André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

O Top 5 de Vittorio Gassman

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Se estivesse vivo, Vittorio Gassman, um dos maiores atores cômicos do cinema, teria completado 88 anos anteontem.

Aqui vai uma lista de meu cinco filmes prediletos de Gassman. Uma ótima pedida para um minifestival. Faça a sua lista e compare.

“Os Eternos Desconhecidos” (Mario Monicelli, 1958)

Minha comédia predileta, junto com “Duck Soup” dos irmãos Marx, e “Sherlock Junior”, de Buster Keaton. Sem dúvida, tem o melhor elenco já reunido para uma comédia: Gassman, Marcello Mastroianni, Totó, Renato Salvatori, Memmo Carotenuto e Claudia Cardinale. Imbatível.

Uma demolidora sátira aos filmes de ladrões como “Rififi”, conta a história de um bando de idiotas que realizam o assalto mais desastrado do mundo. Só para ter uma idéia da sandice, Totó faz um especialista em explodir cofres. Uma obra-prima da comédia italiana, copiada na maior cara-de-pau por Woody Allen em “Trapaceiros”.

 

“A Grande Guerra” (Mario Monicelli, 1959)

Alberto Sordi, Vittorio Gassman e Totó são, na minha lista, os maiores cômicos do cinema italiano. Em “A Grande Guerra”, Sordi e Gassman estão juntos na pele de dois fanfarrões que tentam escapar do alistamento militar.

 

“Aquele que Sabe Viver” (Dino Risi, 1962)

Talvez a melhor atuação cômica de Gassman. Ele faz um boa-vida quarentão que só quer saber de mulheres e de pequenos golpes. Até que conhece um estudante, interpretado por Jean-Louis Trintignant, e o leva para um fim-de-semana de esbórnia na costa italiana. Engraçadíssimo e com um final arrasador.

 

“O Incrível Exército de Brancaleone” (Mario Monicelli, 1966)

Difícil imaginar o que seria do Monty Python sem a influência de “Brancaleone”. É uma sátira aos filmes sobre a Era Medieval, com Gassman no papel-título, um cavaleiro inspirado em Dom Quixote e que comanda uma trupe de maltrapilhos pela Europa. Indispensável.

 

“Nós que Nos Amávamos Tanto” (Ettore Scola, 1974)

Confesso que acho Scola um cineasta bem irregular, que costuma escorregar para a pieguice. Não é o que ocorre aqui, nesse filme emocionante que acompanha 30 anos na vida de três amigos (Gassman, Nino Manfredi e Stefania Sandrelli). Gassman mostra que sabia, balancear humor e melancolia como poucos. Um filmaço.

Escrito por André Barcinski às 09h24

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Frente a frente com Gary Busey, o maníaco de Hollywood

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Você certamente conhece Gary Busey. Mesmo que não tenha assistido à sua melhor atuação no cinema, no papel de Buddy Holly em “The Buddy Holly Story” (quando foi indicado a um Oscar), já deve ter visto aquela cara de maluco em “Máquina Mortífera”, “Predador 2” ou “A Firma”.

Gary Busey é um mito em Hollywood.

Não há um jornalista, ator ou agente de Hollywood que não tenha uma história maluca sobre o sujeito.

Busey é aquele tipo de ator intenso e explosivo, na praia de Dennis Hopper e James Caan. Nunca fez tanto sucesso quanto esses, mas, em matéria de maluquice, está disputando o pódio.

A cocaína e a bebida quase o mataram.

Em 1988, sofreu um seríssimo acidente de moto. Quase morreu. Médicos temiam que a colisão tivesse danificado seu cérebro ainda mais.

O Youtube está cheio de grandes momentos de Gary Busey: Busey agarra Jennifer Garner no tapete vermelho do Oscar; Busey diz que vai morar no Brasil; Busey maltrata uma repórter adolescente. Selecione, prepare a pipoca, e bom divertimento.

Separei aqui um dos melhores momentos: Gary Busey conta a David Letterman, em 1990, sobre seu trabalho numa fazenda, aos 14 anos, quando recebeu a missão de impedir que um bode trepasse com três leitoas.  É de passar mal.

Fiquei pouco tempo em Hollywood, apenas três anos, mas o suficiente para colecionar pelo menos uma boa história de Gary Busey.

Em 1994, fui cobrir o lançamento de “Drop Zone” (“Zona Mortal”), um policial de quinta com Wesley Snipes, sobre bandidos que praticavam assaltos pulando de paraquedas. Gary Busey interpretava um às paraquedista.

As entrevistas aconteciam em um luxuoso hotel de Los Angeles. Como era praxe, grupos de cinco ou seis jornalistas se dividiam em mesas em algum grande salão, e os atores e o diretor visitavam cada mesa por 20 ou 30 minutos.

Gary Busey chegou à nossa mesa. Parecia agitado. Nunca vi ninguém com tantos tiques nervosos. Ele fechava e abria os olhos, fazia biquinhos e torcia o nariz. Tomou uma água e se acalmou.

Começaram as perguntas. Mas Busey não falava nada. Ele não conseguia tirar os olhos do decote de uma jornalista espanhola. “O que você disse? Desculpe, não ouvi, você pode repetir? Eu estava olhando aqueles peitões ali!”

A pergunta seguinte foi sobre a dificuldade em filmar as cenas dos saltos.

Alguma coisa clicou no cérebro de Gary Busey: “Você quer saber se foi difícil?” Vou te mostrar como se salta de paraquedas!”

Busey daí subiu na mesa, ficou de pé e gritou: “10 mil pés de altura... você caminha para a porta do avião... a adrenalina está transbordando, e você faz assim...”

E se jogou no ar. Voou e caiu de peito no carpete do hotel. O barulho foi tamanho que eu achei que ele tinha quebrado a coluna.

Mas não aconteceu nada. Gary Busey levantou, sentou na cadeira e continuou a entrevista. Mitos não morrem.

Escrito por André Barcinski às 01h27

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Ouça este disco e tenha uma vida mais feliz!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Faz quase um ano que baixei, num torrent, os doze volumes de “Lux and Ivy’s Favourites”. Praticamente não consigo ouvir outra coisa desde então. Virou uma obsessão.

“Lux” e “Ivy” são, claro, Lux Interior e Poison Ivy, o casal que formava o Cramps, a maior banda de rock de todos os tempos. Lux morreu em fevereiro de 2009, deixando uma lacuna que nunca será preenchida. Não havia ninguém como eles.

Além de formar o Cramps, eram colecionadores alucinados de discos.

 A obsessão da dupla era a estranheza, o bizarro e o primitivo. Rockabilly, surf, doo wop, big bands, merengue, country, trilhas sonoras, funk, gospel, punk rock... Não importava o gênero. Bastava ser estranho e assustador.

A compilação é uma das maiores provas de adoração de um fã. Kogar the Swinging Ape, ou quem quer que seja este abençoado, levou quase 15 anos juntando todas as músicas que Lux e Ivy citavam em entrevistas.

“Não estou nessa para ganhar dinheiro”, escreveu a figura. “Meu único objetivo era fazer compilações legais para ouvir e distribuir para os amigos”. Onde quer que você esteja, Kogar, obrigado! Você fez a minha vida MUITO mais feliz!

O resultado são doze arquivos com mais de 350 faixas. Eu conhecia menos de uma dúzia. Cada uma é uma porta de entrada para um mundo onde a música pop era mais perigosa e imprevisível.

Você pode baixar os arquivos aqui, além de ouvir uma sensacional entrevista com a dupla.

Diz Lux na entrevista: “Se crianças não forem expostas a música estranha, elas podem muito bem crescer, ir à escola, arrumar empregos, ter filhos... e morrer! Sem nunca ter experimentado a loucura! Isso é muito perigoso!”

Que falta esse cara faz.

Ouça aqui cinco de minhas prediletas de “Lux and Ivy’s Favourites”:

 

Escrito por André Barcinski às 09h53

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Frente a frente com G.G. Allin, o suicida hesitante

Estreando a série “Frente a Frente”: um relato sobre o punk que levou a imundície ao rock.

Corria o ano de 1993. Eu estava em Seattle para cobrir um festival de música, quando uma notícia num jornal local chamou minha atenção: naquele dia tinha show de G.G. Allin!

 

Fatos como esse eram raros. G.G. Allin tinha mandados de prisão em pelo menos 15 Estados americanos, e raramente se apresentava ao vivo. Ele saíra há pouco da cadeia, onde cumprira dois anos por atear fogo à namorada na frente do sogro.

 

Para quem nunca ouviu falar de Allin, sugiro dar uma busca rápida na web e assistir ao documentário “Hated”. Ou a alguma das engraçadíssimas aparições de G.G. nos programas sensacionalistas da TV americana, onde ele se dizia “o Messias” e aterrorizava pais prometendo “liderar seus filhos numa revolução contra o governo, a polícia, a igreja e a sociedade”.

 

O cara teve uma vida e tanto. Filho de um caipira tarado e fanático religioso que o batizou de Jesus Christ Allin, G.G. tornou-se um ícone da cena punk extrema. Sua música sempre foi uma porcaria, mas suas atitudes no palco fizeram dele um astro em alguns círculos.

 

Os shows de Allin eram festivais de sadismo e excrementos. Ele se cortava, defecava e urinava no palco e na platéia, surrava fãs, apanhava de outros, botava fogo no palco e andava pelado para todo canto. Em 1988, prometeu que cometeria suicídio em um show na noite de Halloween. Só que o dia chegou e ele estava em cana. No ano seguinte, continuava no xadrez. Mais um Halloween chegou, e G.G. continuava preso.

 

A cada show, o público lotava o lugar para conferir se Allin ia cumprir a promessa. Mas ele nunca chegou às vias de fato. “Só vou me matar quando chegar no auge”, dizia.

 

Separei aqui alguns trechos de um artigo que escrevi sobre o show na “Bizz”, em agosto de 1993 (obrigado ao Elson Barbosa por ter me enviado a reportagem):

 

“O show foi no clube Under the Rail, em Seattle. Pelo menos metade da platéia era Hell's Angels ou similares. O show foi aberto pelas bandas Lesbian Muff Divers (Lésbicas Chupadoras de Xoxota) e The Sound of Fuck (O Som da Foda).

 

Pergunto a G.G. sobre sua nova excursão e ele se mostra pessimista: "Não posso tocar em lugar nenhum que a polícia está sempre atrás de mim. Tenho convites para shows no Canadá, mas não me deixam passar na fronteira. E, se eu por acaso passar, os Estados Unidos não me aceitam de volta!".

 

Sobre a mania de degustar os próprios excrementos e distribuí-los aos fãs, G.G. disse: "Me considero um deus do rock'n'roll. Por isso, meus fluidos e excrementos também são sagrados. Eu como minhas fezes porque não quero deixar fluidos sagrados perdidos por aí, em qualquer lugar".

 

Mas ele também tinha senso de humor: no meio do show, pegou um pôster de Eddie Vedder, rasgou o rosto do cantor e introduziu o pinto no papel. Cantou uma música inteira com Vedder pendurado no bilau.

 

No final do show, G.G. pegou um litro de álcool e tacou fogo no palco. O espetáculo terminou com os bombeiros em desespero tentando apagar as chamas, enquanto ele, pelado, continuava a cantar, mesmo depois que todos os outros membros da sua banda já haviam fugido do palco.”

 

G.G. Allin nunca cumpriu a promessa de se matar no palco.

 

Em 28 de junho de 1993, em um show em Nova York, G.G esmurrou um cara na platéia e uma briga violenta degenerou por todo o clube. A polícia chegou e prendeu um monte de gente. Mesmo pelado, o cantor saiu pela porta da frente e andou quatro quarteirões até a casa do líder da banda Genocide, Jimmy Puke (Jimmy Vômito). Quatro horas depois, estava morto de uma overdose de heroína.

 

Sua morte foi chorada por amigos e fãs. Bom, na verdade, o velório foi um festão: Allin foi colocado no caixão pelado e com uma garrafa de Jim Bean na mão. Amigos e fãs passaram o dia todo zoando o cadáver e tirando fotos obscenas com ele. Uma farra.

 

Uns dois anos depois da morte de G.G. Allin, eu estava andando por uma feira de antiguidades no Chelsea, em Nova York, quando vi uma comoção na rua: pessoas revoltadas se juntavam na calçada, xingando alguém. Era Merle Allin, irmão mais velho de G.G. e baixista de sua banda, Murder Junkies. Ele estava vestido de soldado nazista, com capacete e bigodinho de Hitler, e andava tranquilamente com a namorada, de mãos dadas, apreciando as antiguidades.

 

Escrito por André Barcinski às 10h17

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Discos clássicos e esquecidos: Pere Ubu - “The Modern Dance” (1976)

David Thomas, o cérebro por trás do Pere Ubu, é um dos grandes frasistas do rock.

Quando instigado a definir o estilo de sua banda, não titubeou: “avant-garage”.

Ele tem razão. O Pere Ubu parece uma banda de rock de garagem dos anos 60 que acordou no meio dos 70 e conheceu o krautrock de Neu!, Can e Faust. É a vanguarda do retrô.

David Thomas vem de Ohio. E a julgar pelas bandas que saíram de lá nos anos 70, Ohio deve ser um lugar bem esquisito: Rocket from the Tombs, Dead Boys, The Cramps, Pretenders, Devo.

Thomas era do Rocket from the Tombs. A banda se desmembrou: metade caiu no punk rock clássico e fundou o Dead Boys. Já ele, que tinha um horizonte musical mais amplo, montou o Pere Ubu, nome inspirado em “Ubu Rei”, a peça surrealista de Alfred Jarry.

O primeiro disco do Pere Ubu é “The Modern Dance”. Impressionante notar que esse disco foi lançado em 1976. Enquanto o punk ainda dava seus primeiros passos e bandas se contentavam com dois acordes e niilismo, Thomas e o Ubu destilavam a sua versão do punk rock, uma música livre e que não se prendia a nada. Não foi surpresa que não vendeu nada.

Está aí um disco realmente impossível de classificar. “Rock” demais para ser experimental, estranho demais para ser punk. Thomas desdenhava dos clichês do rock e sempre viu a banda mais como um experimento teatral musicado.

Ao mesmo tempo, a atitude de Thomas e sua visão do mercado da música são o mais punk que se possa imaginar. “O Pere Ubu é a banda mais fracassada de todos os tempos”, disse ele. “Ninguém mais teve tantos fracassos em um período tão longo quanto nós.”

E o fracasso continua até hoje. Entre idas e vindas, David Thomas mantém o Pere Ubu vivo. Assista a um vídeo do grupo tocando “Non-Alignment Pact”, talvez a melhor música de “The Modern Dance”, em 2010.

Escrito por André Barcinski às 12h07

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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