André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Sua casa tem "Terraço Gourmet"?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Já virou uma tradição dominical aqui em casa. Mal raiou o dia, botamos o café da manhã na mesa, preparamos o pão com manteiga quentinho, e abrimos o jornal em nossa seção favorita: os classificados de imóveis.

Nada faz tão bem ao humor quanto ler os incríveis anúncios de empreendimentos imobiliários. É um melhor que o outro.

Os nomes dos prédios, sempre em idiomas estrangeiros inventados, são o que primeiro chamam a atenção. E dá-lhe “Chateau”, “Plaza”, “Piazza”, “Residence”, “View”, “Tower”, “Prime”, “Bridge”, “Square” e “Fontana”, entre outros clichês rasteiros da pseudo-sofisticação.

Domingo passado, o reclame de um prédio trazia uma foto da Torre Eiffel e um texto rococó que associava a experiência de morar ali com a vida em Paris. Detalhe: o prédio era em Sâo Bernardo.

Outro listava, entre os muitos atributos do condomínio, uma deslumbrante vista do Hopi Hari.

Até recentemente, eu acreditava morar em Santa Cecília, quase Barra Funda. Mas descobri, graças ao anúncio de um prédio vizinho, que meu bairro agora se chama “Nova Higienópolis”.

Impressionante a liberdade geográfica tomada por certos publicitários. Tiro meu chapéu para eles.

 Um típico texto de anúncio imobiliário diria o seguinte:

“Um autêntico dois quartos – com terceiro opcional - a passos de um pólo comercial e gastronômico de primeira categoria. Alegria e conforto para toda a família. Venha desfrutar do Terraço Gourmet, onde você poderá se deliciar com as maravilhas da culinária internacional enquanto seus filhos se divertem na piscina de raia olímpica ou assistem a um filme em nosso Movie Palace. Outro destaque é o Esthetic Beauty Salon Chic, reunindo as mais avançadas técnicas da ciência da beleza, e o moderníssimo Fitness Palace, um autêntico laboratório high-tech com o que de mais atual existe na indústria do personal fitness”.

Traduzindo:

“Uma lata de sardinha com dois quartos do tamanho de um ovo e uma sala minúscula que pode ficar menor ainda se você optar por botar uma parede no meio e fazer um terceiro quarto-ovo, só que este, de codorna. Próximo a um shopping, com engarrafamento garantido do minuto em que você sai da garagem até o seu retorno, depois de 12 horas no escritório. Você pode queimar uma lingüiça na churrasqueira da varanda enquanto seus filhos se espremem numa tripa de água de 10m x 1m (único lugar do terreno em que cabia um buraco no chão) ou assistem a uma reprise do Chaves numa sala sem janelas, com cadeiras de plástico e uma TV de plasma de 40 polegadas. Enquanto isso, o jaburu da sua sogra pode fazer as unhas na manicure e sua mulher pode suar as pelancas numa esteira comprada em 120 prestações na Marabráz enquanto assiste à Ana Maria Braga preparando uma receita com 37 vezes mais calorias do que as que ela acaba de perder na esteira.”

Outro hábito dominical aqui em casa é tentar emular a genialidade dos publicitários e criar alguns novos lançamentos imobiliários. Aqui vão alguns:

La Grande Ver de Terre

A dois minutos do Centro, com pista de atletismo noturna e uma deliciosa promenade bem em frente à sua janela.  Av Sâo João, 171 (Minhocão)

 

Green House Fun View

Venha morar no bairro mais moderno de Sâo Paulo, com uma vista panorâmica de um dos locais mais alegres e jovens da cidade. Rua Unidos do Peruche, Casa Verde (altura do Playcenter)

 

Upper East Side Luxury

Aqui, como em Nova York, o chique é morar no “upper” Zona Leste. Rua Trovão, 69, Vila Ré (ao lado da sede dos Abutres)

 

Le Petit Pipe du Crack Residence

Localização privilegiada, em área recentemente incentivada pela Prefeitura, bem no centro de um dos pontos mais agitados da vida da cidade – especialmente à noite e nas primeiras horas do dia. Rua Vitória, 69, ao lado da Praça Júlio de Mesquita

 

Chateau Alpine

Desfrute do silêncio e da tranquilidade dos Alpes. Mais de 700 mil m2 de total paz. Rua Berna, 198 (ao lado do Cemitério da Vila Alpina)

 

Faithful Hawks Tower

Venha curtir toda a descontração desse novo empreendimento. Som ambiente 24 horas e muita, mas muita alegria. Rua Vicente Matheus, s/n, (ao lado da quadra da Gaviões)

 

Com esse post me despeço pro fim-de-semana. Até segunda. E aproveitem os classificados do domingão!

Escrito por André Barcinski às 00h36

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O melhor disco do ano (até agora)

Faz um mês que não sai do Ipod aqui de casa “Skit I Allt”, o último disco do grupo sueco Dungen.

Na teoria, eu tinha tudo para não gostar do Dungen: os caras tocam flauta, gostam de rock progressivo e parecem aqueles hippies que vendem bijuteria na praia.

Mas o som é transcendente. E por eu não saber patavinas de sueco, não consigo entender as letras. Melhor assim. Quando vi as traduções de algumas letras do Sigur Rós, confesso que meu encanto com a banda deu uma esfriada. A ignorância, como sabemos, é uma bênção.

Voltando ao Dungen: na verdade, é um projeto de um sujeito só, Gustav Ejstes, um doido que escreve todas as músicas e toca quase todos os instrumentos nos discos.

O som é uma mistura de rock pastoral, psicodelia, jazz, progressivo, folk, ambient, teclados Moog e velhos pedais de distorção e delay. Não há barreiras. O tal do Estjes não tem medo de tentar qualquer coisa. Tem até uma pitada de Clube da Esquina – em sueco.

O disco é solar, como tudo que já ouvi do Dungen. Um disco para ouvir no carro, a caminho da praia (como será praia em sueco?).

O Dungen já esteve no Brasil. Em 2005, tivemos a sorte de conseguir bookar a banda em um festival. Eles tinham acabado de aparecer, com um discaço, “Ta Det Lugnt”, que até hoje toca sem parar no playlist aqui de casa.

O show foi sensacional. No palco, o caldo do Dungen engrossa, a música ganha peso. Eles são ótimos músicos e têm uma presença de palco magnética.

O Dungen está excursionando nos Estados Unidos e depois, viaja pela Europa. Veja as datas aqui. Eu não perderia.

Escrito por André Barcinski às 10h10

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Meu candidato a presidente: Nick Kent

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Há algumas semanas, listei aqui meus 10 livros prediletos sobre música. Agora posso incluir mais um na lista: “Apathy for the Devil – a 70s Memoir”, de Nick Kent.

Kent é, junto com Nick Tosches, meu escritor predileto quando o assunto é rock. Ele é o verdadeiro gonzo do jornalismo musical, um sujeito que chafurdou na lama junto com os piores e mais dementes kamikazes do rock. Pra mim, ele é mais importanter e influente que muitos dos músicos sobre os quais ele escreveu.

Kent dividiu agulhas com Iggy Pop e Lou Reed, carreiras com Keith Richards, bebeu com Lester Bangs, cheirou anfetamina com Lemmy, dividiu groupies com o Led Zeppelin, noivou Crissie Hynde, foi espancado por Sid Vicious e quase chegou a ser um Sex Pistol. Mas não só sobreviveu para contar as histórias, como ainda as relatou com um estilo direto e envolvente, que jogava o leitor no meio da ação.

Acho que eu gosto de Kent, principalmente, por ele ser um incrível repórter.

Curto muito as divagações teóricas de cabeçudos da crítica musical como Greil Marcus ou Simon Reynolds, mas o que me emociona mesmo são as reportagens e os perfis de gente que admiro.

E ninguém – ninguém – escreveu tantos perfis reveladores e chocantes sobre meus ídolos do que Nick Kent.

Se não fosse por ele, talvez Nick Drake, Syd Barrett e Brian Wilson não fossem tão incensados hoje. Foram artigos que Kent escreveu sobre esses malditos, nos anos 70, que impulsionaram uma onda de reavaliação de suas obras.

É preciso lembrar que o conceito revisionista de “rock clássico” não existia na década de 70. Barrett estava morando com a mãe, esquecido, e Brian Wilson era visto como um demente patológico.

Como diz o próprio Kent no livro: “em 1974, eu descobri a minha voz como escritor. Antes disso, eu era um ‘wannabe’, simplesmente encarnando as diferentes influências literárias que me atiçavam – Bangs, Capote, Wilde, Wolfe (...) mas então, passei a adotar uma perspectiva diferente dos meus companheiros de jornalismo musical. Todo mundo parecia estar escrevendo sobre a ‘idéia’ do rock, como se ele fosse algum conceito abstrato (...) a minha perspectiva era o extremo oposto. Eu não estava escrevendo sobre rock como uma idéia, mas como uma realidade de carne e osso – pessoas surreais vivendo vidas surreais. Escrever sobre rock é um ato que se torna transcendente quando o autor está lá, no meio da ação, mas isolado o suficiente para entender suas possíveis conseqüências”. Gênio.

“Apathy for the Devil” relata os anos 70 na visão de Nick Kent. Foi a década em que ele, menino magro e tímido, tornou-se o dândi da crítica musical no mundo, capaz de acompanhar Iggy pop numa maratona de drogas e excessos, só para voltar para casa e escrever como Hunter Thompson.

“The Dark Stuff”, coletânea de perfis clássicos de Kent – Sid Vicious, Kurt Cobain, Brian Wilson, Syd Barrett – é, até hoje, o “Dom Quixote” da crítica de rock. Não existe nada igual.

Com “Apathy for the Devil”, Kent adiciona na história um personagem tão interessante e complexo quanto esses: ele mesmo.

Parte relato confessional, parte análise da cena musical dos anos 70 por quem a viveu por dentro, o livro já é um clássico. Torço muito para que algum iluminado lance em Português – junto com “The Dark Stuff”.

Escrito por André Barcinski às 11h17

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Zé do Caixão, Michael Stipe e a Maçã do Amor

Um leitor pediu, e eu atendo. Aqui vai a história de um dos encontros mais improváveis e curiosos que já presenciei.

Janeiro de 2001. Sob um frio de 15 abaixo de zero, Zé do Caixão, todo encapotado e com as luvas com as pontas cortadas para caber suas imensas unhas, anda pelas ruas congeladas da pequena cidade de Park City, Utah, onde acontece o festival de cinema Sundance.

Um sujeito passa na nossa frente. O gorro esconde seu rosto, mas eu não poderia deixar de reconhecê-lo: poucos dias antes, sob um sol de 35 graus, eu o havia entrevistado no Rock in Rio. Era Michael Stipe, do REM.

“Michael, por favor, estamos aqui com ‘Coffin Joe’, é um cineasta underground brasileiro, ele quer te entrevistar.” Stipe pára. O papo colou. “OK, mas rapidinho, estou com pressa”.

“Quem é esse?” pergunta Mojica, que nunca ouviu falar do REM e muito menos de Michael Stipe. “Mojica, esse cara é fodão”, digo. “É um roqueiro famoso, tocou no Brasil uns dias atrás. Pega o microfone e pergunta pra ele o que achou do Brasil. Rápido, que ele tá louco pra ir embora. O nome dele é Michael, ok? Michael!”

Stipe olha, desconfiado. Toma um susto quando percebe as unhas saltando pra fora das luvas.

Mojica empunha o microfone e faz a apresentação: “Estamos aqui com... com...

Conheço essa hesitação. Significa que Mojica esqueceu o nome do sujeito.

Mas nada de pânico. Grande improvisador que é, Mojica manda na lata: “Estamos aqui com... com... um dos gigantes do rock! Me diga, o que você achou de tocar IN Brasil?

Stipe responde. Mas Mojica não presta atenção. Seus olhos estão focados num estranho objeto que o astro segura nas mãos. É uma maçã do amor. Mojica não consegue tirar os olhos da fruta.

Há uma fração de segundo em que Michael Stipe termina de responder à pergunta e olha para Mojica, esperando a pergunta seguinte. Mas não há pergunta seguinte, porque Mojica está paralisado, com os olhos vidrados na maçã do amor.

Dois grandes amigos – ambos jornalistas tarimbados - também presenciaram a cena. E os dois fazem questão de dizer que foi um dos momentos mais constrangedores de suas vidas. Não de suas vidas profissionais, entendam bem. DE SUAS VIDAS.

Felizmente, este momento foi eternizado.

O resultado foi “Mojica na Neve”, um curta-zoeira que fiz com Ivan e André Finotti, sobre nossa viagem a Sundance para apresentar o documentário “Maldito”. O link está acima (peço desculpas por um pequeno atraso do som em relação à imagem, mas dá pra assistir numa boa).

Essa viagem é, até hoje, a mais bizarra e divertida que fiz. Outros “highlights” de Mojica:

- Durante uma gravação do quadro “Repórter por um Dia”, do Fantástico, Mojica saudou os esquiadores que subiam num teleférico com gritos de “Cuidado com os espíritos errantes do gelo!!!” e “o abominável homem das neves vai pegar vocês!!!”

- Quando o cineasta Darren Aronofsky veio pagar um pau para Mojica e este descobriu que Aronofsky estava cotado para dirigir um filme do Batman, Mojica sugeriu que ele não botasse o Robin na história. “Eu sou fã do Batman e acho muito estranha essa relação dele com o Robin; não põe o Robin não, que fica muito esquisito!” Aronofsky não só atendeu ao pedido como desistiu do projeto, que acabou ficando com Christopher Nolan.

- Na cerimônia de encerramento, Mojica apareceu exultante por ter conseguido uma foto com um de seus atores prediletos, que ele identificou como “aquele negão de olho fechado”, e que depois eu vim a descobrir ser Forrest Whitaker.

Enfim, foi uma viagem inesquecível. A consagração do nosso Zé do Caixão. Vejam o curta e comprovem. Espero que gostem.

Escrito por André Barcinski às 00h47

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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