André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Em defesa de Tiririca

Pra começo de conversa: eu não voto no Tiririca.

Confesso que ri muito com as aparições dele no horário eleitoral, mas acho a candidatura uma palhaçada e não jogo meu voto fora.

Mas acredito que viver numa democracia implica em aturar o que não me agrada.

Por isso, não me conformo com a notícia de que a Procuradoria Regional Eleitoral de Sâo Paulo quer impugnar a candidatura de Tiririca por suposto “crime eleitoral”. Só pode ser piada. Leia aqui.

O promotor eleitoral Mauricio Antonio Ribeiro Lopes, do Ministério Público Eleitoral de Sâo Paulo, disse, em entrevista ao UOL, que vê na propaganda do candidato do bordão “pior que está não fica” infração capaz de levar a uma impugnação da candidatura. “É propaganda irregular. Vislumbro infração ao artigo 5º da resolução 23.191 do TSE”, declarou.

 

O artigo mencionado por ele diz: "A propaganda, qualquer que seja a sua forma ou modalidade, mencionará sempre a legenda partidária e só poderá ser feita em língua nacional, não devendo empregar meios publicitários destinados a criar, artificialmente, na opinião pública, estados mentais, emocionais ou passionais (Código Eleitoral, art. 242, caput)". No entender do promotor, o conteúdo da propaganda eleitoral de Tiririca se enquadra nesses termos e poderia levar a uma impugnação da candidatura.

 

Desculpe, promotor, mas acho que não entendi direito.

 

Quer dizer que o bordão do Tiririca pode levar os eleitores a “estados mentais emocionais ou passionais”?

 

Quem ficou em estado mental passional fui eu, ao ler tanta baboseira.

 

Pra falar a verdade, eu já desconfiava que iam inventar alguma coisa assim. Era esculhambação demais deixar o Tiririca zoando todo mundo na TV.

 

Que bom que temos a Procuradoria para nos defender contra candidatos de caráter duvidoso.

 

Agora só falta o promotor impugnar também os outros milhares de candidatos cujos bordões levam os eleitores a "estados mentais emocionais ou passionais", ou que mentiram em suas declarações de renda. Ou os que fizeram coisas piores.

 

Sem Tiririca, essa grande ameaça à democracia, agora podemos dormir tranqüilos. Obrigado, Procuradoria!

Escrito por André Barcinski às 18h41

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Frente a frente com Rod Steiger

 

 

 

 

 

 

 

 

O ano: 1994. O evento: o lançamento de “O Especialista”, mais um abacaxi protagonizado por Sylvester Stallone.

O luxuoso hotel art déco em Miami amanheceu lotado de jornalistas. Além de Stallone, estavam lá Sharon Stone, James Woods e Eric Roberts.

A imprensa só queria saber de Sharon Stone. Esta, sempre buscando uma entrada triunfal, apareceu para a entrevista de maiô, coberta por um robe, como se tivesse acabado de sair da piscina (e ainda maquiada, Miss Stone?).

Mas quem eu realmente queria entrevistar era um dos meus grandes heróis do cinema e que fazia um pequeno papel no filme: Rod Steiger.

Steiger era um dos poucos remanescentes da época de ouro de Hollywood. Um gigante que contracenou com Bogart e Brando e trabalhou com Elia Kazan (“Sindicato de Ladrões”, 1954), Norman Jewison (“No Calor da Noite”, 1967), Sidney Lumet (“O Homem do Prego”, 1964), David Lean (“Doutor Jivago”, 1965), Francesco Rosi (“Lucky Luciano”, 1973) e tantos outros. Uma lenda.

Quando o ator apareceu para a entrevista, a maioria dos jornalistas que estava em minha mesa já tinha sumido. Sobraram só dois. Melhor assim.

Steiger tinha 69 anos e estava se recuperando de uma fase braba. Havia passado por uma crise de depressão profunda. Nem parecia o mesmo gordinho explosivo que eu conhecia das telas. De aparência frágil, usava uma bengala e falava devagar e baixinho.

Mas a boca continuava feroz. Conhecido por seu temperamento ácido e pouca paciência com a mediocridade, Steiger soltou os bichos.

Ele sabia que “O Especialista” era uma bomba. “Não é nenhuma obra-prima”, disse, irônico. “Eu faço um gângster cubano, meio Don Corleone. Foi um papel muito fácil e que não exigiu nada. Mas fiquei feliz pelo convite. Quando se esteve tão por baixo quanto eu, qualquer convite é bem-vindo”.

Quando perguntei sua opinião sobre a Hollywood dos anos 90, o coroa ficou vermelho: “Os produtores hoje são todos uns ignorantes. Outro dia um desses yuppies me ligou, queria me convidar para um filme. Ele perguntou: ‘você sabe fazer sotaque sulista?’ Eu disse: ‘Seu cretino, eu ganhei um Oscar fazendo sotaque sulista!’” (por “No Calor da Noite”, em que interpretou um policial racista).

Steiger falou sem rodeios sobre sua depressão: “Várias vezes cheguei bem perto de me matar. Eu ficava sonhando em pegar um bote, ir para o meio de um lago e dar um tiro na cabeça. É uma doença poderosa, que te engole pouco a pouco.”

De Elia Kazan, com quem filmou o grande “Sindicato de Ladrões”, Steiger não guardava boas lembranças. Em 1952, Kazan dedurou supostos comunistas de Hollywood, incluindo o ator John Garfield, às comissões do Senador Joseph McCarthy. Garfield foi boicotado pelos estúdios, nunca mais filmou e morreu poucos meses depois, aos 39 anos.

“Kazan era um grande diretor, e fico muito feliz por ter trabalhado com ele (Steiger foi indicado a um Oscar pelo filme). Mas o que ele fez com companheiros de profissão foi uma baixeza. Kazan era um homem rico, poderia ter se recusado a dedurar os companheiros, mas ele fez isso porque quis.”

Steiger era um sujeito de convicção. Quando Martin Luther King foi assassinado, em abril de 1968, ele foi o único branco membro da Academia de Hollywood a ameaçar boicotar a cerimônia do Oscar se o evento não fosse adiado para depois do enterro de King.

Rod Steiger morreu em 2002. E “O Especialista” tornou-se um filme inesquecível para mim. Por causa dele, tive a chance de conhecer Rod Steiger.

Escrito por André Barcinski às 00h36

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Dez manchetes que abalaram o mundo

 

 

 

 

 

 

 

 

 Aqui vai uma seleção das dez notícias mais óbvias dos últimos dias:

1) “Fidel Castro diz que modelo econômico de Cuba não funciona mais”

2) “Stephen Hawking descarta papel de Deus na criação do universo”

3) “Filha de Bob Marley confessa ter plantado maconha em casa”

4) “Homem que venceu concurso de maior bebedor morre intoxicado no Peru”

5) “Narcotráfico na América Latina dá sinais de ‘insurgência’, diz Hillary Clinton”

6) “Prostitutas do Senegal ficam sem trabalho durante o mês do Ramadã”

7) “Prefeitura do Rio retira obstáculos na calçada e estacionamento irregular aumenta na cidade”

8) “Seleção brasileira de futebol não sabe com quem joga no mês que vem”

9) “Espanha, campeã da Copa, leva de 4 da Argentina”

10) “Seleção da Espanha, campeã mundial, é surpreendida pela Sérvia e eliminada do mundial de basquete”*

*Essas duas últimas manchetes tornam-se óbvias quando precedidas desta (de 11 de julho):

“Carlinhos Brown divulga música em homenagem à vitória da Espanha na Copa”

Escrito por André Barcinski às 02h37

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Hora de fazer justiça ao SWU

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Há algumas semanas, critiquei aqui o festival SWU por alguns pontos que, na minha opinião, prejudicavam o evento.

Entre os pontos criticados estava uma certa esquizofrenia no line-up, que juntava artistas muito diferentes (Pixies e Linkin Park no mesmo dia?), e o fato de menores não poderem ver os shows.

Desde então, o SWU anunciou algumas mudanças.

Em primeiro lugar, menores agora podem entrar, desde que acompanhados de responsáveis legais.

Ótimo. Barrar menores no show do Linkin Park realmente não fazia sentido.

O line-up também mudou, e muito. Foram anunciados Queens of the Stone Age, Rage Against the Machine, Mars Volta, Yo La Tengo e, para quem gosta, o Los Hermanos.

Torço muito para o sucesso do festival. Em especial porque é o único evento, entre tantos anunciados para o segundo semestre de 2010 no Brasil, que não será realizado dentro da cidade. O SWU acontece em uma fazenda próxima a Itu.

Sempre achei que os promotores de shows no Brasil deveriam esquecer as metrópoles e focar em locais próximos às grandes cidades.

Não existe um local em São Paulo em condições de abrigar um show de grande porte. Isso é fato. Quem foi ao Radiohead na Chácara do Jockey ou a qualquer show no Morumbi sabe do que estou falando.

Engarrafamentos, flanelinhas, sujeira, atrasos, dificuldade para entrar, dificuldade para sair, falta de estacionamentos... Os problemas são muitos.

Em Sâo Paulo há o Sambódromo, mas vamos combinar que assistir a shows do lado daquele esgoto chamado Rio Tietê não é das experiências mais agradáveis.

Por que não o interior? Tem espaço de sobra. E o Brasil tem inúmeras cidades turísticas – tanto em praias quanto em montanhas – que se beneficiariam muito com os eventos.

Na Europa e Estados Unidos, quase todos os grandes eventos são realizados fora das metrópoles. Os shows impulsionam a economia e o turismo locais.

Claro que as estradas, o sistema de transportes e a infra-estrutura na Europa são muito melhores que as nossas. Você vai a qualquer festival de trem, numa boa.

Mas acho que está na hora de olharmos com um pouco mais de carinho para nossas cidades menores.

Espero que o SWU dedique à logística e produção o mesmo capricho que está tendo com o line-up. Se o evento for um sucesso e o público aprovar,quem sabe o festival não marque o início de uma nova mentalidade dos promotores nacionais?

Escrito por André Barcinski às 10h59

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha.com. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha.com.