André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

sexo, assassinos seriais e cangurus: é o cinema B australiano!

Mais Austrália. Conforme prometido, aqui vai uma listinha pessoal de grandes filmes australianos. Com destaque para a incrível safra dos anos 70...

 

Além de Hollywood (Mark Hartley, 2008)

Para começar, que tal um ótimo documentário sobre o cinema B australiano dos anos 70 e 80? Passa de vez em quando no Telecine Cult.

Incrível como a gente conhece tão pouco sobre o cinema australiano. Segundo o documentário, uma isenção fiscal criada pelo governo nos anos 70 provocou uma avalanche de investimentos em filmes. Fez-se de tudo na Austrália: pornôs, faroestes, ficção-científica, filmes de gangues, policiais...

“Além de Hollywood” é um documentário detalhista e informativo. Traz mais de oitenta entrevistas com diretores, atores, dublês e fãs, como Quentin Tarantino.

As histórias e cenas de arquivo são inacreditáveis. Temos Dennis Hopper em 1976, vivendo sua fase mais fora de órbita e quase morrendo de álcool e drogas durante as filmagens do faroeste surrealista “Mad Dog Morgan”, temos a história de um dublê considerado o mais louco e irresponsável do mundo e temos diretores contando que usavam munição de verdade em cenas de tiroteio. Filmão.

 

Walkabout (1971)

Escrevi sobre essa maravilha anteontem. Leia abaixo.

 

Mad Max (George Miller, 1979)

As várias continuações (incluindo aquela coisa ridícula com a Tina Turner) são pura perfumaria.  O original é outra história. Um faroeste moderno num cenário pós-apocalíptico, onde motos substituem os cavalos e a busca não é pelo ouro, mas por gasolina. Mel Gibson imita Charles Bronson até na economia de gestos. Um filmaço que faria Sergio Leone orgulhoso.

 

Picnic na Montanha Misteriosa (Peter Weir, 1975)

Conhece o trabalho do fotógrafo inglês David Hamilton? Ele ficou famoso por retratos enevoados de ninfetas, carregados de sugestão sexual. “Picnic na Montanha Misteriosa” é uma mistura das imagens de Hamilton com o terror psicológico de Henry James.  Em 1900, um grupo de alunas de uma rígida escola faz uma excursão a uma formação rochosa misteriosa. Algumas desaparecem sem deixar rastro. Assista. É obrigatório.

 

Outback / Wake in Fright (Ted Kotcheff, 1971)

O livro em que o filme foi inspirado, “Sobressalto”, de Kenneth Cook, acaba de ser lançado no Brasil pela Grua Livros. O filme é um “road movie” do inferno sobre um professor que se vê perdido em uma cidadezinha no meio do deserto australiano. Faria uma sessão tripla perfeita com “Sob o Domínio do Medo”, de Sam Peckinpah, e “Amargo Pesadelo”, de John Boorman, três obras-primas sobre aquele ponto sem volta onde o pretenso homem civilizado vira bicho.

 

Wolf Creek – Viagem ao Inferno (Greg Mclean, 2005)

Fiquei uns três dias sem dormir direito depois de assistir a essa bomba atômica. Jovens resolvem passear pela Austrália e acabam capturados por um caipira sádico. A história é manjada. Já o clima de pânico e medo é inigualável. Tarantino homenageou o filme em “À Prova de Morte”: num dos muitos acidentes de carro mostrados, um automóvel desgovernado destrói a placa de um drive-in que exibe “Wolf Creek”.

 

Roadgames (Richard Franklin, 1981)

A Austrália é um país enorme e cheio de estradas. Também deve ter muita gente maluca. Só assim dá para explicar a quantidade de “road movies” sobre assassinos seriais. “Roadgames” é um dos melhores. Uma Jamie Lee Curtis no auge da gostosura pega carona com o caminhoneiro interpretado por Stacy Keach. Na estrada, enfrentam em misterioso assassino serial. “É ‘Janela Indiscreta’ dentro de um caminhão”, diz o diretor Richard Franklin no documentário “Além de Hollywood”.

 

“Stone” (Sandy Harbutt, 1974)

Um filme de motoqueiros que faz “Sem Destino” parecer “O Rei Leão”. Ken Shorter interpreta Stone, um policial infiltrado numa gangue e que acaba virando um monstro sádico, um viking numa Kawasaki com apetite inesgotável para estupros, pancadaria e tiros. Cinema B. De brutal.

 

Razorback, as Garras do Terror / O Corte da Navalha (Russel Mulcahy, 1984)

Javailis assassinos atacam moradores no deserto australiano. Eu sei, a sinopse não recomenda muito. Mas o filme é ótimo, acredite. Assisti num Cine Marrocos às moscas. Gostei tanto que voltei no dia seguinte. Mulcahy ficou famoso pelo clipe de “Video Killed the Radio Star”, do Buggles, o primeiro exibido na MTV, em 1981. Saiu-se melhor com os javalis.

Escrito por André Barcinski às 00h06

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Karate Kid, ou por que filmes são tão ruins?

 

 

 

 

 

 

 

 

No início de 1980, a crítica de cinema da revista The New Yorker, Pauline Kael, escreveu um artigo premonitório: “Por que os Filmes são Tão Ruins? Ou, os Números”. Separei algumas frases aqui:

“Filmes são tão ruins ultimamente que eu não acho que eles estejam atraindo o público, acho que eles estão herdando um público.”

“Os estúdios acreditam que bons resultados de bilheteria são prova de que os espectadores gostam dos filmes, assim como executivos de TV acreditam que os programas de maior audiência são os que o público quer, e não os que o público aceita.”

“Há várias razões pelas quais filmes são tão ruins hoje em dia e provavelmente continuarão a ser ruins pelos próximos anos, e a maior delas é que muitos filmes ruins estão fazendo dinheiro.”

Corta para 2010. Trinta anos se passaram, e nada mudou.

Amanhã estréia “Karate Kid”, refilmagem de um grande sucesso dos anos 80.

Se fosse viva, aposto que Kael escreveria: “Por que os filmes continuam tão ruins?”

O artigo de Kael não envelheceu um dia. Filmes continuam ruins, pelas mesmas razões que ela antecipava:

“Estúdios não fazem filmes primordialmente para satisfazer ao público; eles fazem filmes para lucrar o máximo possível com acordos e contratos pré-arranjados.” (não é isso que acontece hoje, com sequências, refilmagens, venda de merchandising e produtos relacionados?)

“Há um lado ainda mais sombrio nisso tudo: como os estúdios descobriram como tirar o risco de fazer filmes, ninguém mais quer fazer filmes sobre o qual eles não possam ter total controle (...) a indústria tem medo, pânico até, de projetos considerados arriscados.”

Assisti a “Karate Kid” essa semana. O filme tem Jaden Smith, filho do überastro Will Smith, no papel que foi de Ralph Macchio no original. A história é igualzinha, exceto pelo fato de ser passada na China.

O filme é de uma imbecilidade anestesiante. Um festival de clichês. Será que estamos nos acostumando a ser anestesiados assim?

A questão é mais profunda: por que filmes ruins fazem sucesso? Seria porque o público, submetido a anos e anos de dramaturgia televisiva de quinta, está tão habituado a engolir clichês que não consegue absorver nada diferente? Seria o “ruim” o novo “bom”? Mudaram os padrões?

Uma coisa é certa: os estúdios aperfeiçoaram tanto suas estratégias de marketing e pesquisa que conseguem prever, com incrível índice de acerto, o resultado financeiro de filmes mesmo antes do lançamento.

Filmes não são mais filmes, são projetos de marketing. Junte astro “x” com astro “y”, use um tema “w”, lance em tantas salas na data programada, e bingo!

Não importa que o filme não preste. O público médio não dá mais atenção a críticos e nem tem capacidade de distinguir entre crítica e publicidade.

É só fazer uma avalanche arrasadora de anúncios e spots de TV. Quando o público perceber que o filme não presta, já será tarde demais: todo mundo já terá deixado seu dinheiro na bilheteria.

A bilheteria, aliás, é o novo parâmetro de qualidade. Hoje, discute-se resultados de bilheteria com mais tesão do que se discute os filmes. Sinal dos tempos.

Fica a dúvida: filmes são ruins porque o público aceita, ou o público aceita filmes ruins porque já não consegue distingui-lo dos bons? Ou seria uma combinação das duas coisas? Aguardemos os próximos capítulos...

Escrito por André Barcinski às 10h31

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

O melhor filme de todos os tempos

Pelo menos nessa semana, não consigo pensar em nenhum melhor que “Walkabout” (1971)

Cenas de uma cidade grande. Pessoas andam rápido pelas ruas. Crianças entram na escola. Carros zunem em avenidas lotadas.

Um pai pega os filhos de carro. Uma adolescente loura e linda e um menino pequeno, de cinco ou seis anos.

A família anda no carro por um bom tempo, até chegar ao deserto. O pai pára o automóvel. Os filhos saem. O pai tira uma arma e atira nas crianças. Erra. Frustrado, ele incendeia o carro e se mata.

Não há explicação. Não sabemos quem é o pai ou quem são os filhos.

As crianças estão sozinhas e perdidas na imensidão do deserto australiano. Famintas e sedentas, são salvas por um adolescente aborígene.

Isso é só o começo de “Walkabout” (1971), de Nicholas Roeg.

Não vou contar mais para não estragar as surpresas, que são muitas.

Lembrei do filme depois de assistir, dia desses, a um incrível documentário sobre cinema B australiano, “Além de Hollywood”. Passa de vez em quando no Telecine, vale a pena procurar.

Tudo em “Walkabout” é estranho. Estranho talvez como a própria Austrália, um lugar que não se define entre a modernidade e as tradições nativas. Um país perdido entre duas épocas igualmente brutais.

“Walkabout” já foi definido de várias maneiras: “onde a civilização encontra o primitivo”; “um filme sobre o selvagem que existem em cada um de nós”. Eu acho que, apesar de parecer uma tragédia, no fundo é um filme esperançoso, sobre o milagre de comunicação.

De alguma forma, as duas crianças, filhas da classe alta urbana, são idênticas e se entendem perfeitamente com o menino aborígene. Fica a pergunta: quem é o selvagem?

Assista. Parece que saiu em DVD no Brasil como “A Longa Caminhada”.

Que país a Austrália, não? Prometo, para breve, um post sobre “Além de Hollywood” e o cinema marginal australiano. Tem muita coisa boa.

Escrito por André Barcinski às 10h16

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Adeus, geral! (e adeus ao Maracanã, como nós o conhecemos)

 

 

 

 

 

 

 

Domingo foi o último jogo das cadeiras azuis do Maracanã.

As cadeiras azuis, também conhecidas por “geral vip”, ficam no lugar onde, anos atrás, estavam as saudosas gerais do Maracanã. A geral era o único espaço do estádio onde as torcidas se misturavam.

Nas cadeiras azuis, também não havia divisão entre torcedores. Crianças não pagavam entrada. E você ainda ficava longe das torcidas organizadas. O que transformou o lugar num ponto de encontro de famílias, onde você podia levar seus filhos sem medo de brigas ou de confusão.

Quem tem filhos e gosta de futebol sabe que poucas coisas no mundo são tão delirantes quanto levar os pequenos ao Maraca. Tenho uma filha de 2 anos e meio, que já foi algumas vezes. A primeira vez que ela viu os times entrando em campo, com aquela explosão de cores e bandeiras, parecia que ia explodir de felicidade. Nem piscava.

Por causa da Copa, as azuis foram fechadas domingo. O estádio só reabrirá por completo em 2013.

Não sei exatamente o que será construído no lugar das azuis. Só torço para que algum iluminado mantenha pelo menos um local do estádio que não tenha divisão entre torcidas.

Precisamos sempre lembrar que o torcedor – não o torcedor profissional, mas o torcedor de verdade, que paga ingresso e gosta de futebol – não precisa ser separado dos fãs do time rival. As azuis do Maracanã mostraram que a convivência pode ser pacífica.

Escrito por André Barcinski às 00h52

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Copa do Mundo e Olimpíadas: ainda dá tempo de desistir?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dias estranhos esses. Primeiro, a Gol cancela 300 vôos e deixa milhares de passageiros dormindo em aeroportos.

Depois, um avião cai na Baía de Guanabara e fecha o Aeroporto Santos Dumont.

Na sequência, o governador do Rio, Sergio Cabral, chama de “otário” um menino que pediu a construção de quadras de tênis em sua comunidade. E Lula, num gesto de nobreza olímpica digna do Barão de Coubertin, diz que tênis é “esporte de burguês”. O que leva à inevitável pergunta: o que o presidente acha de badminton ou nado sincronizado?

Não parou por aí. Logo depois, o governador de Sâo Paulo, Alberto Goldman, descobre a pólvora e escreve um artigo dizendo que teremos caos no transporte aéreo se um novo aeroporto não for construído no Estado. E uma pesquisa mostrou que 57% dos brasileiros não querem dinheiro público usado nas obras da Copa. Tá bom.

No dia seguinte, leio que o Cubo D’Água, uma das obras mais espetaculares e caras das Olimpíadas de Pequim, reabriu como um parque aquático, mais de dois anos depois do fim dos Jogos. Um parque aquático de meio bilhão de dólares.

Depois, leio na Folha que o governo finalmente percebeu que as obras dos estádios da Copa estão atrasadas e pediu pressa às cidades-sede.  No mesmo dia, um grupo de marginais, voltando de uma festinha de arromba carregando metralhadoras e fuzis, é surpreendido pelo polícia e acaba invadindo um hotel de luxo em São Conrado.

Eram muitos os sinais.

Daí, tive a idéia de viajar de Sâo Paulo ao Rio de Janeiro pela Rio-Santos. Pude constatar algumas coisas:

A marginal Tietê e a Avenida Brasil continuam disputando pau a pau o posto de acesso mais lúgubre a uma metrópole.

A Rio-Santos até que vai bem até a fronteira de Sâo Paulo e Rio. Logo depois da placa, uma cratera de três metros de diâmetro dá as boas-vindas ao Rio de Janeiro.

A estrada Paraty-Cunha, rota de fuga em caso de acidente nuclear em Angra, continua interditada, 20 meses depois de uma tromba d’água em janeiro de 2009.

A Rio-Santos tem pelo menos seis locais com obras interrompendo o tráfego. Aparentemente, oito meses não foram tempo suficiente para consertar os trechos afetados pelos desabamentos de janeiro deste ano, que causaram mortes em Angra e na Ilha Grande.

O trecho em que a Rio-Santos encontra a Avenida Brasil lembra uma mistura de Bagdá com os desertos de “Mad Max”. Caminhões ziguezagueiam em alta velocidade fugindo dos buracos, enquanto pedestres suicidas cruzam a via a pé correndo por baixo de passarelas.

Quase fomos abalroados por um caminhão. O motorista estava sem camisa, falando no celular, e com olhos esbugalhados de que está sem dormir há cinco dias, à base de bolinha. E o melhor: transportando um carregamento de bujões de gás!

Fico imaginado o que acontecerá com um turista que vem assistir à Copa, resolve conhecer as belezas de Angra dos Reis e precisa passar por ali.

Mas o que eu realmente gostaria de saber é: o que acontecerá com os estádios da Copa e com as instalações das Olimpíadas depois que as competições terminarem?

Será que dá tempo de ligar na FIFA e no COI e desistir?

Escrito por André Barcinski às 09h11

Comentários () | Enviar por e- mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha.com. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha.com.