André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

“Boardwalk Empire” é a TV tentando ser cinema – e falhando mais uma vez

Domingo estréia na HBO uma das séries mais comentadas do ano nos Estados Unidos, “Boardwalk Empire – O Império do Contrabando”.

A série tem Martin Scorsese como produtor-executivo e Terence Winter, de “Os Sopranos”, como produtor.

Já assisti aos três primeiros episódios.

O piloto da série - dirigido por Martin Scorsese – foi ótimo. A HBO encomendou outros 11 episódios, que, para nossa tristeza, são dirigidos por outros nomes. Scorsese fica só de supervisor.

“Boardwalk Empire” é inspirado na história real de Enoch “Nucky” Johnson, um líder político corrupto e carismático que controlou o crime em Atlantic City por quase 30 anos.

Interpretado pelo excelente Steve Buscemi (de “Fargo”), “Nucky”, cujo sobrenome na série foi mudado para “Thompson”, é um criminoso com uma queda pelo humor negro.

O piloto da série começa em 1920, às vésperas do início da Lei Seca no país.

Nucky e outros líderes políticos locais tramam para controlar a fabricação ilegal de álcool e o contrabando de bebida no Canadá. Acabam envolvidos com gângsteres como Lucky Luciano, Arnold Rothstein e com um jovem e inexperiente bandido em ascensão, Al Capone.

O piloto é um primor. Ágil, cheio de humor e com surpresas na trama. E a abertura, ao som de Brian Jonestown Massacre, é fantástica.

Nos episódios 2 e 3, no entanto, “Boardwalk Empire” perde muito do encanto. Vira apenas mais uma boa série para TV.

Corro o risco de ser apedrejado aqui, mas tenho de confessar que não sinto atração nenhuma por séries dramáticas de TV, especialmente aquelas que tentam “ser” cinema.

“Boardwalk Empire” é assim. Os atores, a fotografia, os diálogos, tudo tem uma suposta gravidade e auto-importância, como se os autores dissessem: “olha, isso aqui é TV, é comercial, mas é uma TV diferente, que se aproxima do cinema”. Quase todas as críticas de ‘Boardwalk Empire’ nos Estados Unidos mencionam essa tentativa.

Em primeiro lugar, não acho que cinema seja necessariamente “melhor” que TV, ou vice-versa. São meios diferentes, de estéticas diferentes, que têm atrações ruins e boas.

Mas também não vejo como a TV pode se aproximar do cinema. Os modelos de narrativa são diferentes. Na TV, os autores têm uma limitação de tempo – cada episódio de “Boardwalk Empire” tem 52 minutos – e precisam encadear um episódio no outro, deixando a história sempre em aberto para o episódio seguinte.

Isso torna a narrativa, a meu ver, muito esquemática, previsível e, por fim, desinteressante. Repetindo: esta é a minha impressão pessoal, tenho amigos que discordam totalmente e acham “Os Sopranos” uma revolução.

Ninguém me convence que personagens de séries de TV são “complexos” e “surpreendentes”. Não há tempo para isso, e nem espaço para esse tipo de aprofundamento quando se tem de cortar a história para exibir um comercial de margarina qualquer.

A TV, por ser um veículo de massa, dificilmente se arrisca a devaneios narrativos ou experimentações com linguagem, sob risco de ser ininteligível para o público acostumado a ver tudo mastigado.

Claro que o cinema comercial moderno também sofre do mesmo mal. O que inverte a questão: será que não é o cinema que está cada vez mais influenciado pela TV?

Em “Boardwalk Empire”, há alguns bons exemplos da forma como o roteiro “amarra” todas as situações para não deixar nenhuma dúvida no espectador.

Em um episódio – juro que não lembro se o 2 ou o 3 – aparece um sujeito distribuindo panfletos na rua. Ele grita: “Venham! Conheçam mais sobre a nossa nova organização, a Ku Klux Klan!”. Isso não está lá à toa. Pensei comigo: “não dou dez minutos para mostrarem algum ataque da KKK”.

Logo depois, somos apresentados a um personagem negro, até então o único da série. Bingo. Uns seis minutos depois, o rapaz aparece morto, enforcado. Obra da KKK. Tudo amarradinho, explicadinho tintim por tintim.

Mais uma vez: não estou dizendo que a dramaturgia de TV é ruim. Só acho que ela tem características próprias, e que essas não me agradam como consumidor.

Por isso, não acompanho séries. Vi um ou dois capítulos de “Os Sopranos”, e nunca mais. Nunca consegui terminar um episódio sequer de “Lost” ou “24 Horas”.

Quando quero assistir a TV que realmente abala as estruturas, que entorta a narrativa e me surpreenda pela estranheza, recorro à boa e velha caixa do Monty Python. Ainda não vi nada melhor. Pelo menos na TV.

Escrito por André Barcinski às 12h32

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"Carlos" é uma obra-prima do cinema político

O venezuelano Ilich Ramirez Sanchez, codinome “Carlos”, foi o maior popstar do terrorismo mundial nos anos 70, uma época em que muitos ainda viam os que pegavam em armas como idealistas românticos.

Carlos fez fama como um dândi arrogante, que protagonizou alguns dos atentados mais audaciosos da história. Era uma mistura de Che Guevara com Don Juan, que seduzia mocinhas de esquerda com sua retórica marxista, só para levá-las para a cama e cooptá-las para a luta armada.

Produzido por TVs da França e Estados Unidos, “Carlos”, do francês Olivier Assayas, conta mais de 20 anos da vida do bandido. O filme tem quase seis horas – dividido em três partes – e passa voando como um curta-metragem. É imperdível. Tomara que passe logo por aqui.

Olivier Assayas não toma partido. Não glorifica Carlos e nem a luta armada. Mostra Ilich Ramirez como um egocêntrico violento, que maltratava suas mulheres e era impiedoso até com amigos que não lhe obedeciam.

O filme tem aquele visual granulado dos grandes policiais dos anos 70, como “Operação França”. É violento e extremamente realista. Não há super-heróis desviando de balas com ar blasé e metralhando inimigos enquanto tragam um Gitanes. A coisa aqui é séria.

Steven Soderbergh, coitado, deveria jogar no lixo todas as cópias de seu insosso “Che” depois de ver essa bomba atômica.

“Carlos” tem tudo para consagrar Edgar Ramirez, o ator que interpreta o terrorista. O sujeito é magnético, uma espécie de Javier Bardem venezuelano.  Carlos/Ramirez fala pelo menos cinco idiomas e tem uma presença impressionante.

O personagem, embora um ser humano desprezível, é fascinante.

Ilich começou sua vida de crimes apoiando grupos radicais palestinos. Ao longo dos anos, sua fé – e, claro, necessidade financeira – o aproximaram de outros grupos, como os bascos do ETA e extremistas alemães e japoneses.

A “carreira” de Carlos flutuou ao sabor das ondas da geopolítica internacional. Até a queda do Muro de Berlim, encontrou abrigo com os comunistas. Depois, virou um pária, um incômodo para antigos regimes comunistas, e fugiu para o Oriente Médio.

O mais interessante no filme de Assayas é acompanhar essas flutuações diplomáticas e perceber como, no fundo, não há mocinhos nessa história.  Governos usaram Carlos e seus comparsas quando precisaram e os descartaram quando lhes foi conveniente.

Por trás de todos os discursos inflamados e ingênuos de Carlos, é inescapável a sensação de que ele não foi nada mais que um peão no xadrez da Guerra Fria.

Escrito por André Barcinski às 01h51

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Por que estão reclamando tanto do SWU?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Esse povo só sabe reclamar mesmo.

Não consigo abrir um blog sequer sem ler alguém metendo o pau no SWU. Reclamam de tudo: perrengue na hora de entrar, na hora de sair, atrasos, filas quilométricas, brigas, falta de ônibus na ida, confusão na volta, preços abusivos de estacionamento, empurra-empurra, o escambau. Reclamam até do frio.

A minha experiência foi bem diferente.

Não senti frio. Achei a temperatura agradável, na casa dos 23 graus. A visão do palco também era perfeita, assim como a comida. Nem o banheiro comprometeu: tinha água quente, toalhas limpinhas e nenhuma fila.

Vi gente reclamando também que só tinha homem no show do Rage Against the Machine, que o lugar parecia reunião do Talibã. Como assim? Será que vimos o mesmo show? Onde eu estava, havia duas mulheres para cada homem. Eu vi o show todo acompanhado por duas gatas lindas.

E como ousam reclamar da comida? Fui só eu que assisti ao Rage saboreando um belo combinado sushi/sashimi? Fui só eu que vi o Queens of the Stone Age degustando um brie e um bom tinto chileno? Ô povinho ingrato!

Para essa turma que só sabe ver o lado ruim das coisas e que nasceu para chorar as pitangas, só tenho uma palavra: SOFÁ.

Do sofá, até os contratempos viram momentos de prazer.

Lembra das duas interrupções do show do Rage? Enquanto em Itu a chapa esquentava, com risco de invasão e quebra-quebra, eu aproveitei para estourar uma pipoquinha no micro-ondas e fazer um pitstop no toalete. Providencial.

Algumas impressões sobre o festival, do ponto de vista do sofá:

O Rage Against the Machine continua incrível em cima de um palco

Confesso que não sou grande fã da música, mas o show é espetacular. Zack De La Rocha é um dos melhores frontmen do rock e Tom Morello é um monstro. A abertura, com “Testify”, foi de arrepiar, uma explosão de testosterona e raiva.

O Pixies continua sofrível em cima de um palco

Algumas bandas deveriam se limitar a gravar discos. É o caso do Pixies. Já vi várias vezes e sempre foi uma ruindade só. Da última vez que assisti, há uns cinco anos, tomaram um couro do Gang of Four que deu até pena.

O show parecia fim de expediente de repartição pública, com os quatro entediados e displicentes, tocando no piloto automático músicas maravilhosas para um público fanático que se emocionaria até se fosse playback. O que teria sido melhor, já que a banda toca tão mal que parece um grupinho cover do Pixies.

O Queens of the Stone Age não é banda para festival

Imagina aquilo num clube?

A segunda noite foi um saco

O domingo foi o dia dos sons insossos e inofensivos.

Joss Stone é linda de ver, mas aquele soulzinho de FM não desce. Dave Matthews faz som de festa de casamento, e o Kings of Leon é rock para quem não gosta de rock, uma boy band de guitarras.

Outro bônus de ver o SWU do sofá são os momentos de comicidade involuntária

Ah, a TV ao vivo! Que inesgotável fonte de alegrias.

Que tal o baterista do Kings of Leon dizendo que a banda chegou a um nível de popularidade “igual ao de U2 e Pearl Jam, quando você fala e as pessoas prestam atenção em você”?

Ou a Maria Gadu, respondendo com emocionante sinceridade à pergunta “quem você mais quer ver hoje?” “Ih, bicho, não sei. Pra falar a verdade, nunca ouvi nenhuma dessas bandas!”

Mais Maria Gadu, dessa vez deixando seu testemunho sobre a sustentabilidade: “Cara, eu acho que o mais importante são as pequenas ações do dia a dia, esse lance de não jogar lixo no chão, sabe? Porque senão a coisa toda vira uma chuva de dominós”. Uma chuva de dominós. Taí um desastre climático que eu não me importaria de presenciar.

E os apresentadores? A turma - Luiza Michelleti, Erika Mader e Beto Lee - era simpática e animada, mas deixar qualquer um enchendo lingüiça ao vivo por uma hora esperando o Queens of the Stone Age é uma temeridade.

Deu no que deu: num dos inúmeros improvisos, Beto Lee disse que o “duckwalk” (o famoso “andar do pato”, aquele passinho imortalizado por Chuck Berry), era um andar inventado por Elvis Presley para ir do camarim até o palco. Hein?

No fim, Erika Mader resumiu tudo: “Então tchau, gente! Se tiver ano que vem, a gente tá aí!”

Escrito por André Barcinski às 19h14

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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