André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Lugar de filme é na tela grande

 

 

 

 

 

 

 

 

Semana que vem, o CCBB de Sâo Paulo começa uma grande retrospectiva de John Ford. Assistir a John Ford no cinema. Não tem nada igual.

Eu sou a favor de criar uma lei proibindo qualquer pessoa de assistir a filmes de John Ford na TV. Kurosawa também. São filmes que exigem a tela grande.

Eu tive muita sorte. Quando comecei a freqüentar cinemas, no início dos anos 80, ainda não existia a cultura do VHS. Vi os clássicos na tela grande.

Eu morava no Rio e havia muitas opções de cinema de repertório: o MAM, o Estação Botafogo, o Paissandu, o Maison de France, além de vários cineclubes de escolas e centros culturais.

A maioria dos consulados tinha acervo de filmes. Eu ajudei a organizar diversos cineclubes e não tinha nenhuma dificuldade em conseguir filmes estrangeiros emprestados com os consulados.

O Instituto Goethe tinha um acervo fantástico de filmes expressionistas alemães, disponíveis de graça para quem quisesse exibi-los.

Sem querer soar nostálgico, mas a cinefilia era bem mais aventureira naquela época. Sem a facilidade de baixar qualquer filme no torrent, a gente se embrenhava pelos lugares mais improváveis atrás de um filme. Cheguei a ir de ônibus a uma escola pública em Realengo para ver um festival do René Clair, que algum abnegado estava organizando depois das aulas.

Nós sabíamos que, se perdêssemos um filme, poderíamos nunca mais ter a chance de vê-lo novamente. Sabe o que é isso?

Depois vieram o VHS, o DVD e o blu-ray, e a cinefilia mudou. Nos acostumamos a ver filmes em casa, sozinhos, com aquele som vagabundo e a telinha mixuruca.

Porque ninguém vai me convencer que é legal assistir a um filme em casa, mesmo que você tenha uma LCD fodona de oitava geração, com 60 polegadas e som THX do George Lucas. Nada supera ver um filme no cinema.

Em casa, não tem ritual. As luzes não se apagam, não dá para ouvir aquele barulhinho do projetor, nem os murmúrios da platéia. Não tem clima. Ver filme em casa é que nem comer em restaurante de shopping: a comida pode até ser ótima, mas a experiência nunca é completa.

Pergunto: o que seria de nossas vidas se não existissem o CCBB, o Centro Cultural Sâo Paulo, a Cinemateca Brasileira e todos os locais do Brasil que ainda exibem, com regularidade, filmes antigos em tela grande?

Uma tela em branco.

Escrito por André Barcinski às 01h42

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Top 10 livros sobre música (parte 2)

Parte 2: livros inéditos no Brasil

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sem ordem de preferência, dez ótimos livros sobre música, ainda não lançados por aqui.

 

“The Dark Stuff”, de Nick Kent

Perfis de alguns dos maiores malditos da música, Brian Wilson, Sid Vicious, Cobain, Neil Young, escritos pelo dândi punk Nick Kent. Assombroso.

 

“Last Train to Memphis: The Rise of Elvis Presley” e “Careless Love: The Unmaking of Elvis Presley”, de Peter Guralnick

As várias vidas de Elvis, em dois volumes. Quase 1400 páginas que parecem 14, de tão sublimes. Guralnick é um monstro. Escreveu outra obra-prima, “Feel Like Going Home”, com perfis de pioneiros do rock como Howlin’ Wolf, Muddy Waters e Jerry Lee Lewis.

 

“Hellfire”, de Nick Tosches

Nick Tosches é Deus. Já li tudo que ele escreveu, e “Hellfire” é o auge. A história demente do maior satanás que o rock já pariu, Jerry Lee Lewis. Deveria ser leitura obrigatória nas escolas.

 

“Revolution in the Head: The Beatles’ Records and the Sixties”, de Ian MacDonald

Uma análise, música a música, de toda a obra dos Beatles. MacDonald contextualiza cada canção e escreveu um capítulo que é a descrição definitiva sobre o que a década de 60 significou para a cultura pop. Infelizmente, MacDonald cometeu suicídio em 2003, aos 54 anos.

 

“Energy Flash: a Journey Through Rave Culture and Dance Music”, de Simon Reynolds

Reynolds é autor de vários ótimos livros sobre hip hop e pós-punk, mas o meu predileto é este, sobre a origem da cena eletrônica e sua influência na cultura pop no fim do século 20.

 

“Hammer of the Gods”, de Stephen Davis

Ninguém viveu tão intensamente os excessos do rock dos anos 70 quanto o Led Zeppelin, e “Hammer of the Gods” ainda é o marco a ser batido por qualquer biografia que almeja chafurdar no sexo, drogas e rock’n’roll. Indispensável.

 

“Lipstick Traces: a Secret History of the 20th Century”, de Greil Marcus

Dadaístas, situacionistas, maoístas, punks, rebeldes de maio de 68... Marcus conta a história dos subterrâneos da cultura popular e de seus personagens mais instigantes.

 

“Motley Crue: The Dirt”, de Neil Strauss

Em termos de baixaria e histórias escabrosas, nada supera este livro de entrevistas com o Motley Crue. Spinal Tap encontra o Marquês de Sade.

 

“Shakey”, de Jimmy McDonough

A melhor e mais completa biografia de Neil Young. Meu coração quase parou quando McDonough descreveu “Danger Bird”, uma de minhas faixas favoritas de Neil Young, como “um pesadelo digno de um filme de Zé do Caixão”. É isso aí.

 

“Our Band Could Be Your Life”, de Michael Azerrad

Perfis das maiores bandas da cena alternativa americana dos anos 80, como Black Flag, Mission of Burma, Sonic Youth, Mudhoney, Minutemen, Beat Happening, Husker Du, Dinosaur Jr. e outros. Só faltou o Melvins!

Escrito por André Barcinski às 01h19

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Top 10 livros sobre música

Parte 1: livros em Português

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sem ordem de preferência, dez ótimos livros sobre música disponíveis em Português. Amanhã publico a lista do meu Top 10 ainda não lançados no Brasil.

 

“Kurt Cobain – Fragmentos de uma Autobiografia”, de Marcelo Orozco (Conrad)

Se você gosta do Nirvana, está tudo aqui. Orozco comenta todas as músicas de Kurt Cobain e ajuda o leitor a entender a mente enigmática do ícone do grunge.

 

“Emissões Noturnas – Cadernos Radiofônicos de FM”, de Fabio Massari (Grinta)

Coletânea de entrevistas de FM no rádio, com uma penca de convidados internacionais. Uma trip nostálgica por um tempo que não existe mais, quando nossas rádios ainda se preocupavam em tocar boa música.

 

“Mate-me Por Favor”, de Legs McNeil e Gillian McCain (L&PM)

A história oral do punk nova-iorquino, num livro cheio de histórias picantes e histórias de picadas. Essencial.

 

“Anthony Kiedis – Scar Tissue”, de Anthony Kiedis (Ediouro)

Nunca curti muito o Chili Peppers, mas este livro é assombroso. Kiedis relata as descidas ao inferno de uma banda que, mesmo inspirada pela lassidão californiana, viveu sempre no limite. Drogas, orgias, pancadarias, tem de tudo.

 

“Carmen – Uma Biografia”, de Ruy Castro (Cia. Das Letras)

Uma das histórias mais tristes de nossa música. Ruy Castro coloca Carmen Miranda em seu devido lugar: como a inventora de um “modo brasileiro” de cantar.

 

“O Resto é Ruído”, de Alex Ross (Cia. Das Letras)

Ross, crítico de música da “New Yorker”, faz um paralelo entre a música clássica do século 20 e os grandes acontecimentos da época. Fantástico.

 

“John Lennon – A Vida”, de Philip Norman (Cia. das Letras)

Biografia extensa e detalhada, que apresenta uma visão pouco açucarada de Lennon. Yoko Ono rejeitou o livro, o que é um ótimo sinal.

 

“Não Devemos Nada a Você” (Ideal Records)

O alternativo do alternativo. O livro é uma coletânea de entrevistas da revista “Punk Planet”, ligada em música e ativismo social. Se algumas entrevistas são um pouco específicas, outras revelam ao leitor artistas bacanas como Steve Albini (Big Black, Shellac), Ian McKaye (Fugazi, Minor Threat) e Kathleen Hanna (Bikini Kill, Le Tigre).

 

“Reações Psicóticas”, de Lester Bangs (Conrad)

Versão condensada do clássico de Bangs, “Psycothic Reactions and Carburetor Dung”. Bangs era o Hunter Thompson da crítica musical, um louco que escrevia com paixão na alma e anfetaminas na cabeça. Como introdução aos textos de Bangs, indispensável.

 

“Criaturas Flamejantes”, de Nick Tosches (Conrad)

Nick Tosches é Deus. Escreveu duas de minhas biografias favoritas, sobre Jerry Lee Lewis e Dean Martin. Em “Criaturas Flamejantes”, ele conta a história dos primórdios do rock, numa prosa que é tão selvagem e livre quanto os sons de Elvis e Chuck Berry. Uma coisa linda.

Escrito por André Barcinski às 02h56

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Quem tem grana para ver tantos shows?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Foi dada a largada. De agora até o fim de novembro, teremos uma overdose de shows internacionais por aqui.

Desconfio que você já deve ter analisado com calma a lista das atrações e pensado em como gastar seu suado dinheirinho. Porque uma coisa é certa: ninguém tem grana para ver tudo.

Uma rápida passada de olhos no calendário mostra que, num intervalo de 45 dias, entre a segunda semana de outubro e a última de novembro, o Brasil receberá pelo menos 50 bandas estrangeiras.

Atenção: estou falando de bandas internacionais. Não estão contabilizados grupos brasileiros, DJs, e shows menores em clubes. São pelo menos 50 grupos gringos tocando em grandes palcos.

Num intervalo de nove dias, entre 6 e 14 de outubro, tocarão no Brasil Rush, Bon Jovi, Green Day, Air, Jamiroquai, Echo and the Bunnymen e uma penca de bandas no festival SWU, como Rage Against the Machine, Queens of the Stone Age e Linkin Park.

Alguém já parou para calcular quanto se gastaria assistindo a tudo isso?

Para o fã, isso é péssimo. Existe uma grande chance de o fã do Green Day gostar do Rage Against the Machine ou do Linkin Park. Quase todos os fãs do Pavement curtem Pixies. E muitos terão de escolher entre um e outro.

Nessa altura, você deve estar se perguntando: não seria mais lógico espalhar os grandes festivais ao longo do ano, para evitar a competição?

Claro que seria. Acontece que a produção de shows no Brasil obedece a uma lógica própria, que desconsidera o interesse do fã. A única lógica que vale é a do patrocinador.

Grandes festivais no Brasil acontecem sempre no segundo semestre, por uma série de razões:

1) No início do ano, os patrocinadores estão ocupados demais com ações de Natal, Réveillon e Carnaval. Dizem que o Brasil só funciona depois do Carnaval. É a pura verdade. Tente emplacar algum projeto bancado por uma grande empresa nos primeiros três ou quatro meses do ano, para ver o que acontece. Nem atendem a sua ligação.

2) Nos meses de maio a agosto, os maiores artistas internacionais excursionam na Europa e Estados Unidos, onde há festivais quase todo fim-de-semana e uma oferta gigante de shows em clubes.

3) Dois dos maiores festivais de música da Argentina ocorrem no fim do ano, o Pepsi Music e o Personal Fest, e os festivais brasileiros costumam rachar artistas com os hermanos.

Dá para mudar isso? Difícil. Demandaria o mesmo esforço necessário para adequar o calendário de nosso futebol ao europeu: os promotores precisariam parar de fazer shows por alguns meses e se programar, no segundo semestre, para organizar shows na primeira metade do ano seguinte.

Isso seria bom para todo mundo. Até para os artistas estrangeiros, que têm mais dificuldades de organizar grandes turnês no início do ano, por causa dos invernos rigorosos na América do Norte e Europa.

Os fãs, com certeza, aprovariam. Resta saber se os patrocinadores concordam. No Brasil, nem sempre o cliente tem razão.

Escrito por André Barcinski às 00h33

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Claude Chabrol (1930-2010)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Que ano para o cinema francês! Em janeiro morreu Eric Rohmer. Agora foi a vez de Claude Chabrol.

 

Leia obituário de Chabrol aqui.

 

De todos os cineastas da Nouvelle Vague, Chabrol foi o meu favorito.

 

Godard é um cineasta que eu respeito mais do que gosto, e Truffaut era muito instável: para cada “Os Incompreendidos”, lançava três bombas tipo “A Noite Estava de Preto” ou “Farenheit 451”.

 

Chabrol fez quase 80 filmes para cinema e TV. De todos os diretores da Nouvelle Vague, foi quem mais filmou. Fez alguns filmes inesquecíveis.

 

Aqui vai uma lista dos meus cinco filmes favoritos de Chabrol. Concorde, discorde, me xingue, mas não fique aí parado, e faça também a sua lista...

 

Nas Garras do Vício (Le Beau Serge, 1958)

Longa de estréia de Chabrol e um dos marcos da Nouvelle Vague, conta a história de um rapaz que volta à sua pequena cidade e percebe a ruína psicológica de seu melhor amigo, que acabou de perder um filho. Chabrol ataca o tema que seria corriqueiro em sua obra: o mal que se esconde por trás da fachada de respeitabilidade da burguesia.

 

A Besta Deve Morrer (Que La Bête Meure, 1969)

Quando seu filho de nove anos é atropelado e morto, um homem começa a investigar a identidade do assassino, e as pistas levam a uma famosa atriz. Um estudo sobre a vingança, com a acidez e – por que não? – morbidez de Chabrol .

 

O Açougueiro (Le Boucher, 1970)

Numa cidadezinha provinciana, uma professora começa um flerte com o simplório açougueiro local, mas passa a suspeitar que ele seja o autor de uma série de crimes que aterrorizam a região. Hitchcock disse que gostaria de ter feito esse filme, o que já diz o suficiente. Indispensável.

 

Viollette Nozière (1978)

Poucas vezes a sociedade burguesa foi retratada de maneira tão ácida. Viollette (Isabelle Hupert) é uma adolescente na França dos anos 30 que, para rebelar contra os pais, se prostitui. Depois que os pais descobrem, ela tenta matá-los com veneno.

 

Mulheres Diabólicas (La Cerémonie, 1995)

Um dos meus filmes prediletos dos anos 90. Uma sangrenta parábola sobre a luta de classes. Sandrinne Bonnaire faz uma empregada analfabeta e problemática que é contratada por uma família de ricaços. Ela acaba conhecendo uma misteriosa funcionária dos Correios (Isabelle Huppert) e, juntas, começam a tramar uma vingança contra a família. De arrepiar.

Escrito por André Barcinski às 20h23

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha.com. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha.com.