André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Luz... câmera... metal! (parte 2)

Segunda parte do especial com os melhores documentários sobre heavy metal

Metal: a Headbanger’s Journey (Sam Dunn, 2005)

O antropólogo Sam Dunn viaja pelo mundo entrevistando músicos, fãs e jornalistas. O resultado é um filme abrangente sobre os vários gêneros e subgêneros do metal. Não é emocionante como os documentários centrados em bandas específicas (Anvil, Metallica) e sofre de um certo didatismo, mas tem incríveis imagens de arquivos. Confira acima o filme na íntegra e com legendas.

 

Dream Deceiver: The Story Behind James Vance versus Judas Priest (David Taylor, 1992)

Em 1985, James Vance, 19 anos, viu seu melhor amigo se matar com um tiro. Vance pegou a mesma arma, apontou contra a própria cabeça e disparou. Sobreviveu. Mas seus pais processaram o Judas Priest, banda que, segundo Vance, o compeliu e ao amigo suicida, por meio de mensagens subliminares em discos. De gelar os ossos.

 

Paradise Lost: the Child Murders at Robin Hood Hills (Joe Berlinger e Bruce Sinofsky, 1996)

Não é exatamente um filme sobre heavy metal, mas o gênero é parte fundamental da história. Os diretores acompanham o julgamento de três jovens, fãs do Metallica, acusados de mutilar e matar três crianças em rituais satânicos. O filme ganhou uma continuação em 2000, em que as provas usadas no julgamento são questionadas. O Metallica gostou tanto do filme que chamou os diretores para fazer seu próprio doc, “Some Kind of Monster”.

 

Iron Maiden: Flight 666 (Sam Dunn e Scott Mcfayden 2009)

O Maiden embarca num avião – pilotado por Bruce Dickinson – e dá a volta ao mundo tocando para multidões. Divertido pelas cenas de bastidores e pelas imagens dos maidenmaníacos em diferentes países. Tem ótimas cenas no Brasil.

 

This is Spinal Tap (Rob Reiner, 1984)

OK, não é exatamente um documentário, mas uma obra de ficção posando de documentário, mas os exageros e idiossincrasias da banda fictícia Spinal Tap poderiam muito bem ser reais. Um clássico da comédia que não envelheceu um dia.

Escrito por André Barcinski às 00h10

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Luz... câmera...metal! (parte 1)

Você pode até não curtir heavy metal, mas os documentários são ótimos

Meu amigo Alexandre Cassolato mandou a recomendação: “Global Metal”, filme de 2008 que é continuação do ótimo “Metal: a Headbanger’s Journey” (2005).

Inspirado pela dica do Cassolato, listei meus dez documentários prediletos sobre heavy metal. Aqui vão os cinco primeiros (os outros cinco, posto amanhã):

 

Anvil: The Story of Anvil (Sacha Gervasi, 2009)

Um dos melhores filmes sobre música de todos os tempos. Absolutamente imperdível. O diretor acompanha alguns anos na vida da banda canadense Anvil, grande promessa do metal nos anos 80 e que acabou esquecida. Há uma sequência mostrando um show na Hungria, com quatro pessoas na platéia, que é um dos momentos mais comoventes e hilariantes já filmados. Confesso: eu choro toda vez que assisto a esse filme.

 

Metallica: Some Kind of Monster (Joe Berlinger e Bruce Sinofsky, 2004)

O Metallica se tranca num estúdio para gravar o disco “St. Anger”. No intervalo, o baixista Jason Newsted pede demissão, James Hetfield desaparece para se tratar de alcoolismo, e a banda decide contratar um psicólogo para uma terapia de grupo. Uma cena, em especial, me gela os ossos: quando Dave Mustaine, 20 anos depois de ser chutado da banda, acerta as contas com Hetfield e Lars Ulrich.

 

Heavy Metal Parking Lot (Jeff Krulik e John Heyn, 1986)

Em 1986, os diretores tiveram uma idéia simples e genial: foram até o estacionamento de um ginásio onde iam tocar Judas Priest e Dokken, ligaram a câmera e deixaram os headbangers pagarem todos os micos possíveis. O resultado é um clássico absoluto do cinema caseiro e item obrigatório em todo ônibus de turnê que se preza (era um dos filmes prediletos do Nirvana).

 

Until the Light Takes Us (Aaaron Aites e Audrey Ewell, 2009)

Estarrecedor filme sobre a cena de black metal norueguesa, com direito a assassinato, incêndios criminosos em igrejas e uma entrevista com Varg Vikernes (Burzum, Mayhem), preso pela morte de um colega de banda.

 

The Decline of Western Civilization Part 2 – The Metal Years (Penelope Spheeries, 1988)

Lemmy disse tudo: “Esse filme destruiu muitas carreiras. Ele fez todo mundo parecer idiota”. Não foi culpa da diretora Penelope Spheeries, claro, mas dos entrevistados, que parecem, de fato, idiotas. Ozzy Osbourne aparece fazendo café da manhã em sua cozinha e está tão chapado que consegue derramar metade de uma jarra de suco de laranja fora do copo. O filme é um registro histórico do metal e do hard rock no auge dos penteados mais ridículos de todos os tempos.

 

Escrito por André Barcinski às 00h45

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Da série "discos clássicos e esquecidos": Dirty Three, "Ocean Songs" (1998)

Para apreciar a música do Dirty Three é preciso reeducar o ouvido. A música é tão esparsa que passamos a valorizar não só os sons, mas o silêncio entre as notas. É uma música orgânica, quase sólida. A impressão é de que as melodias estão pairando à nossa frente, suspensas no ar. Uma coisa do outro mundo.

Dirty Three é um trio instrumental australiano formado por Warren Eliis (violino), Mick Turner (guitarra) e Jim White (bateria). Se você acha que já ouviu falar de algum deles, pode estar certo. Warren Ellis é um antigo colaborador de Nick Cave, membro do Bad Seeds e do Grinderman (não confundir com outro Warren Ellis, o cultuado desenhista de gibis).

É difícil definir a música do Dirty Three. “Folk ambient jazz” talvez chegue perto. São mantras melancólicos e lentos, algo fantasmagóricos, sem uma estrutura rígida, que parecem surgir do nada e não terminam, mas desaparecem lentamente no ar.

Os sons que Warren Ellis tira de seu violino são lamentos minimalistas de cortar o coração. A guitarra de Mick Turner surge por trás, dando peso ao todo, lançando no espaço acordes etéreos que transportam o ouvinte para um lugar longe daqui.

“Ocean Songs” parece trilha sonora. Mas do quê? O nome sugere músicas sobre oceanos. Mas o som não remete a nenhum paraíso tropical. As melodias lembram mais praias rochosas e negras numa tarde de chuva. Incrível como uma música tão minimal pode conter tanta coisa.

Escrito por André Barcinski às 10h00

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Vamos combinar: "A Origem" é uma chatice

Foi só eu publicar na Folha uma crítica dando “regular” para “A Origem” que uma chuva de e-mails chegou. O adjetivo mais brando foi “idiota”. Foi daí pra baixo.

Duas coisas impressionam: em primeiro lugar, a intolerância dos fãs com qualquer opinião contrária. Eu sempre preferi ler opiniões diferentes da minha. Já a maioria parece gostar só de críticas que corroboram as suas próprias idéias. Vai entender.

Em segundo lugar, impressiona o xiitismo das mensagens. É chocante como as pessoas gostam de filmes que posam de importantes e profundos. E pior: se identificam com eles a ponto de levar para o lado pessoal qualquer crítica negativa. É o Talibã do cinema, bem aqui no Brasil.

Para quem não sabe nada sobre “A Origem”, um resumo: Leonardo Di Caprio interpreta Don Cobb, um especialista em roubar sonhos. Cobb entra na mente das pessoas e vê tudo o que elas sonham. Ele usa suas habilidades para a espionagem corporativa, cobrando fortunas de corporações para espionar os concorrentes.

Até que recebe uma tarefa mais difícil: penetrar na mente do herdeiro de um império financeiro e “plantar” um sonho.

“A Origem” é dirigido por Christopher Nolan, de “Amnésia” e “Batman, o Cavaleiro das Trevas.” Nolan é um diretor competente e cheio de idéias, mas tem uma dificuldade em organizá-las de forma clara. Suas idéias são melhores que seus filmes.

“A Origem” tem uma trama elíptica, misteriosa e propícia a múltiplas interpretações, além de um universo de simbologia própria que mistura exploração metafísica e mergulho no subconsciente. Ótimo. Só que a história não anda.

A trama é tão complexa e cheia de desvios que os personagens passam a maior parte do tempo explicando o que vai acontecer na cena seguinte. Parece um manual de auto-ajuda metafísica. Depois da trigésima oitava vez em que Leonardo Di Caprio interrompe a ação para dar uma aula sobre invasão de sonhos, nossa paciência já acabou.

Muita gente gosta de filmes que criam universos próprios, como “Matrix” ou “Avatar”.  Eu gosto de bons filmes. Se eles criam seus próprios universos, ótimo.  Mas o simples fato de inventar um novo mundo não qualifica nenhum filme.

No mundo virtual, aquela coisa rancorosa que Cony chama de “cloaca de ressentimentos”, a turba enfurecida está linchando como Judas qualquer um que fale mal de “A Origem”. Isso é normal. Foi assim com “Avatar”.

Parece que muita gente confunde ficção com verdade. Besteiróis como esse “A Origem” viram obras importantes, depois objetos de culto e, finalmente, transformam-se em realidade. Sinto dizer, mas é só um filme. E ruim.

Escrito por André Barcinski às 13h19

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A ressaca pós-Flip

Em Paraty, todos concordam: o evento é a salvação da lavoura

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Acabou a Flip. Foram cinco dias de muitos turistas, pousadas cheias, filas em restaurantes... Ah, teve também literatura, claro, embora isso, diante das circunstâncias, fique num segundo plano para a cidade.

Explico: Paraty, que vive do turismo, estava precisando da Flip como um doente precisa de uma injeção. Os últimos 18 meses não foram fáceis.

A cidade vem sofrendo com dois verões péssimos. Em janeiro de 2009, uma tromba d'água histórica soterrou pousadas em lama. Os turistas fugiram. Este ano, deslizamentos mortais na Ilha Grande e em Angra, além de danos à estrada Rio-Santos, afugentaram novamente os visitantes.

Para piorar, há o descaso do poder público, que há 18 meses mantém interditada a estrada Paraty-Cunha, arrasando o turismo e os comerciantes dessas duas cidades lindíssimas. É o caso de as cidades processarem o Estado por esse verdadeiro crime.

Converse com qualquer dono de pousada ou de restaurante por aqui: todos vêem a Flip e outros eventos bacanas do calendário local como a verdadeira salvação da cidade. Mesmo os moradores que não dependem do turismo para sobreviver estavam torcendo para que Paraty ficasse lotada.

Quem mora em Paraty e acompanha a Flip há anos diz que a edição de 2010 foi mais vazia que as outras. Culpa da desistência da atração principal do evento, Lou Reed, e de uma mudança de data infeliz.

A Flip sempre acontece em julho. Este ano, por causa da Copa, resolveram adiá-la para agosto, justamente na primeira semana de aulas escolares e terminando no Dia dos Pais. Sábado à noite, multidões já deixavam a cidade para passar o domingo com suas famílias.

Mesmo assim, o evento foi fantástico. Ver as praças e ruas cheias de crianças e adolescentes com livros debaixo do braço foi uma coisa linda.

Há quem goste muito dos debates. Os que assisti foram um porre. Robert Crumb teve o trabalho de viajar meio mundo só para dizer que não gosta de viajar. Seu tipo “velho rabugento” já deu no saco.

Como evento, a Flip me parece muito mais interessante para quem trabalha no mercado editorial do que para o público em geral. Mas que é incrível ver toda uma cidade mobilizada por causa de livros, isso é.

Quem mora por aqui só torce para que a Flip não deixe apenas boas lembranças. Por exemplo: a linda estrutura erguida às margens do canal, por que não fica lá para sempre? Hoje, operários já começavam a desmontá-la. Daqui a algumas horas, aquilo voltará a ser o que é durante todo o ano: um terreno baldio sujo e poeirento.

Escrito por André Barcinski às 00h02

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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