas adoro as primeiras comédias de Fellini, como “Abismo de um Sonho” (1952) e “Os Boas-Vidas” (1953). E gosto muito também de “A Trapaça”, com Broderick Crawford, história de um grupo de trambiqueiros e seus pequenos golpes.

 

Brian De Palma – “Um Tiro na Noite” (1981)

John Travolta faz um técnico de som de filmes B que, durante uma sessão noturna de gravação de som ambiente, acaba testemunha do assassinato de um figurão. Como sempre, o tema de De Palma é o próprio cinema. Emocionante.

 

Steven Spielberg – “Encurralado” (1971)

Um “road movie” violento sobre um sujeito (Dennis Weaver) que passa a ser perseguido por um misterioso caminhoneiro nas estradas da Califórnia. Filmado originalmente para a TV, com orçamento pequeno e sem grandes recursos, mostra Spielberg influenciado pelo cinema alternativo americano dos anos 60. Faria uma sessão dupla sensacional com “Corrida Contra o Destino”, citado aqui num post anterior.

 

Francis Ford Coppola – “A Conversação” (1974)

Filmado no intervalo entre os dois primeiros “Poderoso Chefão”, conta a história de um detetive particular (Gene Hackman), especializado em escutas, que se vê perseguido por seus próprios empregadores. Mais um “thriller” de paranóia da era Vietnã, tão típico do cinema americano do período. Um filmaço.

 

Martin Scorsese – “Caminhos Violentos” (1973)

Antes da fama com “Taxi Driver” (1976), Scorsese já havia chafurdado no submundo criminoso de Nova York nesse drama pesado com dois de seus atores prediletos, Robert De Niro e Harvey Keitel.

 

Orson Welles – “F For Fake – Verdades e Mentiras” (1974)

Último filme completado por Welles, é uma espécie de ensaio sobre a natureza da autenticidade e da criação artística, centrado nas memórias de um falsificador de quadros. Assista numa sessão dupla com “O Amigo Americano”, de Wim Wenders.

Escrito por André Barcinski às 10h14

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Zumbis, vamos marchar até a Fox!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na terça-feira, rolou em Sâo Paulo a 5ª edição da “Zombie Walk”, uma engraçada passeata de mortos-vivos, vampiros e monstros. Fãs de horror de todas as idades se juntaram para assombrar a metrópole.

Na mesma noite, a rede de TV Fox exibiu o piloto da aguardada série “The Walking Dead”, baseada na adorada HQ de Robert Kirkman, comentada aqui na própria terça.

Se eu fosse organizador da “Zombie Walk”, marcaria uma nova passeata, urgente. O destino: os escritórios da Fox.

Os zumbis marchariam até lá e comeriam os já minguados cérebros de toda a diretoria do canal, que conseguiu a proeza de cortar cerca de 15 minutos do piloto, frustrando um monte de gente.

O site Pipoca Moderna dá detalhes do corte. Leia aqui.

Pergunto: por que diabos um canal de TV faz uma coisa dessas, sabendo que fãs de séries de TV são o povo mais antenado do mundo? Será que a Fox achou que ninguém ia perceber?

O chato, no meu caso, é escrever um post recomendando o piloto, e depois receber comentários de leitores dizendo que a história não fazia o menor sentido.

Aprendi a lição: de agora em diante, vou adicionar um asterisco a toda crítica de TV: “sujeito à boa vontade do programador do canal”.

Escrito por André Barcinski às 10h33

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Meu vizinho conversa com Deus – e com Axl Rose

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Oito da manhã de sábado, e um lamento lúgubre invade nossa casa: “Espíritoooooooooooo..... espíritooooooooooo....”

É o terceiro fim-de-semana seguido em isso que acontece. É como um uivo alto e incômodo, acompanhado por um teclado meio progressivo. É o que se poderia chamar de música, mas que prefiro definir como trilha sonora de execução medieval.

O autor é meu vizinho. Mal amanhece o dia, ele liga seu possante soundsystem e pôe a maldita canção. Sempre a mesma.

A janela do nosso quarto fica a uns 50 metros dos alto-falantes do sujeito, mas parece que a banda está tocando no pé da cama. A voz ecoa pelas paredes como um mantra do além. É apavorante.

Neste sábado, não agüentei e fui falar com ele.

Fui atendido por um senhor que recolhia folhas no quintal: “Ele não está, saiu para comprar pão”. Ah, entendi, então ele deve ter calculado o volume do soundsystem para ser ouvido na padaria, que fica a uns 1600 metros da casa.

Depois de 15 minutos, chega o vizinho. Confesso que não era o que eu esperava: o sujeito era forte como um halterofilista, usava uma regata e tinha o corpo inteiro coberto de tatuagens. Parecia um roadie do Social Distortion.

Expliquei minha situação: minha filha de dois anos está em casa chorando, com medo dos espíritos. Será que eles não poderiam baixar lá em casa um pouco mais tarde? Precisava ser às 8 da manhã de sábado?

Ele foi surpreendentemente compreensivo. Pediu desculpas e baixou a potência do soundsystem para um volume mais adequado ao horário, algo no meio do caminho entre o trio elétrico da Daniela Mercury e a turbina de um 767.

Fui embora, satisfeito e otimista com a possibilidade de entendimento entre homens de boa vontade.

Aqui, vale um parêntese: não vou dizer a que igreja o vizinho pertence, mesmo porque não sei. Hoje em dia são tantas as denominações que corro o risco de me enganar. Além do mais, o tema desse post não é religião, mas a falta de civilidade de quem acha normal impingir seus gostos – musicais ou religiosos – nos vizinhos.

De volta à nossa rua. Passamos um sábado tranqüilo, ouvindo os espíritos ao longe. Mas, à noite, o bicho pegou.

Lá pelas 9 horas, outro som da pesada começou: “Welcome to the jungleeeeeeeeee!” Era Guns’n’Roses. Axl Rose espantou todos os pássaros, cães, minhocas, enfim, todos os seres vivos que costumam buscar refúgio em nosso quarteirão.

Na sequência rolaram AC/DC, Legião Urbana, Nirvana, Ramones, Raimundos e até Sex Pistols (“Anarchy in the UK”), canção que, curiosamente, começa com o verso “eu sou um anticristo”.

Foi duro. Mas deixou uma lição: falta de civilidade não tem religião e nem horário. É universal.

Alguns leitores lembraram, num post anterior, de uma grande frase de Chesterton sobre música ao vivo em restaurantes: “Música com jantar é um insulto tanto ao cozinheiro quanto ao violinista”.

Chesterton morreu em 1936. Não teve tempo de experimentar o boom dos possantes soundsystems caseiros. Se tivesse, certamente teria escrito algo sobre meu vizinho.

Escrito por André Barcinski às 11h16

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Zumbis animam a noite na TV

Eu adoro filmes de zumbi. Talvez porque venham sempre acompanhados de alguma trama de paranóia pós-apocalíptica ou por alguma conspiração governamental malsucedida, e eu também adoro filmes sobre conspirações de todos os tipos.

 

Quem curte o gênero deve ligar a TV hoje, às 22h, na Fox, para ver o piloto da série “The Walking Dead”. É sensacional.

 

Não sei se os outros episódios vão manter o pique do piloto – já escrevi aqui sobre minha falta de paciência com histórias que se arrastam por temporadas inteiras – mas que o piloto é bom, é. Tem sangue, tripas, zumbis andando por metrópoles vazias, enfim, aquele climão George Romero que todo mundo curte.

 

A série é inspirada nos gibis de Robert Kirkman. Eu – um confesso analfabeto de pai e mãe quando o assunto é gibi - não conheço Kirkman, nunca li nenhum de seus gibis e não tenho nenhum interesse. Mas todo mundo que gosta de HQs diz que o trabalho do cara é fantástico.

 

Só sei que os zumbis estão na moda.

 

Depois da recente invasão de vampiros em séries de TV, chegou a vez dos zumbis atacarem no horário nobre. E os zumbis, vamos combinar, estão para os vampiros assim como os metaleiros estão para os góticos: são muito mais barulhentos, divertidos, e não se levam tão a sério.

 

Quem achava que a série não iria pegar pesado no sangue e na carnificina se enganou: "The Walking Dead" é para estômagos fortes.


O seriado é produzido por Frank Darabont (diretor de "Um Sonho de Liberdade") e Gale Ann Hurd (produtora de "O Exterminador do Futuro" e "Aliens").


No piloto, dirigido por Darabont, o policial Rick Grimes (Andrew Lincoln) acorda num hospital depois de passar um bom tempo -semanas? Meses?- em coma, vítima de tiros de bandidos.


O cenário que ele encontra é pior que qualquer pesadelo: a cidade está em silêncio; corpos estão empilhados em toda parte. E seus vizinhos e amigos se transformaram em zumbis famintos. Diversão garantida.

Escrito por André Barcinski às 01h00

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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