André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Vargas Llosa, finalmente!

 

 

 

 

 

 

 

 

Ótima notícia: Mario Vargas Llosa ganhou o Nobel de literatura.

 

Agora, os amigos que preferem Garcia Márquez não têm como argumentar que Llosa não tinha o Nobel.

 

Sempre curti mais Llosa. Desde que li “A Guerra do Fim do Mundo”, virei fã. Gosto muito de “A Casa Verde” (1966) “Conversa na Catedral” (1969) e “Tia Júlia e o Escrevinhador” (1977), mas meus três livros favoritos dele são:

 

“Pantaleão e as Visitadoras” (1973)

História engraçadíssima sobre um militar, Pantaleão Pantoja, que recebe a missão de montar um puteiro na selva amazônica para aplacar a fúria sexual dos soldados, que estão atacando moças, velhas, bodes, e tudo que encontram pela frente.

Llosa narra a trama por meio de cartas oficiais e memorandos do Exército. De rolar de rir.

 

“A Festa do Bode” (2000)

Um dos livros mais assustadores que já li. Conta a história de Rafael Leonidas Trujillo, o sanguinário ditador da República Dominicana, e da trama para assassiná-lo, em 1961.

Llosa faz um retrato se um monstro que não poupava sequer seus colaboradores de humilhações e violência. Era impressionante a forma como Trujillo conseguia dominar pelo medo e a desconfiança, jogando um colaborador contra o outro.

 

“A Guerra do Fim do Mundo” (1981)

Meu livro predileto de Llosa. Narra a saga de Antônio Conselheiro e seu exército de beatos em Canudos.

Extremamente violento, o livro é um documento histórico fascinante e um relato surreal sobre a guerra religiosa no sertão. Leia a primeira página, e não dá pra parar.

Escrito por André Barcinski às 00h32

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

A última provocação de Banksy, rei da "street art"

Realidade ou farsa? Um mergulho fascinante nos subterrâneos da “street art” ou uma armação maquiavélica de terroristas culturais? Uma radiografia da máquina de hype do mercado de arte contemporânea ou a verdadeira história de um homem e sua obsessão?

“Exit Through the Gift Shop” (“Saída pela Loja”, em tradução livre), o filme “dirigido” por Banksy, o nome mais celebrado da “street art” mundial, é tudo isso e mais um pouco. Um dos filmes mais delirantes e inclassificáveis do ano.

Banksy é uma figura enigmática. Não dá entrevistas e não mostra o rosto. Ninguém, a não ser seus colaboradores mais próximos, sabe quem ele é. Esse mistério ajudou a fomentar o hype em torno de sua obra.

Suas intervenções urbanas, grafites, painéis e objetos, que frequentemente abordam o tema do homem soterrado por interesses corporativos ou vítima da obsessão consumista, são uma coqueluche do mercado de arte.

Goste ou não, tudo que Banksy faz é sucesso.

Onde entra “Exit” nisso?

O filme é um documentário supostamente dirigido por Banky. Mas não é sobre ele. O personagem principal é um francês esquisito, Thierry Guetta, dono de um conhecido brechó de roupas em Los Angeles.

Guetta tem uma obsessão: desde pequeno, filma tudo que vê. Mal sai da cama, pega sua camcorder e começa a gravar todos os segundos de seu dia. Logo se percebe que, por trás da fachada de normalidade - Guetta tem mulher , dois filhos e um emprego – bate o coração de um alucinado.

Durante uma viagem a Paris, Guetta descobre que seu primo, com quem mal tem contato, é um personagem famoso do underground da arte de rua: Space Invader, conhecido por decorar as cidades com pequenas imagens do videogame de mesmo nome.

Guetta descobre sua missão na vida: fazer um documentário sobre “street art”.

Cada vez mais obcecado, ele passa a acompanhar famosos artistas de rua, como Shepard Fairey, criador da icônica série “Obey” e mundialmente conhecido pelo onipresente pôster de Obama.

As sequências que mostram Guetta filmando diversos reis da arte underground em suas andanças noturnas pelas metrópoles é a parte mais fascinante do filme.  Sua câmera captura os artistas subindo em telhados, pendurados em postes, fugindo da polícia, sempre perto da ação.

Mas seu sonho, sua tara, o que faz o pequeno Thierry realmente salivar, é filmar Banksy em ação.

E ele consegue. Não vou estragar a surpresa, mas ele consegue.

E mais: inspirado pela arte de Banksy, Thierry decide que ele também pode ser um astro do mundo da “street art”.

É aí que o filme, que até então parecia um documentário “normal”, começa a ficar fascinantemente esquisito.

No fim, “Exit” levanta mais dúvidas que conclusões. Será tudo verdade, ou mais uma das provocações de Banksy? A web está cheia de teorias conspiratórias. Há quem diga que Guetta é Banksy.

O final é tão demente que qualquer pista minha pode arruiná-lo. Então deixo vocês com a dica: “Exit” acaba de sair em DVD nos Estados Unidos. Se não for lançado no Brasil, procurem ver de qualquer jeito.

Escrito por André Barcinski às 00h34

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Hoje sou alemão desde criancinha

 

 

 

 

 

 

 

 

No meu ranking pessoal de esportes mais soporíferos, o vôlei disputa o alto do pódio com golfe e corridas de carros em geral. Prefiro assistir à TV Senado a ver o Giba voando.

Talvez seja algum preconceito juvenil enraizado. Na minha época de moleque, quem não tinha vaga na pelada da rua se juntava aos gordinhos, aos quatro-olhos e às meninas para um rachão de vôlei.

Eu sei, podem me xingar, mas, na minha cabeça, vôlei sempre foi passatempo de camping. Nunca achei a menor graça.

O pior é que minha mãe foi uma excelente jogadora. Relatos familiares dão conta de que ela era uma talentosa levantadora do Botafogo.

E minha avó, 92, é fanática pelo time do Bernardinho. Ela acorda às 5 da manhã para ver Brasil x Tunísia, acha todos os jogadores lindos, essas coisas.

Mesmo assim, nunca me interessei muito.

Nos anos 80, até fui ao Maracanãzinho ver o Bernard dar seu mitológico saque “Jornada nas Estrelas”, mas era mais falta do que fazer.

Depois, quando os times brasileiros começaram a ser patrocinados por empresas, aí é que perdi o interesse de vez. Quem tinha saco para torcer por um banco, um frango congelado ou um pneu?

Mas também nunca torci contra, como faço com Rubinho, Massa e os mauricinhos da Fórmula-1. Depois que o Bernardinho assumiu a seleção e começou a dar show de competência, até comecei a simpatizar.

Até esta semana.

Para quem não viu o noticiário, o Brasil fez corpo mole e perdeu de propósito para a Bulgária. A derrota ajudaria a seleção a pegar um grupo mais fácil na fase seguinte. Então Bernardinho mandou o time entregar a rapadura.

A torcida, revoltada, ficou de costas para a quadra e vaiou a presepada.

Bernardinho está há dias com cara de poucos amigos, tentando justificar o injustificável. Parece o Rubinho explicando porque se sujeitava a ser capacho do Schumacher.

Hoje, ao meio-dia, tem Brasil x Alemanha. Vou parar tudo que estiver fazendo, esquentar um belo chucrute de microondas e torcer por Fritz, Muller e Beckenbauer. Bernardinho renovou meu gosto pelo vôlei.

Escrito por André Barcinski às 00h38

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Preso no ônibus com Rod Stewart

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O dia havia começado bem. O carteiro chegou logo de manhã com um pacotão da Amazon que incluía a autobiografia do meu crítico de rock favorito, Nick Kent, que vi recomendada na coluna do amigo Álvaro Pereira Jr. no Folhateen.

Eu tinha programado para o início da tarde uma viagem de ônibus de Paraty ao Rio de Janeiro. Isso – pensei - me garantiria cinco horas de paz para mergulhar nas memórias de Kent e em suas reminiscências dos anos 70.

Assim que entrei no ônibus, percebi que tinha me enganado. A viagem seria tudo, menos tranqüila.

Não andamos nem 200 metros quando ouvi um grito apavorante. Parecia um bode no abatedouro. Era Klaus Meine, do Scorpions: “Time... it needs tiiiiime... to win back your loooooove agaaaaain!”

O ônibus tinha quatro – quatro! - telas de LCD mostrando o elfo cantando a xaropenta “Still Loving You”. E o pior: cada poltrona tinha sua própria caixa de som. A música era alta e inescapável.

Depois vieram alguns videoclipes. A seleção, provavelmente feita por algum ex-torturador do DOPS, trazia um mix dos sons mais nauseabundos dos anos 80.

Rolaram, em sequência, Bonnie Tyler (“It’s a Heartache”), Jim Diamond (“I Should Have Known Better”), Kim Carnes (“Bette Davis Eyes”), Housemartins (“Build”, mais conhecida como “melô do papel”), Elton John (“Sacrifice”), Tracy Chapman (“Baby Can I Hold You”) e Nikka Costa (“On My Own”).

Depois de uns 45 minutos de agonia, em que cogitei seriamente saltar do ônibus e tentar uma carona de volta, apareceu na telinha uma figura que achei ser o Lou Reed. Que alívio.

Mas não era o Reed. Era o vocalista do Nazareth cantando “Love Hurts”. Nunca torci tanto para um ônibus cair de um despenhadeiro.

O clipe seguinte foi “We Are the World”.

Não sei o que me deu. Mas saí do sério. Deve ter sido a combinação de barulho, melodia messiânica e todos aqueles mullets.

Quando Bruce Springsteen apareceu com sua cara de exame de próstata, seguido pelo trio Kenny Loggins - Steve Perry - Daryl Hall, não agüentei: fui implorar ao motorista que desligasse aquela maldição.

Ele me deu a melhor notícia do dia: cada poltrona tinha um controle independente de volume! Eureca!

Voltei desligando o som de todas as poltronas, uma a uma. E percebi que eu era o único dos cinco passageiros ainda acordado. Com cuidado para não despertar ninguém, consegui desligar os botões de todas as poltronas. Silêncio, finalmente.

Mas durou pouco. Assim que o ônibus chegou a Angra dos Reis, subiram umas 15 pessoas. E aí não teve jeito.

Um casal apaixonado sentou-se ao meu lado. Ele vestia uma camiseta do Angra e ela abriu um livro da Stephenie Meyer. Os pombinhos não só ligaram o som no último volume, como suspiravam e trocavam bitoquinhas enquanto faziam um karaokê de “I Will Always Love You”, da Whitney Houston.

Finalmente, o DVD pestilento acabou. E começou um show do Rod Stewart.

Aqui, pausa para uma confissão: existem dois artistas que me provocam impulsos homicidas. Um é Lenny Kravitz; o outro, Rod Stewart.

A visão daquela múmia de cabelo emo e paletó amarelo cantando para multidões de cururus de isqueiro na mão me faz regressar a um estágio pré-civilizado.

Tentei mudar de lugar, mas Rod estava em toda parte. Foram quase 90 minutos de “Saling”, “You’re in My Heart”, “I Don’t Wanna Talk About It” e, a cereja do bolo, “Do Ya Think I’m Sexy?”.

Pela janela, percebi que já estávamos na Avenida Brasil. Nunca imaginei que a visão daquela Beirute carioca pudesse me trazer tanta paz de espírito. Significava que a Rodoviária Novo Rio estava perto.

Foi então que aconteceu o pior.

O show de Rod Stewart acabou. E surgiu na telinha a grande atração da noite: o DVD ao vivo do Calcinha Preta.

Juro que nunca tinha parado para ouvir o Calcinha Preta. Para mim, o Calcinha Preta era como o tifo ou a malária: uma coisa terrível, mas que eu certamente não precisaria conhecer de perto, se não quisesse.

Hoje, posso dizer que sou um sobrevivente. Porque passar uma hora preso num ônibus na Avenida Brasil vendo o Calcinha Preta é uma prova de fogo. Saí da experiência purificado. Um novo eu.

No dia seguinte, apelei: combinei um preço legal com um taxista e voltei de carro. Não foi barato, mas valeu cada centavo.

Escrito por André Barcinski às 00h54

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Para esquecer do Tiririca, só mesmo vendo "Vanishing Point"

Eleições e chuva. Uma combinação perfeita para refestelar-se no sofá e passar o fim-de-semana inteiro botando a leitura em dia e vendo filmes.

Foi exatamente o que fiz. Vi vários filmes e li em uma tacada “Apathy for the Devil”, a incrível autobiografia do meu crítico de rock predileto, Nick Kent (mais sobre o velho Nick ao longo da semana).

Enquanto a apuração rolava solta na telinha e as eleições de Tiririca, Romário e Valdemar da Costa Neto eram confirmadas, optei por ignorar tudo e ver “Vanishing Point” (“Corrida Contra o Destino”, 1971), de Richard S. Sarafian.

Que filme!

Não consigo pensar em nenhum filme que capte tão bem a desesperança e o pessimismo da geração pós-Woodstock. O sonho estava realmente morto - e enterrado.

Curiosamente, o livro de Nick Kent falava exatamente dos anos 70. E Kent relata assim o cenário que encontrou em sua primeira visita à Califórnia, em 1971: “Não dava para dar dois passos em Hollywood sem algum jovem de olhos esbugalhados te abordar para oferecer drogas pesadas ou balbuciar incoerentemente sobre o apocalipse e a salvação na forma de algum guru”.

“Vanishing Point” é o mais perfeito videoclipe sobre os filhos de Charles Manson.

O filme é um delírio a 200 km por hora. Sem muitas explicações, conhecemos Kowalski (Barry Newman). Ele chega a uma oficina mecânica no Colorado e recebe ordens de levar um envenenado Dodge Challenger até Sâo Francisco, na Califórnia.

Kowalski tem menos de 15 horas para chegar ao destino.

Antes de pegar a estrada, Kowalski faz uma parada providencial num bar infestado de Hell’s Angels, traficantes e outros personagens que parecem saídos de algum faroeste de Sam Peckinpah. Encontra um amigo, compra um punhado de anfetaminas e cai na freeway.

Em poucos minutos, começa a ser perseguido por dois policiais de moto. Mas o Dodge Challenger não é páreo para as motocas dos homens da lei, que logo se vêem comendo poeira.

Começa uma caçada por quatro Estados. Caipiras nazistas de distintivo no peito passam a perseguir o herói.

Enquanto isso, Super Soul, cultuado DJ de uma rádio de black music (o ótimo Cleavon Little) capta as transmissões da polícia e passa a contar, em seu programa, a odisséia de Kowalski contra o Golias. Kowalski vira um herói do povo.

“Vanishing Point” forma, com “Laranja Mecânica” e “Walkabout”, uma sessão tripla arrasadora sobre o fim do sonho hippie.

Eram muitos os combustíveis que alimentavam a depressão do período: Nixon, Vietnã, Panteras Negras, cocaína, Charles Manson, Stooges, o fim dos Beatles, as chacinas em Altamont e Kent State e a saga de “Fear and Loathing in Las Vegas”, que Hunter Thompson revelava nas páginas da “Rolling Stone”. Tempos estranhos para pessoas cada vez mais estranhas.

Não é surpresa descobrir, portanto, que o roteiro de “Vanishing Point” foi escrito por um certo Guillermo Caín, pseudônimo do grande escritor cubano Guillermo Cabrera Infante, de “Três Tristes Tigres”. Tudo a ver.

O filme foi ignorado na época, mas logo começou a ganhar um certo status “cult”.

Bobby Gillespie e seus comparsas do Primal Scream gravaram um disco inteiro em homenagem ao filme – chamado “Vanishing Point”, claro – que viam como uma trilha sonora alternativa ao filme. E Quentin Tarantino nunca deixou de falar de sua admiração por Kowalski, tanto que o homenageou em “Death Proof”.

“Vanishing Point” saiu em DVD no Brasil. Sugiro aproveitar o tempo livre, agora que teremos um segundo turno, e apreciar esse filmaço.

 

Escrito por André Barcinski às 11h35

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha.com. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha.com.