André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Já viu "Wall Street 2"?

Aí vai uma boa dica para o fim de semana: “Wall Street : O Dinheiro Nunca Dorme”, de Oliver Stone.

O filme marca a volta à boa forma de um cineasta incomum, depois de um bom tempo fazendo filmes abaixo da média.

Oliver Stone é o tipo de diretor “ame ou odeie”. Já fez filmes ótimos e outros nem tanto, mas sempre mostrou uma visão pessoal e corajosa.

Ele é um provocador nato, desses que curtem uma polêmica. Só por isso já se diferencia da grande maioria.

Stone gosta de reescrever a história à sua maneira. Fez isso com Nixon, JFK, o Vietnã, El Salvador, George W. Bush, os ataques de 11 de setembro e The Doors.

Ele tem uma mão incrível para filmar as maquinações do poder. Stone adora filmar grandes personalidades mundiais em situações mundanas. A cena em que Richard Nixon (Anthony Hopkins) pede a Henry Kissinger (Paul Sorvino) para ajoelhar-se ao seu lado e rezar, em “Nixon”, é um grande momento.

Meu filme predileto de Stone é “JFK”. Tenho em VHS (velho!) e assisto sempre. É uma aula de cinema de propaganda. Tem mais de 3 horas e é tão ágil e bem escrito que voa como um curta-metragem.

Não vou entrar na discussão de teorias de conspiração, romances entre a Máfia e o Pentágono, etc.. Quem quiser que acredite em Stone. Mas que é um grande “thriller”, isso é.

Fui ver “Wall Street 2” meio cabreiro. Os últimos filmes de Stone não foram lá grande coisa. “W” é bem chato. Os filmes sobre Fidel e Hugo Chavez, confesso que tive preguiça de ver.

As dúvidas sumiram assim que Gordon Gekko, o charmoso salafrário das finanças interpretado por Michael Douglas, pintou na tela. Que personagem. Um sujeito que todos adoram odiar. O melhor criador de frases de efeito das últimas décadas.

Quando Gekko chega para um rival das finanças e diz: “vamos combinar uma coisa: você pára de contar mentiras sobre mim que eu paro de contar verdades sobre você”, eu quase ajoelhei no cinema.

Gekko e Tony Montana, o traficante cubano interpretado por Al Pacino no “Scarface” de Brian De Palma, são dois dos personagens mais emblemáticos dos anos 80. E os dois criados por Oliver Stone – que escreveu “Scarface”.

No novo filme, Gekko sai da cadeia depois de cumprir oito anos por crimes financeiros. Ele volta a Wall Street, mas encontra um cenário bem diferente daquele que conhecia. “Perto desses tubarões, sou um amador”, diz.

Mas não pense que o larápio teve alguma crise de consciência ou alguma ressurreição espiritual. Ele continua um safado de primeira. Veja o filme e confira.

“Wall Street: o Dinheiro Nuna Dorme” é emocionante. Além de Michael Douglas voltando ao papel que o eternizou, o elenco coadjuvante vale o ingresso.

Susan Sarandon interpreta uma enfermeira ambiciosa que faz uma fortuna investindo em mercado imobiliário e depois sofre com o colapso do mercado. Frank Langella faz um velho barão das finanças em meio à ruína de sua empresa.

Mas o grande destaque é Eli Wallach.

Você deve conhecer Wallach de “O Poderoso Chefão 3”. Ele faz Don Altobello, o simpático velhinho que trama com o Vaticano para ferrar Michael Corleone.

Wallach tem 94 anos e deve ser o ator mais velho em atividade no cinema americano. Começou na Broadway em 1945.

Ele interpreta um banqueiro de Wall Street que conspira para arrancar do governo americano uma fortuna em socorro financeiro depois do colapso de 2008. Não vou estragar a surpresa, mas há uma cena em que Wallach, numa reunião com o Secretário do Tesouro, lembra do crash da Bolsa em 29 e prevê o que aconteceria se o mesmo voltasse a ocorrer.

É uma das grandes cenas do ano. Vou ver o filme de novo só para apreciar essa cena mais uma vez.

Escrito por André Barcinski às 10h24

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Adeus a Arthur Penn e Tony Curtis

 

Terça morreu Arthur Penn. Quarta, foi a vez de Tony Curtis.

Estou torcendo para que esta semana acabe logo, antes que mais alguém suma do mapa.

Vamos falar primeiro de Arthur Penn.

Para entender o impacto de “Bonnie and Clyde” no cinema mundial, vale muito a leitura de “Easy Riders, Raging Bulls – Como a Geração Sexo, Drogas e Rock’n’Roll Salvou Hollywood”, a já clássica história da Nova Hollywood contada por Peter Biskind. Este é um livro indispensável.

“Bonnie and Clyde” era uma releitura de uma releitura.

Explico: em 1960, Godard lançou “Acossado”, sua versão torta do cinema de gênero hollywoodiano. Era um filme livre, sem amarras, que reinventava o cinema – e o filme policial – com o estilo godardiano.

Arthur Penn entendeu. Captou o espírito. Em, 1965, tentou fazer a sua versão do filme policial deturpado pela Nouvelle Vague: “Mickey One”, com Warren Beatty.

Mas era um filme muito estranho para a época. Hollywood ainda era o território de produtores que mandavam e de diretores que obedeciam.

Tudo mudou com “Bonnie and Clyde”.

Penn fez um filme esteticamente radical e que foi um sucesso de bilheteria. Uma fábula sangrenta sobre dois amantes que batem de frente com o mundo e saem vencedores. Morrem no final, mas suas imagens sobrevivem no inconsciente coletivo.

De certa forma, “Bonnie and Clyde” era uma parábola sobre o culto a celebridades e o domínio da imagem sobre conteúdo.

Os EUA estavam no meio do Vietnã, recebendo as notícias pela TV e recusando-se a acreditar na carnificina mostrada. Era como se o país vivesse duas realidades paralelas, a do dia-a-dia e a da mídia. E “Bonnie and Clyde” captou isso perfeitamente.

Este filme, mais que qualquer outro, marcou um novo capítulo no cinema americano. O cinema de autor tinha chegado com força.

Penn abriu as portas. Coppola, Bogdanovich, Scorsese e outros chegaram logo depois e só ajudaram a mantê-la aberta.

 

TONY CURTIS

Outro dia, o TCM reprisou “Quanto Mais Quente melhor”, de Billy Wilder.

Tony Curtis e Jack Lemmon fazem dois músicos que fogem da Máfia vestindo-se de mulheres e seguindo uma orquestra feminina.

No caminho, encontram Marilyn Monroe. Curtis arrebata a deusa. Lemmon fica com um aposentado rico.

 Já vi o filme umas 85 vezes, mas sempre passo mal na cena em que Curtis esquece de tirar os brincos quando vai encontrar Marilyn.

Seria o auge de Tony Curtis? Pode ser. Se ele tivesse filmado só a cena em que, fazendo-se passar por um herdeiro de um império industrial, entra de penetra no iate de um ricaço para seduzir Marilyn, já teria um lugar garantido na história da comédia.

Mas ele fez muito mais.

Fez o assessor de imprensa que cai nas garras do vitriólico jornalista interpretado por Burt Lancaster em “Sweet Smell of Success” (“A Embriaguez do Sucesso”, 1957), um filme arrasador sobre o poder corruptor da imprensa.

Vi esse filme numa sessão coruja qualquer e me marcou para sempre. Não dava para acreditar que era o mesmo ator que, dois anos depois, faria o escrachado “Quanto Mais Quente Melhor”.

Ou que faria o grande “The Defiant Ones” (“Acorrentados”), um drama policial sobre racismo, em que Curtis interpreta um prisioneiro racista que acaba fugindo da cadeia acorrentado a um companheiro de xadrez, um negro (Sidney Poitier). Filmaço.

Eu adoro ver Curtis em “Spartacus” (1960), de Stanley Kubrick, um épico histórico que hoje lembra mais uma comédia de boate gay. Divertidíssimo e bregão, como um show do Village People.

Taí uma boa sugestão para o fim-de-semana: sessões triplas em homenagem a Penn e Curtis.

De Penn, sugiro “Bonnie and Clyde”, “Mickey One” e “Night Moves”,  o sensacional thriller policial com Gene Hackman fazendo um detetive bronco que chega a citar Eric Rohmer como exemplo de ”chatice”. É Penn, o maior fã da Nouvelle Vague, fazendo sua homenagem torta aos franceses.

De Curtis, fica difícil escolher só três. “Quanto Mais Quente Melhor” e “Sweet Smell of Success” não podem faltar. O terceiro, é só tirar na moedinha entre “The Defiant Ones”, a comédia “Operation Petticoat” (1959), de Blake Edwards e com Cary Grant, e o ótimo “O Estrangulador de Boston” (1968), em que Curtis interpreta o assassino serial Albert DeSalvo.

Escrito por André Barcinski às 10h04

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Mais um cinema fecha. Vamos comemorar no shopping?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mais um cinema off-shopping fecha as portas em Sâo Paulo.

O Gemini, tradicional sala paulistana, mandou embora todos os funcionários e encerrou as atividades, depois de 35 anos. Leia mais aqui.

Ninguém sabe o que vão abrir no lugar. Pode ser um McDonald’s ou quem sabe um Outback ou uma loja da Nike. O certo é que vai ser mais freqüentado que o cinema.

Eu não agüento mais ler notícias dessas.

Quando não é um cinema tradicional que fecha, é um restaurante das antigas, ou uma livraria, ou um prédio clássico que é destruído para algum clone do Ruy Ohtake fazer mais uma gigantesca marmita de metal e janelas roxas.

Não vou escrever mais um post sobre a Berrinização de nossa cidade. Já deu no saco.

Porque a culpa de tudo isso é nossa.

Somos nós que preferimos comprar aspirina numa grande rede para economizar 10 centavos enquanto a drogariazinha do bairro definha.

Somos nós que preferimos ver filmes no shopping, onde podemos passear na praça de alimentação e tomar um sorvete superfaturado.

Somos nós que fazemos fila em algum hipermercado, lugar de gente feliz, enquanto reclamamos do barulho da feira livre.

Somos nós que compramos o segundo carro para escapar do rodízio.

Se gostamos tanto assim de shopping, por que não fazemos pórticos gigantes nas marginais Tietê e Pinheiros, na Radial Leste e na Bandeirantes? Com entradas em todas essas vias, a cidade toda viraria um grande shopping. Imagina só, um Hard Rock Café em bem na entrada da Marginal?

Quem sabe assim não começamos a gostar de andar em Sâo Paulo?

Escrito por André Barcinski às 01h27

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Nada destrói uma banda como a vida na estrada

Acabei de ver “Tell Me Do You Miss Me’, um ótimo documentário sobre os últimos dias de uma ótima banda, o Luna.

O Luna foi o projeto que Dean Warehem criou logo depois de acabar com o Galaxie 500, um trio lo-fi que fez história com um pop etéreo, que influenciou não só a distorção do My Bloody Valentine quanto as melodias sessentistas do Teenage Fanclub.

O Luna era uma grande banda. “Penthouse”, de 1995, é o maior disco deles, e um que ainda ouço de cabo a rabo. Coisa fina.

Dean Wareham e o Luna estiveram no Brasil em 2001. Acabaram sendo entrevistados e tocaram ao vivo no Garagem, o programa que apresento com meu amigo Paulo Cesar Martin.

Ouça aqui o Luna tocando ao vivo no Garagem:

Parte 1

Parte 2

 “Tell Me Do You Miss Me” mostra os últimos seis meses da carreira do Luna, desde o momento em que a banda anuncia sua última turnê.

É um caso raro de documentário sobre rock que não tenta glamourizar a vida na estrada, mas que mostra a pura verdade: o que mata bandas, mais que brigas ou desentendimentos, são as turnês.

O Luna nunca fez grande sucesso. Tem fãs em todos os lugares, mas nunca passou de uma banda média, em termos de popularidade. Nos Estados Unidos, tocava para 300, 400 pessoas. Nas cidades maiores, podia chegar a uns 800.

E a vida para essas bandas não é fácil: viajar de van por oito horas de uma cidade a outra, no meio de tempestades de neve; comer em lanchonetes horríveis numa estradinha perdida em algum fim de mundo qualquer; montar seu próprio equipamento e desmontar tudo depois do show, só para entrar na mesma van apertada e pegar mais oito horas de estrada.

Quando o Luna chega para shows no Japão, logo antevemos cenas de histeria em aeroportos e fãs correndo atrás da banda.

Nada disso. Os quatro aparecem dormindo no saguão de um hotel meia boca, exaustos. Depois, carregam os equipamentos e vão para a passagem de som – de metrô!

É o suficiente para deixar qualquer um maluco. Especialmente pessoas como estas, que têm uma vida fora da banda, que gostam de ler, de ir ao cinema, que têm filhos, esposas e ex-esposas.

“Tell Me Do You Miss Me” é como a própria música do Luna: um filme calmo e reflexivo, que consegue passar sua mensagem sem apelar para táticas de choque.

No fim, você fica chateado pelo fim da banda, que é melhor que 99% das porcarias que o Pitchfork anuncia todo dia. Mas estranhamente aliviado por ver que essas pessoas estão livres do martírio da estrada.

Escrito por André Barcinski às 12h01

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"Utererê" e outros equívocos memoráveis

Não somos apenas nós, brasileiros, que temos dificuldade para entender algumas letras em inglês. Os britânicos também.

Uma pesquisa, encomendada por um fabricante de remédio para ouvido, mostrou que os ingleses confundem várias letras e acabam inventando novos significados para canções famosas. Veja a matéria aqui.

“Dancing Queen”, do ABBA, virou uma apologia da pancadaria: “See that girl, watch her scream, kicking the dancing Queen” (“veja esta menina, veja-a gritando, chutando a rainha do baile”).

No Brasil, temos muitos casos assim. Não apenas de músicas em inglês, mas também de letras em português que se transformam pela criatividade infinita dos fãs.

O Youtube está cheio de exemplos engraçadíssimos. Veja acima um conhecido clipe com algumas das letras estrangeiras que ganharam novas versões em português.

Tem clássicos como Billy Idol cantando “Ajudar o peixeeeee....” (“Eyes Without a Face”) e o Eric Clapton pedindo para alguém besuntar suas partes íntimas com óleo (“Tears in Heaven”).

O João Gordo me contou que, nos bailes da perifa, o refrão “Aahhhh... Freak Out!”, do Chic, virou “Aaaaaaaalfredão!”

Outros casos conhecidos:

“I Should Have Known Better” (1984), o hit meloso de Jim Diamond, cujo refrão inesquecível “ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai… should have known better!” ora virava “chama o bombeiroooooooo!”, ora  “chupa e não berraaaaaaaaaa!”.

“Whoomp! There it is”, do Tag Team, que virou “Utererê!” nos bailes funk do Rio.

“Seu c... só sai de ré”, versão de “Oops Up”, do Snap. Veja o clipe do Black Eyed Peas e da Oprah Winfrey saindo de ré em Chicago:

Mas o que eu acho engraçado mesmo são as confusões com letras em português.

Eu tinha um amigo que odiava os Paralamas do Sucesso. “Essa banda é uma merda”, esbravejava. “Que negócio é esse de ‘entrei de caiaque no navio’? Como é que alguém entra de caiaque num navio?”

Ninguém esquece a famosa “trocando de biquíni sem parar” (“tocando B.B. King sem parar), do hit “Noite do Prazer”, do Brylho. Ou o famoso refrão de “Whisky A-Go-Go”, do Roupa Nova”, que virou “Eu te abraçava, tu e o holandês”.

Na web tem relatos incríveis. Uma menina passou a vida inteira achando que a Irene Cara, no refrão de “What a Feeling” (tema de “Flashdance”), cantava “Glória Piiiiiiires!”

Outra interpretava assim a música do Kid Abelha: "Diz pra eu ficar muda, faz cara de mistério, tira essa verruga que eu quero você sério..."

Nem Chico Buarque escapou: “mirem-se no exemplo / daquelas mulheres / de antenas!”

Outro dia eu estava assistindo a “Quanto Mais Quente Melhor”, a comédia clássica de Billy Wilder com a Marilyn Monroe, quando minha filha, de dois anos e meio, perguntou: “Papai, quem é essa moça?”

Eu respondi: “Ela se chama Marilyn”.

Logo depois, a Marilyn falou pro Jack Lemmon, no filme: “Good morning!” E minha filha disse: “Olha, papai, a Amélia tá chamando a Simone!”

É assim que nascem as lendas.

Escrito por André Barcinski às 00h30

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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